“O marxismo não é mais útil”

por Frei Betto – 07/11/2019

Aceitar que o marxismo conforme a ótica de Ratzinger é o mesmo marxismo conforme a ótica de Marx,  seria como identificar catolicismo com Inquisição.

  • Há que voltar a Marx para saber o que é marxismo;
  • assim como há que retornar aos Evangelhos e a Jesus para saber o que é cristianismo,
  • e a Francisco de Assis para saber o que é catolicismo.
O marxismo é um método de análise da realidade. E, mais do que nunca, útil para se compreender a atual crise do capitalismo.
A religião não é um método de análise da realidade. O marxismo não é uma religião.

 

O papa Bento XVI tem razão: o marxismo não é mais útil. Sim, o marxismo conforme muitos na Igreja Católica o entendem: uma ideologia ateísta, que justificou os crimes de Stalin e as barbaridades da revolução cultural chinesa. Aceitar que o marxismo conforme a ótica de Ratzinger é o mesmo marxismo conforme a ótica de Marx seria como identificar catolicismo com Inquisição.

Poder-se-ia dizer hoje: o catolicismo não é mais útil. Porque já não se justifica enviar mulheres tidas como bruxas à fogueira nem torturar suspeitos de heresia. Ora, felizmente o catolicismo não pode ser identificado com a Inquisição, nem com a pedofilia de padres e bispos.

Do mesmo modo, o marxismo não se confunde com os marxistas que o utilizaram para disseminar o medo, o terror, e sufocar a liberdade religiosa. Há que voltar a Marx para saber o que é marxismo; assim como há que retornar aos Evangelhos e a Jesus para saber o que é cristianismo, e a Francisco de Assis para saber o que é catolicismo.

Ao longo da história, em nome das mais belas palavras foram cometidos os mais horrendos crimes.

  • Em nome da democracia, os EUA se apoderaram de Porto Rico e da base cubana de Guantánamo.
  • Em nome do progresso, países da Europa Ocidental colonizaram povos africanos e deixaram ali um rastro de miséria.
  • Em nome da liberdade, a rainha Vitória, do Reino Unido, promoveu na China a devastadora Guerra do Ópio.
  • Em nome da paz, a Casa Branca cometeu o mais ousado e genocida ato terrorista de toda a história: as bombas atômicas sobre as populações de Hiroshima e Nagasaki.
  • Em nome da liberdade, os EUA implantaram, em quase toda a América Latina, ditaduras sanguinárias ao longo de três décadas (1960-1980).

O marxismo é um método de análise da realidade. E, mais do que nunca, útil para se compreender a atual crise do capitalismo.

O capitalismo, sim, já não é útil, pois

  • promoveu a mais acentuada desigualdade social entre a população do mundo;
  • apoderou-se de riquezas naturais de outros povos;
  • desenvolveu sua face imperialista e monopolista;
  • centrou o equilíbrio do mundo em arsenais nucleares; e
  • disseminou a ideologia neoliberal, que reduz o ser humano a mero consumista submisso aos encantos da mercadoria.

Hoje, o capitalismo é hegemônico no mundo.

  • E de 7 bilhões de pessoas que habitam o planeta,
  • 4 bilhões vivem abaixo da linha da pobreza,
  • e 1,2 bilhão padecem fome crônica.

O capitalismo fracassou para 2/3 da humanidade que não têm acesso a uma vida digna.

  • Onde o cristianismo e o marxismo falam em solidariedade, o capitalismo introduziu a competição;
  • onde o cristianismo e o marxismo falam em cooperação, o capitalismo introduziu a concorrência;
  • onde o cristianismo e o marxismo falam em respeito à soberania dos povos, o capitalismo introduziu a globocolonização.

A religião não é um método de análise da realidade. O marxismo não é uma religião.

A luz que a fé projeta sobre a realidade é, queira ou não o Vaticano, sempre mediatizada por uma ideologia.

A ideologia neoliberal, que identifica capitalismo e democracia,

  • hoje impera na consciência de muitos cristãos
  • e os impede de perceber que o capitalismo é intrinsecamente perverso.

A Igreja Católica, muitas vezes,

  • é conivente com o capitalismo
  • porque este a cobre de privilégios
  • e lhe franqueia uma liberdade que é negada, pela pobreza, a milhões de seres humanos.

Ora, já está provado que o capitalismo não assegura um futuro digno para a humanidade. Bento XVI o admitiu ao afirmar que devemos buscar novos modelos.

O marxismo,

  • ao analisar as contradições e insuficiências do capitalismo,
  • nos abre uma porta de esperança a uma sociedade que os católicos, na celebração eucarística,
  • caracterizam como o mundo em que todos haverão de “partilhar os bens da Terra e os frutos do trabalho humano”.

A isso Marx chamou de socialismo.

O arcebispo católico de Munique, Reinhard Marx lançou, em 2011, um livro intitulado O Capital – um legado a favor da humanidade. A capa contém as mesmas cores e fontes gráficas da primeira edição de O Capital, de Karl Marx, publicada em Hamburgo, em 1867.

“Marx não está morto e é preciso levá-lo a sério”, disse o prelado por ocasião do lançamento da obra.

  • “Há que se confrontar com a obra de Karl Marx,
  • que nos ajuda a entender as teorias da acumulação capitalista e o mercantilismo.

Isso não significa deixar-se atrair pelas aberrações e atrocidades cometidas em seu nome no século 20″.

O autor do novo O Capital, nomeado cardeal por Bento XVI em novembro de 2010,

  • qualifica de “sociais-éticos” os princípios defendidos em seu livro,
  • critica o capitalismo neoliberal, qualifica a especulação de “selvagem” e “pecado”,
  • e advoga que a “economia precisa ser redesenhada segundo normas éticas de uma nova ordem econômica e política.”

“As regras do jogo devem ter qualidade ética. Nesse sentido, a doutrina social da Igreja é crítica frente ao capitalismo”, afirma o arcebispo.

O livro se inicia com uma carta de Reinhard Marx a Karl Marx, a quem chama de “querido homônimo”, falecido em 1883. Roga-lhe reconhecer agora seu equívoco quanto à inexistência de Deus. O que sugere, nas entrelinhas, que o autor do Manifesto Comunista se encontra entre os que, do outro lado da vida, desfrutam da visão beatífica de Deus.

 

Frei Betto

é escritor e assessor de movimentos sociais

Fonte: https://www.brasildefato.com.br/node/9349/

Nota da Redação:

Este artigo é de 2012, de antes da renúncia de Bento XVI. Mas seu conteúdo, perante o perigoso avanço da Direita Capitalista no mundo de hoje, que garante os direitos de poucos e desestrutura ou direitos dos pobres e dos fracos, é atualíssimo. Frei Betto é uma das mentes mais lúcidas do Brasil, há várias décadas.

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