Pacto das Catacumbas pela Casa Comum. Por uma Igreja com rosto amazônico, pobre e servidora, profética e samaritana

Texto e Foto: Luis Miguel Modino – 21 Outubro 2019 

Existem lugares que têm um significado especial e se tornam uma referência na vida de pessoas e instituições.

Concílio Vaticano II foi uma época em que uma Igreja pobre e pobre queria ser construída, algo que se expressou em 16 de novembro de 1965, na catacumba de Santa Domitila, onde cerca de quarenta bispos, principalmente da América Latina, assinaram o Pacto da Catacumbas. Em treze cláusulas os signatários prometeram levar uma vida simples e sem posses.

Em 20 de outubro de 2019, pode se tornar uma data histórica novamente, porque no mesmo local em que o Pacto das Catacumbas foi assinado, o Pacto das Catacumbas pela Casa Comum foi rubricado, no desejo de assumir uma Igreja com rosto amazônico, pobre e servidora, profética e samaritana.

 Mais uma vez, houve cerca de 40 bispos, acompanhados por outros padres sinodais, auditoras, auditores, peritas e peritos, além de alguns participantes da Amazônia Casa Comum, que juntos celebraram uma Eucaristia presidida pelo cardeal Claudio Hummes, alguém que tem grande respeito e admiração entre os bispos da região, e que também contou com a presença do cardeal Pedro Barreto.

A reportagem é de Luis Miguel Modino.As Catacumbas eram lugares onde os primeiros cristãos derramaram seu sangue, portanto, o gesto feito no início da celebração de selar o sangue com o polegar em um pano pode ser considerado um compromisso de uma Igreja que quer ser uma semente da vida na Amazônia, seguindo o que foi feito há mais de 50 anos no mesmo local, momento cujo significado foi explicado aos mais de 200 participantes da celebração pelo teólogo brasileiro José Oscar Beozzo.

Foto: Luis Miguel Modino

A lembrança do primeiro pacto também esteve presente na estola tantas vezes usada por Dom Helder Câmara, um de seus grandes inspiradores, com a qual celebrou o cardeal Hummes, que, segundo ele, o emocionou, e que no final da celebração entregou para Dom Erwin Kräutler, um dos grandes profetas vivos na Amazônia. Também a túnica de Dom Helder, com o qual estava revestido Dom Adriano Ciocca, bispo de São Félix do Araguaia, onde um dos que levou esse pacto ao extremo, Pedro Casaldáliga, foi bispo.

Em sua homilia, o cardeal Hummes definiu o momento como comovente e significativo, em um lugar que era refúgio para cristãos perseguidos, de martírio, em “uma terra santa que nos inspira”. Como aconteceu com os primeiros cristãos, o cardeal pediu a Deus que fortaleça a Igreja, que sempre que precisa ser reformada, e o Sínodo da Amazônia e uma tentativa de buscar novos caminhos, deve retornar às suas raízes, purificar e redescobrir o grande conteúdo da mensagem de Jesus e reencarna-la em nosso tempo.

Seguindo as palavras de Paulo na liturgia da Palavra, Hummes fez um chamado para anunciar a Palavra na Amazônia, também àqueles que se opõem ao projeto de Deus, servindo exclusivamente dinheiro, para que se convertam. Ao mesmo tempo, ele insistiu na necessidade e força da oração, algo muito necessário neste Sínodo, para que Deus ilumine e leve a escutar a voz dos povos e neles a voz do Espírito.

 

Pe. Beozzo dá o enfoque histórico do primeiro Pacto das Catacumbas em 1965. Foto: Luis Miguel Modino

O texto contém quinze compromissos, que visam mostrar

“um sentimento de urgência que se impõe diante das agressões que hoje devastam o território amazônico, ameaçado pela violência de um sistema econômico predatório e consumista”.

Os compromissos têm um claro caráter ecológico, nascido do fato de

“reconhecer que não somos donos da mãe terra”, algo que compromete os signatários a “acolher e renovar todos os dias a aliança de Deus com tudo o que é criado”.

Em continuidade ao Pacto de 1965, é renovado o compromisso com os pobres, hoje representados nos povos originários, chamados a “ser protagonistas da sociedade e da Igreja”,que exige respeito e aceitação em pé de igualdade, abandonando

“todo tipo de mentalidade e posição colonialista” e a denúncia de “todas as formas de violência e agressão”

contra os povos indígenas, sua identidade, seus territórios e seus modos de vida.

