O Sínodo na metade do caminho, a exigência de um “salto qualitativo”

O risco de “concentrar-se apenas em certos temas” e perder de vista a “visão geral”.

 

IACOPO SCARAMUZZI – 16/10/2019

Foto: O Sínodo para a Amazônia /  Daqui

Tradução: Orlando Almeida

CIDADE DO VATICANO. O Sínodo sobre a Amazônia, que está sendo realizado no Vaticano, de 6 a 27 de outubro, chegou à “metade do caminho”, e  várias vozes se levantaram na assembleia alertando contra o risco de que, “concentrando-se apenas em certos temas” se perda a “visão geral “e pedindo, consequentemente,  um “salto qualitativo”no debate.

 

Após a décima segunda congregação geral, ontem à tarde, os padres sinodais voltaram a se separar nos doze grupos de trabalho e os trabalhos nos “círculos menores” prosseguirão amanhã. O programa prevê que, na tarde de amanhã, quinta-feira 17, tenha lugar uma nova congregação geral, na qual cada círculo menor compartilhará o seu trabalho com os outros participantes. Na sexta-feira à tarde, uma síntese deverá  estar disponível para a imprensa.

  • A comissão para a elaboração do documento final entrará ao vivo nesse ponto
  • e apresentará um projeto de síntese  à assembleia, na segunda-feira, dia  21.

Após discussões ulteriores, emendas, modificações,

  • o documento final será apresentado com a sua redação  definitiva no plenário na manhã de sexta-feira, dia 25,
  • e votado na última congregação geral no sábado à tarde, dia 26.

E

“na metade do Sínodo, ontem, especialmente nas intervenções livres,

  • manifestou-se a exigência compartilhada de não  se deter nas questões individuais, dividindo-as,
  • mas de ter uma visão global e unitária”,

disse o Prefeito do Dicastério do Vaticano para Comunicação, Paolo Ruffini, durante o costumeiro briefing diário, porque

“concentrando-se apenas em alguns temas, corre-se o risco de perder a visão geral, de não assumir a complexidade”.

Entre as declarações de vários padres sinodais, algumas foram relatadas por Ruffini:

  • “é como se estivéssemos perdendo alguma coisa”,
  • “olhamos para a árvore e não para os ramos”,
  • “evitamos avançar, ficando no mesmo lugar”,
  • “deixemos espaço para o Espírito sem nos iludirmos de que temos a norma já pronta”,
  • “é necessário um ímpeto profético”.

Segundo o prefeito, “muitos pediram um salto qualitativo”.

Foi sugerido por vários, – complementou o padre Giacomo Costa – que

“se deixem de lado as próprias seguranças, as próprias ideologias, os próprios argumentos, os pequenos pedacinhos que se queriam colocar no documento final”,

porque

“se permanecemos presos na armadilha do conflito, os  horizontes ficam limitados, a realidade continua fragmentada e perdemos o sentido da unidade profunda”.

Polyana Gonzaga
Polyana Gonzaga

“Os povos indígenas sempre serão os guardiões da floresta e cuidar da Casa Comum é responsabilidade de todos”.  – afirma Yesica Patiachi Tayori – Foto: A12.com

 

Durante o briefing, Yesica Patiachi Tayori, professora bilingue do povo Harakbut de Puerto Maldonado (Peru), relatou

  • a tragédia do seu povo e das populações originais da Amazônia,
  • vítimas de exploração, de criminalização, de abusos sexuais contra mulheres, de assassinatos;
  • e expressou a esperança de que o Sínodo não termine com um resultado apenas de palavras:

“Pedimos ao Santo Padre que faça ouvir a nossa voz em nível internacional”, disse ela; “esperamos que o Sínodo não se conclua com um discurso mercantilista ou com um dos muitos discursos políticos, mas que ele consiga reavivar a consciência humana”.

 

Dom Ambrogio Spreafico, bispo de Frosinone-Veroli-Ferentino, observou por sua vez que  o momento mais emocionante do Sínodo é

“como se escuta a dor compartilhando:

  • diante da dor podemos fugir, podemos deparar-nos com a dor na primeira página sem compartilhá-la,
  • mas na dor temos que sofrer, suportar  um pouco de dor,
  • e o Sínodo é um lugar onde ouvimos para compartilhar,
  • uma grande lição para a humanidade”.

Muitos, como sempre, os temas que surgiram,  seja durante a Assembleia como referido por Ruffini e pelo padre Costa, seja durante o briefing:

  • desde a necessidade de uma conversão ecológica
  • até à oportunidade de uma Igreja com rosto amazônico,
  • do drama das migrações  ao do extrativismo.

É importante,  reiterou-se, olhar realisticamente o drama de tantas comunidades,

  • 70% da Amazônia, visitadas por um padre apenas uma ou duas vezes por ano.
  •  Elas ficam privadas dos sacramentos, da Palavra, das celebrações centrais do cristianismo, como a Páscoa, o Pentecostes e o Natal.
  • Foram feitas escolhas corajosas, abertas à voz do Espírito, foi enfatizada a importância da formação e a necessidade de uma correta distribuição dos sacerdotes nas áreas de missão.

 

O bispo brasileiro Pedro José Conti lembrou que há comunidades que participam de uma  missa duas vezes por ano. O bispo brasileiro Wellington Tadeu de Queiroz Vieira acentuou, durante o briefing,

  • o problema representado pelos padres que,
  • por infidelidade ou falta de santidade, são um mau exemplo,
  • ressaltando que é esse o verdadeiro impedimento às vocações.

A  quem  perguntava se é possível chegar ao diaconato feminino, o prelado disse que,

  • independentemente da solução encontrada,
  • é necessário valorizar as mulheres;

quando um jornalista levantou a questão da hipótese de dar voto às mulheres, o bispo disse que

  • a questão “não é a representação numérica, mas a qualitativa”,
  • e que as mulheres são uma “presença amorosa”.

O briefing também foi a ocasião para aprofundar um caso que tem  interessado muito a blogosfera conservadora, a de uma pequena estátua de madeira que representa visivelmente uma mulher indígena grávida, colocada em 4 de outubro nos Jardins do Vaticano por ocasião de uma cerimônia presidida pelo Papa, com um grupo de indígenas, às vésperas da abertura do Sínodo.

Aos  que perguntavam se não era uma representação pagã ou de uma figura inadequada de Nossa Senhora, Costa respondeu:

“Mas quem foi que disse que aquela é uma estátua de Nossa Senhora? Parece-me que é uma figura feminina que não tem significado pagão  nem representa Maria”.

 

O Prefeito do Dicastério de Comunicação do Vaticano, por sua vez, comentou:

“Sabemos que algumas coisas na história podem ter muitas interpretações; até mesmo  nas igrejas se podem  encontrar coisas que vêm do passado, mas acredito que a estátua represente simplesmante a vida, e só, ao passo que ver nela  símbolos do paganismo seja um ver  mal onde mal não há. Este  é o pensamento de Paolo Ruffini, não do prefeito ou do presidente do Dicastério”,

esclareceu, lembrando com um toque de humor, que durante a cerimônia contestada o Papa também plantou uma árvore: “O que a árvore representava?”

 

 

IACOPO SCARAMUZZI

 

Fonte: https://www.lastampa.it/vatican-insider/it/2019/10/16/news/sinodo-a-meta-cammino-l-esigenza-di-un-salto-qualitativo-1.37752459

 

 

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