Reformando a Igreja ‘sem possibilidade de retorno’

Como o Papa Francisco está iniciando processos de reforma da Igreja que será difícil reverter

 

 Robert Mickens, Roma, 28/06/2019 . Foto: international.la-croix.com

Quantos cardeais são necessários para ajudar o Papa Francisco a reformar a Cúria Romana? E de quantos anos eles precisam para fazer o trabalho?

Muitos católicos – ao menos aqueles que estão esperando que o papa possa ter sucesso em descentralizar o poder eclesial do Vaticano – ficaram frustrados porque, após cerca de seis anos, não houve respostas definitivas para estas questões.

Depois de se reunir cerca de cinco vezes por ano, o Conselho dos Cardeais (um corpo inicialmente composto por oito membros ou C8, ampliado logo depois para C9 e mais recentemente diminuído para C6) ainda não deu ao papa uma versão final de uma nova constituição apostólica para reformar as repartições centrais da Igreja. Mas eles estão chegando perto.

 

Em abril, dois membros do conselho consultivo causaram grande sensação, ao revelarem os principais elementos do documento preliminar, confirmando seu título provisório – Praedicate Evangelium (Pregai o Evangelho).  Os cardeais Oscar  Rodriguez Maradiaga, de Honduras, e Oswald Gracias, da Índia, previram que a edição final desse texto seria provavelmente apresentada ao Papa Francisco em 29 de junho. Eles disseram que a fase final da consulta – com conferências episcopais nacionais, ordens religiosas e professores escolhidos de universidades pontifícias – estava chegando ao fim. Mas algumas semanas depois, o bispo-secretário do C6 jogou água fria na projeção dos dois cardeais.

O bispo Marcello Semeraro, secretário do Conselho dos Cardeais, disse a um jornal católico espanhol que a versão final seria apresentada para aprovação do papa “dentro deste ano, mas não em 29 de junho”.

O bispo Semararo encontrou-se com os repórteres credenciados no Vaticano na semana passada e atualizou o cronograma. Neste ponto, ele disse, parece que a versão final – com a inclusão de sugestões das conferências episcopais e outras, que ainda serão apresentadas – será provavelmente concluída para a próxima reunião do C6, que deverá acontecer de 17 a 19 de setembro. Mas observadores atentos acreditam que até isso parece ser um pouco otimista demais. Pensam que é mais provável uma data em 2020.

Uma reforma que avança passo a passo

Foi um processo longo e trabalhoso. Mas

  • há uma lógica e sabedoria no ritmo lento que o Papa Francisco escolheu
  • para esta grande mudança e reforma de uma cúria
  • que ainda guarda vestígios de um seu precursor do final do século XVI.

Não é como se nada tivesse sido feito e todos estivessem ‘sentados sobre alfinetes e agulhas’ [ansiosos] perguntando com o que se parecerá a Cúria Romana depois que Francisco terminar a sua reforma doméstica. De fato, partes substanciais da reforma já foram implementadas.  O papa de 82 anos tem feito essa implementação,  peça por peça, durante esse longo período. Ele escolheu, com cuidado e propositalmente, este método cujo efeito deverá suavizar o golpe que certamente virá com alguns toques finais ainda desconhecidos.

Tenha-se em mente que Francisco é um papa “de fora”, o primeiro desde São Pio X (1904-1914) que nunca estudou ou trabalhou em Roma. E,

  • embora tenha decidido consultar, de todas as formas e em todo lugares possíveis, sobre a melhor forma de reformar a cúria,
  • ele – e somente ele – irá tomara decisão final sobre todos os aspectos dessa reforma.

Iniciando processos

Qualquer um que tenha prestado suficiente  atenção pode ver que se empreendeu uma desconstrução sistemática da função, de longa data, da Cúria Romana como burocracia central (isto é, centralizadora) da Igreja universal, que tem tradicionalmente agido de fato como um nível de governo entre o papado e as Igrejas locais.

O que o Papa Francisco tem feito ao longo destes quase seis anos é

  • colocar em movimento processos (e alguma legislação)
  • com o objetivo de dar mais autoridade aos bispos locais
  • e às conferências episcopais nacionais (e regionais).

Quando a reforma da burocracia do Vaticano estiver concluída,

  • a Cúria não será mais um porta-voz do Pontífice Romano,
  • mas uma instituição a serviço dele e dos bispos do mundo.

Francisco está obviamente convencido de que mudanças, e um bom número delas, precisam ser feitas nas estruturas da Igreja, nos métodos de fazer as coisas e no seu ethos (mentalidade) geral. Mas ele sabe que essas mudanças não podem ser introduzidas de uma vez só. Alguns delas não se materializarão nos próximos anos.

 

O tempo é maior que o espaço

Um princípio, em particular, parece estar sustentando o projeto de reforma – “o tempo é maior que o espaço”.

