Apologia do Papa Elétrico

… este texto foi elaborado por três pessoas não-crentes, mas com um sentido e lucidez verdadeiramente surpreendentes e questionadores.

 

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Gorka Larrabeiti, Santiago Alba Rico e Carlos Fernández Liria

ÊXODO 148 – Maio 2019 – Foto: O Popular

O presente “Punto de mira1” neste número de Éxodo  pode causar surpresa aos nossos leitores. Antes de tudo, pelo seu título, mas sobretudo pelo seu conteúdo. Difere, sem dúvida, do que normalmente visa oferecer um ‘punto de mira’: apresentar o estado da questão, da temática que se pretende abordar em cada edição. Portanto, requer duas palavras que o “situem” no contexto deste número.

À primeira vista, este ‘punto de mira’ parece ser mais um artigo na seção “A fondo”.

E tal seria se fosse, apenas, um artigo sobre o papa. Mas não o é. Ou o é de maneira tão singular que achamos que é um ‘punto de mira’ excelente e lúcido sobre a situação atual do mundo: da política, da economia, da cultura, da religião, da crise que todas elas atravessam  e dos enormes desafios que enfrentam – o que era, precisamente, o tema desta edição.

O singular é que é um ‘punto de mira’ trabalhado a partir da perspectiva do Papa Francisco, a partir das suas vivências e das suas propostas carismáticas e corajosas como choques… (daí o “Papa elétrico”). E duplamente singular,  incrivelmente singular é que , além disso, este texto tenha sido elaborado por três pessoas não-crentes, mas com um sentido e lucidez verdadeiramente surpreendentes e questionadores.

É um ‘punto de mira’ que aponta para o horizonte da LIBERTAÇÃO.

Eis o artigo

Seis anos de pontificado de Francisco acabaram de ser celebrados e algo muito sério deve estar acontecendo no mundo e dentro da Igreja para que pessoas  não-crentes, e além disso de esquerda, como nós, sintam a necessidade de falar publicamente em defesa de um papa. Nem parece muito normal nem deveria ser necessário. Não sendo especialistas na matéria e em um contexto altamente polarizado, estamos também correndo o risco de ser agredidos e se nos atrevemos a fazê-lo, apesar dos previsíveis mal-entendidos e preconceitos, é porque não podemos ignorar esta evidência: a Igreja passou de ser ator protagonista da vida política para ser, ao mesmo tempo, ator, palco e motivo de uma grande batalha.

Não sabemos até que ponto os cidadãos estão cientes da gravidade da situação, de quanto é encarniçada e transcendental esta luta. Perguntamo-nos por que na Espanha o que acontece no Vaticano interessa tão pouco às pessoas. Acreditamos que, em geral, as pessoas veem a Igreja mais como um organismo ancorado no tempo do que como um barco à mercê das ondas da história.

Os meios de comunicação pouco ajudam a entender o momento, pois tendem a destacar os clássicos escândalos que revelam homofobia, machismo, anti-abortismo, assim como muitas outras falsas tempestades de poeira – o beija-mão do Anel do Pescador, o expurgo anti-feminista do Osservatore Romano… – que devem ter sabor de glória para os muitos e poderosos inimigos internos e externos do Papa Bergoglio.

Essa visão da Igreja encalhada no tempo deve-se, sim,

  • ao fato de que silenciam ou eludem, para não dizer que censuram, a doutrina social e geopolítica deste Papa agitado,
  • e a que raramente se informa a sólida aliança de interesses entre setores da extrema direita internacional e setores das alas mais retrógradas e fanáticas da Igreja.
  • Se há algo que está anquilosado, é a informação sobre o Vaticano. Eppur si muove…

Não se suspeite de nós:

  • continuamos a ser os mesmos não crentes,
  • continuamos a discordar do Papa – e radicalmente – sobre questões bioéticas ou sobre o conceito de família;
  • continuamos a pensar que todo o Papa é o monarca absoluto de uma rançosa instituição hetero-patriarcal,  etc …

