A história do bispo Franco Mulakkal acusado de estuprar repetidamente uma freira e o caso da Irmã Lúcia Kalapura

IL SISMOGRAFO – 16/08/2019

Foto: DAQUI
Tradução: Orlando Almeida
Há um ano, cinco Irmãs Clarissas Franciscanas, numa praça em Kochi, na Índia, fizeram uma manifestação pública para denunciar o bispo, mons. Mulakkal, acusado de graves e repetidas violências sexuais contra uma religiosa com uma deficiência física parcial

 

 

( LB-RC)  No estado de Kerala –  onde os católicos são 20% da população –  até há poucos dias atrás, havia uma mulher de 53 anos, chamada Lucy Kalapura, que por algumas décadas foi uma religiosa da Congregação das Clarissas Franciscanas.

Mas, desde o dia 5 de agosto, a situação é outra,

  • pois a superiora desse instituto religioso na Índia, a irmã Anne Joseph, decidiu expulsá-la da Congregação, acusando-a
  • de ter violado o voto de pobreza (ela teria comprado um carro, embora com o dinheiro fruto do seu trabalho de professora),
  • de ter publicado um livro sem a devida autorização,
  • de não ter obedecido aos pedidos feitos em algumas cartas de repreensão
  • e, mais genericamente, de ter uma vida religiosa nem sempre em harmonia com as normas do instituto religioso.

No dia 7 de agosto último, a Ir. Lucy Kalapura

  • confirmou à agência UCANews 1 a sua expulsão
  • e acrescentou que negou todas as “acusações” porque eram falsas e com segundas intenções.

Por isso – explicou depois –

“vou apresentar o meu caso à justiça civil para que o assunto seja esclarecido num tribunal independente”.

Para a grande maioria da mídia, dos analistas e dos observadores que acompanham e conhecem esse caso desde o início,

  • a expulsão da irmã Lúcia
  • pareceu mais  uma retaliação feroz e uma impiedosa vingança.

Com toda a probabilidade, a própria  superiora, Anne Joseph,

  • não está inteiramente a par  de tudo o que se esconde por trás da história e sobre as razões  que a induziram a tomar essa questionável decisão,
  • contestada por várias religiosas da Congregação.

Para a imprensa local, o que a Superiora fez é também um aviso preventivo, uma mensagem intimidadora dirigida a outras irmãs.

Na realidade, o caso da irmã Lúcia Kalapura

  • é apenas uma pequena parte, ainda que muito séria,
  • de uma história muito mais complexa, delicada e preocupante.

É uma história que diz respeito ao bispo, agora suspenso, Franco Mulakkal, de 55 anos, ordenado sacerdote em 21 de abril de 1990 e  incardinado na diocese de Jullundur, da qual o Papa Francisco o nomeou Ordinário Diocesano em 13 de junho de 2013, transferindo-o de Delhi, onde ele era Auxiliar.

 

Irmã Lúcia Kalapura

 

As acusações contra mons. Franco Mulakkal e as campanhas contra a vítima e as denunciantes

A parte final desta dolorosa história começou em setembro de 2018, um ano atrás,

  • quando a irmã Lúcia, como tantas outras religiosas de diferentes institutos femininos na Índia,
  • se tornou, por assim dizer, uma “ativista” muito corajosa de um movimento, espontâneo e cada vez maior, de pessoas consagradas,
  • contra o bispo, agora demissionário, da diocese de Jullundur (no Punjab), mons. Franco Mulakkal,
  • que segundo a Polícia – as acusações são de abril do ano passado –  teria violentado várias vezes uma freira, ex-superiora do Instituto ‘Missionárias de Jesus’.

Nas duas mil páginas da investigação policial, o bispo é acusado

  • de prisão injusta,
  • de estupros contínuos de uma mulher incapaz de dar o seu consentimento
  • e de sérios danos físicos e morais.

Durante muitos meses ninguém levou a sério a denúncia da freira estuprada no convento de Kuravilangad aonde, segundo muitos dizem,  o bispo Mulakkal costumava ir especialmente no período de 2014 a 2016.

As denúncias falam de pelo menos 13 atos carnais violentos.

A atual superiora da comunidade

  • não mostrou nenhuma solidariedade ou interesse pela tragédia que a irmã denunciou;
  • pelo contrário, ela apoiou o bispo dizendo que ele era  vítima  de  acusações mentirosas da parte da religiosa.

Em suma, também neste caso, a conduta foi a costumeira: o problema é a reclamante e não o denunciado.

bispo Franco Mulaka, acusado de estrupro repetido / Destak Jornal

Este modo de abordar  o caso tornou-se logo o mantra das autoridades eclesiásticas locais.

  • De imediato foi desencadeada quase automaticanmente,  por parte do  bispo e do seu ‘entourage’,
  • a costumeira campanha que é montada nestas ocasiões e que já vimos nos casos de pedofilia clerical,
  • e que é o descrédito sistemático da vítima.

Uma parte da imprensa, embora tenha mudado de posição  meses depois, participou desde o início da campanha contra a denunciante, contribuindo para desacreditá-la.

