Retórica do governo fomenta violência, diz bispo sobre índios assassinados

“Usar o nome de Deus para cometer crimes é justamente continuar crucificando Jesus”.
Dom Roque Paloschi - Cimi / DivulgaçãoCarlos Madeiro – Colaboração para o UOL, em Maceió – 16/12/2019 
Na foto: Dom Roque Paloschi.  Imagem: Cimi / Divulgação
  • Presidente do Conselho Indigenista Missionário, da Igreja Católica, critica governo por ataques contra índios
  • Ele afirma que “retórica” incentiva violência contra etnias
  • O número de líderes indígenas mortos em conflitos no campo foi o maior em 11 anos

 

Arcebispo de Porto Velho e presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Dom Roque Paloschi está estupefato diante dos ataques aos índios no Brasil — vítimas de uma onda crescente de atentados que já resultaram em sete mortes de lideranças indígenas este ano.

Em conversa com o UOL, ele afirmou que “a retórica do governo que fomenta esse tipo de violência, o ódio e o preconceito aos povos indígenas” e classificou a atitude de “lamentável para as igrejas cristãs”.

“Usar o nome de Deus para cometer crimes é justamente continuar crucificando Jesus”.

Denúncia no Vaticano

Em outubro, dom Paloschi participou do Sínodo da Amazônia, no Vaticano, e denunciou a situação dos índios no Brasil.

“Existe a retirada de direitos com 

  • os muitos projetos,
  • emendas constitucionais,
  • decretos,
  • medidas provisórias.

Juntamente com esse conjunto de medidas anti-indígenas, vem

  • a retórica do governo que fomenta esse tipo de violência,
  • o ódio e o preconceito aos povos indígenas.

É um momento de muitos conflitos que expõem os povos indígenas a toda sorte, violência e violações de seus direitos”, diz.

Sobre a situação, ele afirma que

“a Igreja assumiu ser aliada dos povos indígenas, na defesa da vida, das lideranças, da terra e dos direitos. No Sínodo, o papa Francisco acolheu essa defesa e prometeu se empenhar para que seus direitos seja respeitado”, afirma.

O arcebispo diz que esses ataques contra os povos indígenas faz parte de um cenário de criminalização de líderes e de

“comunidades inteiras que lutam pelos direitos conquistados constitucionalmente”.

Ele ainda faz referência ao contexto histórico nacional.

“Somos um país escravocrata. A escravidão foi abolida por lei em 1888, mas na prática continua. E aí nós estamos vendo também as igrejas que se colocam ao lado de quem promove a morte, não a vida. Isso é lamentável para nós, igrejas cristãs”, afirma.

O bispo ainda afirma que se indigna porque as comunidades indígenas brasileiras “não exigem nada de mais”.

“Eles não estão pedindo nada especial.

  • Agora esse direito vem sido negado de uma maneira tão agressiva que é preocupante.
  • Nós precisamos ter essa consciência de superar a mentalidade de um país preconceituoso, discriminador,
  • para saber o que está acontecendo e respeitar aqueles que são diferentes de nós”, pontua.

O presidente do Cimi ainda diz que a Igreja não tem como atuar de forma direta porque “‘não tem poder.”

Para o bispo, o cenário de ataques a direitos sociais não ocorrem só no Brasil —o que é visto com muita preocupação pelas maiores lideranças católicas.

“O mundo inteiro está se voltando a um fechamento na possibilidade de questões sociais, uma concentração da riqueza nas mãos de poucos. Tudo isso faz parte de um contexto mais amplo”, diz.

Apesar das preocupações, o bispo diz que é um “homem de esperança”.

“Eu acho que nós temos caminhos e perspectivas que vão dando um alento de esperança para os dias de hoje”, finaliza.

A reportagem procurará a assessoria de comunicação do governo e incorporará suas considerações, caso enviadas, a este texto.

 

Carlos Madeiro
Carlos Madeiro

 

 

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