Desmatada e aquecida, Amazônia perde até 50% da capacidade de reciclar água

“Devido ao desmatamento atual, que já cobre quase 20% da Amazônia brasileira, e à degradação florestal que pode estar afetando uma área muito maior, a Amazônia já perdeu de 40% a 50% da sua capacidade de bombear e reciclar a água”
Queimadas em Rondônia, dentro da Floresta Amazônica, registrada pelo Greenpeace - Fernanda Ligabue/Greenpeace - 25.ago.2019

Carlos Madeiro – 05/09/2019

 – Queimadas em Rondônia, dentro da Floresta Amazônica, registrada pelo Greenpeace – Imagem: Fernanda Ligabue/Greenpeace – 25.ago.2019

“É como se o coração de uma pessoa tivesse a metade de suas células mortas ou doentes e, portanto, não conseguisse mais impulsar o sangue pelo corpo todo.

As partes do corpo que não recebem sangue ou que recebem menos ou mais lentamente morrem. Isso é o que aguarda os pampas úmidos argentinos e as terras atualmente mais produtivas do Sudeste e do Centro-Oeste do Brasil, além da Bacia do Prata”.

Segundo o estudo, a influência humana é mais decisiva do que causas naturais nas mudanças sentidas na Amazônia.

“Devido ao desmatamento atual, que já cobre quase 20% da Amazônia brasileira, e à degradação florestal que pode estar afetando uma área muito maior, a Amazônia já perdeu de 40% a 50% da sua capacidade de bombear e reciclar a água”, afirma o estudo.

O trabalho é assinado pelos pesquisadores José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), e Carlos Souza Júnior, do Imazon.

“É como se o coração de uma pessoa tivesse a metade de suas células mortas ou doentes e, portanto, não conseguisse mais impulsar o sangue pelo corpo todo. As partes do corpo que não recebem sangue ou que recebem menos ou mais lentamente morrem. Isso é o que aguarda os pampas úmidos argentinos e as terras atualmente mais produtivas do Sudeste e do Centro-Oeste do Brasil, além da Bacia do Prata”, completa.

Temperatura aumenta

Segundo os dados coletados na Amazônia, entre 1949 e 2017 houve um aumento médio na temperatura entre 0,6 ºC a 0,7 ºC.

“O ano de 2017 [foi] o mais quente desde meados do século 20.”

Pós-doutor em modelagem climática pela Nasa (a agência espacial norte-americana) e pela Universidade Columbia, José Marengo explica que o aumento médio apontado pode até parecer pequeno para um leigo, mas já é suficiente para causar impactos.

“Vemos o que aconteceu no fenômeno El Niño, com muita seca em 2016 e grande concentração de queimadas”, conta.

 

Naquele ano, a região Norte sofreu com uma das maiores secas de sua história recente. O rio Acre, por exemplo, atingiu seu menor nível desde que começaram as medições, em 1970. Várias cidades decretaram emergência.

“Talvez a população se adapte, ligando um ar-condicionado, se refrescando mais com a água. Mas a vegetação não consegue: ela morre e queima. Boa parte do material que agora está queimando pode ter sido material que não queimou em 2016”, explica Marengo.

Somente em agosto, as queimadas na Amazônia atingiram uma área equivalente a 4,2 milhões de campos de futebol, o maior valor para o mês desde 2010. Os municípios mais desmatados são aqueles que registram maior número de focos de incêndio.

Marengo diz que as queimadas na Amazônia contribuem para aumentar da emissão e concentração de CO2 na atmosfera —o que leva ao aquecimento global.

“Todas as medidas propostas pelo Acordo de Paris visam reduzir a emissão do CO2. A vegetação que queima aumenta a concentração de gases para o efeito estufa. Um detalhe é que, neste ano, as queimadas não têm a ver com motivos ambientais”, diz.

Previsão de caos

Se o aquecimento seguir a tendência atual —sem uma ação para conter o desmatamento, as queimadas e a degradação—, a situação da Amazônia tende a se agravar a níveis críticos até o fim deste século.

  • “A previsão dos modelos climáticos para a Amazônia apresentados pelo IPCC apontam para um aumento na temperatura média do ar projetado até o final do século 21 bem acima de 4º C e redução nas chuvas de até 40% na Amazônia.
  • Essa mudança na temperatura do ar tem potencial para gerar grandes desequilíbrios em ecossistemas vitais para a sobrevivência da humanidade”, afirma.

José Marengo faz um alerta preocupante caso a temperatura tenha essa alta.

“Acima dos 4º C, segundo os modelos que temos, a floresta pode colapsar. Significaria que o volume de CO2 que a floresta absorve hoje seria liberado para o ar. Basicamente, chegaríamos a um ponto de não retorno, e não só a floresta, mas outros sistemas poderiam colapsar. Haveria alterações no ciclo hidrológico global e haveria a possibilidade de extinção das espécies”, diz.

“Seria um caos, um mundo diferente, com todo o sistema muito afetado. Os recursos naturais também estariam bem comprometidos. Teríamos doenças, queda na qualidade da água, dos alimentos”, explica.

Em agosto, relatório do IPCC fez um alerta citando que a produção de alimentos está ameaçada pelo aquecimento da Terra e pela redução de áreas cultiváveis.

Uma das preocupações principais é que hoje a área desmatada chega 1 milhão de km², —apenas 15% dessa área (150 mil km²) está em recuperação. Caso isso avance, o regime de chuvas em outras regiões será afetado.

“Modelos indicam que as secas no Sudeste ficarão mais intensas a partir de 40% de desmatamento na Amazônia”, alerta o estudo.

 

23.ago.2019 - Imagem aérea de queimadas na cidade de Altamira, no Pará - Victor Moriyama/Greenpeace
 23.ago.2019 –  Imagem aérea de queimadas na cidade de Altamira, no Pará – Imagem: Victor Moriyama/Greenpeace

Informação semelhante foi dada pelo meteorologista Humberto Barbosa, primeiro cientista brasileiro a chefiar um capítulo de relatório do IPCC. Ele alertou em entrevista ao UOL que

Ele ainda lembrou da crise hídrica de São Paulo, em 2013, causada pela redução inesperada das chuvas na região.

Segundo o pesquisador, a floresta ajuda a evaporar água, assim como a umidade dos oceanos.

“Se o cenário de aquecimento continuar, poderíamos ter chuvas mais intensas em muitas áreas e seca muito extrema em outros pontos; ou os rios a terem níveis baixíssimos, assim como lagos e oceanos. A floresta faz parte do clima”, completa Marengo,

Ciência alerta

Para Marengo,

  • a ciência brasileira está estudando e alertando sobre o problema já há algum tempo,
  • assim como indicando caminhos para evitar o pior cenário.

“A ciência brasileira está fornecendo todos os conhecimentos científicos necessários para o governo tomar decisões. A prevenção é importante. E não só com informações nossas [do Cemaden], mas de outros centros de pesquisa. As evidências científicas estão aí. Esperamos que o governo se sensibilize”, diz.

Segundo ele, dados produzidos no Brasil, como os do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), sobre o número de queimadas e desmatamento são fundamentais para ajudar na política pública de prevenção de mudanças ambientais severas.

“O Inpe faz isso há mais de 30 anos, mas não só ele: a comunidade científica também publica revistas científicas, faz relatórios. Tudo isso produzimos. É o que nos compete, como cientistas, fazer. Ao governo cabe tomar a frente nas questões de prevenção, fiscalização, controle e criar as leis”, afirma.

 

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