Mulher ‘sacerdote’: nunca?

Francesco Strazzari – 23/05/2019 – Foto:  Il Sismografo 

Tradução: Orlando Almeida

Intensificam-se as manifestações a respeito da necessidade de repensar o papel da mulher na Igreja. Disso falou, alguma tempo atrás, o próprio Papa Francisco às  superioras gerais e também no avião, ao voltar da viagem à Bulgária e à Macedônia do Norte, respondendo a uma pergunta sobre as diaconisas, manifestando perplexidade.

Numa reunião de bispos latino-americanos, realizada perto de São Paulo no Brasil, convidei-os a ler o documento de trabalho elaborado na primavera de 1976 pela Pontifícia Comissão Bíblica sobre o Papel das Mulheres nas Escrituras, da qual apresentei um resumo.

 

O texto e as perguntas

O texto traz, além da assinatura do presidente da Comissão e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Franjo Seper e do secretário, Mons. Albert Deschamps, as dos membros que faziam parte da Comissão. São pessoas bem conhecidas no âmbito da exegese bíblica. Vou citá-las para que se tenha uma ideia e para lembrar que são nomes de  grande “calibre”: José Alonso-Diaz, Jean Dominique Barthélemy, Pierre Benoît, Raymond Brown, Henri Cazelles, Alfons Deissler, Ignace de la Potterie, Jacques Dupont, Salvatore Garofalo, Joachim Gnilka, Pierre Grelot, Alexandre Kerrigan, Lucien Legrand, Stanislas Lyonnet, Carlo Maria Martini, Antonio Moreno Casamitjana, Ceslas Spiq, David Stanley, Benjamin Wambacq e Marino Maccarelli, secretário técnico.

Merecem atenção os resultados das votações: de 20 membros, 17 estavam presentes; os nomes dos três ausentes não são conhecidos.

As três questões colocadas em votação, todas aprovadas, foram:

  1. O Novo Testamento não afirma claramente se as mulheres podem se tornar sacerdotes (voto unânime);
  2. Razões escriturísticas por si só não são suficientes para excluir a possibilidade de mulheres (12 a 5);
  3. O plano de Cristo não seria violado com a ordenação das mulheres (12 a 5).

A declaração da Congregação para a Doutrina da Fé sobre a questão da admissão das mulheres ao sacerdócio ministerial – Inter insigniores – com data de 15 de outubro de 1976, assinada pelo cardeal Seper, não levou em conta este documento da Comissão Bíblica, expondo as razões do “não” a partir da cristologia: a figura de Jesus Cristo.

A Comissão Bíblica recebeu um pedido para estudar o papel das mulheres na Bíblia. A questão que em particular aguarda resposta – lê-se no texto –  é se é possível que as mulheres recebam a ordenação ao ministério sacerdotal.

A Comissão observa que a pesquisa bíblica a esse respeito tem limites, uma vez que, em geral, o papel das mulheres não é o assunto principal dos textos bíblicos.  A pergunta feita refere-se ao sacerdócio, ao ministério da Eucaristia e à liderança da comunidade local.

O Novo Testamento fala muito pouco do ministro da Eucaristia (cf. Lc 22.19; 1 Cor 11.24; Atos 20.11; 27.35). As cartas pastorais nunca atribuem aos próprios líderes uma função eucarística. A concepção do sacerdócio ligado à Eucaristia é tardia.

O que diz a Escritura

O lugar da mulher na família. Em Gênesis 1, o homem e a mulher são chamados a serem juntos imagem de Deus num nível de igualdade e numa comunidade de vida.

Em Gênesis 2, homem e mulher são tornados  “uma só carne”. A sua união inclui a vocação do casal para a fecundidade, mas sem limitar-se apenas a isso. Depois entra o “pecado”, que desagrega.

O simbolismo dos sexos no Antigo Testamento. Diferentemente das mitologias orientais, no Deus de Israel não há sexualidade. Há, no entanto, o recurso à estrutura familiar para fazer um retrato de Deus Pai, concebido também como um “esposo”. Os profetas valorizam a dignidade da mulher ao representar o povo de Deus recorrendo aos símbolos femininos da esposa, em relação a Deus, e da mãe (cf. a aliança).

O ensinamento de Jesus. Se considerarmos o ambiente social e cultural em que Jesus viveu, o seu ensinamento e o seu comportamento em relação às mulheres são surpreendentes pela sua novidade. O reino de Deus, inaugurado pela sua presença e pregação, traz consigo a plena restauração da dignidade feminina, superando as antigas estruturas jurídicas relativas, por exemplo, as referentes ao repúdio (muitas vezes por motivos fúteis).

Da mãe de Jesus à Igreja. Os evangelistas Mateus, e mais ainda Lucas, deixaram bem claro o papel insubstituível de sua Mãe Maria. Ela encarna e vive os valores próprios da feminilidade apresentados no Antigo Testamento. Maria é a mulher “nova” de um povo “novo”. É ela quem dá à luz Cristo, homem “novo” de um povo “novo” (cf. Apocalipse).

 

Condição social da mulher segundo a revelação bíblica

A condição social da mulher é um problema que diz respeito à sociologia e como tal deve ser tratado.

