O machismo radical que está doutrinando as mulheres nas igrejas ultraconservadoras do Brasil

Templo de Salomão.

Agência Pública   – Andrea DiP, Julia Dolce e Alice Maciel

27/07/2019 

Foto: Templo de Salomão. DEMETRIO KOCH

Uma repórter infiltra-se em reuniões de massa, missas locais e reuniões de auto-ajuda, onde se promove um fundamentalismo religioso, fator-chave para o poder de Bolsonaro.

“Você que sofreu abuso na infância, Jesus perdoa a sua culpa”, diz um bispo diante de 10.000 mulheres

A figura mais visível é a ministra Damares, uma pastora evangélica em guerra contra a “ideologia de gênero” como culpada pelos problemas femininos.

 

Depois de uma longa espera em uma das muitas filas formadas  exclusivamente por mulheres, abro minha bolsa para que uma jovem com um sorriso no rosto e uma pequena lanterna na mão possa revistá-la cuidadosamente:

“Ah, querida, aqui não se permite entrar com o celular, você pode descer e guardá-lo num armário”,

diz ela, apontando para uma escada com a lanterna. Uma hora e duas cocas depois – também tivemos de passar por um detector de metais – estávamos dentro do gigantesco Templo de Salomão, sede mundial da Igreja Universal do Reino de Deus, localizada em São Paulo, para o que seria a “Reunião de Autoajuda”, um encontro trimestral que dá orientações exclusivas para as mulheres.

Depois que uma das obreiras vestida com uma túnica abre as portas, vejo ao longe o altar com uma arca dourada com dois anjos imensos e quatro telas – duas do tamanho de telas de cinema – que exibem um vídeo do Bispo Edir Macedo, fundador e líder da Igreja, rezando fervorosamente, de joelhos.

O templo está  a meia-luz, apenas iluminado pelas 12 réplicas de candelabros judaicos (menorás), com 5 metros de altura e 300 quilos cada um, presos às paredes. Quando todas as mulheres se acomodam, o vídeo pára, as 10 mil lâmpadas de LED instaladas no teto da nave principal são acesas e Edir Macedo em pessoa aparece para comandar a noite.

Na Igreja Universal, somente os homens podem ser pastores e bispos. O Templo de Salomão tem capacidade para 10.000 pessoas sentadas. Naquela noite, todos os assentos estavam ocupados por mulheres e havia muitas em pé.

  • Segundo o censo de 2010, as mulheres são a maioria da população evangélica do Brasil, com 55,57% de um total de mais de 42,3 milhões de pessoas.
  • Entre as denominações, a Igreja Universal do Reino de Deus, uma das maiores organizações religiosas do país, tem a maior proporção de mulheres, reprentando um pouco mais de 59% da sua congregação.
  • É também uma das igrejas que apoiaram a eleição de Bolsonaro para a Presidência; o Partido Republicano Brasileiro (PRB), liderado pelo bispo licenciado da Universal, Marcos Pereira, faz parte da base aliada do governo.

Desde a nomeação da pastora  Damares Alves como titular do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos,

  • uma equipe de repórteres da Agência Pública tem frequentado congressos e conferências voltadas para mulheres evangélicas (os relatos são apresentados ao logo desta reportagem)
  • e ouviu histórias de mulheres que frequentam as igrejas, ou que as frequentaram,e de pastoras das mais variadas denominações
  • para tentar entender até que ponto as convicções religiosas de Damares – uma ministra de um Estado constitucionalmente laico –  comandam a sua atuação à frente do ministério.

O bispo Edir Macedo abre a conferência exibindo nas telas uma foto do Facebook de um casal.

“Vejam como estão felizes, como ele exibe a sua mulher, todo orgulhoso”, diz ele.

Em seguida, surge nas telas um vídeo filmado com um celular que mostra um homem entrando num carro em chamas, rapidamente  reduzido a um corpo carbonizado.

“Esse homem que entrou no carro em chamas é o da foto. Ele descobriu a sua esposa com outro homem. Perdeu a vontade de viver. E aqui eu pergunto: e a alma dele?”,  conclui.

