Caminhos da evangelização na Amazônia – um olhar histórico

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Francisco José – 07/07/2019

Foto: Vaticannews

A convivência da Igreja Católica e seu projeto de evangelização com a Amazônia está ligada aos projetos de colonização dos reinos europeus e suas expansões coloniais em busca de riquezas e do aumento de reinos e súditos para as coroas do velho mundo.

Este  texto quer ajudar a seguir rastros deixados pelos que buscaram caminhar abrindo caminhos em meio ao mato e à água, e retomar caminhos em novos contextos na “última página do Gênesis” que é a Amazônia.

 

Os projetos de evangelização e colonização desembarcaram juntos na Amazônia. Vieram do velho mundo, trazendo impresso na alma os valores culturais, religiosos e antropológicos dos europeus que aqui vieram em nome de seus reis, em busca de riquezas para ficarem ainda mais ricos. O primeiro encontro foi tão marcante que até hoje seus sinais ainda estão espalhados em meio à floresta verde e líquida; torres apontando para o céu, como dedos acusativos de tudo que os projetos foram e tentaram ser.

Os primeiros missionários das ordens religiosas, eram distinguidos dos outros colonizadores pela veste e pelas “ferramentas” de trabalho, não usavam armas de fogo e nem vinham com a vontade extrair da terra as riquezas, mas sim a alma do habitante nativo que nesse primeiro momento não tinham conhecimento da existência da mesma. Como resultado dessa primeira empreitada; as flores e as pedras dos túmulos de ambos deixaram marcas profundas, também as cruzes feitas como sementes, continuam frutificando a terra regada com sangue de índios e missionários.

Os “Aldeamentos”, projeto evangelizador ousado e pouco estudado, por isso pouco compreendido ainda, é julgado como um projeto somente negativo; aparentemente está mais próximo das primeiras comunidades cristãs; onde a partilha do trabalho, da colheita e dos bens era a marca desse “ajuntamento” de gente, culturas, línguas e deuses tão diversos; num espaço tão pequeno onde tudo era de todos. A cobiça dos comerciantes e fazendeiros que não aceitavam a prosperidade dos aldeamentos, foi o tiro fatal nessa tão bela experiência evangelizadora da Amazônia.

Historiadores como Eduardo Hoonaert afirmam que os índios tinham uma visão diferenciada dos missionários, diziam que eles eram muito mais humanos que os outros colonizadores.

O processo evangelizador da Amazônia seguiu seu curso pelos rios dessa imensa região aos moldes do velho continente, com seus bispos a serviço do Padroado, estranha mistura do poder político com o poder religioso que prevaleceu até perto do fim do século XIX.

Assim floresceram no seio da floresta as belas sedes episcopais de Belém e Manaus, para evangelizarem com poucos missionários uma messe espalhada num continente líquido e verde. Com um pé em Roma e outro nas águas amazônicas, era uma igreja embarcada e navegante que celebrava e batizava, conquistando novos adeptos, num mundo tão novo e desconhecido para ambos, novos e velhos cristãos.

A chegada de novas ordens religiosas, a pedido dos bispos no fim do século XIX, deu um novo rosto à Igreja Católica nesta região. Os religiosos vindos de diversas partes do mundo foram imprimindo sua cultura por onde passavam; alguns com a sensibilidade de perceber o diferente nas diversidades. Essas novas levas de missionários, duraram até praticamente a metade do século XX.

As “obras de caridades” se tornaram a grande marca desse tempo. Havia um compromisso com essa “região pobre” que precisava ser cuidada e, para isso, foram construídos hospitais, escolas, albergues e outras “benfeitorias” que persistem até hoje. Algumas delas ainda estão em funcionamento, outras apenas lembranças de um tempo que ficou para trás.

O Vaticano II mudou o remo e a quilha da Igreja Amazônica e novos rumos nasceram, deixando no rebojo projetos ligados a governos, militares e elites ricas do Brasil e do exterior. O Concílio, brotado num tempo rico da Graça de Deus, foi profético na defesa da vida, da proteção da Amazônia, da preservação de lagos, da organização das comunidades tradicionais, e resultou na criação da CPT, CIMI, IPAR, CENESCH, órgãos da Igreja a serviço da construção do Reino na imensidão amazônica.

Tempo forjado no sangue dos mártires.

Diversos fatores na Igreja e no mundo que floresceram no limiar do novo milênio, espalhando mudanças para todos os lados. Tudo era tão novo que muitos não sabiam o que estava acontecendo; uns poucos tentavam perceber e indicar fagulhas de luzes na estrada líquida da Amazônia e na estrada escura do mundo.

O sistema capitalista de consumo e bem-estar nasceu, cresceu e nos envolveu com seus tentáculos de chocolate, bom, gostoso, manjar dos deuses; uma promessa de paraíso terrestre para o aqui e o agora. O sistema convenceu tudo e a todos que tudo isso era verdade e também nós Igreja ficamos de joelhos diante dos altares do consumo; esfriando o vigor profético e missionário aqui implantado.

O sistema capitalista de consumo em crise, expôs uma série de outras crises, tudo em movimento de cascata; uma batendo e empurrando a outra; exigindo, gritando por outros estilos de vidas, menos destruidor e mais respeitador da vida humana e especialmente na floresta. Surge assim um amplo campo para aos caminhos de convivências evangelizadoras que tem como proposta de vida a sensibilidade e a solidariedade, capaz de gerar um caminho do bem viver como alternativa a uma economia marcada pelo consumo desenfreado dos bens do planeta.

No pequeno percurso histórico feito acima, os projetos evangelizadores na Amazônia nos ensinam que pastorear na Amazônia, pede proximidade das pessoas, de seus modos de vidas e costumes da floresta; bem ao estilo das orientações do Papa Francisco que nos diz que, em primeiro lugar, sejamos contempladores da Amazônia para só depois percebermos os caminhos verdes e líquidos que devem ser trilhados e por onde devemos andar.

A convivência com a floresta é o estilo de vida dos povos tradicionais da Amazônia, uma relação gestada em milhares de anos que diante do mundo urbano e seus mundos, de uma educação escolar marcada em conhecimentos de outras realidades, colonial e na tecnologia, parece perder o sentido, principalmente para os jovens.
E eis aqui a força das palavras do Papa Francisco quando se refere a presença da Igreja na Amazônia “uma Igreja não está na Amazônia com quem estar com as malas nas mãos, mais está para ficar”.

A Campanha da Fraternidade do ano de 2017 nos deu dicas concretas para a convivência com o bioma Amazônia.
Ser uma presença que:
* compartilha saberes e estratégias de sobrevivências e convivência com o meio ambiente oriundas dos povos originários e comunidades tradicionais;
* valoriza e promove a cultura do bem-viver;
* defende as riquezas e os saberes dos povos amazônicos, vitimados e ameaçados secularmente…

A convivência como evangelização da Amazônia, nos desafia; porém, tem sido o caminho da Igreja Católica desde o princípio de sua presença com os povos Amazônia. E essa convivência se faz mais com o pé que com os livros, mais com o coração que com as estruturas, mais com andor nos ombros que com vestes, mais com canoas que com os aviões, mais com calma que com pressa, mais com mitos que com razões, mais com sabores e saberes que com verdades.

 

Francisco José 

Missionário durante 25 anos na diocese de Coari, no coração da Amazônia brasileira

Padre casado e, atualmente Assessor de Comunidades  Tradicionais da Amazônia

Fonte: Enviado pelo autor. E-mail: fjzezinho@gmail.com

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