A experiência bíblica mostra que a condição social da mulher mudou, mas não de maneira linear, não com um progresso contínuo. No tempo de Cristo, o status da mulher na sociedade hebraica parece ser inferior ao que ela ocupa na sociedade greco-romana. Quando comparado com seus contemporâneos, Cristo tem uma atitude muito original em relação à mulher, que valoriza a sua condição.

Sociedade cristã e sociedade hebraica . A sociedade cristã estabelece-se sobre bases diferentes das da sociedade hebraica. É fundada sobre a pedra angular que é o Cristo ressuscitado e é construída sobre o colégio de Pedro com os Doze. Segundo o testemunho do Novo Testamento, em particular das cartas de Paulo, as mulheres estão associadas aos diferentes ministérios carismáticos (diaconias) da Igreja (cf. 1Cor 12,4; 1 Tm 3,11): profecia, serviço, provavelmente também o apostolado , mas sem fazer parte dos Doze. Na liturgia, elas ocupam, no mínimo, o papel de profetisas (cf. 1 Cor 11,4).

O problema é saber se na sociedade cristã guiada pelos apóstolos e pelos seus sucessores bispos e presbíteros, as mulheres podem ser chamadas a participar nesse ministério litúrgico e na liderança das comunidades locais.

Condição eclesial da mulher

Antigo Testamento. De acordo com a opinião quase unânime dos exegetas, as mulheres podiam oferecer sacrifícios e participar da liturgia, embora progressivamente se tenha passado a confiar somente aos homens da tribo de Levi as tarefas inerentes à liturgia.

PCB donne nella Scrittura

 

Novo Testamento. Jesus cerca-se de mulheres que o seguem e o servem. São as mulheres que recebem a missão de anunciar a ressurreição. O quarto evangelho acentua o papel de testemunhas atribuído às mulheres. Maria Madalena será chamada pela tradição “a apóstola dos apóstolos”. À medida que o cristianismo se difundia as mulheres assumiam um papel considerável. Lembremos: Lídia, mãe de Marcos, e Prisca, Evódia, Síntique. Das 27 pessoas a quem Paulo agradece ou cumprimenta no último capítulo da Carta aos Romanos, 9 ou talvez 10 são mulheres. Paulo nomeia explicitamente uma mulher “diácono” da Igreja de Cencre (Rom 16: 1-2). Nas cartas pastorais, as mulheres citadas após os bispos e os diáconos tinham provavelmente o status de diáconos (cf. 1 Tm 3.11).

Sobre a eventual ordenação das mulheres ao sacerdócio

O ministério de liderança da comunidade segundo Jesus e a Igreja apostólica. É um fato que, nos Atos dos Apóstolos e nas Cartas, as primeiras comunidades cristãs são sempre dirigidas por homens que exerciam o poder apostólico de acordo com os costumes judaicos. O caráter masculino da ordem hierárquica que estruturou a Igreja desde o seu início parece ser atestado pela Escritura de maneira inegável.

Devemos concluir que esta regra deve permanecer válida para sempre na Igreja? Que valor normativo deve ser dado à prática das comunidades cristãs dos primeiros séculos?

O ministério de liderança na economia sacramental . Elemento essencial na vida da Igreja é a economia sacramental que transmite aos fiéis a vida de Cristo. A administração desta economia foi confiada à Igreja sob a responsabilidade da hierarquia.

Surge assim a pergunta sobre a relação entre a economia sacramental e a hierarquia. Os líderes da comunidade no Novo Testamento têm duas competências: a pregação e ensinamento. Nenhum texto define a sua função em termos de um poder particular que lhes permitisse celebrar o rito eucarístico ou reconciliar os pecadores.

Não temos provas de que no Novo Testamento a celebração da Eucaristia e a reconciliação dos pecadores fossem  confiadas a mulheres.

É possível – questiona-se a Comissão – que se verifiquem circunstâncias em que a Igreja se sinta  chamada a confiar os ministérios sacramentais a algumas mulheres?

Isso aconteceu com o batismo, que, embora confiado aos apóstolos, também pode ser administrado por outros. Numa época tardia foi confiado também às mulheres. Pode ser feito o mesmo também com o ministério da eucaristia e da reconciliação?

 

Não parece que o Novo Testamento, por si só, permita resolver de maneira clara e definitiva o problema do possível acesso das mulheres ao sacerdócio.

  • Alguns pensam que, nas Escrituras, existam indicações suficientes para excluir tal possibilidade. Sobretudo, levando em consideração o fato de que os sacramentos da eucaristia e da reconciliação têm um vínculo particular com a pessoa de Cristo e, portanto, com a hierarquia masculina, tal como surgiu a partir do Novo Testamento (posição da Inter insigniores).
  • Outros, ao contrário, se perguntam se a hierarquia eclesiástica, à qual é confiada a economia sacramental, não pode confiar os ministérios da eucaristia e da reconciliação a mulheres em circunstâncias particulares, sem ir contra as intenções originais de Cristo.

O tempo o dirá.

 

 

 

Francesco Stazzari

Fonte: http://www.settimananews.it/chiesa/donna-prete-mai-2/

 

 

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