O sigilo do sínodo da Amazônia mostra tensão entre transparência e discernimento

 

por Joshua J. McElwee Vaticano – 15 de outubro de 2019

Foto – O Papa Francisco e os participantes oram no início da sessão da tarde do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, no Vaticano, em 8 de outubro (CNS / Paul Haring)

Tradução: Orlando Almeida

CIDADE DO VATICANO – O Sínodo dos Bispos para a região amazônica,  que está sendo realizado no Vaticano, de 6 a 27 de outubro, começou bem antes da sua abertura oficial, com um dos períodos de preparação mais exaustivos, inclusivos e transparentes já realizados nos 50 anos de história de sínodos católicos.

Os organizadores, da secretaria dos sínodos do Vaticano e da região amazônica, trabalharam durante 18 meses, consultando centenas de comunidades em nove países da América do Sul, organizando cerca de 300 assembleias locais, nacionais e regionais.

 

Os resultados dessas consultas –  incluindo a controversa recomendação de permitir padres casados ​​numa base regional – foram ao final resumidos ​​e tornados públicos na forma do documento de trabalho inicial do sínodo, conhecido como Instrumentum Laboris.

Mas,

  • quando os trabalhos de abertura do sínodo terminaram, na manhã de 7 de outubro,
  • essa prática de transparência cessou efetivamente.
  • Não houve transmissão ao vivo das discussões dos bispos,
  • nenhuma divulgação oficial dos seus textos
  • e, até agora, nenhuma publicação do trabalho dos grupos menores de trabalho do sínodo.

Em vez disso, a sala de Imprensa do Vaticano

  • tem produzido resumos bastante breves e secos
  • das principais questões discutidas no sínodo a cada dia,
  • e organizado  coletivas  diárias nas quais os membros da imprensa podem tentar delicadamente obter mais informações dos dois ou três participantes do sínodo colocados à disposição.

As autoridades do Vaticano dizem que

  • o sigilo do processo do sínodo é necessário para garantir que os 184 bispos e padres e outros  irmãos religiosos que participam como membros votantes
  • possam falar livremente e tenham um verdadeiro discernimento sobre as necessidades da igreja na Amazônia hoje.

“O que Francisco tem feito em cada um dos sucessivos sínodos recentes … é deixar claro que é preciso haver mais vozes, mais experiências, mais diversidade –  para ajudar os bispos presentes a ouvir, discernir e fazer recomendações” –  Irmã Janice Farnham

 

Vários teólogos e observadores veteranos do Sínodo dos Bispos, criado pelo Papa Paulo VI em 1965 no final do Concílio Vaticano II,

  • evocaram uma tensão entre o desejo de transparência no processo sinodal
  • e a necessidade de os líderes da igreja terem tempo para realmente discernirem.

O padre jesuíta Thomas Reese, que acompanhou a maioria das reuniões do sínodo realizadas desde 1985, disse simplesmente:

  • “Há muito menos informações  sendo liberadas agora do que no passado”.
  • “Recebemos esses resumos e não temos ideia das pessoas que estão falando nem de quão representativas elas são”,

disse Reese, antigo analista da NCR que agora escreve para o Religion News Service.

Ele apontou o exemplo do resumo de 14 de outubro, que dizia que uma pessoa havia falado no sínodo a favor de a igreja manter a sua atual prática do celibato obrigatório para os padres, em vez de permitir padres casados ​​em nível regional, o que geralmente é designado pela expressão latina viri probati .

“Não sabemos quem é”, disse Reese.

“Não sabemos quanto isso é representativo, nem quantas pessoas estão dizendo isso, em oposição a quantas outras pessoas que estão falando em favor da  viri probati”.

A Irmã Janice Farnham, que é membro das Religiosas de Jesus e Maria e professora aposentada de história da igreja na Escola de Teologia e Ministério do Boston College, observou que

  • o Papa Francisco mencionou frequentemente que o sínodo não é um órgão deliberativo.
  • É uma comunidade consultiva empenhada num processo de discernimento, disse ela,
  • em que  os bispos fazem recomendações ao pontífice para sua consideração e eventual tomada de decisão.

“O que Francisco tem feito em cada um dos sucessivos sínodos recentes … é deixar claro que é preciso haver mais vozes, mais experiências, mais diversidade – para ajudar os bispos presentes a ouvir, discernir e fazer recomendações”— Sr. Janice Farnham – Tweet

 

O Papa Francisco preside uma sessão do Sínodo dos Bispos para a Amazônia no Vaticano, em 8 de outubro (CNS / Vatican Media)

 

A decisão do Vaticano de não divulgar os textos das falas dos bispos pode não ser o que os jornalistas preferem, disse ela,

“mas num certo nível, isso preserva a abertura e o amplo espaço necessário para que todas as opiniões / visões /impressões sejam ouvidas”.