O sermão continuaria dizendo às mulheres

  • que uma palavra é capaz de matar um casamento;
  • que elas não podem ser tão ansiosas – “a ansiedade é um espírito de Satanás”, afirma o bispo –
  • e,  se queremos um príncipe encantado, precisamos rezar ao rei [Jesus Cristo]
  • porque, se estivermos ansiosas, o diabo enviará seu príncipe e ele vai nos pegar.

Macedo diz também que

  • as mulheres precisam casar-se com homens superiores em cultura e em condições financeiras,
  • porque é o marido quem deve suprir à casa.

“Se você fosse a provedora, o seu casamento estaria fadado ao fracasso”.

O homem deve ser a cabeça da união e a mulher, o corpo.

“A minha esposa substitui a minha mãe, cuida de mim e eu dou a ela do bom e do melhor. No casamento, o homem é Jesus e a mulher é a igreja”.

Depois o bispo faz alguns pedidos de dízimos  e ofertas – incluindo  a venda da Bíblia comentada e de outros acessórios – pedidos  incentivados pela lembrança do luxo do lugar onde estamos.

“Vocês estão confortáveis? Pois isto aqui tem um gasto de mais de 5 milhões de reais por mês”.

Em seguida  viria a frase que marcaria a noite. Chamando à frente as mulheres que gostariam de receber a oração, o bispo diz:

“A você que sofreu abuso na infância, Jesus perdoa a sua culpa”.

 

Godllywooda

A “Reunião de Autoajuda” faz parte de um programa da Igreja Universal dirigido às mulheres, chamado Godllywood e  criado pela filha de Edir Macedo, Cristiane Cardoso, em 2010.

  • Cristiane é também autora de um blog,
  • de diversos livros que definem o que é ser uma mulher virtuosa
  • e, na companhia do marido, o bispo Renato Cardoso,
  • lidera programas de televisão com nomes em inglês que ensinam casais heterossexuais a ter sucesso no relacionamento.

Segundo a explicação do site oficial,

“Godllywood nasceu de uma revolta sobre os valores errados que a nossa sociedade tem adquirido através de Hollywood. Nesse trabalho nosso principal objetivo é o de levar as jovens a se tornarem mulheres exemplares e se tornarem avessas às influências e imposições Hollywoodianas,  desenvolvendo laços familiares que se perderam nos últimos anos”.

Funciona mais ou menos como uma mistura de irmandade e gincana, na qual as mulheres, divididas por faixas etárias,têm que cumprir tarefas diárias, semanais e mensais que vão

  • desde não comer carboidratos
  • até fazer as unhas e penteados,
  • cuidar da casa e preparar refeições para o marido.

Quem não cumpre as regras é afastado do grupo, que também tem cursos específicos para mulheres em situação de violência, por exemplo.

 

Imagen presentada en el Curso de Autoconciencia del Proyecto Raabe. Reproducción.
Imagen presentada en el Curso de Autoconciencia del Proyecto Raabe. Reproducción. – Imagem apresentada no Curso de Autoconsciência do Projeto Raabe. Reprodução

Mãe, de sangue ou em espírito, esposa honrada, seja por união já consagrada, seja por destino; noiva eterna do senhor Jesus Cristo.

Essas foram as principais referências do que é ser mulher em três igrejas evangélicas cujos espaços frequentei neste mês de maio – a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Apostólica Renascer em Cristo e a Igreja Batista da Lagoinha, onde prega a ministra Damares Alves.

“Ninguém aqui acredita que os homens têm que lavar as roupas, não é?”,

pergunta a professora Fernanda Lellis, provocando uma série de risos condescendentes entre as quase 60 mulheres de todas as idades, a maioria negras, reunidas no último andar  do Templo de Salomão.

“As mulheres têm o dever de cuidar, fazer comida, arrumar”, continua ela ao microfone, andando de um lugar para outro, na frente de um púlpito dourado. “A mulher primeiro tem que fazer o seu papel, deixar o homem feliz, e a partir daí ele vai tratá-la bem também. É assim, suportamos mais”.

A professora  do Curso de Autoconhecimento do Projeto Raabe, criado para ajudar mulheres que sofreram traumas como violência doméstica, abusos sexuais ou enfermidades  psicológicas, cita Efésios 5: 22-24:

Vocês, mulheres, sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher”. E conclui, em tom imperativo: “Mudem as vossas mulheres de referência, sejam as melhores!”

