Teólogo e ativista sócio-político-religioso brasileiro vê os incêndios na Amazônia como “apocalípticos, dantescos”

Brazilian advocate sees burning Amazon as ‘apocalyptic, Dantesque’

 

Inés San Martín – 26 de agosto de 2019

Tradução: Orlando Almeida

Nuvens de fumaça perto de Humaitá, no Brasil, durante um incêndio na floresta pluvial da Amazônia, em 17 de agosto de 2019.

Em 22 de agosto,líderes do Conselho Episcopal Latino-Americano pediram uma ação internacional para salvar a floresta enquanto os incêndios continuavam a alastrar-se.  

(Crédito: foto do CNS / Ueslei Marcelino, Reuters.)

 

ROMA – “A nossa casa está ardendo”, foi provavelmente a frase mais citada do pedido do presidente francês Emanuel Macron aos sete países mais poderosos do mundo para que incluíssem os incêndios que estão devastando a floresta amazônica, a fonte de 20% do oxigênio do planeta, na agenda do G7 deste final de semana.

Na sexta-feira, Crux conversou com o brasileiro Roberto Malvezzi, membro da equipe de assessores da REPAM1 Brasil, que está desempenhando um papel fundamental na preparação da próxima cúpula dos bispos sobre a  bacia Amazônica, a ser realizada em Roma em outubro próximo.

Este leigo definiu a situação que se tornou viral na semana passada, após quase três semanas de incêndios, como um “fenômeno apocalíptico, dantesco, terrível”.

Antes de a entrevista ser realizada, cerca de 1000 hectares haviam sido queimados na Bolívia, ao mesmo tempo que “metade do Brasil” estava em chamas, segundo cientistas, que estimaram que a devastação aumentava cerca de três campos de futebol a cada  minuto.

 


malvezzi

Roberto Malvezzi (“Gogó”), nasceu em 1953, no município de Potirendaba, São Paulo. É graduado em Estudos Sociais e em Filosofia pela Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, em São Paulo. Também é graduado em Teologia pelo Instituto Teológico de São Paulo.

Chegou ao interior da Bahia em Janeiro de 1979, para ficar um mês nas comunidades rurais de Campo Alegre de Lourdes, divisa com o Piauí. Era um trabalho organizado pela paróquia da cidade…

Em janeiro de 1980, voltou para morar. Ficou em Campo Alegre por quatro anos como voluntário. Então, incorporou-se definitivamente nas Pastorais Sociais da Diocese de Juazeiro, tendo sido Coordenador Nacional por aproximadamente 6 (seis) anos da Comissão Pastoral da diocese. Atualmente, reside em Juazeiro-BA e atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.             Fonte: https://robertomalvezzi.com.br/perfil/    – NdR


 

A ENTREVISTA

Crux : Que impacto poderiam causar os incêndios na população amazônica?

Malvezzi: Os impactos das queimadas recaem sobre toda a comunidade de vida amazônica:

  • a vegetação,
  • os animais
  • e todas as pessoas que habitam este vasto território.

Nestes espaços há  a extinção de toda a vegetação queimada, os  animais também são queimados, os seus habitats são queimados e frequentemente famílias humanas têm de sair dos seus lugares, ou respirar a fumaça que fica suspensa no ar durante dias.

Mas é importante dizer que o impacto vai muito além do território da Amazônia. Ventos do norte empurram os famosos rios voadores2 para  o sul do continente, até ao norte da Argentina, ao Uruguai e ao Paraguai. O caso é tão sério que,

  • em plena luz do dia,
  • a cidade de São Paulo virou noite
  • devido à espessa camada de fumaça misturada com a poluição e com  outras nuvens naturais.

Surgiu um fenômeno verdadeiramente apocalíptico, dantesco, terrível.

 

Como podem os Católicos de todo o mundo ajudar?

O problema diz respeito a toda a humanidade, toda a comunidade de vida que habita o planeta Terra deve preocupar-se. O primeiro passo é sempre

  • tomar consciência,
  • tornar-se irmãos na solidariedade,
  • para divulgar a causa da Amazônia nas dioceses,nas paróquias, nas comunidades,
  • para fomentar debates e protestar contra as políticas do governo brasileiro,
  • assim como para protestar contra os agentes econômicos das empresas do agronegócio e da mineração. 

De fato, há muitas ações a serem  empreendidas aqui,

  • como pressionar as empresas com sedes na Europa, nos Estados Unidos ou em outras partes do mundo
  • que também são parte do processo de destruição da floresta pluvial amazônica.

Quem quer que compre soja e carne brasileiras, quem quer que  importe madeira ou minério, também tem responsabilidade no que está acontecendo.

Mas, como o [falecido arcebispo] Helder Câmara já dizia,

  • embora como cristãos nós não sejamos melhores do que ninguém,
  • devemos ser mais responsáveis.

