De um humilde galinheiro nasceu um “império do amor”

Em  conversa com a sobrinha de Dulce Lopes Pontes, a freira brasileira que será canonizada no dia 13 de outubro.

 

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Francesco M. Valiante – L’Osservatore Romano, 17/07/2019

Será a primeira mulher nascida no Brasil a ser canonizada. Mas a sua fama precedeu de muito o reconhecimento oficial da Igreja, se considerarmos que até mesmo o grande escritor Jorge Amado, ligado a ela por uma particular veneração, já em vida a chamava de “santa Dulce da Bahia”.

Para todos foi a “mãe dos pobres” do país. E de fato, mesmo nas suas feições miúdas e  mirradas, a Irmã Dulce Lopes Pontes , no século Maria Rita – a Missionária da Imaculada Conceição da Mãe de Deus que o Papa Francisco proclamará santa em 13 de outubro – lembrava  a figura de Teresa de Calcutá, com a qual tinha em comum a dedicação total aos necessitados e aos sofredores. Conheceram-se em 1979, na favela dos Alagados, onde as freiras dos  sáris brancos e azuis tinham aberto uma casa.

 

Depois, em julho de 1980, aconteceu outro encontro decisivo com João Paulo II, durante uma das etapas da viagem feita ao Brasil pelo pontífice polonês. Irmã Dulce reviu-o onze anos mais tarde, em outubro de 1991, quando o Papa Wojtyla quis visitá-la no convento, onde ela estava de cama por causa da doença que em 13 de março de 1992  a levaria à morte.

Quem recolheu a sua herança foi a sua sobrinha Maria Rita Pontes, que hoje supervisiona as Obras Sociais Irmã Dulce e que, nesta entrevista a L’Osservatore Romano, fala sobre sua ligação com ela, recordando o seu  testemunho de fé  e o seu compromisso de caridade.

Em 1º de julho,  foi anunciada a canonização da sua tia.  Como se sente em ser sobrinha de uma santa?

Embora eu esteja esperando por este evento desde o início do processo – iniciado  dezenove anos atrás – a sensação é única. De grande alegria, de emoção, e também de responsabilidade. Acho que daí virão muitos benefícios para atender sempre mais e melhor as pessoas que batem na porta das Obras Sociais Irmã Dulce.

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Maria Rita Lopes Pontes , sobrinha da Ir. Dulce/ Juci Ribeiro

Qual foi o seu  relacionamento pessoal com ela?

Eu sou filha da sua irmã Dulcinha, um ano mais nova que a irmã Dulce. Elas eram muito próximas. A tia dizia:

“Somos dois corpos numa só alma”.

O meu nome é uma homenagem a ela, pois o seu nome de batismo era Maria Rita. O nosso relacionamento era muito estreito, de mãe para filha, de filha para mãe. Hoje sou o que sou graças ao seu exemplo.

Há  episódios ou circunstâncias, de que você foi testemunha, que mostram o carisma de santidade da sua tia?

Há muitos episódios que testemunham a sua santidade já em vida. Ele nunca recusou um paciente à porta do hospital. Dizia: “Esta é a última porta. Portanto, não posso fechá-la”. Ajudava a todos sempre com grande amor. Era paciente e ouvia com a atentação  todos os  que se dirigiam a ela: funcionários, médicos, pacientes, pessoas necessitadas. Nos momentos mais difíceis, ela nunca perdeu a fé e a esperança na Providência divina.

O que levou a irmã Dulce a dedicar-se inteiramente aos pobres e excluídos?

Respondo a esta pergunta com uma frase que ela repetia sempre: Se Deus viesse à nossa porta, como seria recebido? Quem bate à nossa porta, buscando conforto para a sua dor, para o seu sofrimento, é outro Cristo que nos procura.

Qual é o modelo de mulher que brota do  seu testemunho?

Uma mulher fiel aos valores e às práticas da Igreja Católica. Um exemplo de solidariedade, de amor ao próximo, de  fé, de esperança e de caridade.

 Dulce conheceu pessoalmente Madre Teresa de Calcutá e João Paulo II. Que relação teve sua tia com estas duas figuras de santidade?

A irmã Dulce conheceu os dois quando eles vieram a Salvador. Em 1979, a fundadora das Missionárias da Caridade veio inaugurar uma casa da sua congregação no bairro de Alagados. Naquela ocasião, elas encontraram-se e falaram sobre os trabalhos sociais que estavam realizando. João Paulo II encontrou-se com ela por duas vezes, em 1980 e em 1991. Na primeira vez pediu-lhe para continuar o seu trabalho social, mas para cuidar também da sua saúde, e em 1991 visitou-a, quando já estava acamada, no convento de Santo Antônio.

Por que você decidiu  receber o bastão das mãos  dela, dando continuidade às suas iniciativas de caridade?

Foi uma missão que a irmã Dulce me repassou. Antes de morrer, ela escreveu uma carta-testamento. Ela mantinha-me sempre a par dos muitos detalhes da Obra; às vezes eu não entendia por que é que ela se preocupava em me explicar como resolver certas questões operacionais da vida cotidiana da instituição. Eu morava no Rio de Janeiro, graduei-me em jornalismo e procurava  divulgar as suas obras.

Escrevi a sua primeira biografia em 1983. Em 1989, entrei no conselho de administração das Obras e comecei a tomar parte nas decisões estratégicas da instituição. Hoje penso que talvez, instintivamente, ela me estivesse preparando, sem que eu percebesse, para a missão que herdaria com muito orgulho e responsabilidade.

Qual é a realidade das suas obras eclesiais e sociais hoje?

Como dizia a irmã Dulce:

“Esta obra não é minha. É de Deus.E o que é de Deus permanece para sempre”.

As Obras Sociais Irmã Dulce são um ponto de referência na assistência aos mais necessitados, atuando no campo da saúde, da assistência social, da educação, do ensino e da pesquisa. Estão equipadas com 954 leitos, à disposição do Sistema Único de Saúde. Dão assistência a crianças, idosos, deficientes físicos, alcoólatras, moradores de rua e pacientes com câncer: em suma, prestam serviços em praticamente todos os setores m que a população é mais necessitada. Se pensarmos que todo o seu trabalho nasceu onde antes havia um galinheiro e hoje existe um “império do Amor”, percebemos que a Irmã Dulce ainda está presente entre nós e faz um milagre todos os dias.

As contradições econômicas e sociais continuam a marcar a realidade do Brasil e, mais em geral, a situação de grandes regiões do mundo. Que ensinamento se  pode tirar da vida da irmã Dulce?

É a lição do testemunho da fé na Providência divina. Respondo também a esta pergunta com uma frase dela: Se fosse necessário, eu começaria tudo de novo, da mesma forma, seguindo o mesmo caminho de dificuldades, porque a fé, que nunca me abandona, me daria forças para seguir sempre em frente.

Quais são os pontos de contato entre a mensagem dela e o magistério do Papa Francisco sobre as “periferias do mundo”?

Na sua homilia, durante a missa para os migrantes celebrada no dia 8 de julho, relembrando a sua visita a Lampedusa em 2013, o Papa disse:

“Infelizmente, as periferias existenciais das nossas cidades são densamente povoadas por pessoas descartadas, marginalizadas, oprimidas, discriminadas. abusadas, exploradas, abandonadas, pobres e sofredoras”.

A irmã Dulce e o papa Bergoglio trabalham intensamente para ajudar estas pessoas.

 

Francesco M. Valiante

http://www.osservatoreromano.va/vaticanresources/pdf/QUO_2019_162_1807.pdf

 

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