Raabe, de acordo com o Livro de Josué, o sexto livro do Antigo Testamento, era uma prostituta que vivia em Jericó e supostamente ajudou os israelitas a capturar a cidade. De acordo com o site de Godllywood, Raabe purificou-se.

As orientadoras do Projeto Raabe, segundo Lellis,

  • agora são mulheres “lindas”,
  • mas chegaram a esse lugar deprimidas, violentadas ou até mesmo com lembranças de abusos sexuais que sofreram quando eram meninas.
  • “Hoje são todas obreiras, levitas ou esposas de pastores.”

E todos usam roupas pretas e lenços vermelhos amarrados no pescoço, em referência a Raabe, que pendurou uma fita escarlate na entrada da sua casa para não ser morta na invasão de Jericó.

Uma dessas orientadoras  recebeu-me no iluminado Templo de Salomão. Entregaram-me  um panfleto com o slogan “quebrando o silêncio” que incluía

  • informações sobre cuidados espirituais e profissionais,
  • bem como orientações jurídicas e sociais para mulheres que sofrem violência doméstica e abuso.

Mas logo ficou claro que Lellis era apenas uma mediadora. A verdadeira professora apareceria apenas em vídeo.

Do seu escritório,

  • Cristiane Cardoso, filha de Edir Macedo,
  • usou dez minutos para explicar como o “autoconhecimento” foi importante para salvar o seu casamento com o bispo Renato Cardoso.

“Eu não sabia das milhas falhas, inseguranças, e acreditava que só resolveria os meus problemas se fossem os outros que mudassem. Acreditamos que a culpa é da outra pessoa e não nossa”.

Ela continua a contar sobre as crises de ciúmes que sentia, equiparando a sua experiência à das mulheres que sofrem violência doméstica.

A pedagogia de enumerar defeitos num curso cujo público alvo são mulheres traumatizadas e violentadas já tinha sido aplicada na primeira aula do curso:

“Sem arrependimento, escreva quem você tem sido até hoje, descreva as suas qualidades, descreva os seus defeitos”, dizia o folheto.

A herdeira do império religioso-midiático enfatiza que

  • a mulher foi criada para ajudar de uma maneira idônea, com as qualidades adequadas
  • – que inclui desde cuidar da aparência
  • até não presumir  independência.

“Ao longo dos anos, a mulher foi perdendo essas qualidades, desenvolvendo vários defeitos. Se tu não entendes as referências corretas da mulher, vais sofrer”, afirma, categórica.

Essa linha de raciocínio é retomada por Fernanda. Ela levanta o dedo para o alto para salientar que

  • a primeira mentira que o mundo nos diz, a nós mulheres,
  • é que somos iguais aos homens.

“Hoje as mulheres estão ‘empoderadas’, e é por isso que tanta gente está se matando, sofrendo, com depressão”.

A conversa não foi muito diferente nas três horas de culto das mulheres que assisti no salão da igreja Renascer.

O culto é celebrado às quartas-feiras a partir das 14:30, horário que reúne principalmente mulheres de terceira idade de classe média alta.

  • Entre cantar canções da igreja e participar de uma rifa de cosméticos,
  • as cerca de 30 mulheres presentes ouviram um testemunho de uma pessoa que decidiu deixar o emprego para tornar-se uma empreendedora bem sucedida de acessórios.
  • Em resposta ao comentário de que hoje ela é, financeiramente, “o homem da casa”, a pastora Edilene Gimenez tomou a palavra.

“Eu sempre ganhei mais do que o meu marido. Quando me converti, orei para que Deus o tornasse respeitado profissionalmente e prometi que, quando isso acontecesse, eu dedicaria a minha vida à igreja”.

Dito e feito. Quando o marido, também bispo da Renascer, montou uma empresa promissora, Edilene deixou o emprego.

  • “O nosso primeiro ministério é cuidar da nossa família.
  • Você pode até ser uma mãe que tem filhos, mas gera frutos espirituais.
  • Vocês são todas mães espirituais”, reafirma a pastora.

Para as mulheres solteiras, as igrejas evangélicas reservam o papel de “noivas de Jesus”, como explicam as pastoras da Lagoinha, colegas da  ministra Damares. No sábado, 11 de maio, a sede da igreja no centro de São Paulo foi palco de um desfile, de surpresa, de noivas, depois do culto. As jovens, assíduas frequentadoras da igreja, exibiam vestidos de luxo emprestados pelas marcas BlackTie e Faggion.

