Chile. Privatizações de serviços e aposentadorias sufocaram poder de compra dos chilenos

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Lúcia Müzell – 22 Outubro 2019 

Vendido como um exemplo de estabilidade econômica na América Latina, o Chile enfrenta a maior onda de contestação já vista desde os anos 1990.
Os protestos que se acentuaram no fim de semana catalisam anos de aperto financeiro das classes de renda baixa e média, e se potencializam com a insatisfação de uma geração de aposentados com o valor baixo das pensões.

A reportagem é de Lúcia Müzell, publicada por Radio France Internacional – RFI, 21-10-2019.

 

A gota d’água foi o aumento de 3,75% do valor das passagens de metrô nos horários de pico, justamente o mais utilizado pelos trabalhadores.

“Foi apenas um estopim de vários conflitos e tensões que perpassam o modelo econômico chileno desde a ditadura, em 1973. Um modelo neoliberal que traz consequências sociais muito complicadas de serem administradas”,

afirma Fábio Borges, professor de Relações Internacionais da Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana).

“É simbólico porque

  • Chile, por muito tempo,
  • foi considerado um exemplo na condução econômica,
  • com maior estabilidade e crescimento.

Mas o que essas manifestações demonstram é que

  • essas contradições estavam presentes,
  • porém, provavelmente por causa do trauma da ditadura, isso não vinha a público”, diz.

Números invejáveis – mas população no aperto

  • Com as contas em dia,
  • o desemprego e a inflação sob controle,
  • o país é visto como modelo por governos conservadores como o do presidente Jair Bolsonaro.

Olhados isoladamente, os índices macroeconômicos de fato são de fazer inveja:

  • o país cresce acima da média latino-americana, a 2,5%,
  • o índice de desemprego é estável, em torno de 7% – graças a um mercado de trabalho flexível –,
  • e a dívida pública não ultrapassa os 25% do PIB.

Desde a ditadura, os sucessivos governos chilenos seguem os preceitos da ortodoxa Escola de Chicago, que formou economistas como o brasileiro Paulo Guedes. Não à toa,

  • o modelo chileno de aposentadorias,
  • privatizado e por capitalização,
  • inspirou a proposta do governo de reforma das pensões no Brasil.

Entretanto,

  • a geração de aposentados pós-reforma no Chile agora não consegue fechar as contas do mês
  • os benefícios chegam a ser de apenas 60% do salário mínimo,
  • ressalta Jorge Muñoz, especialista em sociologia do trabalho e estudos comparativos entre Europa e América Latina, da Universidade de Brest, na França.

“Nestes últimos anos, estão se aposentando os primeiros chilenos que pararam de trabalhar desde a adoção deste sistema. Essa situação gera, em parte, os protestos atuais, porque os aposentados estão se dando conta de que o que foi prometido em termos de recursos não foi alcançado”, indica o professor chileno.

“Muitas pessoas estão vivendo com uma aposentadoria muito baixa. O Estado deveria intervir, para tentar compensar o que o sistema privado não está oferecendo.”

Pagar para tudo

O que se verifica nas aposentadorias se repete em serviços públicos básicos, como educação e saúde. A privatização retirou profissionais do setor público, que também é debilitado pela falta de recursos. Para ter acesso a boas escolas e hospitais, é preciso pagar caro no Chile.

“Desde que o Chile ingressou na OCDE, teve de entrar nos padrões comparativos da organização e ficou evidente que é um dos países mais desiguais, incluído na comparação com outros da América Latina. Os salários são muito baixos, por exemplo”, frisa Muñoz.

“Mais de 50% dos chilenos ganham menos de 400 mil pesos por mês, cerca de R$ 2.800.

  • Parece bom, mas se consideramos o custo de vida no Chile, que é altíssimo, sobretudo na capital,
  • torna-se uma situação muito difícil de administrar para a maioria dos chilenos, na vida cotidiana.”

Resultado:

  • o endividamento das famílias atinge índices preocupantes,
  • com um terço dos adultos sem conseguir chegar no fim do mês sem contar com a ajuda de um crédito.

“Como toda a lógica econômica girou em torno das privatizações, muitas pessoas recorrem a empréstimos para terem acesso a uma educação de qualidade, ou resolver um problema de saúde emergencial”, pontua Borges.

“O setor financeiro é muito dinâmico, mas em detrimento a uma estabilidade de renda das pessoas, que ficam vulneráveis em troca de ter uma condição mínima de vida.”

O professor da Unila avalia que

  • a tensão social atual coloca em cheque o modelo ultraliberal adotado pelo país,
  • sem que os problemas estruturais de base não tenham sido solucionados previamente.
  • Essa situação, sublinha, se repete em outros países latino-americanos.

“Na América Latina, as políticas neoliberais agravam o problema”, destaca Borges.

“Na Europa, já houve uma etapa de construção do Estado de bem-estar social: em algum momento, eles

  • atacaram os problemas de desigualdades,
  • viabilizaram os direitos trabalhistas, à saúde e a infraestruturas.

Na América Latina, nós nunca passamos dessa primeira etapa.”

 

 

Lúcia Müzell

Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/593664-privatizacoes-de-servicos-e-aposentadorias-sufocaram-poder-de-compra-dos-chilenos

 

 

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