E, no entanto,

  • depois de ter examinado o seu papado,
  • cientes do perigo que envolve, para a sociedade, a visão de mundo dos seus inimigos integristas,
  • sentimo-nos na obrigação de defendê-lo por dois motivos:
  • pelo que tem em si mesmo de merecedor de estima (bom cristão, pensador ilustrado e companheiro de viagem),

mas sobretudo porque acreditamos que

  • se respondermos com desinteresse ou indiferença a esses sepulcros caiados que combatem o seu trabalho pastoral e político,
  • se titubearmos em dialogar e debater com as melhores forças da Igreja,
  • o resultado será contraproducente para todos, crentes e não crentes, como já advertia Pier Paolo Pasolini.

 

Quem é, para nós, Francisco?

Pelo que sabemos é filho ‘portenho’ de imigrantes italianos

  • que cresceu no peronismo,
  • que gosta de Dostoyevsky e Hölderlin,
  • que foi professor de literatura,
  • que tem mais de pároco pragmático de bairro do que de teólogo refinado.

Após o choque da renúncia de Ratzinger, Francisco é a solução segura para o ‘córner’ do Concílio Vaticano II, uma solução in extremis no momento de menor prestígio e de maior caos interno que a Igreja viveu, como dizem muitos, desde a Reforma. Em plena pujança de novos movimentos religiosos com apelo emocional, como são as diferentes igrejas evangélicas que estão se expandindo na Europa e na América; salpicada por escândalos financeiros, corrompida por abusos sexuais globais; Francisco é uma mudança radical de jogo, um retorno ao essencial, ao Evangelho.

A sua batalha acontece mais no tempo do que no espaço:

“Não se deve dar preferência aos espaços de poder diante dos tempos, às vezes longos, dos processos. O nosso é iniciar processos, em vez de ocupar espaços”.

Nisso ele se parece muito com Juan de Mairena, poeta do tempo. Francisco, o papa do tempo, com o atrevimento de novato, está disposto a governar como escrevia Mairena: “por todos e para todos e, em última instância, contra todos.”

  • É um urbanita global, não como Ratzinger ou Wojtyla, mais eurocêntricos e provincianos;
  • vem do sul da periferia global, armado de franciscanismo retórico e apoiado pelo sempre fiel AMDG exército jesuíta.

Profundamente indisciplinado, logo que o designam Papa, revoluciona sinais e símbolos e, imediatamente, esquecidos os corvos negros do fim do papado de Ratzinger, fala-se – lembram? – da “primavera vaticana”. Desde então, Francisco

  • é um sucessão de choques  que não pára.
  • O Papa elétrico, como o chama Antonio Spadaro SJ, diretor de La Civiltà cattolica,  gera campos magnéticos opostos.

 

“Este é o período mais luminoso da história da Igreja desde a época apostólica”, afirmam os seus partidários.

“Desobedecer ao Papa é um dever se ele exerce o seu poder de modo pecaminoso,”

 instiga o cizaneiro cardeal norte-americano Burke, amigo de Steve Bannon e de Matteo Salvini,

  • paladinos todos eles das “raízes judaico-cristãs”,
  • concebidas como artifícios de incenso,
  • aríetes de guerra cultural
  • e ‘souvenirs’ do folclore identitário.

Francisco é

  • a pedra no caminho contra o qual se chocam esses campeões restauracionistas, fanáticos legalistas da primazia do Ocidente que, temerosos, dizem que estão “perdendo a Igreja”;
  • uma pedra sobre a qual se ergue uma inquieta e criativa esperança diante daqueles que gostariam de recuperar a Cristandade perdida, fazendo com que a Igreja se torne mais uma vez o coração doutrinariamente seguro de todo o Ocidente branco;
  • uma pedra grande diante dos teocons  e diante desta nova facção americana que o  historiador do Cristianismo e vaticanista Massimo Faggioli define como “catolicismo teologicamente neo-ortodoxo, moralmente neo-integralista, politicamente antiliberal, anti-internacionalista e esteticamente neo-medieval”.

