Esperamos  que a igreja norte-americana aprenda com o sínodo pan-amazônico

 

Richard Gaillardetz – 16/09/2019 –Tradução: Orlando Almeida

Foto: Isidoro Jajoy, um xamã da tribo Inga da Colômbia, abençoa as pessoas em Bogotá em 14 de agosto durante uma reunião preparatória para o Sínodo dos Bispos para a Amazônia, em outubro. (CNS / Manuel Rueda)

Os católicos daquela região estão enfrentando um tremendo  desafio à sua vida sacramental, já que a proporção entre sacerdotes e pessoas católicas, em algumas sub-regiões, é de  1 para 16.000.

É esta situação que levou o  Instrumentum Laboris , o documento de trabalho preparado antes do sínodo, a aventar a possibilidade de ordenação de  viri probati , ou seja, de homens maduros e casados, como sacerdotes.

 

O próximo Sínodo da região pan-amazônica, uma ampla área geográfica que se estende por vários países da América do Sul, abordará três temas que têm sido preocupações constantes do Papa Francisco:

  • o meio ambiente,
  •  a difícil situação dos povos indígenas
  • e a necessidade de providenciar um cuidado pastoral efetivo nas igrejas locais.

O evento de outubro evidencia também

  • o uso do sínodo dos bispos por Francisco,
  • uma característica marcante deste pontificado e um dos principais frutos institucionais do Concílio Vaticano II,
  • como forma de fazer avançar o seu programa de reforma.

Esta assembleia sinodal também

  • será a primeira, durante o seu papado,
  • a concentrar-se numa região específica, neste caso a bacia amazônica,
  • que inclui território pertencentes ao Brasil, à Bolívia, ao Peru, ao Equador, à Colômbia, à Venezuela, à Guiana, ao Suriname e à Guiana Francesa.

O Sínodo dos Bispos foi estabelecido primeiro pelo Papa Paulo VI, por proposta do Concílio. No Vaticano II,

  • vários bispos, inspirados pela prática das igrejas católicas orientais,
  • pediram a criação de um sínodo permanente de bispos
  • como expressão dos ensinamentos do concílio sobre colegialidade episcopal.

Eles imaginavam

  • um sínodo permanente
  • exercendo autoridade deliberativa
  • e compartilhando com o papa o exercício da liderança pastoral da igreja universal.

Quando Paulo VI estabeleceu o sínodo dos bispos em 1965, ele criou um sínodo permanente, mas não um sínodo   ininterrupto.

Ou antes, o papa criou um sínodo que

  • só estaria reunido em assembleia intermitentemente
  • e teria apenas autoridade consultiva.

Estas assembleias sinodais poderiam assumir uma de três formas:

  • uma assembleia geral ordinária que se reuniria a cada três ou quatro anos;
  •  uma assembleia geral extraordinária convocada sempre que uma questão de consideração urgente o recomendasse;
  • e uma assembleia especial focada nas preocupações pastorais de uma região geográfica específica.

Durante grande parte do período pós-conciliar,

  • o assunto abordado nessas assembleias sinodais era cuidadosamente monitorado pelas autoridades do Vaticano.
  • Tópicos controversos eram frequentemente mantidos fora da pauta.
  • Os procedimentos sinodais desencorajavam a conversa franca entre os participantes.

Depois de 1971, todos os sínodos subsequentes

  • teriam direito a publicar a sua própria declaração final,
  • deferindo ao papa a responsabilidade de promulgar um documento pós-sinodal.

Muitos desses documentos, conhecidos como exortações apostólicas, deram consideráveis ​​contribuições ao desenvolvimento do ensino católico – por exemplo:

  • Evangelii nuntiandi (1975) de Paulo VI;
  • Catechesi Tradendae (1979),
  • Familiaris Consortio (1981)
  • e Christifideles Laici (1987) do Papa João Paulo II (1979),
  • e Verbum Domini (2010) do Papa Bento XVI.

Bento XVI fez algumas modestas revisões nos procedimentos sinodais, dando maiores oportunidades para uma  conversa aberta.

É com Francisco, no entanto, que o sínodo dos bispos se transformou,

  • de uma bem orquestrada e cuidadosamente censurada peça eclesiástica,
  • para o principal instrumento para a implementação de sua agenda reformista.

Começando com os preparativos para o sínodo o extraordinário sobre a família ,

  • o papa pediu uma ampla consulta a todo o povo de Deus,
  • incluindo a ampla (ainda que desigual) distribuição de um questionário sobre assuntos relacionados à família.
  • Ele revisou os procedimentos sinodais para permitir uma conversa muito mais aberta
  • e exortou explicitamente os participantes sinodais a exercerem  a parrhesia,
  • a falarem com ousadia e sem medo de provocar discordâncias.

Ele garantiu que tópicos controversos como o status das pessoas LGBTQ, não seriam excluídos de consideração.

De fato, nos últimos seis anos e meio, surgiu um padrão claro.

Como Francisco encontrou resistência aos seus esforços na reforma curial (ainda estamos aguardando a sua constituição apostólica sobre a reforma da cúria), ele muitas vezes optou por redirecionar o fluxo de discernimento pastoral e de tomada de decisões.

  • Enquanto que  papas anteriores remetiam questões-chave,  eclesiais e pastorais, ao dicastério romano específico para estudo, geralmente resultando na emissão de uma notificação ou instrução da cúria,
  • Francisco tem preferido atribuir a duiscussão de questões-chave a várias assembleias sinodais.

