Jesuítas fazem manifesto sobre a crise na América Latina

… recusamos qualquer intervenção que venha a fragilizar a soberania das nações do continente

Onda de protestos tomou conta da Bolívia nas últimas semanas

Conferência dos Provinciais Jesuítas da América Latina e Caribe (CPAL)

Assunção, Paraguai, 16 de novembro de 2019.

Tradução: DomTotal

A Conferência dos Provinciais Jesuítas da América Latina e Caribe expressa preocupações e reflexões diante da atual grave situação sociopolítica.

Foto: Onda de protestos tomou conta da Bolívia nas últimas semanas (Jorge Bernal / AFP)

Confira a íntegra do Manifesto

“A todos os companheiros e companheiras da missão apostólica da Companhia de Jesus na América Latina e Caribe:

Os provinciais da Conferência dos Provinciais Jesuítas da América Latina e Caribe (CPAL), reunidos em Assunção, Paraguai, por ocasião do 20º aniversário desta conferência, queremos partilhar com vocês nossa profunda preocupação e algumas considerações diante da grave crise sociopolítica que atravessa o continente.

Compreendemos que esta situação é expressão de injustiças estruturais que têm levado a população ao desencanto com seus governos, à legítima contestação cidadã e à exigência de mudanças estruturais profundas.

Os estudos do Latinobarómetro demonstram que

  • a insatisfação com as atuais ‘democracias’
  • passou de 56% em 1991 para 71% em 2018;
  • e neste último ano, somente 46% da população afirma apoiar a democracia como forma de governo.

Trata-se de uma realidade que diz respeito tanto aos governos chamados capitalistas como aqueles que se proclamam socialistas.

As causas da crise atual estão estreitamente ligadas

  • à iniquidade existente, pois continuamos sendo o continente mais desigual do planeta;
  • à exclusão econômica e política da maioria da população,
  • à privatização do Estado por parte das elites econômicas ou políticas,
  • ao domínio de formas autoritárias de governo que se colocam acima da legalidade e do bem comum,
  • e a uma cultura antidemocrática que permeia a grande maioria das instituições de nossa sociedade.

Percebe-se que

  • não somente governos não dão respostas aos problemas fundamentais de acesso e exercício dos direitos sociais e à crescente insegurança,
  • como também são em muitos casos consequência e promovem a impunidade, a mentira, o abuso de poder, a concentração da riqueza, a corrupção pública e privada.

Estas e outras realidades

  • explicam, em parte, os protestos, manifestações e mobilizações que acontecem em vários de nossos países,
  • mas de nenhuma forma justificam o uso da violência como instrumento de pressão ou de solução dos conflitos sociais.

 

Manifestações no Chile também chamaram a atenção de todo o mundo (Arquivo)

Causam-nos preocupação e dor especialmente as situações sociopolíticas de Haiti, Chile, Bolívia, Equador, Nicarágua, Honduras e Venezuela.

As situações mais críticas atuais encontram-se nesses países irmãos, mas constatamos que é todo o continente que está dominado por estruturas injustas que produzem sofrimento, exclusão, marginalização e agressão contra a vida em todas suas formas, sobretudo à vida dos mais pobres e vulneráveis.

Diante desta realidade injusta, desafiante e dolorosa, como membros da Companhia de Jesus – pessoas e instituições – somos chamados a “uma missão de reconciliação e de justiça” que a fé nos exige.

Nossas Preferências Apostólicas Universais nos convidam a acompanhar e caminhar com as populações excluídas e vulneráveis em seus direitos. Essas opções apostólicas são apelos de Deus para promover uma mudança de estruturas geradoras de injustiça e participar junto com outras pessoas e instituições – especialmente com os jovens – na construção de um futuro de esperança para toda a criação de Deus.

  • Estamos firmemente convictos de que a construção de sociedades verdadeiramente democráticas é uma tarefa que cabe a todos os atores sociais independentemente das tendências políticas através de um exercício cidadão ético e comprometido;
  • afirmamos que a mais ampla e transparente participação popular é necessária para a consolidação de verdadeiras democracias;
  • celebramos a solidariedade entre os povos latino-americanos,
  • ao mesmo tempo que recusamos qualquer intervenção que venha a fragilizar a soberania das nações do continente;
  • e estamos convictos de que as ações que usam a violência como meio de protesto ou como forma de solução não conduzem à construção de sociedades que desejamos.

Saudamos em particular os povos que estão em situação de graves conflitos sociopolíticos e ambientais. Sentimo-nos próximos de todas as vítimas e de suas famílias. Oferecemos a esses, nossa oração e nossa solidariedade.

Na sexta (15), confronto entre simpatizantes do ex-presidente Evo Morales e polícia deixou mortos e feridos na Bolívia (AFP)

Queremos enviar uma mensagem especial de proximidade e apoio aos companheiros

  • Ismael Moreno SJ – diretor do ERIC / Rádio Progresso de Honduras,
  • José Alberto Idiáquez SJ – reitor da Universidade Centro Americana de Manágua,
  • e José Domingo Cuesta Cañate SJ – reitor do Colégio Centro América de Manágua,

assim como a todos os colaboradores dessas queridas instituições, que se veem hoje continuamente

  • ameaçados e atacados por grupos ligados aos poderes governamentais
  • por causa de sua clara defesa da liberdade, da justiça e da democracia
  • através de seus trabalhos de educação, comunicação e ação social que reconhecemos como expressão de um compromisso autenticamente evangélico e plenamente eclesial.

Confirmamos a todos os companheiros e companheiras na missão

  • nosso compromisso decidido na luta não-violenta por uma vida digna para todos e todas,
  • seguindo o exemplo de São Romero da América e os companheiros e companheiras mártires da Universidade Centro americana (UCA) de São Salvador,
  • neste dia em que celebramos 30 anos de seu supremo testemunho.”

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque eles serão saciados. Bem-aventurados os que trabalham pela paz porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,6.9).

(Conferência dos Provinciais Jesuítas da América Latina e Caribe)

 

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