No início não havia hierarquia…

Entrevista ao cardeal Oswald Gracias, consultor do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos

 

Giulia Galeotti – Julho 2019
Fotos: Osservatore Romano / vaticannnews.va
Giulia Galeotti, historiadora e jornalista italiana, que faz parte da equipa de redação de l’Osservatore Romano, em 2017, teve esta entrevista com o cardeal Oswald Gracias, presidente da Federação das conferências dos bispos católicos asiáticos, e presidente da conferência dos bispos católicos latinos da Índia e um dos cardeais mais próximos do Papa Francisco.

D. Oswald Gracias, além de ter tomado constantemente a palavra em defesa das mulheres, é um perito em Direito Canónico e consultor do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos.
No início da conversa, o cardeal esclareceu:
«Nos primórdios da história da Igreja, no tempo de Jesus, não havia discriminação alguma: na mente de Nosso Senhor cada qual tem o seu papel sem os mínimos vestígios de hierarquia. Foi só sucessivamente que as coisas mudaram na Igreja: com efeito, com o passar dos anos, as mulheres foram relegadas para lugares e papéis secundários. E a mudança deu-se porque a Igreja vive no mundo, e fazendo assim acaba por assumir a sua mentalidade: e no mundo as mulheres ocupavam um lugar de série B».

E ainda estamos ali…

Mas que a situação está a mudar, também na Igreja! O Papa Francisco reafirma isto muitas vezes: para a vida da comunidade eclesiástica é importante que as mulheres desempenhem funções de responsabilidade.
Na conversa, deu o se parecer na qualidade de canonista:
«Hoje as mulheres católicas indicam no direito canónico a razão da sua exclusão:
  • não se trataria de uma questão teológica
  • nem de limites indicados nas Escrituras,
  • mas seria um problema de direito canónico…
Na qualidade de canonista,
  • gostaria de defender o direito canónico e dizer que não tem responsabilidade alguma.
  • Mas por outro lado, não o defenderia chegando ao ponto de afirmar que não possa ter necessidade de ser revisto ou modificado.
  • Contudo, se considerarmos as normas em si mesmas,
  • há pouquíssimas restrições que excluem expressamente o feminino, como é por exemplo o caso da ordenação sacerdotal.
No máximo, o verdadeiro ponto é outro
  • a distinção entre clero e leigos,
  • entre aquilo que podem fazer uns e outros.
  • Isto poderia ser revisto.

Mas quando se fala de leigos, não vejo uma diferença substancial entre homens e mulheres. Isto não significa

  • que talvez tenha chegado o momento de empreender uma ação positiva
  • para mostrar claramente que as mulheres são parte integrante da Igreja.
Falámos disto também de recente no âmbito da nossa conferência episcopal. Não há dúvida de que as situações são muito diversas segundo os contextos e as sociedades:
  • nalgumas conferências episcopais as mulheres desempenham papéis que outras não têm;
  • a variedade é deveras grande.

Contudo, no fundo seria necessário ter claro que, dado que homens e mulheres são diversos,

É importante que todos compreendam isto, e que o ponham depois concretamente em prática.

 

Falando de direito canónico, acabou de se concluir o jubileu extraordinário sobre a misericórdia: mas se Jesus é misericórdia e o direito é justiça, como os podemos conciliar?

“Só quando os meninos e as meninas forem tratados do mesmo modo na própria casa, seremos deveras capazes de cortar pela raiz o nó da misoginia e da violência.”

 

Trata-se de uma pergunta muito interessante. Organizámos em Mumbai um congresso sobre este tema precisamente para indagar a relação entre elas. O Papa chamou muitas vezes a atenção para ambas, para o uso da misericórdia e para a aplicação da justiça. A pergunta de fundo é se nisto há ou não contradição:

  • considero que misericórdia e justiça não estão em oposição entre elas
  • porque a justiça de Deus é misericórdia.
  • É questão de gratuitidade, de perdão, de compreensão recíproca.

E, obviamente, também do facto que cada um tem o justo lugar. Por conseguinte,

  • devemos redefinir o nosso conceito de justiça,
  • porque a justiça não pode excluir a misericórdia.
  • Caso contrário, seria uma justiça divina defeituosa. Uma justiça viciada.

Voltemos às mulheres: o senhor cardeal expressou-se muitas vezes em sua defesa, sobretudo no contexto das numerosas violações ocorridas na Índia às quais os meios de comunicação internacionais deram muito espaço…

Envergonho-me profundamente pela violência contra as mulheres que a Índia está a atravessar. Os episódios são muito numerosos, sobretudo nalgumas zonas do país.
  • O que é realmente grave nesta situação
  • é o sentido de impunidade que acompanha a receção da crónica destes horrores.

Se há uma tentativa de mudar as leis para as tornar mais severas, devemos contudo ter presente que não se pode mudar a sociedade unicamente com as disposições normativas:

  • a maior parte das pessoas está convencida de que a culpa é das mulheres que provocam os homens,
  • que no fundo as verdadeiras responsáveis são elas, que as vítimas destes episódios são mulheres «más»,
  • culpadas devido aos seus comportamentos.

Em todas as suas formas a misoginia é minimizada e banalizada desta maneira. É isto que se aprende em casa e na sociedade. E é isto que deve mudar.

A Igreja pode fazer alguma coisa?

 

Hóspedes de um centro antiviolência na Índia

Foto: hóspedes do Centro Anti-violencia na Índia /Vaticannews.va
Há decénios que trabalhamos incessantemente a favor da emancipação das meninas e para melhorar a dignidade das mulheres, através dos nossos apostolados educativos, médicos e sociais:
  • só quando os meninos e as meninas forem tratados do mesmo modo na própria casa,
  • seremos deveras capazes de cortar pela raiz o nó da misoginia e da violência.

Devemos trabalhar todos juntos, nos vários níveis. Agora, por exemplo, estamos a preparar um protocolo sobre o comportamento das pessoas que trabalham na Igreja, nas paróquias, quer elas sejam religiosas quer leigas. De resto, temos o modelo das congregações femininas que no nosso país estão a fazer deveras muitíssimo para ajudar as mulheres brutalizadas, violentadas, escravizadas, empobrecidas.

A canonização da Madre Teresa, que o senhor indicou como ponto de referência juntamente com São Francisco Xavier, tem um significado também neste sentido?

Certamente. A canonização da Madre Teresa foi uma fonte de alegria enorme: ela é deveras um exemplo de cristianismo. É um dom da Índia ao mundo, ao mundo cristão mas também ao mundo secular. Era amada e seguida por todos, sem distinção alguma: até os ateus a amavam com grande intensidade.
Ela foi deveras um modelo de compaixão e de amor apaixonado pelos mais pobres e pelos marginalizados em geral. A sua vida foi vivida no sinal da misericórdia. Cada um dos minutos de todos os dias da sua existência foi um hino à misericórdia. A canonização da Madre Teresa é assim uma chamada concreta. É um modelo para todos, em qualquer âmbito.

A este propósito, há algo que nós, mulheres ocidentais, poderíamos aprender das mulheres indianas?

Diria, uma certa gentileza. Algumas mulheres ocidentais lutam pelos direitos duma maneira muito masculina, e penso que isto é errado.
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Giulia Galeotti,

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