Madrid clamou pela paz sem fronteiras, contra medos aos migrantes, a pobreza e a indiferença

António Marujo -19/09/2019.   Foto: A cerimónia final, junto da catedral de Almudena / © Sant’Egídio

 O encontro Paz Sem Fronteiras, promovido pela Comunidade de anto Egídio em conjunto com a diocese católica de Madrid (Espanha), encerrou com um “apelo de paz”, no qual se manifesta preocupação pelo futuro das novas gerações por causa da destruição do planeta, com o crescimento dos nacionalismos e com a dimensão exclusivamente económica da globalização.

 

Com a participação de centenas de pessoas de muitas religiões diferentes, e acolhido pelo cardeal Carlos Osoro, arcebispo de Madrid, o encontro concluiu-se terça, 17, ao final do dia, com uma procissão que desembocou na praça entre a catedral de Almudena e o Palácio do Oriente (o palácio real de Espanha).

“Preocupam-nos as futuras gerações, porque vemos que se consome o único planeta de todos como se fosse apenas de alguns. Porque vemos o reaparecimento do culto da força e das oposições nacionalistas, que provocaram grandes destruições ao longo da história. Porque o terrorismo não deixa de matar gente inocente. Porque parece que o sonho de Paz se debilitou”, diz o texto proclamado no final.

Tais são os gritos de “quem está excluído do bem-estar” ou envolvido por guerras em terras onde nada cresce, “como se não fossem homens e mulheres como nós”. O texto termina com um apelo a “responsáveis políticos, aos mais ricos do mundo, a homens e mulheres de boa vontade” para que proporcionem os recursos necessários de modo a “evitar que milhões de crianças morram anualmente por falta de atenção médica e para poder mandar à escola milhões de crianças”. Isso “seria um sinal de esperança para todos”, diz o texto, que aposta no diálogo e na cooperação, contra o “muro da indiferença” que deixa os mais débeis de lado e contra a violência e o desprezo pelas pessoas que são diferentes, porque rezam e falam noutra língua”.

 

Procissão final, com líderes de diferentes religiões. Ao centro, o cardeal Carlos Osoro, arcebispo de Madrid e anfitrião da iniciativa. Foto © Sant’Egídio

 

As religiões estão também numa encruzilhada de dois caminhos: “Trabalhar pela unificação espiritual” ou deixar-se instrumentalizar por quem “sacraliza as fronteiras e os conflitos”. Antes de convergir para a praça junto da catedral, os participantes rezaram em distintos lugares de oração: cristãos, muçulmanos, judeus, representantes de religiões asiáticas.

Entre os participantes, estavam

  • o rabino-chefe de Telavive (Israel), Meir Lau;
  • o metropolita ortodoxo da Rússia, Hilarion;
  • o reitor da Universidade de Al-Azhar, Mohammad Al-Mahrasawi,
  • e o fundador da Comunidade de Santo Egídio, Andrea Riccardi.

 

Meir Lau, rabino-chefe de Telavive (Israel), numa intervenção no encontro. Foto © Sant’Egídio

 

No seu discurso final, perante os representantes religiosos, mas também políticos, artistas, pensadores e muitas centenas de madrilenos, o presidente da Comunidade de Sant’Egídio, Marco Impagliazzo, disse:

“O céu é só um. Ao céu todos se dirigem rezando, tanto no desespero como na alegria, tanto nos precários refúgios sob as bombas na Síria como no culto das igrejas, das sinagogas, das mesquitas ou dos templos. O céu não é prisioneiro de fronteiras.”

 

As “bem-aventuranças da paz sem fronteiras”

O cardeal Osoro manifestou a importância de tomar

“decisões claras e apostar na cultura do encontro”, lutando “contra a divisão, as rupturas, os enfrentamentos, a violência, a discriminação e a guerra”. No final, proclamou umas “bem-aventuranças da paz sem fronteiras”,

que incluem os que sofrem as guerras, os que se sentem próximos das vítimas ou os que renunciam ao extermínio do outro, num texto citado pelo ReligionDigital.

Numa das muitas mesas redondas que se realizaram durante os três dias de encontro, Daniela Pompei, responsável do serviço de migrantes da Comunidade de Santo’Egídio, afirmou que

“sem uma visão ancorada nos dados verdadeiros e não nos medos dos fenómenos migratórios, a Europa corre o risco de lançar o seu futuro no mar”.

Esta responsável deu o exemplo de Itália, onde o envelhecimento demográfico e o declínio das taxas de natalidade  atingiram níveis preocupantes. E manifestou o absurdo de haver quem ainda pense que o fenómeno das migrações ainda possa ser encarado

“com a arma anacrónica, provada ineficaz, dos muros”: havia cinco muros no final da II Guerra Mundial e 72 em 2016, disse.

Pelo contrário, acrescentou, este é

“o momento oportuno para a Europa ultrapassar os medos, para modificar as leis e criar novas regras: foi o que já aconteceu nos últimos três anos com a abertura dos corredores humanitários da Itália, França, Bélgica e Andorra. 2666 pessoas já chegaram em condições seguras, libertas do tráfico de pessoas e do risco da morte no mar. Não devemos ter medo de acolher e investir na integração”, concluiu.

Na mesma linha interveio a presidente da Câmara de Gdansk (Polónia), Aleksandra Dulkiewicz:

“O Governo polaco e os grandes meios públicos de comunicação assumem o discurso do ódio contra o emigrante e o diferente”, acusou.

Dulkiewicz está no cargo desde Janeiro, depois de o seu antecessor ter sido assassinado, facto de que responsabilizou o “discurso do ódio” existente no país “contra o emigrante e contra o colectivo LGTBI”, fomentado pelo Governo de direita e pelos média públicos. Mas, garantiu, enquanto for presidente da Câmara, Aleksandra Dulkiewicz garante que não desistirá de

“construir uma cidade que defenda a dignidade humana”.

 

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