Abiy Ahmed Ali, o Nobel da Paz para um cristão pentecostal

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| 10 Dez 2019

FOTO:  O Primeiro Ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali, ganha o Prémio Nobel da Paz de 2019 /CNN.  

Por tentar, desde há menos de dois anos, promover a paz entre a Etiópia (o seu país) e a Eritreia, por tentar pacificar o seu país através de amnistias a adversários políticos e acabando com a censura aos meios de comunicação e por tentar aumentar a importância das mulheres no país, o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali, recebeu nesta terça-feira o Nobel da Paz de 2019, numa cerimónia em Oslo.

 

O Comité Nobel não o disse, mas várias das atitudes e propostas do mais jovem líder da África, com 43 anos, radicam na sua fé cristã de matriz pentecostal.

E não é só a nível político que se notam os esforços de reconciliação do mais recente laureado com o Nobel da Paz. O primeiro-ministro

  • ajudou também à aproximação entre duas correntes da Igreja Ortodoxa Etíope, divididas por razões políticas, desde 1991.
  • No país, os cristãos ortodoxos são, mesmo, o maior grupo religioso do país (com perto de 50% da população),
  • à frente de 34% de muçulmanos e 19% de cristãos protestantes – os católicos são menos de um por cento, mesmo assim respeitados, pelo seu apoio aos mais pobres, como refere o Catholic Herald.

O Christianity Today recordou recentemente que

  • Ahmed Ali iniciara já também, ainda antes de ser primeiro-ministro,
  • um processo de reconciliação entre muçulmanos e cristãos na sua cidade natal de Beshasha.

Assim que tomou posse como primeiro-ministro, o agora Nobel começou a reunir com o patriarca Abuna Matias, da Etiópia, para tentar acabar com a zanga de três décadas, como noticiou, já em Julho de 2018, a Rede de Média Ortodoxos OCP.

  • Filho de pai muçulmano e mãe ortodoxa,
  • Abiy Ahmed acabou por se tornar protestante pentecostal – um pentay, como são designados.
  • E a sua fé cristã tem sido determinante na procura incessante pela paz.

Numa cerimónia de graduação de estudantes de medicina, o primeiro-ministro convidou-os

  • a usar “ideias e não armas” 
  • e a olhar para o exemplo de um país como o Japão, que recuperou da II Guerra Mundial para construir uma economia desenvolvida – relatou a BBC.

“A energia, a paixão e a certeza” de um “pregador revivalista”

A mesma fonte reproduz também o testemunho de uma pequena agricultora que vive na zona de fronteira com a Eritreia. Elsa Tesfaye perdeu um irmão na guerra entre os dois países – uma das 80 mil vítimas da guerra cujo fim já permitiu retomar viagens e telecomunicações entre os dois países – e por isso agradece ao primeiro-ministro ter trazido a paz ao país.

A BBC caracteriza-o como “um cristão pentecostal devoto”, com “a energia, a paixão e a certeza” próprias de um “pregador revivalista”.

Elsa Tesfaye manifesta-se também preocupada com as divisões étnicas do seu país – dividido entre

  • os oromo (com cerca de 34% da população),
  • os amhara (27%),
  • somali e tigrayan (6% cada) e várias outras pequenas tribos

– e com o facto de o seu filho poder prosseguir os estudos de engenharia em outros sítio do país.

“[As reformas] são óptimas. Mas ainda é preciso algum trabalho. Se o conflito étnico e o ódio forem ultrapassados, eu ficaria satisfeita”, diz, ainda citada pela BBC.

O pentecostalismo adoptado por Abiy Ahmed Ali abrangia, há 50 anos, um por cento dos etíopes. Ouvido pelo Catholic Herald, Andrew DeCort, do Instituto para o Cristianismo e o Bem Comum, explica o desta corrente cristã com

“a característica sedutora do pentecostalismo”, a ideia “de que nada é impossível”.

Alistair Jones, padre dominicano, acrescenta:

“Para muitos africanos, desesperados por progresso, o pentecostalismo representa a modernidade e a possibilidade de fazer a mudança acontecer. É difícil não ver uma relação entre isso e as palavras e acções” de Abiy.

“A sua fé anima a sua política. Mesmo quando ele fala, soa um pouco como um pregador. A nova geração de pentays dá a impressão de encarar o mundo moderno de frente e de enfrentar o desafio. Pode-se discordar da teologia deles, mas há algo aqui com que os católicos podem aprender.”

 

“Este prémio é para a Etiópia e o continente africano”

Membro da Igreja dos Crentes do Evangelho Pleno, o primeiro-ministro afirmou, quando assumiu o cargo:

“Temos um país dotado de grandes dons e riquezas, mas está faminto de amor.”

E, quando há dois meses foi anunciado o Nobel, ele escreveu na rede social Twitter:

“Sinto-me humilde perante a decisão do Comité Nobel da Noruega. A minha mais profunda gratidão a todos os que estão comprometidos e a trabalhar pela paz.”

E acrescentava, citado ainda pelo Christianity Today:

“Este prémio é para a Etiópia e o continente africano. Vamos prosperar em paz!

Claro que, até agora, Abiy Ahmed Ali apenas pôs em marcha as reformas iniciais e um processo de pacificação nacional e com a Eritreia. Muito está ainda por fazer e concretizar.

  • Um dos desafios maiores é conseguir evitar qualquer retrocesso em o recurso à violência ou ao poder autoritário, como tem acontecido no país, nas últimas décadas.
  • Outro será o de conseguir manter o impulso das reformas até às eleições do próximo ano.

Há quem diga

  • que a distinção do Nobel foi cedo demais,
  • que o primeiro-ministro conseguiu muito pouco
  • e que a sua governação não está isenta de críticas.

Mas o Comité Nobel parecia ter a resposta também para essas reservas, quando anunciou a sua decisão:

“Mesmo que ainda haja muito trabalho, Abiy Ahmed iniciou reformas importantes que dão a muitos cidadãos a esperança de uma vida melhor e de um futuro melhor.”

Ahmed é o 24º africano a ser distinguido com o Nobel da Paz. Em 2018, Denis Mukwege, médico cristão que se tem dedicado à cura de vítimas de violação na República Democrática do Congo, foi um dos vencedores.

 

António Marujo

 

 

António Marujo

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