A China tem uma alternativa ao neoliberalismo

Como país constrói uma economia de mercado regulada. Por manter finanças e moeda sob controle público, investe em infraestrutura, reduz rapidamente a pobreza e resiste a crises. O que esta experiência pode ensinar ao resto do mundo

Quando o banco central dos EUA (o Federal Reserve, Fed) cortou as taxas de juros na semana passada, comentaristas ficaram se perguntando sobre o porquê.

Segundo dados oficiais, a economia estava se recuperando, o desemprego estava abaixo de 4% e o crescimento do produto interno bruto estava acima de 3%. Pelo raciocínio do próprio Fed, o que se esperaria era, ao contrário, um aumento das taxas . Os especialistas de mercado explicaram tratar-se de uma guerra comercial e de uma guerra cambial.

Outros bancos centrais estavam cortando suas taxas, e o Fed teve que segui-los para evitar que o dólar ficasse supervalorizado em relação a outras moedas. 

A teoria é que um dólar mais barato tornará os produtos norteamericanos mais atraentes nos mercados externos, ajudando as bases industriais e a mão-de-obra do país.

 

No fim de semana, o presidente Trump foi além dos cortes de juros, ameaçando impor, em 1º de setembro, uma tarifa suplementar de 10% sobre produtos chineses no valor de 300 bilhões de dólares.

A China respondeu

  • suspendendo as importações de produtos agrícolas dos EUA por empresas estatais
  • e deixando cair o valor do yuan.

Na segunda-feira, o índice Dow Jones Industrial Average caiu quase 770 pontos, seu pior dia em 2019. A guerra prosseguia.

O problema é que as guerras cambiais não têm vencedores. Isso foi demonstrado políticas de “peça a seu vizinho” [“beggar-thy-neighbor”] dos anos 1930, que apenas aprofundaram a Grande Depressão. Como o economista Michael Hudson observou em uma entrevista concedida em junho à jornalista Bonnie Faulkner,

  • tornar os produtos norte-americanos mais baratos no exterior
  • pouco contribuirá para a economia do país,
  • que não tem mais uma base de produção competitiva ou produtos para vender.

Os trabalhadores de hoje estão em grande parte nas indústrias de serviços – motoristas de táxi, funcionários de hospitais, agentes de seguros e afins. Um dólar mais barato no exterior só faz com que os bens de consumo no Walmart e as matérias-primas importadas para as empresas dos EUA fiquem mais caras.

O que é realmente desvalorizado, quando a cotação de uma moeda cai, diz Hudson,

  • são o preço
  • e as condições de trabalho de seus assalariados.

A razão pela qual os trabalhadores norte-americanos não podem competir com estrangeiros

  • não é a sobrevalorização do dólar.
  • São os custos maiores de moradia, educação, serviços médicos e transporte.
  • Nos países concorrentes, esses custos são geralmente subsidiados pelo Estado.

O principal concorrente dos EUA na guerra comercial é obviamente a China, que subsidia não apenas os custos dos trabalhadores, mas também os custos de suas empresas. O governo controla 80% dos bancos, que fazem empréstimos em condições favoráveis a empresas nacionais, especialmente estatais.

  • Se as empresas não puderem pagar os empréstimos,
  • nem os bancos nem as empresas são levadas à falência,
  • pois isso significaria perder empregos e fábricas.

 

Os chineses provaram a eficácia do seu sistema bancário público no apoio às suas indústrias e seus trabalhadores. Os EUA poderiam agradecê-los por testar o modelo Os chineses provaram a eficácia do seu sistema bancário público no apoio às suas indústrias e seus trabalhadores. Os EUA poderiam agradecê-los por testar o modelo. Foto: DAQUI

 

Os empréstimos inadimplentes são apenas contabilizados nos balanços ou caducam. Nenhum credor privado é ferido, uma vez que o credor é o governo e os empréstimos foram criados nos livros dos bancos, em primeiro lugar (seguindo, aliás a prática bancária padrão a nível global). Jeff Spross analisou o fenômeno em detalhes, em um artigo da Reuters de maio de 2018 intitulado “Os bancos chineses são grandes. Muito grandes?

Como o governo chinês é dono da maioria dos bancos, e imprime a moeda, tecnicamente

  • pode manter esses bancos vivos
  • e emprestando para sempre.

