O holocausto da Amazônia põe a civilização em alerta. Artigo de Marina Silva

Marina Silva – 22 Agosto 2019 –Foto: Uol Notícias

 “A floresta está sendo queimada por uma mistura de ignorância com interesses truculentos.
É necessário enfrentar a emergência ambiental no Brasil, com a coragem e o sentido de urgência que a situação nos impõe, para evitar que cheguemos ao lugar sem volta. Declare-se o Brasil em estado de emergência ambiental.”

O artigo é de Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente, publicado em seu site e reproduzido por El País, 21-08-2019.

Eis o artigo.

Quando a noite caiu sobre a cidade de São Paulo, às 3 da tarde, sendo uma de suas possíveis causas o encontro da frente fria com a fumaça das queimadas, muita gente se assustou com o que parecia um anúncio do fim dos tempos. Era algo parecido, se recuperarmos o sentido original da palavra holocausto: tudo queimado, no sacrifício dos tempos antigos entre os hebreus.

Com duas diferenças:

  • uma, que a holahdo sacrifício judaico tinha o sentido de reparação, visava uma expiação geral dos pecados;
  • outra, que depois do nazismo sacrificar milhões de judeus, a palavra ganhou um significado mais sinistro,
  • e passou a ser tomada como qualquer grande e sistemática destruição — sem importar a causa — até o extermínio.

Eis o que acontece hoje: o holocausto da Amazônia.

Desde muito jovem me dediquei a pensar o significado da floresta, para além da economia e das dimensões materiais. Em 15 de julho de 2008, retornando ao Senado logo após deixar o Ministério do Meio Ambiente, publiquei um artigo intitulado Atrás de uma borboleta azul em que lembrei minha identificação irredutível com as milhões de pessoas que nascem e vivem na floresta. Dizia:

  • “florestas não são apenas estatísticas. Nem apenas objeto de negociações, de disputa política, de teses, de ambições, de pranto.
  • Antes de mais nada, são florestas, um sistema de vida complexo e criativo.
  • Têm cultura, espiritualidade, economia, infraestrutura, povos, leis, ciência e tecnologia.
  • É uma identidade tão forte que permanece como uma espécie de radar impregnado nas percepções, no olhar, nos sentimentos, por mais longe que se vá, por mais que se aprenda, conheça e admire as coisas do resto do mundo.”

Passou-se mais uma década, mas mantenho o sentimento.

Agora vejo novamente o fogo matando a beleza da Amazônia e destruindo a perfeição de sua natureza. Lamento a perda de cada cheiro, cada cor, cada raiz, cada animal, cada planta, cada textura que nunca mais voltará.

  • E embora não espere sensibilidade de quem não conhece a riqueza que se perde,
  • sinto que é necessário alertar a todos e protestar contra um Governo
  • que passa a senha da destruição,
  • que torna a devastação fora de controle e causa enormes prejuízos para todos.
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Tamanduá cego, fugindo de queimada na Amazônia/ Foto: Aranquém Alcântara

 

Estamos vivendo um momento de barbárie ambiental no Brasil, promovida pelo Governo Bolsonaro.

  • Por mais que se alerte,
  • por mais que se mostre evidências,
  • por mais que se clame para evitar o caos ambientaleconômicopolíticosocial,
  • o Governo não mostra preocupação, apenas sua cumplicidade com a destruição.

É necessário, no entanto, enfrentar a emergência ambiental no Brasil, com a coragem e o sentido de urgência que a situação nos impõe, para evitar que cheguemos ao lugar sem volta, em que nem por hipótese devemos chegar,

  • o da inviabilização sistêmica da floresta amazônica
  • pelas ações predatórias que desequilibram as condições de sua existência.

É necessária a mobilização de todos que não querem ter, em suas genealogias, o DNA da barbárie:

  • academia,
  • movimento socioambiental,
  • empresariado,
  • governos estaduais e municipais,
  • juventudes,
  • líderes políticos.

De forma plural e suprapartidária, sem qualquer politicagem, é preciso dizer e dar um basta.

Amazônia está sendo queimada

  • por uma mistura de ignorância
  • com interesses truculentos.

O Governo

  • está inaugurando um tempo de delinquência livre,
  • em que se pode agredir a natureza e as comunidades sem receio de punição.

Não negligenciemos o prenúncio, como no passado, pois o que ameaça refazer-se é,

  • tanto pelo resultado, “tudo queimado”,
  • quanto pelo caráter sistemático da destruição,
  • a tragédia das tragédias: o Holocausto.

O povo brasileiro, sua parcela sensível e consciente, deve responder em nome dos povos antigos e das gerações futuras, da Amazônia e de toda a Natureza. Atendendo aos legítimos interesses da sociedade, da economia e da civilização humana, declare-se o Brasil em estado de emergência ambiental.

 

Marina Silva

 

Fonte:

 

 

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