PT LIVRE

A atual direção do PT se embalou no “Lula Livre”, uma campanha que não se forja como bandeira política, que mobilize a sociedade em função de uma utopia. As direções petistas estão desarmadas… Algo anos-luz da garra vista nas ruas do Chile e Equador.
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 “O PT precisa se libertar do século XX.

Precisa se libertar da proposta de ampla conciliação de classes que desarmou a militância social do país e a fez refém da lógica das agências estatais federais: cada movimento vinculado aos protocolos de um ministério, um banco público ou um fórum patrocinado pelo governo federal”, escreve Rudá Ricci, em post publicado na sua página do Facebook, 09-11-2019.

Segundo o cientista social, “O lulismo gerou os Príncipes da República, os deputados federais que passaram a exercer a função de facilitadores cartoriais, promovendo os acessos de prefeitos aos programas e fundos federais.

O baixo clero não teve a projeção que teve nos anos de lulismo por obra do Espírito Santo. Foi obra do lulismo. Talvez, um efeito colateral não planejado, mas com efeitos devastadores à nossa democracia em construção”.

Ricci é graduado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP, mestre em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp e doutor em Ciências Sociais pela mesma instituição. É presidente do Instituto Cultiva, cujo programa Comunidades Educadoras que criou acaba de receber distinção da Unesco como programa educacional mais exitoso do Brasil, figurando entre 16 experiências exitosas do mundo.

É autor de Terra de Ninguém (Ed. Unicamp, 1999), Dicionário da Gestão Democrática (Ed. Autêntica, 2007), Lulismo (Fundação Astrojildo Pereira/Contraponto, 2010), coautor de A Participação em São Paulo (Ed. Unesp, 2004), e Conservadorismo político em Minas Gerais: os oito anos de governo Aécio Neves (Editora Letramento, 2017), entre outros

Eis o artigo.

Antes da campanha eleitoral de 1989, era comum dirigentes petistas reproduzirem uma ideia central de Gramsci: “podemos ser poder sem ser governo”. Esta orientação conduzia ao trabalho nos grotões e periferias do país, não nos parlamentos, palácios e sedes de empresas.

  • A questão central era dialogar, ouvir,
  • agregar demandas e pensamentos populares
  • e convencer a partir de uma plataforma em que a maioria excluída se percebesse nela.

Em 1989, durante a campanha, era esta a “mística” que fazia com

  • que servidores públicos panfletassem as ruas em seu horário de almoço;
  • que padres e freiras percorressem as comunidades periféricas ou rurais
  • falando da possibilidade de não termos medo de ser feliz.

Não havia muito dinheiro. Quem coordenava a elaboração do programa de governo de Lula

  • percorria o país para ouvir movimentos sociais,
  • pesquisadores, ativistas, dirigentes sindicais, igrejas,
  • num périplo quase missionário.

Construir um programa nacional – era a crença – não deveria ser produção de alguns iluminados, mas de ampla e quente discussão. Contudo, já em 1989 aparecia um desvio desta concepção: tudo o que se produzia como proposta de governo passava por uma triagem do “núcleo de economistas”.

Ora, o Papa Francisco vem alertando – assessorado pelo Prêmio Nobel Amartya Sen – que

  • há tempos a economia é pensada pelos economistas como técnica,
  • não como projeto ético.
  • Tanto que a articulação mundial liderada pelo Papa, a Economia de Francisco, sugere a mudança dos currículos das faculdades de economia de todo o mundo.

Mas, no PT, era assim que se organizava, ainda caudatário do modo verticalizado de fazer política daquele século XX.

A grande mudança veio em 1994. Naquele momento, o PT mudava de rumo.

  • Os marqueteiros entravam em cena
  • “ombro a ombro” com o “núcleo dos economistas”.

A triagem passava a ser feita pelos formuladores de um discurso mais palatável ou fácil. Não se tratava mais de convencimento, mas de ajuste. O que, na prática política, significa

  • capitular ao desejo do outro,
  • não mais dialogar ou convencer.

A ação pedagógica da política de esquerda se pingava pelos dedos. 1998 e 2002 apenas consolidaram esta forma de fazer política. E o PT se acorrentou.