“Este princípio

  • permite-nos trabalhar devagar  mas com segurança ,
  • sem se ficar  obcecado com resultados imediatos.
  • Ajuda-nos a suportar pacientemente situações difíceis e adversas,
  • ou mudanças inevitáveis ​​em nossos planos.
  • Ele convida-nos a aceitar a tensão entre plenitude e limitação, e dar prioridade ao tempo”,

escreve o papa em Evangelii gaudium .

Essa exortação apostólica, que Francisco publicou em 2013, apenas poucos meses após a sua eleição como bispo de Roma, é o manifesto que governa este pontificado e a visão do jesuíta papa para uma Igreja reformada.

“Dar prioridade ao tempo significa

  • estar preocupado em iniciar processos
  • ao invés de ocupar espaços”, escreve ele.

“O tempo

  • governa os espaços,
  • ilumina-os
  • e torna-os elos de uma corrente em constante expansão,
  • sem possibilidade de retorno” (cf. EG, 222-225).

Em outras palavras, Francisco quer garantir que quaisquer reformas que ele e os bispos tentem implementar – incluindo a reforma da Cúria Romana – sejam duradouras e não sejam facilmente revertidas.

Num mundo que está mudando…

O projeto de reforma da cúria teve origem nas discussões que os cardeais da Igreja realizaram nos dias anteriores ao conclave de 2013 que elegeu Jorge Mario Bergoglio, de Buenos Aires, como bispo de Roma.

Os cardeais queriam que o próximo papa livrasse o Vaticano

  • da corrupção,
  • do clientelismo
  • e da ineficiência institucional.

Mas poucos tinham imaginado que o Papa Bergoglio iria iniciar uma reforma que se estenderia para bem além da cúria ou dos limites do pequeno Estado da Cidade do Vaticano.

Em vez disso, Francisco

  • usou o pretexto da reforma da cúria
  • para pôr em marcha uma reforma profunda e radical também
  • do papado e da Igreja global inteira.

Ele o fez

  • reacendendo a visão do Concílio Vaticano II (1962-65)
  • e a sua intenção, ainda não realizada,  de trazer a Igreja para o mundo moderno.

“A cristandade não existe mais”, disse o bispo Semeraro na coletiva de imprensa de 27 de junho.

Ele ressaltou que as origens da Cúria Romana remontam ao final do século XVI e ao Papa Xisto V [ou Sisto V]. Foi

“uma época em que a lei da Igreja era a lei do Estado, e a lei do Estado era a lei da Igreja”.

Semeraro notou o óbvio – esse mundo já desapareceu há muito tempo. Mas o que não é tão óbvio para muitos, ou não parece sê-lo,

  • é que ainda há muitos homens com mitras ou com funções no Vaticano
  • que continuam a fingir que ainda é a mesma coisa!

Essas pessoas estão tentando reviver a Cristandade, que é um sistema cultural-ideológico de crença no qual o kerygma (a essência da fé cristã) está intrinsecamente ligado ao pensamento filosófico grego e ‘formatado’ pelo ancien régime europeu.

A Igreja Católica é o último pilar deste ethos e deste sistema cultural que está em colapso. O Papa Francisco sabe disso muito bem e é por isso que ele está determinado

  • a destrelar a Cúria Romana, o papado e a Igreja global
  • deste antigo e anacrônico modelo Eurocêntrico.

E também é por isso que ele tem tantos inimigos.

Praedicate Evangelium

O bispo Semeraro observou que nesta era pós-Cristandade “já não basta preocupar-se com a doutrina”. O principal foco, disse ele, deve ser o “anúncio do Evangelho… que deve, antes de tudo, gerar alegria”. Mas isso exigirá uma reinvenção radical de como realizar o mandato missionário.

“Ide pelo mundo todo, pregai o evangelho a toda a criatura” (Mc 16,15). Este é o mandamento final que Cristo Ressuscitado dá aos seus discípulos – Praedicate Evangelium.

O Papa Francisco sabe que isso exige que

  • a Igreja (em todas as suas formas, expressões e manifestações variadas),
  • deixe para trás, de uma vez por todas, qualquer ideia de reviver a Cristandade.

Isso requer que

  • nos afastemos da nossa teologia e eclesiologia Eurocêntricas,
  • buscando novas maneiras de proclamar o evangelho em novos meios e novas culturas.
  • A tão esperada reforma da Cúria Romana é parte essencial dos processos que Francisco iniciou para realizar esta transformação radical.

E assim não é de admirar que

  • os católicos que estão tentando reviver uma visão antiquada da Igreja e da sua relação com a sociedade,
  • e os seus aliados políticos conservadores,
  • vejam este papa como uma ameaça e um perigo.

 

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