Contra todos eles, Francisco resiste espartano e ‘partisan’,

  • inquieto e incompleto,
  • sem calar e amordaçado,
  • confessando e confessado,
  • sempre imperfeito,
  • humano,
  • em claro-escuro:

“Eu sou um pecador. Esta é a definição mais exata. E não se trata de uma maneira de falar ou de um gênero literário. Eu sou um pecador”.

Numa Europa lúgubre que, segundo estes apocalípticos e tenebrosos reconquistadores de valores, estaria sofrendo descristianização maciça, relativismo e islamização sem freio, Francisco reivindica três coisas:

  • as luzes do discernimento e do Direito diante das sombras e dos medos;
  • a vida em comunidade diante da negra solidão;
  • a audácia na fronteira diante da insegurança da fortaleza.

Que diabos fez ele durante estes  anos para ganhar tantos inimigos, para que se fale até de cisma?

Bem, basicamente, deu dois bons choques:

  • um à geopolítica global, falando com muito clareza, lisura e lhaneza sobre a pobreza e a iniquidade como máximos problemas reais deste mundo,
  • e o outro à geopolítica do Vaticano, concentrando muita atenção sobre o Islã e a China, e menos no Ocidente, e talvez – apenas talvez – dando um primeiro passo para abrir um processo para uma desvaticanização da Igreja.

Comecemos pelo primeiro.

Há muitos poderes econômicos que não lhe perdoarão as críticas ferozes, certeiras, eternas, a esta economia que “mata“, a esse “primeiro terrorismo”. Trump, Salvini, Orban ou Le Pen nunca lhe perdoarão a sua palavra clara e solidária a 80 metros do muro em Tijuana, em Lesbos ou em  Lampedusa, destino da  sua primeira visita. Francisco insiste e volta a insistir que a questão migratória é “o verdadeiro nó político global”.

Nenhum fundamentalista cristão, muito menos os populistas de direita, irão esquecer aquelas declarações nas quais ele desmontava as famosas raízes cristãs da Europa de que tanto falava Ratzinger:

“Devemos falar de raízes, no plural, pois há muito mais de uma. Neste sentido, quando ouço falar das raízes cristãs da Europa, às vezes tenho medo do tom usado, que pode ser vingativo ou triunfalista. Então torna-se colonialismo”.

Menos ainda o perdoarão os integristas católicos por esse Documento sobre a Fraternidade humana para a paz mundial e a convivência comum, assinado junto com o Grande Imã de Al-Azhar, que derruba  teoricamente

  • não só a tese do conflito de civilizações de Samuel P. Huntington, pedra angular sobre a qual se ergueu a política do governo Bush de exportação da democracia e que pretendeu justificar as guerras no Afeganistão e no Iraque,
  • mas também o fundamento religioso de qualquer ato terrorista.

Tampouco lhe será perdoado em Hong Kong ou nos Estados Unidos

  • que o princípio do acordo com a China
  • possa desativar o argumento da falta de liberdade religiosa na China como arma política contra Pequim.

Eis como avaliava eloquentemente este acordo Steve Bannon, o ex-conselheiro de Trump e líder do The Movement, essa espécie de internacional destro-populista:

“É atroz. Assinaram um acordo com o estado mais totalitário do mundo e completamente ateu. Existem 20 milhões de fiéis santos que eles deixaram abandonados. Um acordo secreto? A única coisa que eles dizem é que serão eles que escolherão os bispos. Tudo isto terminará com o restabelecimento das relações diplomáticas. É disso que se trata. E vão vender Taiwan e todos os seus cristãos”.

