Cem mil sacerdotes (seis mil na Espanha) secularizaram-se depois do Vaticano II

A ‘via crucis’ dos padres que deixam a batina no século XXI

 

El Papa Francisco visitó a varios curas casados

 David Noriega – 13/08/2019 | 

 Foto: O Papa Francisco visitou vários padres casados em Roma /  VaticanNews

Tradução: Orlando Almeida

Os sacerdotes têm de  responder a perguntas sobre “toda a sua vida. Se estavam enamorados. Se cumpriram o voto de castidade. Coisas de confessionário”, diz um padre secularizado.

Ao receberem a dispensa,  são proibidos de ensinar religião e de ajudar na Missa e são aconselhados a “ficar longe dos lugares onde o seu estado anterior é conhecido”.

O tempo depende de cada caso: podem ser meses ou anos. “Não é um direito que pode ser invocado”, dizem especialistas em direito canônico.

 

 

(eldiario.es).- “Eu acho que tenho  vocação sacerdotal. Sinto-me padre” , diz José Ángel antes de começar a contar como foi o processo pelo qual abandonou o ministério. Foi ordenado em 1 de agosto de 1992. Neste verão, celebrou  27 anos da sua ordenação na sua  casa, distribuindo a Eucaristia entre um grupo de amigos, embora tenha deixado a batina em 2010 após ter solicitado a dispensa em 2005 devido a uma crise existencial: “Não encontrava sentido no que estava fazendo”.

O trâmite  para deixar de ser padre é aparentemente simples e pode ser resolvido em poucos meses.

  • O padre em questão deve comunicar sua decisão na sua diocese e responder a um questionário com perguntas de vários tipos.
  • A diocese inicia a instrução de um procedimento administrativo e envia as suas conclusões à Congregação para o Clero, da Santa Sé, onde se faz uma análise
  • e, caso se  julgue oportuno, é enviado um rescrito no qual se isenta o requerente de quase todas as suas responsabilidades, como sacerdote.

Obstáculos no  caminho

Simples no papel. O procedimento também envolve obstáculos que, em alguns casos, se prolongam durante anos, deixando aqueles que o solicitam num vazio jurídico. O primeiro é quando  a  instrução é retardada pela  diocese; o segundo, quando a cúria do Vaticano faz isso. “Não estamos falando de funcionários nem de empregados. Eles não estão pedindo acerto [ de contas]. É uma coisa totalmente diferente, uma vocação divina que não se pode resolver de maneira mecânica. Isto funciona com outra lógica e, quem não tem essa lógica, não o entenderá nunca”, dizem fontes especializadas em direito canônico, que defendem que” o que a Igreja visa nestes casos é o bem da pessoa e do povo de Deus “, de modo que a secularização” não é um direito que se possa invocar“.

Pinillos

O casal Julio Pinillos e Emilia Robles, muito ativos no Moceop e na Confederação Internacional de Padres casados

 

José Ángel, que prefere não ser identificado, pediu a dispensa em 2005, mas lamenta que ninguém lhe tenha respondido.

“Deixaram-me  à deriva. Eu estava sem cabeça e não tinha bispo para me representar. Não sabiam nada sobre mim, até que vim parar numa certa cidade e um bispo disse: este homem está aqui e durante anos vocês não mexeram um dedo. Em 2008, mandaram os papeis para Roma. Em 2010, já haviam me tinham respondido”, conta.

Cada papa tem sua própria agenda política neste sentido. Neste caso, eram os tempos de Bento XVI, que tentou aliviar o carga acumulada por pelo seu antecessor.

 

“As políticas mudam”

O papa João XXIII abriu a porta para a secularização dos sacerdotes e, depois do Concílio Vaticano II (1962-1965), Paulo VI facilitou as dispensas para aqueles que queriam abandonar o exercício presbiteral. Naquela época, Josemari Lorenzo conseguiu a dispensa em apenas seis meses. Era o ano 1970. Com a chegada de João Paulo II, o ritmo das dispensas mudou.

“Muitos não a conseguiram em 12 anos”,

lembra este padre que há quase meio século vem

“ajudando padres que querem sair e outros que querem continuar e não sabem como”. “Dentro disto há um processo na pessoa. Na maioria das vezes saem por uma questão de celibato, porque eles se apaixonaram. Outros porque perderam a fé, mas são muito poucos”, explica ele.

“As políticas mudam”, dizem os especialistas. “Depois do Concílio, abriu-se totalmente e mudou todo o regime canônico tradicional em termos de dispensa do celibato e de perda de condição sacerdotal. Foram  uns anos em que houve uma grande hemorragia. O pós-concílio introduziu uma mudança nesta questão e João Paulo II voltou a estabelecer um critério de maior escrutínio, de modo que não fosse uma coisa automática”, explicam.

Não há números oficiais, mas estima-se que tenham sido dispensadas 100.000 secularizações em todo o mundo, umas 6.000 na Espanha.

Entrevista de José Luís Pinillos e Ramon Alario a Religión Digital

 

Ramón Alario recebeu a sua dispensa, com perplexidade, em 2017.

“No ano de 1980, devido a profundas discrepâncias –  com algumas decisões de Roma –  entre elas a de que me havia apaixonado, decidi deixar o trabalho como padre”, afirma. Ele recusou-se a responder ao questionário. “O objetivo é demonstrar que quem quer deixar de ser sacerdote  é porque nunca se sentiu sacerdote. É um erro supino. É algo como tentar dizer que quando um casamento se desfaz é porque não houve casamento de verdade”, avalia.