 

Foto: Luis Miguel Modino

A proclamação do Evangelho deve partir da acolhida daqueles que vivem em outra cultura e que professam outra religião, mesmo com os que fazem parte da Igreja Católica, com quem é necessário caminhar juntos, em sinodalidade, que deve ser traduzida na vida cotidiana das dioceses, paróquias e comunidades, e na ministerialidade, que possibilite a atenção aos mais vulneráveis e excluídos.

Foto: Luis Miguel Modino

O Pacto insiste em mudar o modo de trabalho pastoral na Amazônia, da visita à presença, garantindo que

“o direito à Mesa da Palavra e à Mesa da Eucaristia se torne eficaz em todas as comunidades”,

em um compromisso claro com a ordenação de homens casados, que está ligado à necessidade de

“reconhecer os serviços e a verdadeira diaconia do grande número de mulheres que hoje dirigem comunidades na Amazônia e procurar consolidá-las com um ministério apropriado de mulheres líderes comunitárias. “

A atenção pastoral nas cidades, o papel dos leigos e da juventude, a atenção às periferias e migrantes, trabalhadores e desempregados, os estudantes, educadores, pesquisadores e o mundo da cultura e da comunicação são elementos abordados no texto. Ele faz um apelo para deixar de lado o consumismo e assumir “um estilo de vida alegremente sóbrio, simples e solidário”,com atitudes de cuidado da Casa Comum e compromisso com os profetas e os pobres.

Pacto das Catacumbas mudou a vida de muitos bispos e o rumo de muitas igrejas no pós-concilio. Peçamos para que esse novo pacto possa mudar os destinos de uma igreja que busca novos caminhos, a serviço do cuidado do que sustenta nossa vida, nossa casa Comum. Os pastores se comprometeram, que eles também saibam transmitir esse compromisso àqueles a quem o Senhor lhes confiou.

Pacto das Catacumbas pela Casa Comum

Por uma Igreja com rosto amazônico, pobre e servidora, profética e samaritana

Nós, participantes do Sínodo Pan-amazônico, partilhamos a alegria de habitar em meio a numerosos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, migrantes, comunidades na periferia das cidades desse imenso território do Planeta. Com eles temos experimentado a força do Evangelho que atua nos pequenos. O encontro com esses povos nos interpela e nos convida a uma vida mais simples de partilha e gratuidade. Marcados pela escuta dos seus clamores e lágrimas, acolhemos de coração as palavras do Papa Francisco:

“Muitos irmãos e irmãs na Amazônia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja. Por eles, com eles, caminhemos juntos” (1).

Evocamos com gratidão aqueles bispos que, nas Catacumbas de Santa Domitila, ao término do Concílio Vaticano II, firmaram o Pacto por uma Igreja servidora e pobre (2). Recordamos com veneração todos os mártires membros das comunidades eclesiais de base, de pastorais e movimentos populares; lideranças indígenas, missionárias e missionários, leigas e leigos, padres e bispos, que derramaram seu sangue, por causa desta opção pelos pobres, por defender a vida e lutar pela salvaguarda da nossa Casa Comum (3). À gratidão por seu heroísmo unimos nossa decisão de continuar sua luta com firmeza e coragem. É um sentimento de urgência que se impõe ante as agressões que hoje devastam o território amazônico, ameaçado pela violência de um sistema econômico predatório e consumista.

Foto: Luis Miguel Modino

Diante da Trindade Santa, de nossas Igrejas particulares, das Igrejas da América Latina e do Caribe e daquelas que nos são solidárias na África, Ásia, Oceania, Europa e no norte do continente americano, aos pés dos apóstolos Pedro e Paulo e da multidão dos mártires de Roma, da América Latina e em especial da nossa Amazônia, em profunda comunhão com o sucessor de Pedro, invocamos o Espírito Santo, e  nos comprometemos pessoal e comunitariamente com o que se segue:

 

1.    Assumir, diante da extrema ameaça do aquecimento global e da exaustão dos recursos naturais, o compromisso de defender em nossos territórios e com nossas atitudes a floresta amazônica em pé. Dela vêm as dádivas das águas para grande parte do território sul-americano, a contribuição para o ciclo do carbono e regulação do clima global, uma incalculável biodiversidade e rica socio diversidade para a humanidade e a Terra inteira.