Na realidade, quer se trate da Venezuela, da Palestina, da Síria ou do Iêmen,

  • o que não se perdoa a Francisco
  • é que faça o possível para apagar incêndios,
  • alguns dos focos dessa “Terceira Guerra Mundial em pedaços”
  • que outros gostariam de continuar atiçando.

Também não se lhe perdoa

  • a sua condição de agricultor idoso, sábio e lento,
  • que, dia após dia, semeia propostas construtivas com slogans simples e eficazes.

Não por ele dizer

  • que o deus dinheiro e o seu profeta o lucro não podem ser o centro da vida,
  • mas porque sustenta que esse lugar deve ser ocupado pelo ser humano, ao qual bastam três tês para viver com dignidade: Terra, Teto e Trabalho.

Não é

  • por censurar ao mundo inteiro e mais concretamente aos líderes políticos mundiais a “globalização da indiferença” e “a cultura do descarte”,
  • mas por propor, insistentemente, que se acolham, protejam, promovam  e integrem os migrantes e refugiados.

Da sua belíssima encíclica Laudato si’ sobre o cuidado com a casa comum só diremos  que

  • é a única resposta possível ao “dilúvio” em que já vivemos:
  • uma ecologia integral – ambiental, econômica, social, cultural, quotidiana, intergeracional, ‘biencomunista’2, radical –
  • ou seja , uma conversão da comunidade ao que Paulo VI chamou de “civilização do amor”.

Se o dilema existencial diante do qual nos encontramos é o de escolher entre essa esperança ou mais dilúvio, então louvada seja essa abençoada civilização do amor.

 

O Vaticano fala de amor?

Aqui muitos, não sem razão, trarão à colação a questão dos abusos sexuais dos padres.

  • Que amor ou que diabos seria de esperar de uma instituição criminosa que tem tolerado e encoberto os abusos de pedofilia
  • e  que acaba de descobrir – aleluia! – os abusos sexuais contra as religiosas?
  • Como não denunciar que o Encontro sobre “A Proteção de menores na Igreja”, recentemente realizado no Vaticano, tenha sido concluído sem medidas realmente concretas?
  • Não estamos talvez diante de uma operação de fachada?

Estas dúvidas, e junto com elas a devida indignação e a imperiosa solidariedade com as vítimas, devem ser o óbvio, o principal, o substancial. Sem hesitações.

Os defensores de Francisco justificarão a sua atuação dizendo

  • que o problema foi finalmente enfrentado abertamente,
  • que pela primeira vez as  mulheres participaram de um encontro deste tipo
  • e que ele acaba de promulgar novas normas penais contra abusos sexuais, para o Estado da Cidade do Vaticano e para a Cúria Romana, incluídos os Núncios Apostólicos.

Não é suficiente. Está claro. Contudo, deter-se nessa crítica não enfrenta o grave problema diante do qual se acha a Igreja e que pode acabar salpicando a sociedade inteira. Mas sobre esta batalha crucial para a Igreja e para o mundo, incompreensivelmente, os grandes meios de comunicação calam.

Digamos que o escândalo dos abusos abriu uma dupla rachadura na Igreja.

* A primeira salta à vista. Divide a Igreja em duas. Por um lado, um setor retrógado da Igreja, cujas cabeças visíveis são os cardeais Burke e Brandmüller, sustenta que “a praga da agenda homossexual se espalhou dentro da Igreja, fomentada por redes organizadas e protegida por um clima de cumplicidade e de silêncio”. O mal, segundo esta corrente da Igreja, seria a própria homossexualidade. Uma doença. Um tumor que teria que ser extirpado.

A imprensa não monta escândalos por causa de semelhantes sandices. Ainda mais: dir-se-ia que essas opiniões gozam de grande prestígio no matagal da Internet, onde proliferam ‘sites’ fundamentalistas – pouco lidos, dizem – que ecoam essas afirmações. (P.S.: O longo texto publicado em 10 de abril por Bento XVI sobre a crise dos abusos sexuais na Igreja também se inscreve nesta corrente que alimenta a confusão entre abusos sexuais e homossexualidade e, no fim, alimenta a oposição a Francisco).