Espera de 37 anos

“Falei com o meu bispo, o cardeal Tarancón, e expus-lhe a minha situação. Disse-lhe que, em consciência,

  • não iria fazer a declaração que me pedem que faça,
  • nem passar pelo interrogatório dessa ficção em que não acredito,
  • mas sim que gostaria que constasse a minha discrepância,
  • por que me tornei padre, qual foi a minha trajetória
  • e por que não me sinto, em consciência,  à vontade para levar uma vida dupla ou agir como padre quando discordo de muitas coisas”, explica.

“Ele envia esse papel para Roma  e nunca mais torno a ter notícia nem resposta até 2017. Já se passou a ninharia de 37 anos. Tenho três filhas, uma neta e agora me chega um papel que me diz que me foi concedida a permissão para deixar o ministério“, conta, surpreso.

O que ele chama de “interrogatório” é um questionário no qual se fazem  perguntas sobre questões “muito íntimas”, considera José Ángel.

“Tocam todos os pontos: a adolescência, quando criança, por que entraste, qual foi o motivo, se foi por dinheiro, se o teu ambiente familiar também te influenciou… E a questão sexual,

  • se tinhas inclinações desde muito jovem,
  •  se tens relações íntimas com mulheres ou com homens, se sais muito.

São íntimas, porque o que o documento pretende é justificar que realmente é um caso que merece a dispensa”

expõe.

O sentido dessas perguntas não mudou  durante décadas, porque Josemari se lembra do questionário como algo “terrível” e

“humilhante, no sentido de que te perguntavam sobre a tua vida toda, se estavas apaixonado, se cumprias a castidade … coisas que são mais próprias de confessionário”.

 “A autoridade, para resolver, tem que saber quais são as circunstâncias pessoais e as motivações. Isso pode ser facilitado com um questionário, mas depende da iniciativa do responsável”, justificam as fontes consultadas.

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Congresso internacional da Confederação Mundial de Padres casados, em Guadarrama, Espanha, em 2015. /Moceop

 

“Uma espécie de exílio”

Os rescritos costumam incluir uma série de recomendações que também não mudaram muito. Um desses documentos, já emitido com o Papa Francisco à frente do Vaticano, ao qual eldiario.es teve acesso, indica que,

  • além da demissão do estado clerical,
  • está incluída a dispensa do celibato, dos votos,
  • e a absolvição das censuras.
  • Inclui também proibições explícitas.

“Não pode desempenhar qualquer função em seminários ou instituições equivalentes”; “em instituições de estudos superiores… não pode ensinar qualquer disciplina de ordem propriamente teológica ou que esteja intimamente ligada à teologia”; “em instituições de estudos menores, que dependem da autoridade eclesiástica, não pode ser diretor ou professor de disciplinas teológicas”, nem dar aulas de religião, mesmo que não dependam dessa autoridade.

Aos sacerdotes secularizados que se casam pede-se que o façam “de maneira discreta, sem pompa ou espalhafato”.

Além disso, há outro requisito que eles devem aceitar:

  • “O padre que foi dispensado do celibato sacerdotal e, mais ainda, o padre que se casar,
  • deve ficar longe do lugar ou território onde seu estado anterior é conhecido
  • e não pode exercer, em lugar nenhum, a função de leitor, de acólito,
  • ou distribuir ou ser ministro extraordinário da Eucaristia”,
  • algumas das tarefas que qualquer leigo pode executar.

“São restrições que nos parecem exageradas”, lamenta Lorenzo, para quem o pedido de sair da diocese é “uma espécie de exílio”.

Cura casado

Padre casado, com sua Família

 

“É traumático porque, frequentemente, a hierarquia trata os padres secularizados como empesteados.

  • Você engole isso sozinho,
  • assimila-o sozinho
  • e faz a digestão sozinho.

Eu precisei de ajuda psicológica. Desde o momento em que te dizem que não voltes mais à paróquia, é como se você praticasse bungee jumping sem corda”,

lamenta José Ángel.

“O padre que abandona o corpo [clerical], salvo se tiver muita sorte e o bispo lhe der uma ajuda, na maioria dos casos fica com uma mão na frente e outra atrás. A alguns padres o bispo manteve o salário até eles conseguirem um trabalho diferente. Outras pessoas, nós, obviamente renunciámos”, diz Ramón.  A José Ángel deram 1.000 euros.

Em qualquer caso, a dispensa não implica que o padre deixe de sê-lo, já que segundo a teologia católica este sacramento é para sempre.

“Embora  a dispensa seja concedida, essa pessoa continua a ser sacerdote. Isso é inalienável. O sacramento da ordem imprime caráter, é uma marca na alma, embora não tenha o status legal de sacerdote”, explicam os especialistas. De fato, os padres secularizados podem, por exemplo, ouvir confissões em caso de extrema necessidade. “Imprime carácter“, concorda Josemari Lorenzo, “um padre nunca deixa de ser padre”.

 

 

David Noriega

Fonte: https://www.religiondigital.org/mundo/crucis-curas-cuelgan-habitos-XXI-casados-secularizacion_0_2148985081.html

 

 

 

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