2.    Reconhecer que não somos donos da mãe terra, mas seus filhos e filhas, formados do pó da terra (Gn 2, 7-8) (4),  hóspedes e peregrinos (1 Pd 1, 17b e 1 Pd 2, 11) (5) , chamados a ser seus zelosos cuidadores e cuidadoras (Gn 1, 26) (6) . Para tanto, comprometemo-nos com uma ecologia integral, na qual tudo está interligado, o gênero humano e toda a criação porque a totalidade dos seres são filhas e filhos da terra e sobre eles paira o Espírito de Deus (Gn 1, 2).

3.   Acolher e renovar a cada dia a aliança de Deus com todo o criado: “De minha parte, vou estabelecer minha aliança convosco e com vossa descendência, com todos os seres vivos que estão convosco, aves, animais domésticos e selvagens, enfim, com todos os animais da terra que convosco saíram da arca (Gn 9, 9-10 e Gn 9, 12-17) (7).

4.   Renovar em nossas igrejas a opção preferencial pelos pobres, em especial pelos povos originários, e junto com eles garantir o direito de serem protagonistas na sociedade e na Igreja. Ajudá-los a preservar suas terras, culturas, línguas, histórias, identidades e espiritualidades. Crescer na consciência de que estas devem ser respeitadas local e globalmente e, consequentemente favorecer, por todos os meios ao nosso alcance, que sejam acolhidas em pé de igualdade no concerto mundial dos demais povos e culturas.

5.   Abandonar, como decorrência, em nossas paróquias, dioceses e grupos toda espécie de mentalidade e postura colonialista, acolhendo e valorizando a diversidade cultural, étnica e linguística num diálogo respeitoso com todas as tradições espirituais.

6.    Denunciar todas as formas de violência e agressão à autonomia e direitos dos povos originários, à sua identidade, aos seus territórios e às suas formas de vida.Tornar efetiva nas comunidades a nós confiadas a passagem de uma pastoral de visita a uma pastoral de presença, assegurando que o direito à Mesa da Palavra e à Mesa de Eucaristia se torne efetivo em todas as comunidades.

7.    Anunciar a novidade libertadora do evangelho de Jesus Cristo, na acolhida ao outro e ao diferente, como sucedeu com Pedro na casa de Cornélio: “Vós bem sabeis que a um judeu é proibido relacionar-se com um estrangeiro ou entrar em sua casa. Ora, Deus me mostrou que não se deve dizer que algum homem é profano ou impuro” (At 10, 28) (8).

8.   Caminhar ecumenicamente com outras comunidades cristãs no anúncio inculturado e libertador do evangelho, e com as outras religiões e pessoas de boa vontade, na solidariedade com os povos originários, com os pobres e pequenos, na defesa dos seus direitos e na preservação da Casa Comum.

9.   Instaurar em nossas igrejas particulares um estilo de vida sinodal, onde representantes dos povos originários, missionários e missionárias, leigos e leigas, em razão do seu batismo, e em comunhão com seus pastores, tenham voz e voto nas assembleias diocesanas, nos conselhos pastorais e paroquiais, enfim em tudo que lhes compete no governo das comunidades.

10.  Empenhar-nos no urgente reconhecimento dos ministérios eclesiais já existentes nas comunidades, exercidos por agentes de pastoral, catequistas indígenas, ministras e ministros e da Palavra, valorizando em especial seu cuidado em relação aos mais vulneráveis e excluídos.

11.  Tornar efetiva nas comunidades a nós confiadas a passagem de uma pastoral de visita a uma pastoral de presença, assegurando que o direito à Mesa da Palavra e à Mesa de Eucaristia se torne efetivo em todas as comunidades.

12.    Reconhecer os serviços e a real diaconia do grande número de mulheres que hoje dirigem comunidades na Amazônia e procurar consolidá-los com um ministério adequado de mulheres dirigentes de comunidade.

13.    Buscar novos caminhos de ação pastoral nas cidades onde atuamos, com protagonismo de leigos e jovens, com atenção às suas periferias e aos migrantes, aos trabalhadores e aos desempregados, aos estudantes, educadores, pesquisadores e ao mundo da cultura e da comunicação (9).

14.    Assumir diante da avalanche do consumismo um estilo de vida alegremente sóbrio, simples e solidário com os que pouco ou nada tem; reduzir a produção de lixo e o uso de plásticos, favorecer a produção e comercialização de produtos agroecológicos, utilizar sempre que possível o transporte público.

