Ação pastoral dos padres que pediram dispensa do celibato

Uma pessoa que deixou o ministério ordenado continua apto ao trabalho pastoral mesmo casado

José Almir da Costa* – 28/10/2019
Foto: Uma pessoa que deixou o ministério ordenado continua apto ao trabalho pastoral mesmo casado (Charles Postiaux/ Unsplash)

Muitos são os ministros ordenados que, por vários motivos não possíveis de serem elencados aqui, pediram dispensa do ministério. Qual ação pastoral esses padres exercem atualmente na Igreja? A pergunta suscitará várias respostas dependo da diocese, do bispo, da região e do próprio ministro que se ausentou das funções clericais.

 

 

De forma geral, existe uma orientação que consiste na proibição de qualquer ação pastoral desses padres. Como

  • não há uma acolhida fundamental,
  • nem um processo para sua reinserção na ação pastoral da Igreja,
  • todas as vezes que tentam exercer sua missão cristã, fruto do batismo,
  • são de certa forma malvistos por alguns bispos, padres e leigos.

É como se fizessem algo à revelia e na contramão do processo diocesano. Os irmãos dispensados do ministério ordenado carecem de acolhida e de não serem vistos como inimigos da Igreja.

Resumidamente, uma vez deixado o ministério, o até então padre deve recolher-se ao silêncio interior e deixar tudo o que exercia. Inclusive, não pode atuar no ensino de conteúdos teológicos dentro das universidades católicas. Trata-se de uma mudança radical de vida e que exige fé e esperança no Senhor. Abandonar o ministério não é nem de longe o mesmo que abandonar a fé.

Atualmente, com o Sínodo para a Amazônia, reacendem-se as esperanças de que se ventile a questão dos padres casados, apesar do documento preparatório não tratar do retorno destes ao ministério.

Antes, o Instrumentum laboris propõe como discussão apenas

“a possibilidade da ordenação sacerdotal para pessoas anciãs, preferencialmente indígenas, respeitadas e acolhidas por sua comunidade, ainda que já tenham uma família constituída e estável”.

Oxalá, com a aprovação da ordenação dos viri probati, possa ser posteriormente discutida a acolhida mais fraterna dos que pediram dispensa do ministério.

Vale frisar que esse tema não deve ofuscar as grandes questões sociais e de fé da região Amazônica, que nos desafia a expressar um novo rosto eclesial. Os problemas que a afetam são urgentes:

Deseja-se imensamente que a Igreja se posicione em relação a essas e outras graves situações de negação de direitos. Espera-se que ela não só expresse simplesmente sua defesa da vida, mas que aponte as estruturas e aqueles que praticam atos de morte contra as populações. Afinal, é preciso não só defender o bem, mas agir como Jesus, que chamou expressamente por raça de víbora aos hipócritas e exploradores dos pequeninos. Urge expressar claramente onde se encontram o trigo e o joio para saber de qual lado estamos.

Quanto a mim,

  • falo do lugar de quem dois anos atrás, depois de uma longa caminhada de discernimento,
  • pediu o afastamento das funções ministeriais.

Óbvio que,

  • se atualmente pudesse retornar como padre casado,
  • eu o faria tranquilamente, dado que a dificuldade de exercer o ministério e a razão de me afastar
  • ter sido o desconforto com a regra do celibato.

Contudo, sabendo que a discussão sobre o retorno ao ministério dos padres casados é algo para o futuro, reconheço que algumas questões na relação destes com a Igreja poderiam avançar.

Primeiro, seria interessante que eles fossem acompanhados pelo clero local quanto à sua adaptação a nova vida e sentimento. Isso possibilitaria também que, aos poucos, fosse possível saber quem estaria apto a exercer funções pastorais. Como se trata de um momento de muitos conflitos, é importante que cada um seja auxiliado a fim de continuar seu caminho de fé.

Segundo, dado que a Igreja tem necessidade de empregados, vale verificar se algum dos que deixaram a vida no clero se identificariam com essas funções. Mesmo abrindo mão do estado clerical, a pessoa pode ser exímia colaboradora das estruturas ou instituições da Igreja, atuando na administração, contabilidade, secretariado, magistério, coordenação de escola etc. Isso seria uma forma de ampará-la em suas necessidades e ajudá-la no sustento de sua nova vida.

Terceiro, cabe ainda conceder expressamente, ao padre que se casou, o direito de exercer atividades pastorais, de formação, de coordenação, o ministério da palavra, visitas pastorais e aconselhamento na nova comunidade que residir. De um lado, essa seria uma forma dele ajudar pastoralmente, já que não se encontram agentes disponíveis e devidamente formados para assumir muitos dos serviços eclesiais. Por outro lado, seria um jeito dele ser ajudado pela Igreja espiritualmente, pois se sentiria acolhido por uma comunidade de fé.

O papa Francisco suscitou na Igreja uma linguagem amorosa que possibilita melhor acolhida daqueles que, por uma razão ou outra, sentem-se excluídos da vida eclesial. Com maior esperança, confiamos que os frutos do Sínodo para a Amazônia possam trazer ventos novos, prioritariamente, para Igreja amazônida, e, em comunhão, para toda a Igreja.

Que, entre esses novos ventos, sejam contemplados os anseios dos padres dispensados do ministério presbiteral. Acolhê-los de forma mais generosa trará para a Igreja mais solução do que problema.

 

*José Almir da Costa é mestre em Teologia pela Faje e graduado em Filosofia e Teologia.

 

Fonte: https://domtotal.com/noticia/1397365/2019/10/acao-pastoral-dos-padres-que-pediram-dispensa-do-celibato/

EMGE *O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.

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