Frente a estes homófobos, há um setor progressista cujo rosto mais visível é a Conferência Episcopal Alemã, que começou a abordar questões anatematizadas até agora:

  • celibato,
  • papel das mulheres,
  • homossexualidade,
  • masturbação,
  • transgênero.

A imprensa que se diz laica,

  • ao não informar sobre este debate e limitar-se a denunciar a falta de ação do papado,
  • acaba fazendo o jogo dos obscurantistas,
  • uma vez que desloca o foco da agenda política do Vaticano – do social e geopolítico à família e à bioética – para os “princípios inegociáveis” de Ratzinger, o campo – a cortina de incenso – que dá mais fôlego aos fundamentalistas e o que menos apaixona Francisco:

“Não podemos continuar insistindo apenas em questões relativas ao aborto, ao casamento homossexual ou ao uso de anticoncepcionais. É impossível. Não falei muito sobre essas questões e recebi críticas por isso. Mas, para se falar destas coisas, é preciso  fazê-lo em contexto. De resto, já conhecemos a opinião da Igreja e eu sou filho da Igreja, mas não é necessário ficar falando destas coisas sem cessar”.

Francisco tem outras prioridades:

“Os ensinamentos da Igreja, sejam dogmáticos ou morais, não são todos equivalentes. Uma pastoral missionária não fica obcecada por transmitir de maneira desestruturada um conjunto de doutrinas para impô-las com insistência. O anúncio missionário concentra-se no essencial, no necessário, que, por outr0 lado, é o que mais apaixona e atrai, é o que incendeia o coração, como aconteceu com os discípulos de Emaús”.

 

* Falávamos de duas rachaduras. Pois bem, a segunda afeta a estrutura profunda do Vaticano. É um problema maiúsculo. É provavelmente o maior problema agora, o que mais preocupa os inimigos de Francisco. O historiador Massimo Faggioli, após apontar paralelismos entre a falta de reformas descentralizadoras, umas com base na Reforma, outras com base no Concílio Vaticano II, diz:

“A crise atual dos abusos sexuais deriva em boa parte de que 

  • no Vaticano, durante 50 anos, têm sido rejeitadas todas as propostas de descentralizar ou modernizar a Cúria Romana,
  • cuja estrutura pouco mudou desde a sua fundação em 1588, logo após o Concílio de Trento”.

Vejamos se conseguimos explicar o que, extramuros, nós entendemos: os abusos sexuais são um problema global que exige uma resposta global. Para responder globalmente, existem dois caminhos:

  • Francisco poderia optar por descentralizar a Igreja e renunciar ao primado espacial de Roma sem que isso significasse renunciar ao primado espiritual. Ubi Petrus, ibi Ecclesia. Onde quer que o papa esteja, lá estará a autoridade espiritual.
  • Frente a ele, os seus inimigos na Cúria Romana nunca renunciarão a esse poder romano; frente a ele, os seus inimigos fora do Vaticano nunca renunciarão ao poder simbólico e político do Vaticano, à primazia espacial do Ocidente.

Víctor Manuel “Tucho” Fernández, estreito colaborador de Francisco, respondeu assim à pergunta se seria possível um Papa sem Vaticano, um papa fora do Vaticano:

“A Cúria do Vaticano não é uma estrutura essencial. O papa poderia sair e viver fora de Roma, ter um dicastério em Roma e outro em Bogotá, e talvez conectar-se por teleconferência com especialistas em liturgia residentes na Alemanha. O que deve estar em volta do Papa, em sentido teológico, é o Colégio dos Bispos para servir ao povo”.