15.    Colocar-nos ao lado dos que são perseguidos pelo profético serviço de denúncia e reparação de injustiças, de defesa da terra e dos direitos dos pequenos, de acolhida e apoio a migrantes e refugiados. Cultivar amizades verdadeiras com os pobres, visitar as pessoas mais simples e os enfermos, exercitando o ministério da escuta, da consolação e do apoio que trazem alento e renovam a esperança.

Conscientes de nossas fragilidades, de nossa pobreza e pequenez diante de tão grandes e graves desafios, confiamo-nos à oração da Igreja. Que sobretudo nossas Comunidades Eclesiais nos socorram com sua intercessão, afeto no Senhor e, sempre que necessário, com a caridade da correção fraterna.

Foto: Luis Miguel Modino

Acolhemos de coração aberto o convite do Cardeal Hummes para nos deixarmos guiar pelo Espírito Santo nestes dias do Sínodo e no retorno às nossas igrejas:

“Deixem-se envolver no manto da Mãe de Deus e Rainha da Amazônia. Não deixemos que nos vença a auto-referencialidade, mas sim a misericórdia diante do grito dos pobres e da terra. Será necessária muita oração, meditação e discernimento, além de uma prática concreta de comunhão eclesial e espírito sinodal. Este sínodo é como uma mesa que Deus preparou para os seus pobres e nos pede a nós que sejamos aqueles que servem à mesa”  (10).

Celebramos esta Eucaristia do Pacto como “um ato de amor cósmico. “Sim, cósmico! Porque mesmo quando tem lugar no pequeno altar duma igreja de aldeia, a Eucaristia é sempre celebrada, de certo modo, sobre o altar do mundo”. A Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação. O mundo saído das mãos de Deus, volta a Ele em feliz e plena adoração: no Pão Eucarístico “a criação propende para a divinização, para as santas núpcias, para a unificação com o próprio Criador”. “Por isso, a Eucaristia é também fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo meio ambiente, e leva-nos a ser guardiões da criação inteira” (11).

Catacumbas de Santa Domitila
Roma, 20 de outubro de 2019

Notas

1.- Homília do Papa Francisco na Missa de abertura do Sínodo, Roma 06-10-2019

2.- Pacto por uma Igreja servidora e pobre. Catacumbas de Santa Domitila, Roma 16 de novembro de 1965. O Pacto assinado por 42 concelebrantes, recebeu em seguida a adesão de cerca de 500 padres conciliares.

3.- DAp 98, 140, 275, 383, 396.

4.- “Então o SENHOR Deus formou o ser humano com o pó do solo, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida e Ele tornou-se um ser vivente. 8 Depois, o Senhor Deus plantou um jardim em Éden, a oriente, e pôs ali o homem que havia formado”.

5.-  “… vivei no temor o tempo de vossa permanência como migrantes” (1 Pd 1, 17b) e “Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros…” (1 Pd, 2, 11).

6.-  “26 Deus disse: ‘Façamos o ser humano à nossa imagem e segundo nossa semelhança, para que domine [cuide] sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todos os animais selvagens e todos os animais que
se movem pelo chão’. 27 Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou”.

7.- 12 E Deus disse: “Eis o sinal da aliança que estabeleço entre mim e vós e todos os seres vivos que estão convosco, por todas as gerações futuras. 13 Ponho meu arco nas nuvens, como sinal de aliança entre mim e a terra. 14 Quando eu cobrir de nuvens a terra, aparecerá o arco-íris nas nuvens. 15 Então me lembrarei de minha aliança convosco e com todas as espécies de seres vivos, e as águas não se tornarão mais um dilúvio para destruir toda carne. 16 Quando o arco-íris estiver nas nuvens, eu o contemplarei como recordação da aliança eterna entre Deus e todas as espécies de seres vivos sobre a terra”. 17 Deus disse a Noé: “Este é o sinal da aliança que estabeleço entre mim e toda a carne sobre a terra”.

8.-  4 Então, Pedro tomou a palavra: “De fato”, disse, “estou compreendendo que Deus não faz discriminação entre as pessoas. 35 Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença (At 10, 34-35).

9.-  Cfr DSD 302.1.3

10.- HUMMES, Card. Cláudio, 1ª. Congregação Geral do Sínodo Amazônico, Relação introdutória do Relator Geral, Roma, 07-10-2019 (BO 792).

11.- Laudato Si’, 237.

 

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Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/593633-pacto-das-catacumbas-pela-casa-comum-por-uma-igreja-com-rosto-amazonico-pobre-e-servidora-profetica-e-samaritana

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