 

Desfile fiel en la pasarela como "las novias de Jesús". El evento fue organizado por la Iglesia Bautista de Lagoinha.

Desfile de fiéis na passarela como “as noivas de Jesus”.  O evento foi organizado pela Igreja Batista da Lagoinha. JULIA DOLCE / AGÊNCIA PÚBLICA

“O Senhor vê a igreja como noiva e a nós como noivas de Jesus”,

diz a pastora Vanessa Santos antes do desfile, pedindo às quase 40 mulheres presentes, a maioria jovens, que, de mãos dadas, repetissem em voz alta:

“Mulher, não estás sozinha, tu és a noiva”.

Outra pastora convidada para o evento, Vanessa Batista, centra  a sua intervenção em recomendações de comportamento para as mulheres:

 

“É muito importante ter um olhar alegre e uma fisionomia agradável”, recomenda. “Uma mulher alegre muda a atmosfera do lar. Uma mulher chata também”.

Depois da conversa, as jovens foram levadas para o andar de baixo. Um corredor iluminado com lâmpadas de néon e decorado por grandes buquês de rosas brancas servia de cenário para as bodas das noivas de Jesus. As fiéis desfilaram ao som de músicas ‘gospel’ internacionais, enquanto o público aplaudia cada novo modelo branco. A missão estava cumprida: jovens mulheres e meninas deslumbraram-se com o brilho do casamento abençoado por Deus.

 

Controle da vida pessoal

A antropóloga,  professora da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análises e Planejamento (Cebrap), Jacqueline Moraes Teixeira, estuda questões de gênero em igrejas evangélicas desde 2010. Segundo ela,

  • além dos papeis de gênero claramente definidos entre a autoridade dos homens e a submissão das mulheres,
  • as regras impostas por programas como Godllywood (que são reproduzidas de diferentes maneiras em outras denominações)
  • pretendem  dirigir as vidas das mulheres em todos os seus aspectos, além do espiritual.

Através do controle – que se torna autocontrole nas formas mais variadas – impõe-se a dominação.

“Essa linguagem de controle

  • não está só nas igrejas,
  • é uma linguagem disseminada no modo em que as pessoas pensam neste mundo contemporâneo.
  • Talvez a diferença seja que, no Brasil, as igrejas se responsabilizam ​​por essa gestão, ajudam as pessoas a desenvolverem o hábito de se controlarem.

E não para  passar horas rezando ou para memorizar muitos versículos da Bíblia. Desafiam-nas

  • a perder peso,
  • a controlar o tempo de uso das redes sociais
  • ou quanto dinheiro você gasta,
  • ou seja, é uma ética da vida quotidiana”, explica.

Essa gestão da vida também aparece também nos testemunhos de sucesso, ferramentas importantes para as igrejas evangélicas.

“Estás o tempo todo seguindo essas regras e, quando outras pessoas dão testemunho,

  • elas falam sobre quanto perderam de peso,
  • que conseguiram montar um negócio,
  • que conseguiram um relacionamento.

Ou seja, essa conversão é uma recuperação da vida civil, não é uma recuperação da vida religiosa”.

A ferramenta do “testemunho”, ouvida por todas nós nos cultos e conferências que frequentámos ao longo destes meses, também aparece muito forte nos discursos da ministra Damares, como observa Jacqueline:

“Ela é uma mulher que declara que sofreu violência sexual na infância. Nesses cursos e projetos, é muito comum as mulheres revelarem que sofreram violência sexual na infância. Dizem que só conseguiram recuperar-se no momento em que se converteram. E Damares diz que foi a conversão que a fez perceber o que era a sua vida. Que é sempre o argumento central desses testemunhos”.

A ministra Damares tem um discurso que nasce da vitória, uma vitória que lhe abre caminhos importantes:  ela torna-se assessora parlamentar, assessora política e chega a ministra.

  • “Eu tenho divergências profundas com o que ela diz, porque é muito difícil tratar com alguém que está numa posição pública tão importante, defendendo declaradamente certas coisas”, diz Jacqueline,
  • mas para milhares de mulheres ela personifica um caminho de superação”.

