O Matrimónio Sacerdotal

 

Paulo J. A. Victória – 22/10/2019 – Imagem: Daqui

Na reflexão da semana passada – ver O Celibato Sacerdotal, partilhei convosco a preocupação sobre a carência de sacerdotes para celebrarem a Eucaristia. Sem a Eucaristia, não existe a Igreja. Cristo é quem nos congrega; quem nos chama; quem nos alimenta; quem nos salva.

A Igreja Latina tem no celibato sacerdotal a sua marca distintiva. Porém, também aludi que a Igreja Católica tem sacerdotes casados. Hoje gostaria de explicar melhor esta questão.

 

Quando falamos de “padres casados”,

  • não nos estamos a referir a que os padres possam casar,
  • mas sim, a homens casados que podem aceder ao Sacramento da Ordem.

A Igreja Católica é atualmente constituída por 24 Igrejas autónomas “sui juris”.

Todas são consideradas Igrejas “sui juris”, ou seja, são autónomas para legislar de modo independente

  • no que diz respeito ao seu rito e á sua disciplina,
  • mas não no que diz respeito aos dogmas,

que são universais e comuns a todas elas e garantem a sua unidade de fé, formando na essência, uma única Igreja Católica obediente ao Santo Padre, que a todas preside na caridade.

No Ocidente é muito comum, confundir a Igreja Católica com o rito latino, um erro que já prejudicou os católicos de ritos orientais. O que é preciso entender é que

  • todos os católicos latinos são, obviamente, católicos;
  • mas nem todos os católicos são católicos latinos.

E esta é mais uma das tantíssimas riquezas do infinito tesouro da Igreja que é Una, Santa, Católica e Apostólica.

 

  • Ora, só no rito latino é que os candidatos ao sacerdócio têm que ser celibatários.
  • Nos ritos orientais não. nestes, sempre se conservou a possibilidade de homens casados acederem a este sacramento,
  • exigindo ou não ao longo dos séculos, a abstinência sexual depois de ordenados.

No rito latino,

  • foi a partir do Concílio de Elvira, na Espanha meridional (306) que apareceu pela primeira vez (pelo menos até agora conhecido) um documento legislativo que prevê a abstinência dos ministros sagrados sob pena de lhes ser retirado o exercício do ministério (Cânone 33).
  • O III Concílio de Latrão (1179) estabelece que o celibato eclesiástico não é de natureza divina, mas apenas canónica, isto é, representa uma tradição que pertence à disciplina da Igreja latina.
  • Mas só no Concílio de Trento (1545-1563) é que esta norma disciplinar foi imposta.

Se é norma, é suscetível de alteração.

Um dos textos fundamentais do magistério sobre o celibato sacerdotal é a Encíclica do Papa Paulo VI, “Sacerdotalis Caelibatus” de 1967 onde dá destaque ao significado escatológico do mesmo. Podem conferir no n. 34.

Porém, é este mesmo Papa que concedeu ao franciscano Carlo Travaglino uma dispensa especial para poder casar, mantendo o múnus sacerdotal.

É o único caso que conheço de alguém sendo já sacerdote, pôde casar.

 

 

Carlo Travaglino conheceu Franca e partilhou com ela o desejo de servir os leprosos na Eritreia: ler Il gigante della carità.

  • Amava esta mulher e queria casar com ela, mas sem renunciar aos sacerdócio missionário.
  • O seu bispo, o cardeal Ursi, percebendo aquela vontade, falou com o Papa Paulo VI, que depois de ter refletido, concedeu essa dispensa especial.

Carlo e Franca viveram uma vida bela e plena, criando uma rede de solidariedade que construiu dispensários e hospitais para curar estas pessoas, pobres e marginalizadas. O amor deste casal nunca sufocou o amor ao próximo.

  • O meu objetivo não é defender o fim do celibato,
  • mas o de ajudar as pessoas de rito latino a perceberem que a catolicidade é muito maior do que aquilo que vemos na nossa realidade.
  • Além disso, o celibato foi, é e continuará a ser um grande dom de Deus à Igreja e à humanidade.

Não está em causa essa opção radical pelos outros. E todos conhecemos os maravilhosos testemunhos dados por tantos sacerdotes Diocesanos, das Ordens, Congregações e Institutos de Vida Consagrada.

«Ele acrescentou. “Nem todos são capazes de compreender essa palavra, mas só aqueles a quem é concedido. Com efeito,

  • há eunucos que nasceram assim desde o ventre materno.
  • E há eunucos que foram feitos eunucos pelos homens.
  • E há eunucos que se fizeram eunucos por causa do Reino dos Céus.

Quem tiver capacidade para compreender, compreenda.”» (Mateus 19, 11-12)

Vale a pena pensar nisto!

Paulo J. A. Victória, professor e cronista em iMissio

Fontes: https://fraternitasmovimento.blogspot.com/2019/10/o-matrimonio-sacerdotal.html

http://www.imissio.net/artigos/49/3003/o-matrimonio-sacerdotal/

 

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