Pode soar estranho dizer que os bancos da China nunca entrarão em colapso, não importando o quão absurdas sejam suas posições de empréstimo. Mas os sistemas bancários são assim: lidam apenas com o fluxo de dinheiro.

Spross citou Richard Vague, ex-executivo-chefe de banco e presidente da Governor’s Woods Foundation, de Filadélfia, que explicou:

“A China comprometeu-se com um alto nível de crescimento. E crescimento depende fundamentalmente do financiamento. Pequim vai

  • “entrar e determinar a lucratividade, o capital,
  • sanar a dívida ruim dos bancos estatais…
  • por todos os meios que você e eu não veríamos adotados nos Estados Unidos”.

Agitação política e trabalhista é um grande problema na China.

Spross escreve que o governo

  • mantém a população satisfeita
  • ao estimular crescimento econômico alto
  • e distribuir seus frutos entre os cidadãos.

Cerca de dois terços da dívida chinesa são devidos apenas pelas corporações, que também são em grande parte estatais. O crédito corporativo é, portanto, uma forma indireta de política industrial financiada pelo governo – não por meio de impostos, mas pelo privilégio exclusivo que os bancos têm de criar dinheiro em seus balanços.

A China considera que

  • este é um modelo bancário melhor do que o sistema ocidental privado,
  • focado em lucros de curto prazo para seus acionistas.

Mas os formuladores de políticas dos EUA [e de quase todos os países ocidentais]

  • consideram os subsídios que a China oferece a suas empresas e trabalhadores
  • como “práticas comerciais desleais”.

Eles querem que a China renuncie aos subsídios do Estado e a outras políticas protecionistas para nivelar a competição. Mas Pequim argumenta que as reformas exigidas equivalem a um “golpe de Estado econômico”.

Como diz Hudson:

“Essa é a luta que Trump tem contra a China. Ele quer que os bancos governem a China e tenham um “livre” mercado a seu dispor. Ele diz que

  • a China enriqueceu nos últimos cinquenta anos
  • por meios injustos, com ajuda do governo e empreendimento público.

Na verdade, ele quer que os trabalhadores chineses sintam-se tão ameaçados e inseguros quanto os norte-americanos. Eles devem se livrar de seus transportes públicos. Eles devem se livrar de seus subsídios. Eles devem deixar muitas de suas empresas irem à falência para que as corporações estadunidenses possam comprá-las. Eles devem ter o mesmo tipo de mercado livre que destruiu a economia dos EUA.

Num artigo publicado em 1º/8, na revista “Foreign Affairs”, Kurt Campbell e Jake Sullivan chamam isso de “uma emergente disputa de modelos”.

 

Um Guerra Fria Econômica

Para entender o que está acontecendo, vale olhar um pouco para a História.

  • O modelo de livre mercado esvaziou a base industrial dos EUA no início da era Thatcher / Reagan, dos anos 70 e 80,
  • quando as políticas econômicas neoliberais se consolidaram.

Enquanto isso,

O Estado

  • determinou as prioridades,
  • encomendou o trabalho
  • e contratou empresas privadas para executá-lo.

O modelo superou os defeitos do sistema comunista, que havia colocado a propriedade e o controle direto nas mãos do Estado.

O sistema japonês de mercado guiado pelo Estado foi eficaz e eficiente – tão eficaz que foi considerado uma ameaça à existência do modelo neoliberal baseado em dívida e em “mercados livres”, promovido pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

]Segundo o autor William Engdahl em A Century of War,

  • no final da década de 1980 o Japão era considerado a principal potência econômica e bancária do mundo.
  • Seu modelo guiado pelo Estado também provou ser altamente bem-sucedido na Coreia do Sul e nas outras economias dos “Tigres Asiáticos”.

Quando a União Soviética entrou em colapso no final da Guerra Fria,

  • o Japão propôs seu modelo aos antigos países comunistas,
  • e muitos começaram a considerá-lo, bem como o exemplo da Coreia do Sul,
  • como alternativas viáveis ao sistema de livre mercado dos EUA.
  • O capitalismo guiado pelo Estado assegurava o bem-estar geral sem destruir o incentivo capitalista.

