A Teologia mata?

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| 13 Jun 19 

Imagem: fraterluz.blogspot.com

ntualmente exagerada mas não deixa de ser pertinente.

O que mais não falta por esse desvairado mundo é quem ande a matar o próximo em nome da sua crença religiosa.

Sim, matam-se pessoas devido a disputas religiosas e teológicas, tal como se matam pessoas em disputas desportivas, políticas, familiares ou sociais.

E ninguém em seu perfeito juízo propõe acabar com as famílias, a vida pública, a cidadania ou o desporto por causa disso. 

 

Ainda há poucos dias uma discussão entre dois pastores em Timbaúba (Pernambuco, Brasil), sobre questões teológicas e interpretações bíblicas terminou com a morte de um deles. O indivíduo que assassinou o colega à facada foi preso em flagrante e levado para a delegacia local. A discussão terá acontecido nas traseiras do templo onde ambos serviam. O homicida ainda tentou esconder-se numa residência mas foi capturado e confessou o crime. A vítima depois de ser esfaqueada tentou fugir mas o agressor atingiu-o com uma pedra.

Também em Setembro de 2016,

  • um debate teológico informal entre dois pastores americanos terminou com o homicídio de um deles,
  • depois de a discussão descambar para a intolerância e a violência.

Discutiam no pátio de um lar de idosos nos subúrbios de Chicago, Illinois (EUA), a respeito de questões ligadas à Bíblia e à espiritualidade, como era hábito, quando um deles puxou a arma e deu dois tiros na cabeça do outro, que teve morte imediata, acto que foi registado por uma câmara de videovigilância. O assassino prestava assistência espiritual naquele centro de solidariedade.

Sim,

  • matam-se pessoas devido a disputas religiosas e teológicas,
  • tal como se matam pessoas em disputas desportivas, políticas, familiares ou sociais.

E ninguém em seu perfeito juízo propõe acabar com as famílias, a vida pública, a cidadania ou o desporto por causa disso. A questão

  • não está nas diferenças político-partidárias, clubísticas, familiares ou religiosas, que sempre existiram, existirão e é saudável que existam,
  • mas sim na atitude de respeito pelo outro e aceitação da diferença de opiniões e sensibilidade de cada um.

É claro que há contextos nos quais se torna mais chocante tal manifestação de intolerância e violência, como a religião ou a família. É suposto que o âmbito familiar constitua um espaço de paz e protecção mútua, mas é onde surgem frequentemente índices de violência relevantes – a chamada violência doméstica – e a maior taxa de abuso sexual infantil, como os estudos sobre pedofilia demonstram.

Assim como é suposto que o território relacional de uma mesma comunidade religiosa, enquanto família espiritual, se revista de segurança, crescimento pessoal, paz e edificação mútua. Mas também é aí que pode surgir o abuso religioso de carácter espiritual, psicológico e por vezes até físico.

  • Os cínicos dirão que a religião faz mal às pessoas.
  • Mas dirão o mesmo da família?
  • Ou da vida associativa?
  • Ou da participação política?

A solução será acabar com tudo quanto sejam comunidades religiosas, famílias, clubes, associações, colectividades e partidos políticos? E resta o quê?

Como é bom de ver, existem e existirão sempre problemas onde coexistirem pessoas.

  • São as pessoas que criam os problemas e não as organizações.
  • Estas podem, no limite, não os prevenir ou até potenciar, mas não os criam.
  • Um pedófilo não o é por causa da sua família, mas apesar dela.
  • Um corrupto não o é por causa da instituição onde trabalha, mas apesar dela.
  • Os criminosos são sempre as pessoas e não as organizações.

Culpar as organizações é uma forma de diluir e branquear as responsabilidades individuais.

Fala-se muito de violência inter-religiosa (entre diferentes expressões religiosas) mas pouco de violência intrarreligiosa (dentro da mesma religião), que não é menos evidente e preocupante.

Sim, a Teologia pode matar, como qualquer outra coisa. Basta lembrarmo-nos dos horrores perpetrados pelos talibãs (estudantes de teologia islâmica) do Afeganistão. Como sempre, é a pulsão do poder que está por detrás da violência em qualquer destes âmbitos sociais, nem que seja o poder de ter razão.

Os casos acima citados revelam pelo menos duas coisas:

  • fanatismo religioso, com a correspondente incapacidade de tentar escutar, compreender e respeitar o ponto de vista alheio;
  • falta de preparação pastoral ou deslealdade para com a vocação de ministro do Evangelho;
  • e sobretudo a pulsão de Caim que o levou a assassinar o irmão:

“E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra”(Génesis 4:10).

Ludwig Feuerbach dizia que

“Quando a moral se baseia na teologia, quando o direito depende da autoridade divina, as coisas mais imorais e injustas podem ser justificadas e impostas”.

  • Os triunfalismos religiosos,
  • tal como os modelos absolutistas de governo,
  • devem ser arrumados na prateleira da História.

A Modernidade veio trazer capacitação aos indivíduos, libertando-os de soberanias abusivas ou ilegítimas.

Mas agora os indivíduos não podem, por sua vez, comportar-se socialmente como se fossem soberanos dos outros, que são mais fracos ou que pensam e sentem diferente, pois sempre que assim fizerem revelam-se indignos da sua própria liberdade.

 

José Brissos-Lino

é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na Visão Online.

Fonte: https://setemargens.com/a-teologia-mata/

 

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