Críticos não percebem a importância global do Sínodo da Amazônia, afirma Peter Hünermann

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Christa Pongratz-Lippitt – 19 Outubro 2019

Foto: Commonweal Magazine

“A região amazônica é um ponto de acesso global para todos aqueles desafios que enfrentamos como Igreja mundial e que a humanidade como um todo está enfrentando”, afirma o teólogo alemão.

A reportagem é de Christa Pongratz-Lippitt, publicada em La Croix International, 18-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Peter Hünermann, um dos principais teólogos católicos do mundo e especialista no Concílio Vaticano II, diz que o “Sínodo Amazônico” faz parte do processo de reforma da Igreja que o Papa Francisco mapeou ainda no início do seu pontificado há mais de seis anos.

O padre e professor alemão de 90 anos de idade disse recentemente à agência Kathpress, com sede em Viena, que o atual esforço da assembleia sinodal para reorientar a prática pastoral na região amazônica

“nada mais é do que a implementação da reforma que Francisco estabeleceu no texto programático Evangelii gaudium” (A alegria do Evangelho).

Essa exortação apostólica, emitida em novembro de 2013, foi o primeiro grande documento do pontificado de Francisco e é considerada como um mapa para a renovação e a reforma da Igreja global.

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Imagem: IHU – REPAM

Da Amazônia para o mundo: repensando a Igreja local

Hünermann, que coeditou o compêndio de fé Denzinger-Hünermann, de cinco volumes (Enchiridion Symbolorum) e um comentário teológico também de cinco volumes sobre o Vaticano II, disse que a Evangelii gaudium pressionou por um novo conceito de prática pastoral à luz das experiências concretas das Igrejas locais.

“Portanto, eu compartilho totalmente as grandes esperanças que as pessoas têm em relação ao Sínodo. É um evento da Igreja global aprofundado e meticulosamente preparado – simplesmente um grande empreendimento –, e eu sou profundamente grato ao papa por lançá-lo”, disse ele à Kathpress.

O teólogo, que lecionou nas prestigiadas universidades de Münster (1971-1982) e Tübingen (1982-1997), rejeitou as acusações dos críticos do papa de que a atual assembleia sinodal, de alguma forma, faz parte de uma agenda teológica liberal.

Ele disse, ao contrário, que é uma tentativa de moldar completamente o futuro da prática pastoral. Ele observou que as questões ecológicas, sociais e pastorais estão entrelaçadas na extensa Amazônia. E isso, disse ele, significa que elas alcançam muito mais do que os membros de uma Igreja local e têm um “significado para a Igreja mundial”.

“A região amazônica é um ponto de acesso global para todos os desafios que enfrentamos como Igreja mundial e que a humanidade como um todo está enfrentando”, enfatizou.

 

Procedimento sinodal da Alemanha: um teste para a relevância da Igreja

O professor Hünermann também avaliou o “procedimento sinodal” para a reforma da Igreja que os bispos da Alemanha lançaram junto com o Comitê Central dos Católicos Alemães (leigos). Ele disse que esse seria o teste “para a Igreja como um todo, que luta pela sua relevância na sociedade”.

Ele disse que os críticos do procedimento falharam em reconhecer como a Igreja foi abalada profundamente pela crise dos abusos sexuais clericais.

“Eles não conseguem ver que todos os projetos de reforma em discussão

  • como ordenar homens casados de virtude comprovada (viri probati),
  • dar mais responsabilidade às mulheres na Igreja,
  • repensar a moral sexual da Igreja e instalar freios e contrapesos –

só podem ser entendidos contra o pano de fundo do escândalo dos abusos, que foi verdadeiramente traumático”, insistiu.

Hünermann expressou confiança de que o projeto será bem-sucedido, apesar da oposição interna à Igreja.

“O processo de reforma não deve terminar como o último ‘processo de diálogo’ da Igreja alemã (2010-2015), pois isso significaria que a Igreja alemã está com sérios problemas”, alertou.

 

Mensagens vindas de Roma

O teólogo também disse que

  • é importante distinguir entre as duas cartas diferentes referentes ao “procedimento sinodal” que a Conferência dos Bispos da Alemanha recebeu do Vaticano.
  • Ele disse que o texto que o cardeal Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos, enviou ao presidente da Conferência, cardeal Reinhard Marx, deve ser visto como
  • “um clássico exemplo de certos membros do pensamento tradicional da Cúria Romana que se apegam estritamente ao Direito Canônico de um modo alarmista”.

Por outro lado, o professor Hünermann disse que a “Carta ao Povo de Deus que está a caminho na Alemanha” [disponível aqui, em espanhol], escrita pelo papa, foi mal interpretada.

“O Papa Francisco queria apenas salientar que

  • as reformas da Igreja não devem significar a adaptação ao zeitgeist (espírito dos tempos)
  • e que um procedimento sinodal sempre deve ter uma âncora espiritual.

Ele também

  • advertiu particularmente contra o fato de agir muito precipitadamente,
  • mas ele não advertiu contra a reforma em geral”, enfatizou o professor.

Hünermann fez sua teologia inicial na Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma antes de retornar à Alemanha para estudos avançados. Ele lecionou na América do Sul – incluindo a Argentina – por vários anos após o Concílio Vaticano II.

Ele conheceu o padre Jorge Mario Bergoglio em 1969 e permaneceu em contato com o futuro papa. Os dois se encontraram mais recentemente em maio de 2015 em Roma para conversas privadas sobre assuntos da Igreja.

Acredita-se que o ensino do teólogo alemão influenciou a exortação do Papa Francisco sobre o matrimônio e a família Amoris laetitia.

 

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