Teólogos repreenderam bispos da Alemanha e pediram que reflectissem sobre «poder, celibato e moral sexual na Igreja»

Christa Pongratz-Lippitt
Teólogos da Alemanha foram convidados a preparar um “dia de estudos” com a Conferência dos Bispos do país, durante a sua assembleia de primavera, entre os dias 11 e 14 de março, na Diocese de Osnabrück.
Eles não mediram palavras, mas orientaram os bispos abertamente para os “defeitos sistémicos” da Igreja.

Rever o ensino sobre sexualidade humana

O professor Eberhard Schockenhoff disse aos bispos que é imperativo que a Igreja adote uma atitude positiva em relação à sexualidade humana e abandone a “visão envenenada” de Santo Agostinho de que o prazer sexual erótico é uma consequência do pecado original.
No entanto, o professor de teologia moral na Universidade de Friburgo, de 66 anos, disse que a crise dos abusos não é a razão pela qual a visão da Igreja sobre a moral sexual não seja confiável.
Ao contrário, ele culpou a Igreja de não conseguir integrar proposições científicas contemporâneas no seu ensino sobre ética sexual.
Schockenhoff disse que a Igreja deve deixar de condenar o uso da contracepção artificial pelos casais como um ato hostil à vida.
Em vez disso, disse ele, que o uso de contraceptivos deve ser reconhecido como uma decisão de consciência baseada no respeito mútuo dos cônjuges no interesse do bem-estar dos seus filhos.
O teólogo moral disse que a Igreja também deve reconhecer que existem outras relações sexuais legítimas além do casamento heterossexual.
Embora o casamento vitalício possa ser o melhor marco para viver a sexualidade, ele disse que não é o único.
A Igreja deve reconhecer incondicionalmente as parcerias entre pessoas do mesmo sexo e parar de “desqualificar as suas práticas sexuais como imorais”, disse Schockenhoff.
Ele admitiu, no entanto, que a promiscuidade e manter vários relacionamentos levantam sérias questões morais.
Schockenhoff apelou para a visão positiva da sexualidade e a dimensão erótica do amor que o Papa Francisco expõe na sua exortação apostólica Amoris laetitia, como “um verdadeiro raio de esperança”.

Verificações necessárias no poder administrativo

Gregor Maria Hoff, que ensina Teologia Ecuménica e Fundamental na Universidade de Salzburgo, disse que a crise dos abusos precipitou a Igreja numa “armadilha da sacralização”, que só pode ser resolvida com a introdução de um sistema de freios e contrapesos.
O teólogo de 55 anos disse que, como uma instituição religiosa com padres que são vistos como representantes de Jesus Cristo, a Igreja possui um poder sagrado baseado na confiança.
Assim, é “fatal” e “desastroso” quando essa confiança e o poder ligado a ela são destruídos, como ocorre quando os padres abusam sexualmente de outras pessoas.
Gregor disse que a única solução é que a Igreja introduza um sistema de freios e contrapesos para que o poder seja controlado tanto de dentro quanto de fora da Igreja. «Essa é a única maneira de evitar que um poder profano, que ainda acredita na sua santidade mesmo quando a abusa, ganhe independência», enfatizou.
«Por outro lado, porquê alguns dos mais altos representantes da Igreja se recusaram a admitir a sua culpa, como, por exemplo, o cardeal Hans Hermann Gröer (arcebispo de Viena de 1986 a 1995), que simplesmente se recusou a admitir a sua culpa tanto publicamente quanto para as vítimas até o fim da sua vida (em 2003)?», questionou o teólogo.
Hoff argumentou que o poder se dividiria e “o poder sacralizado se dissolveria” se a Igreja introduzisse um sistema de freios e contrapesos.

O lugar das mulheres na Igreja

«A questão para a Conferência dos Bispos da Alemanha é se ela meramente quer delegar poder ou se quer que o Povo de Deus participe independentemente do poder da Igreja e se ela está preparada para tornar isso possível», disse Gregor Maria Hoff.
Mais tarde, numa entrevista concedida no dia 15 de março à Kathpress, o professor Hoff disse que os processos decisórios da Igreja devem ser mais transparentes, afirmando que essa é a única maneira de lidar com os chamados “pontos quentes”.
Estes incluem o modo de lidar com o poder, o ensinamento da Igreja sobre a moral sexual, a questão do celibato sacerdotal e, “por último, mas não menos importante, o lugar das mulheres numa Igreja clerical». Ele disse que esta questão final deveria ser a prioridade da pauta.
Hoff observou que o Papa Francisco está continuamente a pedir à Igreja que vá para as periferias, dizendo que isso abriu o caminho para experiências nas Igrejas locais. Ele disse que introduzir o poder participativo seria uma experiência desse tipo.
Julia Knop, professora de Teologia Dogmática na Universidade de Erfurt, foi a mais crítica dos teólogos que se dirigiram aos bispos.
Ela os acusou de se terem oposto, por muito tempo, a qualquer discussão sobre o poder na Igreja, o celibato sacerdotal compulsório e os ensinamentos sobre a moral sexual.
Knop, de 42 anos, disse que os bispos, durante anos, haviam transformado esses temas em tabus. «E eu suponho que alguns de vocês gostariam de continuar essa tradição», disse ela aos bispos atordoados.
A professora Knop disse esperar que o dia de estudos com a Conferência Episcopal, no mínimo, leve os bispos a participar das discussões em andamento. «Vocês estão em posições de liderança na Igreja e representa, uma Igreja cujos defeitos sistémicos se tornaram óbvios», advertiu ela.

Abrir os olhos para a realidade

A teóloga admitiu que questões de poder, celibato e moral sexual não são, de modo algum, uma novidade para a Igreja. «Mas o que é novo é que a sua conexão destrutiva não pode mais ser negada», alertou.
«Elas não podem mais ser postas de lado como questões prediletas do catolicismo de esquerda. Elas simplesmente não podem mais ser tabus. O que é novo é a percepção de que a autocorreção da Igreja é imperativa agora», disse ela.
Numa entrevista alguns dias depois, com o Katholisch.de, o site oficial da Igreja Católica alemã, Knop defendeu a sua afirmação de que alguns bispos queriam continuar a interromper a discussão sobre questões controversas no interior da Igreja e mantê-las como tabus. «Nos últimos meses, alguns bispos repetidamente advertiram que não se deve falar de perigos sistémicos tipicamente católicos, mas se deve ver o abuso clerical como um fenómeno que pode ser encontrado na sociedade em geral», disse ela.
«Quem argumenta desse modo mantém os tabus a fim de impedir a reforma da Igreja», disse Knop.
E Knop deixou esta consideração final: «Nenhum bispo se levantou e saiu durante a minha intervenção, e nenhum bispo desde então me disse que o que eu disse estava errado.»
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