A questão é que

  • ao se focar no “discurso fácil”, o que importa é falar o que o outro já fala ou que está preso na garganta.
  • Não é exatamente formular uma proposta que tente mudar o que o outro já pensa.

política é a arte do convencimento – da escuta, mas também da fala – e não a arte da venda comercial onde o cliente tem sempre razão. Esta concepção da política ser um mercado é típica do pensamento liberal, onde o representante se posta em uma dimensão diferente da do eleitor. Ele é um profissional e nós, cidadãos passivos, esperando Godot.

Este alinhamento com a lógica de marketing levou o PT à conciliação.

Tudo se ajustou a partir daí:

  • do governo de ampla coalizão (o governo “omnibus”)
  • aos programas focalizados (para atender cada clientela),
  • ao jeitinho amoroso ao republicanismo,
  • à leitura rasa da tal correlação de forças desfavoráveis à aceitação dos acordos com os setores mais atrasados e oligárquicos de nossa política.

O PT aprendeu a vencer. Venceu quatro vezes seguidas uma eleição nacional, fato inédito na história de nosso país. E venceria a quinta, caso o julgamento do STF desta semana tivesse ocorrido no ano passado.

  • PT, enfim, inverteu a frase de Gramsci: “podemos ser governo sem ser poder”.
  • O que desmontou o espírito de garra de sua militância, substituindo-o pela idolatria.

A idolatria, como se sabe,

  • é a transferência que eu, idólatra,
  • faço a outro por não considerar que eu tenha força e capacidade de fazer o que penso ser certo.
  • É o outro, que se apresenta forte e capaz, que fará por mim.

Por este motivo que

  • as vitórias do ídolo são minhas vitórias
  • e suas derrotas são tão demolidoras,
  • porque minha esperança se desfaz.

Este, talvez, seja o principal motivo para o derrotismo campear entre petistas desde 2015:

  • Dilma perdeu o governo (o que sugeriu que o poder dos outros era muitas vezes maior que o dos pobres petistas)
  • e seu ídolo foi preso.
  • A sensação de impotência foi confirmada já que aquele que vencia pelos excluídos havia sido derrotado.

Algo anos-luz da garra vista nas ruas do Chile e Equador.

PT vive este dilema.

Circula pelas redes sociais que Lula teria dito a um líder do MST que abandonaria a conciliação ampla com quem não perdoou sua liderança e seu programa reformista. “Saio da prisão mais à esquerda”, teria dito a maior liderança política do país. Não há sinalização alguma de que este discurso pode se confirmar na prática. Ontem mesmo, ainda em CuritibaLula insistiu que o amor é maior e sempre vence, além de afirmar que não tinha mágoas.

É verdade que desferiu um golpe rápido e profilático na “parte podre” do ministério público, da polícia e receita federais. Mas, nem de longe foi sua tônica.

  • A atual direção do PT se embalou no “Lula Livre”,
  • uma campanha que não se forja como bandeira política, que mobilize a sociedade em função de uma utopia.

As direções petistas estão desarmadas.

Não têm uma análise da realidade que aponte prioridades.

  • Muito menos uma leitura sobre as novas formas de organização social, as novas demandas,
  • que esboce como lidar com a profunda fragmentação social e as ações provisórias,
  • com a crise de representação política formal de um mundo que já se vai,
  • mas que parece ainda prender o ideário dessas direções.

O PT precisa se libertar do século XX. Precisa se libertar da proposta de ampla conciliação de classes que desarmou a militância social do país e a fez refém da lógica das agências estatais federais: cada movimento vinculado aos protocolos de um ministério, um banco público ou um fórum patrocinado pelo governo federal.

lulismo gerou

  • os Príncipes da República,
  • os deputados federais que passaram a exercer a função de facilitadores cartoriais,
  • promovendo os acessos de prefeitos aos programas e fundos federais.

O baixo clero não teve a projeção que teve nos anos de lulismo por obra do Espírito Santo. Foi obra do lulismo. Talvez, um efeito colateral não planejado, mas com efeitos devastadores à nossa democracia em construção.

Enfim, a campanha interna que o PT poderia promover – para que nós, progressistas e de esquerda, possamos ter algum vislumbre de uma ação ofensiva do nosso campo a partir de agora – é o “PT Livre”.

Livre do liberalismo que o tomou pelas bordas, livre do viés marqueteiro do eterno posicionamento da marca, livre dos acordos de cúpula (em detrimento dos acordos de base).

Quem sabe, por aí, o PT não volta a liderar “os de baixo contra os de cima”?

 

 

Rudá Ricci

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/594266-pt-livre

 

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