Poderá acontecer que algum dia Roma deixe de ser espacialmente o centro do catolicismo? Quem sabe. O que por certo está claro é que a simples pergunta compacta ainda mais a cruzada contra o Papa, cruzada que, para não “perder Roma”, faz de tudo para reconquistá-la:

  • desde promover, como dizíamos,  a agenda bioética, os “valores” familiares e as “raízes” identitárias através da organização de eventos “pró-vida”, como o Congresso Mundial das Famílias e o Rome Life Forum,
  • até montar “um motor evangelizador” chamado de The Movement,

essa internacional destro-populista idealizada por Bannon, em que estão envolvidos Salvini, Orban, Bolsonaro ou o Vox, bem como o Dignitatis Humanae Institute, uma academia político-religiosa cujo fim declarado é

promover a civilização ocidental e as suas raízes judaico-cristãs segundo o pensamento nacionalista populista que Bannon desenvolveu”.

Insistimos: é surpreendente que aqueles que rasgam as vestes, pelo pouco que  teria feito Francisco sobre o problema dos abusos, mantenham um silêncio sepulcral sobre essa convergência de interesses entre

  • membros da Cúria que perderam poder neste papado,
  • setores fanáticos da Igreja americana,
  • agitadores como Bannon,
  • ortodoxos russos tradicionalistas,
  • neocatecumenais europeus
  • e políticos europeus de extrema direita.

Como é que quase não foi comentada a notícia, revelada por Open Democracy, segundo a qual

  • fundamentalistas ligados a Trump e a Steve Bannon
  • figuram entre uma dúzia de grupos que despejaram 50 milhões de dólares em diferentes partidos e associações de extrema direita europeia na última década?

A gravidade do momento e a perigosa estratégia diante da qual se encontra a Igreja é explicada e resumida de maneira muito clara por Antonio Spadaro:

“De uma teologia que pretende condicionar a ideologia política passámos para uma ideologia que quer apoderar-se da teologia”. Francisco resiste. É claro que ele não nega o que Ratzinger considerava como princípios não negociáveis: “A família fundada no casamento entre um homem e uma mulher é essencial”, ” [Abortar] é como contratar um sicário para resolver um problema”.

Mas ele também não se põe a esgrimir esses princípios – é isso que gostariam que fizesse e é isso que fazem os seus inimigos – como uma arma política para recuperar poder e influência.  Spadaro afirma:

“A cultura da família não pode ser a parte instrumental de uma guerra cultural. É um erro de método e assim acaba sendo também um erro de substância”.

Onde vemos que há católicos que recusam que se instrumentalize politicamente uma questão moral, nós queremos perceber certa mentalidade ilustrada, certa atitude “republicana”.

Entramos aqui num terreno – a República – em que nos sentimos mais confortáveis. Acreditamos que a máxima aspiração realista que podemos almejar como não-crentes não é que a Igreja desapareça do mapa e do tempo. Já que existe, vamos expor qual seria a melhor das igrejas possíveis para nós. E, sem dúvida, a resposta seria uma Igreja esclarecida.

A questão é: pode um papa ser, de algum modo, esclarecido? Se esse papa fosse Ratzinger, a resposta sem dúvida seria não. Numa conferência intitulada Europa, Seus fundamentos espirituais ontem, hoje e amanhã  Bento XVI, ao explicar o efeito da Revolução Francesa sobre a sociedade, concluía com amargura:

“Deus e a sua vontade deixaram de ser relevantes na vida pública”.

Não, Ratzinger não só não era um esclarecido, mas até se poderia dizer que ele considerava esse período uma derrota da qual derivavam muitos dos males da Europa, isto é, do Ocidente.

  • Não há dúvida de que a natureza da Igreja, desde Constantino, é em si contraditória, por ser água e óleo, religião e Estado.
  • Uma igreja constantiniana na qual os católicos estejam representados por uma autoridade política concreta parece ser a maneira mais fácil de resolver esse oxímoro histórico de química política impossível.

A Igreja constantiniana sempre defendeu – no presente e no espaço – a primazia do Ocidente.