Amanda Osheim, teóloga do Loras College em Iowa, apresentou argumentos semelhantes.

“Embora o Sínodo dos Bispos não deva ser isolado da igreja maior, qualquer grupo envolvido em discernimento compartilhado precisa desenvolver confiança entre os seus membros”, disse ela.

O sínodo da Amazônia é o quarto convocado por Francisco, que também acolheu  sínodos em 2014, 2015 e 2018. A prática do Vaticano de liberar oficialmente os textos dos sínodos dos bispos foi interrompida no sínodo de 2014, embora os prelados possam decidir sobre  distribuir documentos por conta própria, se o desejarem.

Em seu discurso de 7 de outubro, abrindo o Sínodo da Amazônia, Francisco advertiu os bispos que a assembleia  poderia “vir a arruinar-se” se os participantes dessem muita informação à imprensa. O pontífice disse que vazamentos de informação poderiam levar a outras reuniões diferentes fora e dentro do sínodo oficial.

  • O sínodo interno, disse o papa, “segue o caminho da Igreja Mãe”,
  • enquanto o sínodo externo envolve “informação dada com leviandade, dada com  impudência, que leva jornalistas a cometer erros”.

Uma razão que os teólogos apontaram para que o Vaticano não distribua os textos dos bispos é que, sob a liderança de Francisco, os prelados estão sendo encorajados a falar mais abertamente. Enquanto que, sob os papados precedentes,

  • o sínodo era conhecido como um talking shop’ (conversa inconsequente) com pouco debate real – dizia-se que João Paulo II lia seu breviário para passar o tempo –
  • Francisco disse aos bispos para falarem com  parrhesia, usando um termo grego que significa falar ousadamente sem medo.

Massimo Faggioli, um teólogo da Universidade Villanova, observou que os sínodos recentes envolveram algo como um novo desenvolvimento:

  • grupos externos realizando eventos em Roma antes ou durante a assembleia
  • para tentar influenciar as discussões dos bispos.

Por exemplo,  um evento organizado em 5 de outubro por grupos conservadores,  incluiu avisos apocalípticos de que o sínodo resultaria no “desmantelamento” da igreja global inteira.

“Agora é visível o desenvolvimento do que poderíamos chamar de ‘espaço peri-sinodal’ –  um espaço fora do sínodo … onde todas as vozes, influências, presenças têm um efeito sobre o sínodo, muito mais do que antes”,

disse Faggioli , que concentrou a sua pesquisa sobre a  igreja nas décadas posteriores ao Concílio Vaticano II.

  • “Isso acontece porque o sínodo já não é roteirizado, mas quer ser um espaço e um momento reais para discernir e tomar decisões”, disse ele.
  • “A transparência total é uma coisa  quando o sínodo é roteirizado, mas é outra quando não há script”, disse Faggioli.
  • “Em outras palavras, é uma maneira de defender o sínodo do perigo de outros ‘scripts’ intervirem e limitarem a liberdade do sínodo”.

Reese, um cientista político que escreveu seu primeiro livro sobre política tributária americana, comparou a questão da transparência do sínodo a discussões semelhantes sobre o funcionamento do Congresso dos EUA. Ele mencionou que os comitês de redação de impostos costumavam se reunir a portas fechadas.

  • “Às vezes as pessoas podiam votar contra os seus distritos, porque ninguém sabia como votavam, e eles podiam estar votando realmente pelo bem comum”, disse Reese.
  • “Ao passo  que, se as votações fossem públicas, eles seriam crucificados por interesses especiais se votassem da maneira errada”.

“Quando se está envolvendo a igreja, acho que deve haver uma oportunidade de os bispos terem conversas livres, para que possam discutir e mudar as suas  ideias”, disse ele. “Por outro lado, o que eles estão fazendo impacta a igreja toda. E assim, todo o povo de Deus deveria estar envolvido”.

 

Joshua J. McElwee

é correspondente da NCR no Vaticano. Seu endereço de e-mail é  jmcelwee@ncronline.org . Siga-o no Twitter:  @joshjmac .]

Fonte: https://www.ncronline.org/news/vatican/amazon-synods-secrecy-shows-tension-between-transparency-and-discernment

 

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