O Papa, a camisa de Rocío e o Vaticano, “última corte de uma monarquia absoluta”

Resultado de imagem para O Papa, a camisa de Rocío e o Vaticano, “última corte de uma monarquia absoluta”

| 30 Mai 19 |

O Vaticano é a “última corte de uma monarquia absoluta”, diz o Papa numa longa entrevista do Papa Francisco à Televisa.

Ocasião para Francisco falar dos refugiados e do muro de Trump, do islão e dos jovens, da violência e da pobreza, dos jovens e das perguntas dos jornalistas que o levaram a inflectir posições.

E para pegar ainda na camisa de uma mulher vítima de feminicídio para fazer dela uma bandeira…

 

No final da entrevista, o Papa toma de novo, nas mãos, a camisa de Rocío, uma mulher assassinada diante do seu filho. Alguém pedira à jornalista Valentina Alazraki, da televisão mexicana Televisa, que ela entregasse aquela peça de roupa a Francisco, para que ele pensasse “em todas as mulheres vítimas de violência, no México e no mundo”.

“Queria terminar falando a Rocío”, disse o Papa no final da entrevista. “Esta mulher não pôde ver os seus filhos, não os pôde ver crescer e aqui temos a sua camisa. Eu quereria dizer aos que nos estão a ver que mais do que uma camisa é uma bandeira, uma bandeira do sofrimento de tantas mulheres que dão vida e dão a vida e passam anonimamente.”

(Momentos finais da entrevista à Televisa, num vídeo disponível no canal Youtube)

A pergunta da jornalista, quando mostrou ao Papa a camisa da mulher assassinada, tinha sido sobre a violência de que são vítimas tantas mulheres no mundo – em Portugal, morreram já 14 mulheres nos primeiros meses deste ano.

“De Rocío sabemos o nome, de tantas outras não”, acrescentou Francisco. “O sangue de Rocío e de tantas mulheres assassinadas, usadas, vendidas, exploradas, creio que tem de ser uma semente de uma tomada de consciência de tudo isto.”

Com o rosto triste e cabisbaixo, o Papa afirmou ainda:

“Quereria pedir aos que nos estão vendo que em algum momento façam um bocadinho de silêncio no seu coração e pensem em Rocío, ponham um rosto a Rocío, pensem em tantas mulheres como ela. E, se rezam, rezem, se desejam, desejem, e oxalá o Senhor lhes dê a graça de chorar. Chorar sobre toda esta injustiça, sobre todo este mundo selvagem e cruel, onde a cultura parece que é só uma questão de enciclopédia. Queria terminar com esta recordação e a palavra: Rocío.”

Tempo antes, na entrevista, quando a jornalista da Televisa lhe colocara a pergunta sobre o feminicídio, o Papa responde:

“Uma vida truncada, uma história acabada por causa da violência, a injustiça pela dor…” Começa por verificar que muitas pessoas se espantam ainda quando uma mulher se torna uma grande escritora ou ganha o prémio Nobel. Mas, acrescenta, muitas vezes a mulher está em “segundo lugar”. “E do segundo lugar a ser objecto de escravatura basta ver (…) São mulheres escravas. (…) E daí a matá-las…”

Francisco recorda ainda uma história:

“Quando visitei um centro de raparigas resgatadas no Ano da Misericórdia, uma tinha a orelha cortada porque não tinha levado o [dinheiro] suficiente. Eles têm um controlo especial sobre os clientes e se ela não cumpre pegam-na ou castigam-na como a essa outra.”

Desligando desses casos, o Papa conclui:

“O mundo sem a mulher não funciona. Não por ser quem traz os filhos, deixemos a procriação de lado… Uma casa sem a mulher não funciona. Há uma palavra que está por cair do dicionário, porque toda a gente tem medo dela: ternura. O património da mulher. Mas daí ao feminicídio, à escravatura, vai um passo. Que ódio é esse, não o saberia explicar.”

 

“A última corte europeia de uma monarquia absoluta”

Na longa entrevista à Televisa, cujo conteúdo foi divulgado nesta quarta-feira, 29 de Maio, o Papa respondeu a perguntas sobre

  • migrações,
  • o muro que o Presidente dos Estados Unidos continua a querer construir na fronteira do seu país com o México,
  • os refugiados,
  • o narcotráfico
  • e os abusos sexuais por parte de membros do clero,

entre outros temas.

É já próximo do final, no entanto, que Francisco faz uma das afirmações mais surpreendentes, mesmo se são conhecidas as suas críticas às “doenças da Cúria”.

Quando Valentina Alazraki lhe pergunta sobre a eventual contradição entre “uma Igreja em crise e um Papa que goza de popularidade”, o Papa Bergoglio responde com uma dura crítica à forma de governo que domina ainda o Vaticano.

A afirmação surge quase sem ligação directa ao que é dito antes. O Papa começa por afirmar que acredita

  • que “a Igreja está a mudar”
  • e que a reforma foi pedida pelos cardeais no conclave que o elegeu, em 2013.

