Haverá alternativas à economia que mata?

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Frei Bento Domingues, O.P. – 26/05/23019

Imagem: para além das evidências

É muita ousadia da parte do Papa tentar destruir o dogma de que não há alternativas viáveis à economia dominante.

É ousadia porque

  • não faz uma encíclica ou cria uma comissão,
  • mas convoca para um movimento que fermente a massa,
  • quando normalmente à Santa Sé se pede que tenha a primeira e a última palavra.

 

  1. Os anos não perdoam. Os adversários das posições e das práticas do Papa Francisco confiaram, durante bastante tempo, nessa lei da natureza. Quando se deram conta de que este argentino resiste e não desiste das reformas que propôs, entraram em pânico: dada a sua popularidade, é possível que da eleição de um novo Papa surja alguém da mesma linha. Isso não pode acontecer! Daí, a reunião de pessoas e recursos da finança internacional para denegrirem a imagem de Bergoglio.

Para esses grupos – pouco numerosos, mas com muita visibilidade e acesso a inúmeros recursos –,

  • é insuportável ter à frente da Igreja Católica alguém que denuncia a economia dominante como “economia que mata”.
  • Supor que existem e podem crescer alternativas a esta economia é uma blasfémia, uma heresia económica sem perdão.

Até agora, o Papa Francisco agia de forma exemplar em relação aos que são deixados à margem e abandonados. Fazia incessantes apelos em socorro das vítimas da guerra que procuram, em condições miseráveis, acolhimento noutros países. Em todo esse esforço, é sempre o Papa a agir e a falar ou a nomear comissões de estudo para resolver problemas. Mesmo os três notáveis discursos sobre a injustiça social e económica, dirigidos aos movimentos populares [1], não fogem a esse estilo.

Agora, porém, com a Carta convocatória para o Encontro “Economy of Francesco”, em Assis, de 26 a 28 de Março de 2020, parece ter começado uma era nova.

É dirigida

  • a jovens economistas,
  • empreendedores e empreendedoras de todo o mundo,
  • não como mestre em Doutrina Social da Igreja,
  • mas como alguém que deseja participar no conhecimento das alternativas que existem à “economia que mata”
  • e ampliar as suas potencialidades.

Antes de realçar a significação desta mudança, devo dar a palavra à própria Carta. No primeiro parágrafo resume o seu desejo:

“Esta Carta é para vos convidar para uma iniciativa que muito desejei: um evento que me permita encontrar quem, hoje, está a formar-se, a começar a estudar e a praticar uma economia diferente que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, que cuida da criação e não a degrada. Um evento que nos ajude a estar juntos e a conhecermo-nos, que nos leve a fazer um ‘pacto’ para mudar a economia actual e dar uma alma à economia de amanhã.”

 

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Imagem: Espiritualismo Ocidental

 

Recorre à sua Encíclica Laudato si’:

“sublinhei como hoje, mais do que nunca,

  • tudo está intimamente ligado,
  • e a salvaguarda do ambiente não pode ser separada da justiça para com os pobres
  • e das soluções dos problemas estruturais da economia mundial.

É preciso, portanto, corrigir os modelos de crescimento incapazes de garantir

  • o respeito pelo ambiente,
  • o acolhimento da vida,
  • o cuidado pela família,
  • a equidade social,
  • a dignidade dos trabalhadores,
  • os direitos das futuras gerações.

Infelizmente, continua ainda por escutar o apelo

  • a tomar consciência da gravidade dos problemas
  • e, sobretudo, a concretizar um modelo económico novo,
  • fruto de uma cultura da comunhão, baseado na fraternidade e na equidade.”

Voltando à Carta do Papa:

“desejo encontrar-vos, em Assis, para juntos promovermos, através de um ‘pacto’ comum, um processo de mudança global que veja, em comunhão de propósitos, não só quantos têm o dom da fé, mas todos, mulheres e homens de boa vontade, para além das diferenças de credo e de nacionalidade, unidos por um ideal de fraternidade atento sobretudo aos pobres e aos excluídos. Convido cada um de vós a ser protagonista deste pacto, assumindo a tarefa de um compromisso individual e colectivo para cultivarmos juntos o sonho de um novo humanismo que responda às expectativas do ser humano e do desígnio de Deus.” [2]

 

2. É evidente que as grandes escolas de economia e gestão também gostam de jovens. Sem eles, não poderiam existir. A questão de fundo é a sua orientação. Estão ao serviço de que interesses? Não falta quem afirme que, muitas vezes, se destinam a uma lavagem ao cérebro, para que aprendam a engenharia de manter e aprofundar as desigualdades sociais.

  • Não desejam um mundo de cidadãos, mas de consumidores que, de tão obcecados com os níveis do seu próprio consumo, acabem por fazer o jogo dos que ganham com esta economia “que mata”.
  • Essa economia foi concebida, não para fortalecer a democracia, mas para a enfraquecer subordinando o poder político ao poder económico. A publicidade revela e esconde. Revela o que tu deves desejar e esconde o que te arruína. A máquina desta engenharia tem ao seu serviço uma grande rede de ilusionistas para mostrar que não há alternativa, ignorando aquelas que, já no terreno, estão a abrir novos caminhos de participação. Quem domina a economia também domina os grandes meios de comunicação. Não lhes interessa divulgar as iniciativas que coloquem em cheque a mentalidade e as práticas dominantes, criando um futuro diferente para as pessoas e as comunidades [3].

 

3. É muita ousadia da parte do Papa tentar destruir o dogma de que não há alternativas viáveis à economia dominante. Existem, são pouco conhecidas e muito pouco divulgadas.

O encontro de Assis tem como primeiro objectivo partilhar o que já está a acontecer nas diferentes partes do mundo. Maior ousadia ainda é convocar, crentes e não crentes, para que as

“vossas universidades, as vossas empresas, as vossas organizações se tornem estaleiros de esperança para construir outros modos de entender a economia e o progresso, para combater a cultura do descartável, para dar voz a quem não a tem, para propor novos estilos de vida”.

É ousadia porque

  • não faz uma encíclica ou cria uma comissão,
  • mas convoca para um movimento que fermente a massa,
  • quando normalmente à Santa Sé se pede que tenha a primeira e a última palavra.

Este Papa

  • quer entrar na escola dos jovens que investigam,
  • quer conhecer as experiências em curso
  • e, sobretudo, os novos projectos de economias alternativas.

Não os trata como objectos do seu magistério, mas como sujeitos do percurso da Igreja.

O que diz respeito a todos deve ser tratado por todos. O próprio Jesus estremeceu de alegria ao ver chegar uma nova Era: o que durante séculos e séculos tinha sido ocultado ao povo simples, aos pequeninos, pelas interpretações rebuscadas e abusivas dos falsos sábios das Escrituras, estava, finalmente, ao alcance de todos [4].

A Igreja do Pentecostes é um processo nunca acabado de novas experiências, novas práticas e o grito dos sem vez e sem voz. O contrário do condomínio fechado de privilegiados do saber, do dinheiro, isto é, do poder de dominar.

[1] Cf. Papa Francisco, Terra, Casa, Trabalho, Temas e Debates – Círculo de Leitores, 2018

[2] Quem desejar conhecer esta Carta, na íntegra, pode recorrer ao site do Vaticano

[3] Veja-se, por exemplo, o filme Amanhã, de Cyril Dion e Mélanie Laurent

[4] Cf. Lc. 10, 17-24

 

Frei Bento Domingues

in Público 26 de Maio de 2019

Fonte: www.publico.pt/2019/05/26/sociedade/opiniao/havera-alternativas-economia-mata-1873586

 

 

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