Quando padres assumem paternidade: “primeiro as pessoas e não a instituição”

Diocese do Porto fala em assumir erros e garantir bem-estar das crianças. Conferência Episcopal não tem orientação oficial para estes casos, mas segue directrizes do Vaticano.

 

2 de Junho de 2019,

Foto: Sandra Ribeiro

Um padre com dois filhos, as paróquias que desconheciam o caso, uma história longe de ser a única sobre um tema que até pouco tempo atrás era tabu.
O Jornal de Notícias noticiou neste sábado a história de Manuel Sousa, responsável por três paróquias no concelho de Lousada, pai de duas crianças de diferentes relações e que durante cinco anos escondeu essa parte da sua vida dos seus congregados.
A situação, contrária ao voto de celibato imposto aos padres da Igreja Católica, já está a ser analisada pela Diocese do Porto, em linha com o Vaticano.

O pároco, natural de Penafiel, assumiu a paternidade de ambos os filhos. Ao JN, amigos e conhecidos traçam o retrato de um pai carinhoso. Uma moradora da freguesia de origem de Manuel Sousa afirma que “todos conhecem a história de pelo menos um dos filhos do padre”; um amigo deste diz mesmo: “assumiu o que aconteceu e não vejo que haja problema”.

Mesmo com autonomia para decidir, o bispo do Porto tem mantido contacto com Roma, por onde outros casos deste género têm passado.

“Felizmente, não é um caso que apareça todos os dias”, desabafa Jorge Duarte. A decisão deverá ser comunicada publicamente pela diocese sem grandes demoras, “por respeito ao próprio e por respeito ao povo”.

Poderá deixar o ministério sacerdotal (e assumir uma relação com a mãe de um dos filhos, se for o caso), ser dispensado das suas paróquias ou ali continuar como padre (cumprindo o voto celibatário) mas mantendo a responsabilidade de pai, se bem que Jorge Duarte reconheça que essa conciliação possa ser “difícil”.

No caso de padres que têm filhos, explica, isto passa por não haver “silenciamento” dos casos, como se nada se tivesse passado.

“Assumir quer o próprio, quer a Igreja, os erros que humanamente se vão cometendo.” Além disso, recorda, “tudo o que a Igreja diz na sua doutrina sobre uma paternidade responsável também se aplica ao padres”, o que implica que assumam todos os compromisso da paternidade: “não é só dar o nome no registo, é também na educação, nas despesas, na presença, para que a criança não cresça com a noção de que é filha do pecado.”

Também Manuel Barbosa, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), refere que o que conta são as directrizes da Santa Sé de que a prioridade “é sempre o bem da criança”. Trata-se de orientações que, não sendo confidenciais, são para referência interna, apesar de terem sido publicamente assumidas numa entrevista ao cardeal Beniamino Stella, prefeito da Congregação para o Clero​, em Fevereiro deste ano.

No final de 2017, um caso semelhante foi notícia na Madeira. A Diocese do Funchal acabou por anunciar que o pároco da freguesia do Monte, que assumiu publicamente a paternidade de uma criança, tinha sido dispensado e substituído por outro padre, embora continuasse a exercer o ministério sacerdotal.

 

Aline Flor

Aline Flor

Fonte: https://www.publico.pt/2019/06/02/sociedade/noticia/padre-filhos-igreja-1875037

 

 

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