O papa Francisco e as armas nucleares: um pensamento, uma proposta e um percurso.

A partir das cidades mártires do holocausto atômico, o apelo do Santo Padre no próximo domingo

 

Il sismografo – 22/11/2019

Foto oferecida pelo Papa aos jornalistas

Um menino japonês espera a  sua vez com o cadáver do irmãozinho para entregá-lo para ser processado no forno crematório. Japão- 1945.

Um episódio pouco conhecido embora dramático para o mundo inteiro: em 1983 a humanidade foi salva por acaso de uma destruição devastadora e talvez total

(LB-RC) No domingo, 24 de novembro, – nas cidades martirizadas pelo holocausto atômico no Japão, em agosto de 1945 (Nagasaki e Hiroshima) – o Papa Francisco irá renovar vigorosamente o seu apelo e a sua proposta em favor do desarmamento, em particular no âmbito das armas atômicas, mais de 15.000 em poder de pelo menos 9 Estados.

O pensamento do Santo Padre é conhecido.

Desde o dia de sua eleição, ele tem falado sobre esta delicada e dramática questão em várias ocasiões, e, recentemente, antes de sua partida para a Ásia, em 19 de Novembro reiterou: “O uso das armas nucleares é imoral”.

 

O pronunciamento do Papa, muito aguardado no mundo inteiro,

  • é talvez o momento mais relevante  desta sua Peregrinação asiática,
  • e vem depois que a humanidade inteira,  em 26 de setembro, celebrou pela sétima vez desde a sua instituiçao o   Dia Internacional para a eliminação total das armas nucleares .

Em 1983, a humanidade salvou-se por acaso de uma destruição devastadora

Observe-se que o dia 26 de setembro é a data escolhida, como foi lembrado pelo Coordenador da Rede italiana pelo Desarmamento,

“para prestar homenagem à coragem do coronel Stanislav Petrov que, em 1983, salvou literalmente o mundo da destruição, interrompendo um lançamento mísseis da URSS, que deveria ter sido uma  resposta automática, depois de um alerta de ataque nuclear dos EUA (que mais tarde se revelou ser um erro de sistema informático)”.

Um gesto importante e ignorado durante  muitos anos, cuja lembrança adquire hoje uma importância renovada.

  • Porque em 2019 infelizmente assistiu-se a uma erosão preocupante dos padrões internacionais de desarmamento nuclear:
  • o enfraquecimento do acordo  nuclear chamado Iran Deal e a decisão dos EUA e da Rússia de não renovar o Tratado INF [Intermediate-Range Nuclear Forces Treaty,ndt] sobre os mísseis de médio alcance.

Um acordo assinado por Gorbachev e Reagan que durante décadas protegeu a Europa, em particular, do pesadelo de uma guerra nuclear. Felizmente, 2019 teve também sinais encorajadores,

  • antes de tudo o crescimento constante do número de ratificações do Tratado da ONU de proibição das armas nucleares (TPNV), que já atingiram mais da metade dos 50 assinaturas necessárias para a sua entrada em vigor:
  • hoje precisamente  são esperadas em Nova York as assinaturas de cerca de dez ratificações adicionais.

Neste ritmo, espera-se  que a ICAN [International Campaign to Abolish Nuclear Weapons – Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares], que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2017 por seus esforços para a implementação do Tratado, entre em vigor até 2020″.

Em 10 de novembro de 2017, Francisco fez uma intervenção na conclusão do Simpósio internacional “Perspectivas para um mundo livre de armas nucleares e para um desarmamento completo“,  organizado pelo Vaticano.

 

São apresentadas aqui  as passagens mais importantes do discurso do Santo Padre, dividido em 12 reflexões:

1)  Um clima instável de conflitualidade

Estivestes reunidos neste Simpósio para tratar de questões cruciais, seja em si mesmas seja considerando-se a complexidade dos desafios políticos do atual cenário internacional, caracterizado por um clima instável de conflitualidade. Um pessimismo sombrio poderia levar-nos a acreditar que as “perspectivas de um mundo livre das armas nucleares e por  um desarmamento integral”, como diz o título do vosso encontro, pareçam cada vez mais remotas.

2) A corrida armamentista não tem parança

É um dado de fato que a espiral da corrida armamentista não pára e que os custos de modernização e de desenvolvimento das armas, não somente as nucleares, representam um item considerável de despesa para as nações, a ponto de colocar em segundo plano as prioridades reais  da humanidade sofredora: a luta contra a pobreza, a promoção da paz, a realização de projetos educacionais, ecológicos e sanitários e o desenvolvimento dos direitos humanos [1].

3) O perigo de uma guerra nuclear devido a um erro

Não podemos não sentir um sentimento vivo de inquietação se considerarmos as catastróficas consequências humanitárias e ambientais decorrentes de qualquer uso de armas nucleares. Portanto, também considerando o risco de uma detonação acidental de tais armas devido a um erro de qualquer tipo, devem ser  condenadas com firmeza a ameaça do seu uso, bem como a sua própria posse, justamente porque a sua existência é funcional numa lógica de medo que não diz respeito apenas às  partes envolvidas num conflito, mas todo o gênero humano.