O Papa Francisco insiste sobre a necessidade de cuidar da nossa Casa Comum.

  • Ele chama a  uma conversão ecológica,
  • para a superação da cultura da morte
  • e da cultura do descarte,

instando-nos a aprender a contemplar o evangelho da criação.

É fundamental que os cristãos sejam mais responsáveis​​. No entanto, precisamos agir em conjunto com todas as pessoas de boa vontade, com os que buscam a justiça e com os que têm  sensibilidade para com os elementos vitais da natureza, onde tudo está interconectado.

 

O que você diria àqueles que não acreditam na mudança climática, muitos dos quais são cristãos, sobre a importância da Amazônia para a sobrevivência da humanidade?

Há cinco grandes presentes da Amazônia para grande parte da humanidade e para toda toda a Terra:

Primeiro, o ciclo da água. No que se refere aos latino-americanos que vivem a leste dos Andes, incluindo os estados do sudeste e do sul do Brasil, assim como  o norte da Argentina, o Uruguai e o Paraguai,

  • precisamos saber que sem a Amazônia não há chuva e que essa região se tornará deserta,
  • como outras regiões do mundo, na mesma latitude, como o deserto de Atacama, o deserto da Namíbia e o deserto da Austrália.

O nosso Cone Sul

  • só não é deserto
  • porque os ventos do norte empurram as nuvens,
  • da floresta tropical para o sul.
  • Portanto, para uma grande parte do mundo e da humanidade, só existe vida se existir a floresta amazônica.

Segundo, o ciclo do carbono. A floresta captura bilhões de toneladas de carbono que, uma vez liberado pelas queimadas, vai aumentar o efeito estufa, embora a queima da floresta não seja a única causa.

  • Hoje é incorreto dizer que a Amazônia é o pulmão do mundo,
  • porque o seu metabolismo é contínuo e se realimenta.
  • Mas a quantidade de carbono capturada pelas árvores é fabulosa
  • e, quando liberada, entra na atmosfera e aumenta o aquecimento global.

Terceiro, a regulação do clima da Terra.

  • Ao liberar umidade,
  • e ao fixar uma grande quantidade de carbono,
  • a Amazônia influencia o clima de grande parte da Terra,
  • particularmente o continente latino-americano,
  • e contribui para a contenção do aquecimento global.

Quarto, a biodiversidade. Existem dados científicos que nos mostram que

  • o bioma amazônico tem a maior biodiversidade por metro do planeta.
  • Esta biodiversidade engloba essências, princípios medicinais, alimentos, etc.
  • até hoje não devidamente estudados e muito menos catalogados.
  • Num mundo cada vez mais doente, esta biodiversidade pode ser o ingrediente ativo necessário para muitos medicamentos.

Quinto, a sociodiversidade.

  • Durante milênios,os povos nativos da floresta conseguiram viver nela sem a destruir.
  • Assim, como na visão do Papa Francisco,
  • esses povos possuem uma profunda e frutífera sabedoria que pode ajudar a humanidade contemporânea a encontrar um novo paradigma de civilização,
  • onde possamos viver bem entre nós e com a natureza da qual fazemos parte.

 

Vendo a destruição que o fogo deixa no seu rasto, o sínodo torna-se mais relevante?

O Sínodo é realmente um Kairós, um sopro do Espírito.

Parece que foi programado pelo Espírito Santo para a hora certa no lugar certo. É neste exato momento, quando a destruição se intensifica, que o sínodo acontece. Quase 100.000 pessoas foram consultadas antes da reunião dos bispos.

O mote é “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral”.

Ou a humanidade

  • muda do pensamento binário para o pensamento complexo, onde tudo está interconectado, numa ecologia integral,
  • ou destruiremos os fundamentos da vida.

Vale sempre lembrar que

  • a Terra existe sem nós,
  • mas, para estarmos aqui e agora,
  • ela teve de ser preparada como um útero materno, de modo que  todas as condições para a existência do ser humano fossem satisfeitas.

Não podemos destruir a Terra, mas podemos destruir as condições que a vida nos oferece.

Dizem que sabemos quando um gesto profético começa, mas nunca sabemos onde termina. O sínodo é uma profecia de que vemos o começo, mas não sabemos quais serão as suas consequências e quais serão os seus frutos.

Eu tenho apenas uma convicção: eles serão abundantes e generosos como a própria Amazônia.

1 REPAM- Rede Eclesial Pan-Amazônica.

2  Rios voadores  (ver artigo da Funbio, também anexado a esta mensagem).

 

mm

Inés San Martín – 

https://cruxnow.com/interviews/2019/08/26/brazilian-jesuit-sees-burning-amazon-as-apocalyptic-dantesque/

 

 

 

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