Chegou-se a escrever que

  • a freira não era apenas deficiente física,  mas também mental, “não-normal”,
  • razão pela qual o bispo Mulakkal, algum tempo antes, a teria destituído do cargo de Superiora do Instituto.
  • A denúncia da religiosa seria, portanto, uma “vingança” contra o seu bispo.

Nada de novo. Coisas semelhantes já tinham sido vistas em outros lugares, por exemplo, no Chile, na região de Maule,

  • com um grupo de irmãs da Congregação “Hermanas del Buen Samaritano” (Eliana Macías, Consuelo Gomez, Yolanda Tondreaux e outras)
  • expulsas depois de denunciar as violências sexuais de alguns padres.
  • Em outras cidades chilenas, também foram expulsas religiosas que tinham denunciado casos graves de pedofilia.
  • Vários desses casos foram comunicados a mons. Charles Sicluna, por ocasião das  suas duas viagens ao Chile como Enviado Especial do Santo Padre.

 

A situação jurídica do bispo indiano

Mons. Franco Mulakkal, que sempre se declarou inocente, foi preso em 21 de setembro de 2018. Em 15 de outubro de 2018, a Alta Corte de Kerala concedeu ao prelado a liberdade condicional mediante fiança. O bispo, do qual o papa Francisco aceitou, em 20 de setembro de 2018,  o pedido de afastamento temporário do governo da diocese, desde há quase 11 meses é obrigado a  obedecer rigorosamente certas condições:

  • permanência  no distrito de Kottayam,
  • retenção do passaporte de saída do país,
  • e apresentação na delegacia,  para assinar,  a cada 15 dias.

Nada se sabe ainda sobre quando o processo começará e com quais  acusações  específicas. Entretanto,

  • no próximo dia 19 de setembro ocorrerá o primeiro aniversário da incomum manifestação pública das primeiras cinco irmãs
  • contra o bispo Mulakkal na praça principal de Kochi.

 

As ameaças de fevereiro passado

Em  7 de fevereiro passado, Asia News2, destacava:

O caso da freira estuprada pelo bispo Mulakkal chocou a Igreja indiana.

  • Em setembro, a religiosa, ex-Superiora das Missionárias de Jesus,
  • denunciou o prelado pelas múltiplas violências cometidas entre 2014 e 2016 num convento de Kuravilangad, em Kottayam (Kerala).
  • Ignorada no início, a sua acusação chamou a atenção da imprensa nacional e internacional quando cinco irmãs organizaram um protesto público, apoiado por vários expoentes  católicos (um deles morreu em circunstâncias misteriosas).

No entanto,

  • após esse protesto,
  • as irmãs receberam da nova madre  Superiora ordens de transferência,
  • enquanto que elas gostariam de permanecer  em Kottayam para dar apoio à vítima.

De fato, temem que, caso se afastem, os partidários do bispo terão mão livre  para sabotar as provas”.

Depois, e  novamente a AsiaNews,  informou meses atrás que as

“cinco Irmãs Missionárias de Jesus poderiam permanecer ao lado da vítima até à conclusão do processo. Isso foi garantido por uma carta de Mons. Agnelo Gracias, bispo auxiliar emérito de Mumbai que, desde setembro passado, é também o administrador apostólico da diocese de Jalandhar”.

Mons. Gracias acolheu os  pedidos das irmãs e escreveu:

” Quero garantir a vocês cinco que, pelo que está em meu poder, da parte da  diocese de Jalandhar não haverá nenhuma ação para expulsar vocês do convento de Kuravingalad, até quando isso for necessário para [o vosso testemunho] no processo judicial”. “A verdade – acrescentou o administrador temporário – virá à tona quando todas as provas forem  apresentadas. Estou certo de a Igreja quer que verdade apareça”.

 

Os abusos sexuais de mulheres na Igreja,  uma verdade dolorosa ainda silenciada ou desqualificada. Por quê?

Numa  conversa com o Vatican Insider, a irmã Lissy Maruthanakuzhy, uma religiosa da Congregação das Filhas de São Paulo, originária do Kerala, hoje engajada na evangelização no estado indiano de Maharashtra, destaca,  a propósito das denúncias  contra mons. Mulakkal:

  • “É um caso muito triste e uma ferida para a Igreja na Índia. Devo dizer que já me aconteceu de ouvir outros casos semelhantes, mas muitas vezes eles não vêm à tona.

De fato, é  difícil que as irmãs denunciem abusos ou violências:

  • em primeiro lugar, porque se envergonham;
  • depois porque há um profundo respeito pela autoridade eclesial de padres e bispos, até mesmo quando abusam dela.
  • Por último,  há também o elemento da subordinação cultural presente na sociedade indiana: é a palavra de um homem contra a de uma mulher.
  • Tudo isso torna muito difícil fazer aparecer casos dolorosos como este. Acredito e espero que este caso  possa dar coragem a todas as irmãs que são vítimas de violências dramáticas semelhantes”.