4) A força não pode regular as relações humanas

As relações internacionais não podem ser dominadas pela força militar, pelas intimidações recíprocas, pela  ostentação dos arsenais de guerra. As armas de destruição em massa, em particular as  atômicas, geram apenas uma sensação enganosa de segurança e não podem constituir  a base da coexistência pacífica entre os membros da família humana, que deve contrário inspirar-se numa ética de solidariedade. [2 ]

5) A advertência dos Hibakusha

Insubstituível, deste ponto de vista, é o testemunho dos Hibakusha, isto é,  as pessoas atingidas pelas explosões de Hiroshima e de Nagasaki, assim como o de outras vítimas dos experimentos das armas nucleares: que a sua voz profética seja um alerta especialmente para as gerações mais jovens!

6) Aumenta  o número dos países detentores de armas nucleares

Além disso, os armamentos cujo efeito é a destruição do gênero humano são até ilógicos no nível militar. Além disso, a verdadeira ciência real está sempre a serviço do homem, ao passo que a sociedade contemporânea parece estar atordoada pelos desvios dos projetos concebidos no seu próprio seio, talvez até originalmente por uma boa causa. Basta pensar que as tecnologias nucleares já são  agora difundidas até  através das telecomunicações e que os instrumentos de direito internacional não impediram  que novos Estados se juntassem ao círculo dos detentores  de armas nucleares. Trata-se de cenários angustiantes quando se pensa nos desafios da geopolítica contemporânea como o terrorismo ou os conflitos assimétricos.

E, no entanto, um realismo saudável não cessa de acender as luzes da esperança no nosso mundo desordenado.

7) ONU: Uma votação histórica

Recentemente, por exemplo, através de uma votação histórica na ONU, a maioria dos membros da comunidade internacional estabeleceu que as armas nucleares não são apenas imorais, mas devem também ser consideradas  um instrumento ilegítimo de guerra. Deste modo foi prenchido um vazio jurídico importante, uma vez que as armas  químicas, as armas biológicas, as minas anti-pessoais  e as bombas de fragmentação são armamentos  expressamente proibidos através de Convenções internacionais.

8) A questão humanitária

Ainda mais significativo é o fato de que estes resultados se devem principalmente a uma “iniciativa humanitária” promovida por uma aliança válida entre sociedade civil, Estados, Organizações internacionais, Igrejas, Academias e grupos de especialistas. Neste contexto situa-se também

documento que os senhores, agraciados com o Prêmio Nobel da Paz, me entrgaram e pelo qual expresso o meu agradecimento.

9) Paulo VI: desenvolvimento, paz e guerra

Precisamente neste ano de 2017 celebra-se o 50º aniversário da Carta Encíclica Populorum progressio de Paulo VI. Desenvolvendo a visão cristã da pessoa, ela colocou em relevo a noção de desenvolvimento humano integral e a propôs como um novo nome para a paz. Neste memorável e atualísimo Documento, o Papa apresentou  a fórmula sintética e feliz segundo a qual «o desenvolvimento não se reduz ao simples crescimento econômico. Para ser um autêntico desenvolvimento, deve ser integral, ou seja, destinado à promoção de todos os   homem e do homem todo”(n. 14).

10) Rejeitar a cultura ddo descarte

È necessário, portanto, antes de tudo, rejeitar a cultura do descarte e cuidar das pessoas e dos povos que sofrem as mais dolorosas desigualdades, através de um trabalho que saiba privilegiar com paciência os processos solidários em lugar do egoísmo dos interesses contingentes., Trata-se de integrar, ao mesmo tempo,  as dimensões individual e social através da implementção do princípio de subsidiariedade, favorecendo a contribuição de todos como indivíduos e como grupos. Finalmente, é necessário promover o humano na sua unidade incindível de alma e de corpo, de contemplação e de ação.

11) Desarmamento total

Eis portanto como um progresso efetivo e inclusivo pode tornar viável a utopia de um mundo sem instrumentos  ofensivos mortíferos, apesar das críticas daqueles que consideram idealistas os processos de desmantelamento dos arsenais. Continua válido o magistério de João XXIII, o que indicou com clareza o objetivo de um desarmamento integral afirmando: “A cessação da produção de armamentos para fins de guerra, a sua redução efetiva e, com maior razão, a sua eliminação são impossíveis ou quase, se ao mesmo tempo não se proceder a um  desarmamento completo; isto é, se os espíritos não são desarmados, esforçando-se  sinceramente para dissolver neles a psicose da guerra “(Carta encíclica Pacem in terris, 11 de abril de 1963, 61).

12) Coragem, paciência e constância

A Igreja não se cansa de oferecer esta sabedoria e as obras que ela  inspira ao mundo, convicta de que o desenvolvimento integral é o caminho do bem que a família humana é chamada a percorrer. Encorajo-vos a levar adiante esta ação com paciência e constância, confiando que o Senhor nos acompanha. Que Ele abençoe cada um de vós e o trabalho que cada um realiza a serviço da justiça e da paz. Obrigado.

***

[1] Cf. Mensagem à III Conferência sobre o Impacto Humanitário das Armas Nucleares, 7 de dezembro de 2014.

[2] Cf. Mensagem à Conferência das Nações Unidas destinada a negociar um instrumento juridicamente vinculante para proibir as armas nucleares, em 27 de março de 2017.

 

“Il sismografo”

Fonte: https://ilsismografo.blogspot.com/2019/11/giappone-papa-francesco-e-le-armi.html

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