Porquê um tão longo silêncio (III) – Romper o silêncio, quebrar os silêncios

… CONTINUAÇÃO (III)

| 14 Ago 19

Na Foto: Multidão de católicos à espera do resultado do conclave, em 2005: Francisco pede “a participação ativa de todos os elementos do povo de Deus”, escreve Ignace Berten. Foto © Wikimedia Commons

Tradução: Florbela Gomes

Não há na Igreja contemporânea apenas o silêncio dos responsáveis sobre aos crimes sexuais praticados, há também o silêncio imposto aos teólogos e indiretamente aos fiéis sobre as questões doutrinais.

Existe uma ligação clara entre o clericalismo e os ministérios e é urgente lançar sobre ambos um debate teológico verdadeiramente livre. (A publicação deste ensaio fica completa com esta terceira parte, depois da primeira sobre a estratégia do silêncio e a segunda acerca do clericalismo e abuso de poder.)

 

Não basta denunciar o clericalismo, que é, como diz o Papa, uma das principais causas da crise atual, e convidar a uma verdadeira conversão dos corações e das mentes.

Devemos fazer as perguntas

  • sobre as estruturas eclesiais que geram o clericalismo
  • e o fundamento teológico dessas estruturas.

Francisco pede “a participação ativa de todos os elementos do povo de Deus”.

Como teólogo, através deste trabalho, procuro trazer uma resposta modesta a esse apelo.

  • Não pretendo ter todas as respostas às perguntas sobre os excessos criminosos dentro do clero nem sobre o silêncio da Igreja,
  • não pretendo ter a verdade nas minhas propostas, especialmente as mais radicais que dizem respeito aos ministérios e sacramentos,
  • só gostaria de trazer argumentos reflexivos para um debate teológico verdadeiramente livre que permita que todos se expressem:
  • não apenas teólogos, mas também crentes com base na sua experiência de fé.

Existe uma ligação clara entre o clericalismo e os ministérios. A questão dos ministérios na Igreja deve repousar fundamentalmente sobre trabalhos que se orientam nessa direção (Schillebeeckx, por exemplo). Penso que o Papa deveria estabelecer

  • uma comissão com a possibilidade de trabalhar livremente nesta questão,
  • uma comissão suficientemente representativa do povo de Deus.

Um sínodo, como é concebido na atualidade e exclusivamente clerical, não é a instância adequada para responder a uma tal questão (a comissão instituída após o Concílio Vaticano II para a questão da contraceção estava a ir na direção certa, no entanto é necessário que este trabalho seja levado a sério!):

  • celibato dos padres,
  • acesso das mulheres aos ministérios,
  • ministérios sacramentais específicos,
  • mandatos ministeriais limitados no tempo, etc.,

estas questões devem ser abertas.

É necessário

  • estudar seriamente a questão do poder na Igreja,
  • poder sacralizado e monopolizado (ou confiscado) pelo clero.

A questão do poder também deve ser abordada lucidamente a partir da problemática de género: a análise do funcionamento da sociedade a partir dos papéis sociais também se aplica ao funcionamento da Igreja: não basta dizer que os ministérios ordenados pertencem à ordem sacramental, institucionalmente são também papéis sociais que precisam ser descodificados. No meu livro sobre o sínodo sobre a família e Amoris laetitia, sugeri inspirar-se na Igreja da Inglaterra, onde todas as decisões importantes são tomadas por três colégios:

  • o dos bispos,
  • dos padres
  • e dos leigos,

sendo necessário obter a maioria nos três.

É urgente começar um debate livre e sem tabus

Precisamos repensar o significado e o estatuto dos sacramentos: serviço ou poder? Repensar em particular o significado dos ministérios ordenados.

  • Instituição divina e implementação da vontade de Cristo
  • ou iniciativa e decisão criativa da Igreja a serviço da vida das comunidades cristãs?

Nesta questão da natureza dos sacramentos surge também após a encíclica Amoris laetitia a questão da receção eucarística dos divorciados recasados civilmente:

  • que estatuto eclesial para este novo casamento civil?
  • Que significado e alcance do casamento sacramental?

Também é necessário trabalhar em questões antropológicas relacionadas com

  • o corpo, a sexualidade e o equilíbrio emocional das pessoas,
  • o reconhecimento da homossexualidade como uma orientação não escolhida
  • e as consequências de tal reconhecimento, os elos entre sexualidade e poder. …

Não há na Igreja contemporânea

  • apenas o silêncio dos responsáveis,
  • há também o silêncio imposto aos teólogos e indiretamente aos fiéis sobre as questões doutrinais:
  • há muito pouco espaço para o livre debate, para a verdadeira pesquisa teológica:
  • o papel desempenhado pela Congregação para a Doutrina da Fé e o seu poder tem sido desproporcional.