  • Assim o fez até Francisco, o qual, perante uma igreja que está em suas horas mais sombrias de consenso e prestígio,
  • abandona o constantinismo e vira audazmente, sem se poupar de perigos, para uma Igreja universal e evangélica, para “um hospital de campo”.

Isso traduz-se

  • na renúncia a uma forma única de partido político católico concreto
  • e na aposta  por uma alternativa coral que englobe todos os que  crentes e não crentes, que comunguem com a doutrina social católica.

Francisco, ao afirmar que “para avançar na construção de um povo, o tempo é superior ao espaço”, repete de algum modo o que Cristo dizia: que o seu reino não é deste mundo, que o que é de César é de César.

Ou melhor: Francisco sabe, aceita e acredita que, para governar os Estados, já existe o  Direito. No discurso perante o corpo diplomático, neste ano, ele defendeu, citando Paulo VI, “a primazia da justiça e do direito”:

“Vós —dizia o Papa Montini—consagrastes o grande princípio de que  as relações entre os povos devem ser reguladas pelo direito, pela justiça, pela  razão, pelos tratados, e não pela força, pela arrogância, pela violência, pela guerra e nem sequer, pelo medo ou pelo engano”.

Esta “fraternidade”, palavra-chave do documento assinado juntamente com o Grande Imã de Al Azhar,

  • não soa por acaso como “Liberté, egalité, fraternité“?
  • Não evoca as linguagens constitucionais?

Lendo integralmente esse texto,

  • a palavra “direitos” repete-se quatorze vezes em referência aos direitos das mulheres, das crianças, dos idosos, dos explorados, dos exilados…
  • Também são utilizadas as seguintes expressões jurídicas:

Tomem nota também desta passagem eloquente:

“O conceito de cidadania baseia-se na igualdade de direitos e de deveres sob cuja proteção todos gozam de justiça. Por esta razão,

  • é necessário comprometermo-nos a estabelecer na nossa sociedade o conceito de plena cidadania
  • e a renunciar ao uso discriminatório da palavra minorias, que traz consigo as sementes do sentimento de isolamento e inferioridade; prepara o terreno para a hostilidade e a discórdia e elimina as conquistas e os direitos civis e religiosos de alguns cidadãos, discriminando-os”.

Este texto não revela que a Lei – o conceito de cidadania – é a única maneira pacífica de dirimir questões inter-religiosas?

Ainda outro exemplo. Na Conferência Internacional sobre “Os direitos humanos no mundo contemporâneo: conquistas, omissões, negações”, organizado pelo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral e pela Pontifícia Universidade Gregoriana, para assinalar o 70º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos e o 25º aniversário da Declaração e do Programa de Ação de Viena, Francisco, provavelmente o único líder mundial que continua se batendo pelos direitos humanos, soltou outra das suas chamadas luminosas:

“Eu gostaria de, nesta ocasião, dirigir um apelo sincero àqueles que têm responsabilidades institucionais, pedindo-lhes que coloquem os direitos humanos no centro de todas as políticas, incluindo as de cooperação para o desenvolvimento, mesmo que isso signifique ir contra a corrente”.

O direito no centro do mundo terreno: é a isso que nos referimos – isso que aplaudimos – quando dizemos que vemos em Francisco um homem de luzes, um cidadão esclarecido.

  • O Deus de Francisco, como o de Descartes, põe em movimento o mundo e o sustenta de fora, para permitir que então ele se governe por suas próprias leis humanas, onde nenhum deus pode intervir para justificar a humilhação social, a exploração e a desigualdade.
  • Francisco aposta, como Kant, na “maioridade da Humanidade”, que implica a responsabilidade dos dirigentes (políticos, empresários e jornalistas) e a submissão de todos por igual às leis protetoras e libertadoras – e não a interesses privados.