Papa Francisco

Dos abusos de religiosas dentro da Igreja tem se falado – no início muito timidamente – desde a década de 1990. Nos últimos lustros, foram lançadas denúncias fortes e sólidas pelo Repórter Católica Nacional e pela professora Lucetta Scaraffia no caderno mensal de L’Osservatore Romano, fundado sob o pontificado de Bento XVI, Donne Chiesa Mondo 3Il Tatto – N ° 76 ). Ao longo dos anos,

  • também a agência Associated Press passou a ocupar-se com esta questão
  • denunciando vários casos em numerosos países e continentes.

Até mesmo

  • a União Internacional das Superioras Gerais (UISG), a organização mundial das Superioras Gerais dos Institutos de Religiosas Católicas,
  • denunciou publicamente a “cultura do silêncio e do segredo” da Igreja acerca das histórias de assédio e de abusos de gênero.

Pouco tempo depois da denúncia de “Donne Chiesa Mondo”,

  • o próprio pontífice, o Papa Francisco, falou deste tema durante a sua conferência de imprensa com os jornalistas no avião que o trazia de volta, dos Emirados Árabes Unidos para a Itália (5 de fevereiro de 2019),
  • e tratou da questão de forma ampla
  • confirmando tudo o que foi divulgado gradualmente a partir de 1990.

Muitas passagens das reflexões do Papa –  que reconhecem nestes abusos a responsabilidade de sacerdotes e bispos, no passado, mas também hoje –

Imagem relacionada
Freiras e leigos pedem Justiça e que o bispoi Frano Mullakkal seja preso. HINDUSTAN TIMES / GETTY IMAGES

Algumas perguntas, dúvidas e perplexidades

Neste caso, complexo e delicado,

  • há alguns fatos que levantam sérias e sólidas suspeitas
  • de que há muitos âmbitos onde verdades desconfortáveis ficam  escondidas.

O  primeiro é o silêncio que pesa sobre as denúncias.

  • Muitas vezes, a própria imprensa, salvo algumas exceções, prefere seguir o mesmo caminho:
  • calar,  baixar o perfil ou desqualificar os casos.
  • Em alguns países, constatou-se que certa imprensa participa das campanhas de descrédito contra as vítimas e contra quem denuncia.
  • Nesta triste matéria, poder-se-ia dizer que a imprensa ainda tem os mesmos comportamentos que tinha em relação à pedofilia antes das investigações do Boston Globe.

O caso da expulsão da irmã Lúcia Kalapura da sua Congregação, as Clarissas Franciscanas e,

  • sobretudo,  a imediata e poderosa campanha da imprensa para desacreditá-la
  • e fazê-la aparecer como uma religiosa incompatível com a vida religiosa,
  • confirma que o método do descrédito é duro de morrer
  • pois parece uma reação instintiva dos contextos e estruturas eclesiásticas

que, como escreveu L. Scaraffia,

  • consideram a violência sobre as mulheres como um
  • “abuso de poder, abuso que surge de uma interpretação perversa do papel sacerdotal”
  • e da evidente falta de reconhecimento das mulheres dentro da Igreja.

E enquanto que

  • para os menores a admissão e a consequente condenação são obrigatórias, já que partem de uma transgressão reconhecida pelo código penal,
  • para as mulheres o discurso é mais complexo. (…)

“Dentro da instituição eclesiástica, séculos de cultura centrada na mulher perigosa e tentadora

  • levam a classificar essas violências, mesmo quando denunciadas,
  • como transgressões sexuais livremente cometidas por ambas as partes. (…)

A diferença de poder, a dificuldade de denunciar devido ao  medo – seriamente motivado – de retaliações não só sobre si própria, mas também sobre a ordem a que pertence, explicam o silêncio que, durante anos,  envolveu essa prepotência”. (Donne Chiesa Mondo N ° 76).

O Papa Francisco, no avião, concluiu a sua resposta à jornalista Nicole Winfield com estas palavras:

“Reze para que possamos seguir em frente. Eu quero seguir em frente… Há casos, em algumas congregações, especialmente as novas, e em algumas regiões mais do que em outras. Sim, a coisa é esta. Estamos trabalhando”.

Quando conhecermos as conclusões das  investigações do Vaticano sobre o caso de mons. Franco Mulakkal, que neste ponto  inclui indiretamente a história da irmã Lúcia Kalapura, poderemos ver os frutos do trabalho a que o Santo Padre se referiu, há alguns meses, sobre o drama dos abusos sexuais contra religiosas, na Igreja, por parte de padres e de bispos.

IL SISMOGRAFO

Fonte: https://ilsismografo.blogspot.com/2019/08/india-la-vicenda-del-vescovo-franco.html

 

NOTAS DO TRADUTOR:

1 UCAN, Union of Catholic Asian News [União de Notícias Católicas da Ásia, é a principal agência de notícias católica independente da Ásia.

2  Asianewsonline.com é uma agência oficial de imprensa do Pontifício  Instituto para as Missões Estrangeiras (PIME).

3 Donne  Chiesa Mondo” [Mulheres  Igreja Mundo].

4  A resposta do Papa à jornalista Nicole Winfield da “Associated Press”, assim como o texto integral (em português) da conferência de imprensa, podem ser vistos em: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2019/february/documents/papa-francesco_20190205_emiratiarabi-voloritorno.html

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>