Uma tarde com a discípula da pastora Damares

“Doutora Damares, estamos com você para a vida, para a infância e para a família. Juntas somos mais fortes”,

gritou o coro formado principalmente por professoras, na igreja Assembléia de Deus, em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte.

Era uma tarde de domingo, dia 10 de fevereiro. A igreja estava lotada, com centenas de mulheres de várias regiões do Estado para participar da conferência “Conectar Kids e Apascentar – Defensores de uma Geração em Perigo”, com a doutora  Damares Alves, com a missionária Joani Bentes, mais conhecida como Tia Jô, e com a participação especial da tia Keyla.

 

Na última hora, a recém-nomeada ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos não pôde  estar no evento, mas gravou um vídeo para os congressistas, que foi apresentado na tela. Todos se levantaram para retibuir-lhe a mensagem, com esta que  seria transmitida por sua amiga e discípula, tia Jô:

“Deixa Deus usar-te para curar, deixa Deus usar-te para salvar;  enquanto Ele te usa, Ele cuida de tudo o que te faz chorar”, continuam os presentes, agora cantando.

O congresso começou minutos depois das duas da tarde. Os participantes que chegavam confirmaram o seu nome na lista, e recebiam um vale selado para a merenda. Um pão, uma maçã e um suco. O curso custou 65 reais para os que  se inscreveram até 31 de dezembro e 70 reais para quem passou do prazo. O cartaz promocional indicava o conteúdo que seria dado por cada uma das conferencistas. Métodos criativos de ensino, história bíblica terapêutica e musicalização seriam ensinados por Tía Jô.

Damares falaria sobre

  • erotização infantil,
  • maus tratos,
  • abusos,
  • pedofilia
  • e “ideologia de gênero”.

Na noite anterior ao evento, no entanto, foi enviada a todos os inscritos, pelo WhatsApp,  uma mensagem com um vídeo da missionária cancelando a participação da ministra Damares, “devido ao número de ameaças que sofreu”, justificou Tia Jô.

 

Tía Jo y Damares Alves. Reproducción de Facebook.

Tia Jô e Damares Alves.  Reprodução no Facebook.

Antes de a pastora entrar no governo de Bolsonaro, as duas percorreram o Brasil juntas dando palestras para educadores, em cultos  da Assembleia de Deus.

Hoje, com 45 anos de idade, Joani Bentes é missionária desde 27 anos atrás. No seu currículo, Tía Jô destaca os seguintes títulos:

  • educadora cristã,
  • conferencista,
  • apresentadora de televisão e rádio,
  • escritora com três livros publicados,
  • cantora com cinco CDs e dez DVDs gravados,
  • conferencista  internacional.

 

Também casada com um pastor, que a acompanha nas missões e na administração dos negócios, Tia Jô tem também uma loja virtual onde vende os seus CDs, DVDs, bonecas, camisetas, acessórios, livros, roupas e cosméticos com a sua marca.

Comprando qualquer produto você estará ajudando projetos em desenvolvimento:

  • “Sertão da Bahia,
  • Cabo Verde,
  • Moçambique,
  • Nepal,
  • Peru”,

diz o anúncio no início do ‘site’. Onde quer que vá, ela carrega os produtos, expostos na entrada da igreja.

O perfil é de uma apresentadora  infantil.

  • A tia Jô vestia uma saia rodada azul com bolinhas brancas,
  • uma blusa amarela da Conectar Kids,
  • duas tranças amarradas com flores.

Durante quase toda a sua apresentação, ela falou com voz de menina. O tom só mudou quando ela introduziu o tema de Damares, para depois transmitir o vídeo da pastora.

“O que vou mostrar agora é uma exceção para nós. Têm que desligar todos os celulares agora. Se algum celular estiver ligado, paramos o vídeo. Que ninguém transmita ou grave em áudio ou vídeo, por favor. Eu prometi isso ao poder Judiciário e ao Ministério Público, prometi à minha amiga, a doutora  Damares, que seria algo só nosso”.

Damares então aparece na tela, em uma gravação feita em Brasília.

“Foram dias muito difíceis para esta ministra. Aceitei o convite para ser ministra pensando especialmente na proteção das crianças, na proteção dos adolescentes neste país. E quero –  foi tudo o que eu preguei durante a minha vida inteira –  trazer isso para este ministério. São muitos os meus desafios. Você não tem ideia de como meus desafios foram grandes, mas o maior foram talvez os ataques”, disse Damares.

