Na mídia social, a tribalização católica e o apelo à amizade

 

 John L. Allen Jr. – 09/06/2019 – On social media, Catholic tribalization and the call to friendship

Foto: Nesta terça-feira, 3 de maio de 2016, o professor da Universidade de Dhaka, Azizur Rahman, aponta para um post nas redes sociais em sua casa em Dhaka, Bangladesh. (Crédito: AP Photo.)

Tradução: Orlando Almeida

Francamente, as coisas seriam muito mais fáceis se todos fossem agrupados em dois grupos maciços, “esquerda” e “direita”. A realidade, no entanto, é mais parecida com a tribalização:

Na Igreja, temos católicos reformistas, católicos ‘neocon’ [neoconservadores], católicos pró-vida litúrgica, católicos de liturgia tradicional, católicos de justiça social, etc., etc.; e nem uns nem outros costumam gastar muito tempo para tentar conhecer e entender os demais.

 

ROMA – De vez em quando eu acabo dando palestras em um evento ou outro em Roma, e no começo de junho fiz parte de uma, organizada pelas embaixadas do Reino Unido e da Hungria em parceria com o Dicastério para Comunicações do Vaticano, tendo como tema a mídia social e o seu impacto no debate inter-católico.

Junto comigo estava Vania De Luca, que faz a cobertura do Vaticano para a rede de TV italiana RAI, num painel moderado por Andrea Tornielli, um jornalista veterano do Vaticano que recentemente se juntou à equipe do Papa Francisco como diretor editorial do Vaticano. A minha incumbência era falar sobre como lidar com a polarização na América.

Para dar início à discussão, eu observei que nos Estados Unidos, sem dúvida, a tendência sociológica dominante nos últimos quarenta anos, foi a segregação voluntária. Todos os dados que temos mostram que, cada vez mais, os americanos vivem, trabalham, rezam e se divertem junto com pessoas que pensam como eles.

Nós nos tornamos uma nação de condomínios fechados, seja de tipo físico seja de tipo virtual.

Outro insight1 confirmado pelas pesquisas sociológicas é que os ambientes heterogêneos tendem a moderar as opiniões, pois as pessoas buscam um modus vivendi dentro da diversidade, ao passo que atmosferas homogêneas radicalizam as visões. Na verdade, estamos colhendo as consequências da opção atual pela comunidade fechada.

O resultado, aliás, não é propriamente a polarização.

Francamente, as coisas seriam muito mais fáceis se todos fossem agrupados em dois grupos maciços, “esquerda” e “direita”. A realidade, no entanto, é mais parecida com a tribalização: Na Igreja, temos católicos reformistas, católicos ‘neocon’ [neoconservadores], católicos pró-vida litúrgica, católicos de liturgia tradicional, católicos de justiça social, etc., etc.; e nem uns nem outros costumam gastar muito tempo para tentar conhecer e entender os demais.

Em termos do catolicismo na América, disse eu no painel de discussão, a trajetória de longo prazo foi complicada recentemente por dois fatores.

  • O primeiro é que os católicos na América não têm uma, mas duas figuras maiúsculas, que tendem a polarizar a opinião: o presidente Donald Trump e o papa Francisco. Eles podem representar origens e visões diferentes, mas têm em comum o fato de não deixarem quase ninguém indiferente.
  • O segundo fator agravante é o surgimento das mídias sociais. (Para ser totalmente franco: Pedir que eu fale sobre mídia social é como pedir a um fã dos Red Sox para falar dos Yankees2).

Existem inúmeros contra-exemplos positivos, mas no geral, acredito que a mídia social é um câncer. Eu a vejo envenenando o discurso público e nos idiotizando, atraindo pessoas para formar opiniões instantâneas sobre tudo, bem antes que elas tenham possibilidade e tempo de pensar por si mesmas. A mídia social é um estranho universo paralelo onde a fantasia é recompensada mais que a inteligência, a velocidade mais que a profundidade e onde a influência (e os  “influenciadores”) raramente  correspondem  ao insight.

Qualquer pessoa que passe algum tempo na esfera da mídia social católica reconhecerá que essas tendências estão muito presentes. Embora a Igreja pretenda ser uma evangelizadora da cultura, muitas vezes ela é também evangelizada pela cultura, e a mídia social é um dos mais destacados exemplos disso.

Se eu tivesse um interruptor galáctico para nos fazer recuar à era da mídia pré-social, eu ficaria extremamente tentado a usá-lo. Mas esta opção não existe. Nós estamos fadados a viver nesta era hiper-tribalizada, super-acrimoniosa, então o que podemos fazer acerca disso?

Não tenho varinha mágica, mas eu disse no painel que a única coisa que funcionou, na minha experiência ao longo dos anos em termos de romper as divisões tribais ou, pelo menos, relativizá-las foi: a Amizade.

Conheci pessoas ao longo dos anos que, uma vez encararam um indivíduo particular, um grupo, uma corrente ou uma facção como inimigo – como alguém irreversivelmente, quase absolutamente mau – e depois passaram a ter um olhar mais compreensivo, menos preto e branco. Eles podem não ter ainda concordado com o “outro”, mas não o demonizam mais.

Em todos os casos, não foi um sermão ou uma exortação  que fez a mágica, nem uma mensagem do papa nem um programa na escola. Foi que, de alguma forma, geralmente por meio de uma estranha e imprevisível combinação de circunstâncias, o destino os reuniu com alguém da outra tribo e, com o tempo, uma amizade se desenvolveu organicamente.

Quase nunca essas amizades começaram com debates sobre questões polêmicas. Pode ter sido compartilhando uma viagem em grupo a um país estrangeiro, ocupando lugares próximos uns dos outros num estádio, ou compartilhando um trabalho temporário com um supervisor estilo Simon Legree3 (todas estas são circunstâncias de que eu ouvi falar), mas algo juntou estas pessoas e as inclinou a serem simpáticas umas com as outras.

Depois disso, elas poderiam começar a examinar as suas diferenças sem rancor, dispostas a ver o bem no outro e os valores que aquela pessoa estava tentando defender.

Minha conclusão é que, especialmente numa era de mídia social, a Igreja é chamada ao exercício profundamente contra-cultural de tentar criar zonas de amizade nas quais esses vínculos entre as divisões tribais possam tomar forma.

Traduzido em termos de mídia, isso é parte do que tentamos fazer no Crux –

  • criar um pequeno espaço em que ninguém, no diálogo católico, qualquer que seja a sua visão,
  • se sinta tratado como o inimigo.

Se vamos ter sucess0, é questão aberta ao debate, mas neste mundo desafiante da nova mídia, eu diria que é o esforço que conta.

 

1 Insight  é um termo em inglês utilizado na psicologia para definir o momento em que tomamos consciência ou nos damos conta de algo.

(fonte: web).

2 Red Sox  e Yankees são dois grandes times de beisebol dos Estados Unidos,  cuja rivalidade é quase  lendária. O primeiro é sediado na cidade de Boston  e o segundo em Nova Iorque.

Simon Legree é um personagem de  A cabana do Pai Tomás,  um romance sobre a escravatura nos Estados Unidos, da escritora norte-americana Harriet Beecher Stowe. É um dono de escravos, ganancioso e muito cruel, que manda chicotear até à morte o escravo Tom por não conseguir quebrar a sua fervorosa fé em Deus.

 

mm 

John L. Allen Jr.

Fonte: https://cruxnow.com/news-analysis/2019/06/09/on-social-media-catholic-tribalization-and-the-call-to-friendship/

 

 

 

 

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