A sua justificativa para essa importante mudança foi esclarecida no outono de 2015, quando ele fez o discurso talvez eclesiologicamente  mais significativo de seu pontificado. Ao comemorar o 50º aniversário do sínodo dos bispos, o papa ofereceu uma surpreendente reflexão teológica sobre a igreja como sendo ela própria fundamentalmente sinodal por natureza.

Ele pediu

  • uma “igreja ouvinte” atenta ao testemunho de todos os  fiéis cristãos, o sensus fidelium ,
  • e exigiu o estabelecimento de estruturas consultivas a serem implementadas em todos os níveis da vida da igreja.

Por último, em setembro de 2018, Francisco promulgou a constituição apostólica Episcopalis Communio , estabelecendo novas normas para o sínodo dos bispos, normas mais compatíveis com o seu compromisso com a sinodalidade eclesial.

Isso nos leva ao próximo sínodo pan-amazônico. Este sínodo regional

  • combina o compromisso de Francisco com a sinodalidade
  • com outro princípio fundamental de seu pontificado, a subsidiariedade eclesial.

Esse princípio sustenta que

  • as questões eclesiais são mais bem tratadas a nível local,
  • com a “autoridade superior” intervindo apenas quando o bem da igreja universal o exige.

 

Queimadas na floresta amazônica fotografadas do espaço pelo satélite geoestacionário GOES-16 de agosto. (CNS / Reuters / NASA, NOAA)

 

Mas por que pôr o  foco nesta região remota da América do Sul?

* A primeira razão foi indicada na encíclica do papa, Laudato Si ‘, sobre os cuidados com a nossa casa comum”.

  • Nela, o papa destacou a importância global da bacia amazônica como um dos dois pulmões pelos quais nosso planeta deve respirar.

Nesta encíclica, ele também denunciou as políticas devastadoras de desmatamento dos principais países da região.

* A segunda razão, para um papa que manifesta claramente a sua preocupação com os direitos dos povos indígenas,

  • é que este sínodo chamaria a atenção do mundo para uma região que viu os povos indígenas serem  espoliados das suas terras e dos  seus direitos à  autodeterminação.  
  • Estes povos foram muitas vezes  vítimas da droga e do tráfico humano.
  • Além disso, existem mais de 100 comunidades indígenas nessa região que estão ” voluntariamente isoladas “ do resto do mundo; a sua frágil existência está agora ameaçada.

Francisco está comprometido com uma visão poliédrica da igreja e da sociedade, onde diferenças culturais genuínas não ameaçam, mas enriquecem uma autêntica consciência global.

 

O Papa Francisco é recebido por um membro de um grupo indígena da região amazônica durante uma reunião no Coliseo Regional Madre de Dios, em Puerto Maldonado, Peru, em 19 de janeiro de 2018 (CNS / Reuters / Alessandro Bianchi)

 

Os católicos daquela região

  • estão enfrentando um tremendo  desafio à sua vida sacramental,
  • já que a proporção entre sacerdotes e pessoas católicas, em algumas sub-regiões, é de  1 para 16.000.

É esta situação que

  • levou o  instrumentum laboris , o documento de trabalho preparado antes do sínodo,
  • a aventar a possibilidade de ordenação de  viri probati ,
  • ou seja, de homens maduros e casados, como sacerdotes.

Ao mesmo tempo, o documento

  • apela para o estabelecimento de novos ministérios mais adequados às necessidades das igrejas locais da região.
  • Reconhece especificamente os muitos carismas das mulheres na igreja
  • e pede uma a maior inclusão delas na liderança da igreja.

Este último ponto levou alguns a se perguntarem se a questão das mulheres diaconisas também poderia ser colocada.

A provável discussão de novas necessidades ministeriais na igreja amazônica

  • reforça ainda mais o compromisso do papa com a subsidiariedade, ou “descentralização”.
  • Ele não está inclinado a propor soluções abrangentes para os problemas pastorais do ponto de vista, distante, do Vaticano;
  • ele prefere que as igrejas locais resolvam esses problemas por conta própria
  • e, quando necessário, busquem permissão de Roma para a implementação criativa de soluções locais.

 

Para muitos católicos dos EUA, o próximo Sínodo pode parecer que tenha pouca relevância.  Contudo, não podemos ignorar o fato de que a atenção que o sínodo deve dar

  • às mudanças climáticas,
  • aos direitos dos migrantes e das pessoas deslocadas
  • e à oportunidade de inovação regional em aspectos-chave da prática pastoral,

são todos desafios à agenda de uma minoria católica bem financiada que se tem oposto persistentemente a Francisco.

Essa minoria vocal juntou  um perigoso integralismo católico, que  se opõe

  • à necessária inovação pastoral
  • e ao legítimo desenvolvimento doutrinal,
  • com um repúdio Trumpiano da ciência da mudança climática e dos direitos dos migrantes e refugiados.

Esse sínodo poderia ajudar a igreja norte-americana a repudiar a agenda do campo vocal anti-Francisco, lembrando-nos que a única saída do atoleiro escandaloso em que nossa igreja se encontra está na visão humilde e missionária deste Papa sul-americano.

 

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Richard Gaillardetz

Fonte: https://www.ncronline.org/news/environment/expect-north-american-church-learn-pan-amazonian-synod?clickSource=email

 

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