“As crises são de crescimento também, para mim é uma crise de crescimento, onde há que ajustar certas coisas, fomentar outras e seguir adiante”.

Cita depois o exemplo do novo bispo da cidade italiana de Lucca, que entrou na sua diocese a pé, acompanhado por mais de dois mil jovens. Só quando chegou à porta da catedral colocou as vestes de bispo e “entra com o povo”, conta Francisco. Ou a história da freira que, na República Centro-Africana já ajudou a fazer três mil partos.

“Isso é a força”, conclui. O que está em crise são modalidades que formam a Igreja que têm de desaparecer. Sejamos conscientes.

  • O Estado da Cidade do Vaticano como forma de governo, a Cúria, o que seja, é a última corte europeia de uma monarquia absoluta. A última.
  • As demais já são monarquias constitucionais, a corte dilui-se,
  • mas aqui há estruturas de corte que são o que tem de acabar.”

Admitindo que um papa é “uma pessoa” e que deve ter férias, recorda os exemplos de João Paulo II que ia esquiar e de Bento XVI que ia para a montanha, e acrescenta:

“O esquema de corte é o que tem de desaparecer. E isto pediram todos os cardeais – bom, a maioria, graças a Deus.”

 

Momento em que Jorge Bergoglio apareceu na varanda central da basílica de São Pedro, já como Papa Francisco, depois de eleito em 2013. Foto © Tenan/Wikimedia Commons

“Gosto muito de andar na rua, aprendo muito na rua”

Sobre os muros, a propósito da barreira dos Estados Unidos na fronteira com o México, Francisco diz que já bastou o muro de Berlim, que “bastantes dores de cabeça e bastante sofrimento nos trouxe”.

E afirma:

“Levantar muros como se fosse a defesa? Quando a defesa é o diálogo, o crescimento, o acolhimento e a educação, a integração ou o são limite do ‘não se pode mais’, mas humano (…) Separar filhos dos seus pais vai contra o direito natural e esses cristãos… não o podem ser, tão pouco. É cruel. Cai-se na crueldade maior. Para defender o quê? O território ou a economia do país ou vá lá saber-se o quê.”

O Papa admite que diria o mesmo, acerca do tema, se estivesse diante do Presidente dos EUA e acrescenta:

“Pode defender-se o território perfeitamente com uma ponte, não necessariamente com um muro. Falo de pontes políticas, de pontes culturais.”

A mesma ideia de diálogo político Francisco defende-a para casos como os do México. 

  • O país está actualmente bloqueado politicamente
  • por uma situação de violência endémica que fez 40 mil mortos em 2018 e mais de 8400 nos primeiros três meses deste ano – o que significa 90 pessoas mortas por dia.

Acerca dos refugiados e migrantes, repete a ideia de que

  • é necessário não só acolher,
  • como também “acompanhar, promover e integrar”.
  • Estamos numa situação de “emergência mundial”, diz, dando o exemplo da ministra da Cultura da Suécia, com quem se encontrou, que é filha de uma sueca e de um imigrante africano naquele país.
  • “Veja o modo de tratar um migrante na Suécia: a sua filha é ministra do país!”

Noutro momento da entrevista, ainda a propósito do tema e da presença do islão na Europa, o Papa afirma:

“O islão entrou na Europa outra vez, sejamos realistas, e além disso o islão é uma realidade que não podemos ignorar. Países islâmicos de África vivem muito amigos com os cristãos, muito amigos. Contava-nos um bispo que no Jubileu [da Misericórdia] na catedral havia sempre uma fila muito grande de manhã à noite (…) Uns iam ao confessionário, outros ficavam a rezar e a maioria ia ao altar da Virgem, eram todos islâmicos!” O bispo perguntou porque iam ali e o eles responderam: “Também queremos ganhar o jubileu.” O papa conclui: “Creio que somos irmãos, vimos todos de Abraão e nesse aspecto sigo as linhas do Concílio [Vaticano II]: estender mãos, hebreus, islâmicos, estender mãos o mais possível.”

O Papa

  • fala ainda da pobreza, para dizer que há cada vez “menos ricos com a maioria da fortuna do mundo”.
  • Refere-se aos jovens, dizendo que eles têm boa vontade mas que estão debilitados pela falta de raízes.
  • Confessa-se arrependido de ter respondido mal a uma jornalista no Chile quando esta o confrontou os casos de abusos sexuais – e diz mesmo que foram essas perguntas que o levaram a reflectir que a informação que tinha sobre o tema “não era” a correcta.
  • E, ainda a propósito dos abusos e da reforma que eles têm provocado, diz que a sua “política é abrir processos”.
  • Manifesta o grande desejo de ir à China e ao Japão.
  • Diz que recebeu com “sentido de humor” as acusações de “herege”
  • e que o que lhe custa mais em Roma é não poder sair para ir comer uma pizza às escondidas.

“Gosto muito de andar na rua, aprendo muito na rua.”

(A transcrição integral da entrevista, em castelhano, pode ser lida aqui)

 

António Marujo

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>