Explicitamente, o cardeal Müller, ex-prefeito da Congregação atualmente afastado, declarou que

  • dentro das atribuições da sua função ele tinha um mandato para enquadrar teologicamente o Papa!
  • E continua a opor-se publicamente, com outros cardeais, às aberturas desejadas por Francisco.

O Papa claramente procura abrir o espaço de uma palavra livre:

  • disse-o abertamente ao abrir o sínodo sobre a família;
  • repete isso indiretamente ao pedir a todos os membros da Igreja que se envolvam no confronto com a crise atual.
  • Nós não sairemos da crise se todos não tiverem a palavra, e especialmente aqueles que estão mais afetados.

Todo esse trabalho requer, ao mesmo tempo,

  • a séria consideração da experiência dos crentes e do sensus fidei,
  • o estudo crítico das fontes bíblicas e especialmente evangélicas,
  • a tradição da Igreja e o conjunto das luzes antropológicas,
  • quer sejam psicológicas ou filosóficas.
  • Também requer um espaço real para o livre debate e sem tabus.

É óbvio que isso levará tempo. É urgente começar e com liberdade, paciência e perseverança.

Uma Igreja minoritária e pobre…

Devemo-nos desesperar com a Igreja? Algumas pessoas colocam-se esta pergunta hoje.

  • Alguns, indignados ou desanimados, já responderam deixando a Igreja.
  • A crise atual é provavelmente a mais séria desde há muito tempo.
  • O fogo estava a começar, agora ganhou força e neste momento está longe de se apagar.

Como, no sofrimento e na fé, posso viver uma situação destas? Creio que em Jesus, Deus

  • escolheu vir entre nós tornando-se homem,
  • tornando-se humano com toda a beleza,
  • mas também as fraquezas e os limites do ser humano.

Na base da nossa fé, há a pessoa de Jesus, confessada como Filho de Deus, e a sua mensagem, o Evangelho. A memória de Jesus e a palavra do Evangelho

  • não poderiam ter feito história e terem chegado a nós hoje, se não tivessem sido instituídas, se não tivessem, no seu caminho, encarnado numa instituição.
  • E é através desta instituição histórica que recebi a fé.
  • Uma instituição humana em toda a linha. Com todas as belezas, fraquezas e às vezes as torpezas do ser humano.

Isso está terrivelmente provado hoje em dia. Esta crise pode, no entanto, ser benéfica.

O Papa Francisco libertou a palavra, e isso cria divisões: o debate sobre a fidelidade ao evangelho e a verdadeira tradição é difícil, mas só pode ser frutífero, abrindo-se para mais verdade, verdade humana, verdade moral, verdade espiritual.

  • A descoberta das práticas sexuais e pedófilas desviantes e criminosas,
  • a descoberta de maus-tratos por padres em todos os níveis da hierarquia e homens e mulheres religiosos
  • não é o resultado de uma iniciativa da Igreja em si,

mas de forças externas:

  • queixas das vítimas,
  • jornalistas,
  • investigações públicas,
  • parlamentares ou outros
  • e, depois, do poder judiciário.

Parece um tsunami cujas ondas devastadoras estão a atingir gradualmente outras margens. Mas aqui novamente deve ser positivo: mais transparência, mais lucidez, mais verdade. E sem dúvida um chamamento para uma vida mais humana e mais evangélica, para um maior sentido de responsabilidade.

Ouvir as vítimas tornou-se uma prioridade. Esta exigência acolhedora e benevolente responde à opção preferencial pelos pobres, que está no coração do Evangelho e é oficialmente reconhecida como um apelo dirigido a toda a Igreja desde João Paulo II.

Progressivamente vão-se dando passos nessa direção. Podemos ter a certeza de que haverão outros. Aqui também a palavra é livre,

  • não apenas sobre o facto dos desvios,
  • mas sobre o que, de uma maneira ou de outra, contribuiu para que ela fosse escondida.

Noutra área, também relacionada com a natureza humana da instituição, a fraude é revelada na gestão das finanças e do dinheiro. Francisco começou seriamente a pôr ordem nas finanças do Vaticano. Mas também surgem questões a todos os níveis da Igreja, dioceses, comunidades religiosas e paróquias: muitas más práticas…

Mais uma vez, na maioria das vezes as acusações vêm de fora. E isso também contribui para mais limpeza.

A nossa Igreja já perdeu em grande parte, gradualmente e por muito tempo nos nossos países, o seu peso social e a sua beleza. Cada vez mais está a tornar-se uma Igreja minoritária e pobre, pobre em meios, pobre em capacidade de influência.

Só lhe resta uma força: a do testemunho evangélico inspirado pelo Espírito. E é este Espírito que nos permite viver com fé e esperança neste tempo presente, e que nos chama a apoiar-nos uns aos outros neste caminho, caminho de conversão.

 

 

 

Ignace Berten

(ver elementos sobre o autor no final da primeira parte deste ensaio)

Fonte: https://setemargens.com/porque-um-tao-longo-silencio-iii-romper-o-silenci…

 

 

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