Engdahl escreveu:

“As economias dos Tigres Asiáticos criaram um grande embaraço para o modelo de livre mercado do FMI. Seu sucesso em conciliar empresas privadas com um papel econômico forte do Estado foi uma ameaça à agenda do Fundo. Enquanto os Tigres Asiáticos demonstrassem sucesso com um modelo baseado em um forte papel estatal, os antigos estados comunistas, e não apenas eles, poderiam argumentar contra o projeto extremista representado pelo FMI.

No leste da Ásia, durante a década de 1980, taxas de crescimento econômico anual de 7-8%, segurança social crescente, educação universal e alta produtividade do trabalho foram todas apoiadas por orientação e planejamento estatal, embora em uma economia de mercado – uma forma asiática de paternalismo benevolente”.

  • Assim como os EUA entraram em uma Guerra Fria para destruir o modelo comunista soviético,
  • os interesses financeiros ocidentais começaram a destruir essa ameaça emergente asiática. Ela foi desarmada quando economistas neoliberais ocidentais persuadiram o Japão e os Tigres Asiáticos a adotar um sistema de livre mercado e abrir suas economias e empresas a investidores estrangeiros.
  • Os especuladores ocidentais então derrubaram os países vulneráveis, um por um, na “crise asiática” de 1997-8.

Somente a China permaneceu como uma ameaça econômica ao modelo neoliberal ocidental, e essa ameaça existencial é o alvo das guerras comerciais e monetárias hoje.

Se não se pode vencê-los…

Em seu artigo de 1º/8 na Foreign Affairs, intitulado “Competição sem catástrofe”, Campbell e Sullivan escrevem que

  • a tentação é comparar essas guerras comerciais econômicas com a Guerra Fria contra a Rússia;
  • mas a analogia é inadequada:

“A China é hoje uma concorrente

  • mais formidável economicamente,
  • mais sofisticada diplomaticamente
  • e mais flexível ideologicamente do que a União Soviética jamais foi.

E, ao contrário da União Soviética, a China está profundamente integrada ao mundo e entrelaçada com a economia dos EUA.”

Ao contrário do sistema comunista soviético, não se pode esperar que o sistema chinês “desmorone sob seu próprio peso”.

  • Os EUA não podem esperar, e nem deveriam querer, destruir a China, dizem Campbell e Sullivan.
  • Em vez disso, devem buscar um estado de “coexistência em termos favoráveis aos interesses e valores dos EUA”.

A implicação é que

  • a China, sendo forte demais para ser eliminada do jogo como a União Soviética foi,
  • precisa ser coagida ou bajulada a adotar o modelo neoliberal
  • e abandonar o apoio estatal de suas indústrias e a propriedade de seus bancos.

Mas o sistema chinês, embora obviamente não seja perfeito, tem um histórico impressionante de sustentar o crescimento e o desenvolvimento a longo prazo.

Enquanto a base manufatureira dos EUA estava sendo solapada sob o modelo de livre mercado, a China estava sistematicamente construindo sua própria base de manufatura e investindo pesadamente em infraestrutura e tecnologias emergentes, e o estava fazendo com o crédito gerado por seus bancos estatais.

  • Em vez de tentar destruir o sistema econômico da China,
  • poderia ser mais “favorável aos interesses e valores dos EUA”
  • adotar suas práticas industriais e bancárias mais eficazes.

Os EUA

  • não podem vencer uma guerra cambial através da adoção de medidas de desvalorizações cambiais competitivas que desencadeiam uma “corrida para o fundo do poço”.
  • E não podem vencer uma guerra comercial instalando barreiras comerciais competitivas que simplesmente os afastem dos benefícios do comércio cooperativo.

Mais favorável aos interesses e valores norte-americanos do que a guerra com seus parceiros comerciais seria

  • cooperar no compartilhamento de soluções,
  • incluindo soluções bancárias e de crédito.

Os chineses provaram a eficácia do seu sistema bancário público no apoio às suas indústrias e seus trabalhadores. Em vez de vê-lo como uma ameaça existencial, os EUA poderiam agradecê-los por testar o modelo e obrigá-los a uma virada.

 

Fonte:  https://outraspalavras.net/mercadovsdemocracia/a-asia-resiste-ao-consenso-de-washington/

 

 

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>