“Se depender desta  ministra, nenhuma criança será abusada no Brasil. Se depender desta ministra, nenhuma criança será ferida ou será enterrada viva como acontece em algumas aldeias do Brasil”, prometeu.

Damares também falou sobre o abuso sexual que sofreu quando criança.

“Dores no corpo, como sofri dores no corpo, mas sofri dores na alma. Sabem porquê? Porque ninguém percebeu que eu estava sendo abusada. Ninguém me protegeu quando eu tinha 6 anos, ninguém me disse o que estava acontecendo”, lembrou ela.

“A mídia ri da minha história, a imprensa ri da minha história, artistas riem da minha história, mas eles não poderiam ter rido da fé de uma menina de 10 anos de idade. Eles zombaram de mim quando eu disse que, aos 10 anos de idade, no alto de uma goiabeira tentando suicidar-me, que eu vi Jesus Cristo. Eu sei que eu o vi. Estávamos ele e eu naquela goiabeira”c, garantiu.

“Vamos nos unir e dizer ‘basta de violência, basta de dor, basta de sofrimento’ e vamos dizer ‘Jesus Cristo é o Senhor das crianças do Brasil’. Recebam o meu abraço, na próxima conferência prometo estar aí com você. Amo vocês, Deus os abençoe”, concluiu a ministra.

 

 Banner publicitario para el proyecto Connect Kids. Reproducción.
Banner de publicidade para o projeto Connect Kids. Reprodução

“Ah, Bolsonaro ganhou, ele é a favor da infância e da família, a guerra apenas começou. Agora começou a guerra, agora temos de rezar mais, agora temos de trabalhar mais”, reforça Tia Jô, logo depois.

No material entregue aos congressistas, Damares destaca a ideologia de gênero como “uma das mais terríveis violências contra as nossas crianças”. Ela cita quatro temas que a ideologia de gênero defende e que estão nos livros didáticos e na política educacional de hoje no Brasil: desconstrução da família natural, desconstrução da heteronormatividade, direito da criança ao prazer sexual, desconstrução e subversões de identidade (confusão na identidade biológica).

Entre as ações práticas para reagir à ideologia de gênero, Damares sugere aos educadores  que peçam às crianças que levem as mochilas escolares à igreja para que ela analise os livros e os materiais didáticos que estão estudando; que oriente os pais a notificarem à escola que eles não querem que as crianças aprendam sobre ideologia de gênero; que façam chapéus de bonecas, encontros de  carrinhos, cultos das princesas; que orientm os pais em relação às roupas das meninas, demonstrando a necessidade de reforçar a feminilidade, e brinquedos e jogos com os meninos para reforçar a masculinidade; e que contextualizem as histórias contadas e os jogos que são feitos com as crianças na igreja, destacando sempre que existem jogos de meninas e jogos de meninos.

Segundo Damares, ainda existe nas escolas um ataque à fé da criança  e do adolescente.

“Observem que as leis determinam o ensino da cultura indígena e da cultura afro, mas infelizmente muitos professores estão burlando a lei, ensinando religião afro e religião indígena”, diz o texto da ministra.

Depois de passar por todas esses temas do folheto de Damares, uma pausa para a merenda, e Tía Jô volta, introduzindo o seu conteúdo, com métodos criativos para que os educadores abordem temas religiosos com as crianças.

“Eu posso pegar os meus bonequimhos de Adão e Eva e dizer que o papai do céu os cobriu, protegendo as suas partes íntimas”, diz ela.

O seminário terminou pontualmente às 18:00. De Contagem, Tía Jô partiu para uma visita missionária no sertão da Bahia. (Alice Maciel)

Notas da tradutora:

a  Godllywood –  God Hollywood (Hollywood de Deus).

b http://www.godllywood.com/br/como-surgiu-o-godllywood/

* Os nomes das entrevistadas foram alterados para preservar as suas identidades.

 

Andrea DiP, Julia Dolce e Alice Maciel

Fonte: https://www.eldiario.es/internacional/Mujeres-Iglesia-fundamenta-ultraderecha-Brasil_0_923557814.html

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