Poderíamos continuar a ilustrar este seu traço característico com exemplos mais significativos, como sua batalha pela abolição da pena de morte. Para concluir, baste citar – por ser mais recente e abrangente, – o que ele respondeu ao jornalista Jordi Évole  a respeito do pagamento de impostos pela Igreja ao Estado espanhol: “A Igreja é uma entidade, uma sociedade  e os homens da Igreja são cidadãos e têm que cumprir todos os seus direitos de cidadãos”.

O que não parece que se possa pôr em dúvida é que o Papa iniciou um diálogo entre crentes e não-crentes, entre crentes católicos e os de outras religiões.

  • Um diálogo é um diálogo,
  • não é uma imposição imperialista ou um programa proselitista, como a Igreja protagonizou em outros tempos.

Que tenha aceitado a entrevista com Jordi Évole é apenas uma amostra da sua vontade de descer à arena pública, advertindo que os problemas estruturais que enfrentamos interpelam por igual a consciência dos católicos, a dos ateus e em geral, a de todo o ser humano.

Porque o que está em jogo

  • não é apenas a consciência pessoal ou a intimidade religiosa das pessoas,
  • mas este sistema político e econômico mundial, que condenou à miséria e à emigração milhões de seres humanos
  • e já ameaça a viabilidade ecológica mais elementar do planeta.

O Papa deu um primeiro passo para nos fazer entender que aqui estamos todos comprometidos, sejamos crentes ou não crentes. Seria uma grande irresponsabilidade que, ao contrário, nós ateus nos osbtinássemos em prescindir dos crentes para enfrentar a gravidade do problema.

  • A Igreja, pelo menos neste momento, não está alinhada com essa revolução dos ricos contra os pobres que o neoliberalismo iniciou desde os anos 80 e que nos levou ao desastre global dos nossos dias.
  • Não se pode dizer o mesmo, por exemplo, das igrejas evangélicas e pentecostais,
  • às quais, na sua ânsia de combater a qualquer preço a teologia da libertação, o Papa Wojtyla deu de presente a América Latina e, de modo geral, todos os pobres do planeta.

A atitude de Francisco é completamente diferente e seria estúpido não entendê-la desta maneira. Apesar do seu indubitável declínio, a Igreja continua sendo, como disse Gramsci,

  • uma das maiores organizações de massas da humanidade,
  • uma organização que conta com uma paróquia em cada bairro e em cada aldeia,
  • um verdadeiro meio de comunicação e de organização de massas.

Seria paradoxal que a esquerda política, blindada no seu ateísmo, não fosse capaz de ver o que o Papa viu, ou seja, que nestes momentos, crentes e não-crentes, temos um inimigo comum:

  • o terrorismo estrutural que governa os destinos do planeta;
  • em suma, esse que alguns (inclusive o papa) continuam a chamar capitalismo.

Então, por tudo o que dissemos:

  • por suas críticas ferinas e certeiras ao capitalismo financeiro,
  • por essa proposta ecologia integral tão coerente e tão completa,
  • pelo respeito que demonstra para com os crentes e os não-crentes que compartilhamos a casa comum;

por isso e embora continuemos a discordar radicalmente, sobretudo nas questões bioéticas,

  • quebrámos esta lança em seu nome,
  • rompendo ao mesmo tempo o silêncio de uma esquerda farisaica, mas laicamente correta
  • que, no meio ao escândalo dos abusos, nunca apoiará um Papa – vade retro

mesmo que seja atacada pelos nossos maiores inimigos, mesmo que nos convenha porque em muitas coisas estamos eletricamente de acordo, nem sequer se estiver em jogo, o presente e o futuro da Terra.

_________________

1Punto de mira” (alvo) – é uma seção da revista espanhola Éxodo.

1 Biencomunista – neologismo usado por alguns autores com sinônimo de ‘defensor(a) do bem comum’.

 

Gorka Larrabeiti, Santiago Alba Rico e Carlos Fernández Liria

http://www.exodo.org/apologia-del-papa-electrico/

 

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