RUMO AO SÍNODO SOBRE A AMAZÔNIA

Entrevista com o card. Cláudio Hummes

Em 15 de outubro de 2017, o Papa Francisco convocou um Sínodo Especial para a região pan-amazônica em Roma, indicando como seu principal objetivo “encontrar novos caminhos para a evangelização daquela parcela  do povo de Deus, especialmente dos indígenas, muitas vezes esquecidos e sem a perspectiva de um futuro sereno, devido também à crise da floresta amazônica, pulmão de fundamental importância para o nosso planeta”. 

Em 8 de junho de 2018, foi publicado  o documento preparatório [1] .

 

O Sínodo sobre a Amazônia é um grande projeto eclesial, que procura superar as fronteiras e redefinir as linhas pastorais, adaptando-as aos tempos contemporâneos. A Pan-Amazônia é um território composto por regiões que fazem parte da Bolívia, do Brasil, da Colômbia, do Equador, do Peru, da Venezuela, do Suriname, da Guiana e da Guiana Francesa. É uma fonte importante de oxigênio para a Terra inteira, porque aí está mais de um terço das reservas florestais primárias do mundo. É uma das maiores áreas de biodiversidade do planeta.

No Sínodo participam bispos escolhidos de várias regiões do mundo, incluindo todos os bispos da região amazônica. O pontífice nomeou o cardeal franciscano brasileiro Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo, relator geral do Sínodo. Outra figura de grande relevo é o cardeal jesuíta peruano Pedro Barreto, arcebispo de Huancayo. Eles são respectivamente presidente e vice-presidente da “Rede Eclesial Pan-Amazônica” (Repam).

Esta rede transnacional visa criar uma colaboração harmoniosa entre as várias componentes da Igreja: circunscrições eclesiásticas, Congregações religiosas, Cáritas, várias associações ou fundações católicas e grupos de leigos. Entre seus principais objetivos está a defesa da vida das comunidades amazônicas ameaçadas pela poluição, pela mudança radical e rápida do ecossistema de que dependem e pela falta de proteção dos direitos humanos fundamentais.

Em 31 de outubro de 2006, o card. Hummes foi nomeado pelo Papa Bento XVI como prefeito da Congregação para o Clero. Em maio de 2007, participou da 5a Conferência Episcopal Latino-Americana de Aparecida como membro designado pelo Papa. Hoje é presidente da Comissão para a Amazônia da Conferência Episcopal do Brasil.

Considerando a sua experiência e a sua atividade, decidimos ter com ele uma conversa que possa servir com introdução aos trabalhos do Sínodo e ao seu significado [2] .

 

A ENTREVISTA:

Eminência, estamos nos aproximando do Sínodo na Amazônia, um grande evento eclesial que coloca no centro da reflexão uma área específica e particular do mundo, embora ampla e de incrível riqueza e complexidade. É precisamente por isso que algumas pessoas temem que o próximo Sínodo possa ter repercussões sobre a unidade da Igreja. O que acha?

Hoje fala-se muito da unidade da Igreja. É fundamental, importantíssima. No entanto, ela deve ser entendida como uma unidade que acolhe a diversidade, segundo o modelo da Santíssima Trindade. Ou seja, é igualmente necessário salientar que a unidade não pode nunca destruir a diversidade. O Sínodo, concretamente, acentua a diversidade dentro dessa grande unidade. A diversidade é a riqueza da unidade, preserva-a de se tornar uniformidade, de fornecer justificativas ao controle.

A diversidade é portanto importante para a Igreja?

Hoje, mais do que nunca, a Igreja abriu-se à diversidade. Os países latino-americanos da Pan-Amazônia são uma expressão da diversidade latino-americana, que deve ser acolhida sem hesitação e com grande abertura pela Igreja da Europa e do mundo inteiro. Sinto que devo sublinhá-lo, porque o Sínodo na Amazônia é um reconhecimento da nossa peculiaridade. Vejo a questão desta maneira: a Igreja da América Latina pode trazer novas luzes à Igreja europeia e ao mundo, assim como a Igreja da Europa deve dar-nos luzes antigas, muito importantes.

Inicialmente, o cristianismo encontrou um lugar de inculturação na cultura europeia, com um processo muito feliz que perdura até hoje. Mas essa única inculturação não é suficiente. O Papa afirma que uma cultura única não pode esgotar a riqueza do Evangelho. A Igreja não quer dominar sobre as outras culturas, embora respeitando a inculturação inicial europeia.

Devemos dar valor à diversidade das culturas: para a Igreja isso trará um enriquecimento, não uma ameaça. A diversidade não atenta contra a unidade da Igreja, mas reforça-a. É muito importante não ter medo dessas coisas. Portanto, se falarmos entre nós e conseguirmos encontrar novos caminhos para a Igreja na Amazônia, isso reverterá em benefício de toda a Igreja. Mas sempre a partir da reflexão específica sobre a Amazônia.

Vocês da “Rede Eclesial Pan-Amazônica” tiveram um encontro com o Papa Francisco. Pode dizer-nos alguma coisa sobre esse encontro e sobre as novidades, os desafios e as esperanças que o Santo Padre deposita no processo sinodal?

Em 25 de fevereiro, o card. Pedro Barreto, Mauricio López, que é o secretário executivo da Repam, e eu, encontrámo-nos com o Papa. Informámos sobre o processo de preparação do Sínodo, estando já concluída a fase de escuta e consulta às Igrejas particulares da Pan-Amazônia, e sobre todo o trabalho desenvolvido até agora. Neste processo sinodal, a nossa rede procurou realmente “escutar” e não apenas “ver, julgar, agir”. A escuta vem antes de tudo. Para preparar um Sínodo, é preciso ouvir, não apenas organizar e fazer planos.

O Sínodo caracteriza-se portanto pela sua capacidade de ouvir e de superar a mentalidade dos “quadros” e dos “planos”?
Para “ver” realmente, é preciso escutar: as análises, sobre o que é a Amazônia ou sobre o que é e o que faz a Igreja na Amazônia, não são suficientes. O Sínodo não é uma abstração sinodal, uma ideia genérica. Para nós, é necessário ouvir primeiro os povos da Amazônia. Deve ser escutada a realidade, devem ser ouvidos os gritos. Este esforço enriqueceu muito, em nível metodológico, o nosso ver, julgar e agir. O nosso “ver” não foi o olhar do analista que examina a situação friamente. Nós nos pusemos a escutar de verdade.

E a vossa conversa com o Papa?

Perguntámos ao Papa se ele tinha algo a nos recomendar. Respondeu-nos que, primeiramente, não se deve diluir o objetivo específico do Sínodo. Ele não deve tornar-se a ocasião para discutir tudo, como diz aquele antigo ditado latino que afirma com ironia: De omni re scibili et quibusdam aliis. O Sínodo, diz o Papa, não pretende tratar de todos os assuntos, de todos os desafios e de todas as necessidades da Igreja mundial: não devemos perder de vista o seu escopo concreto. É óbvio que o seu processo inteiro tem e terá também uma repercussão universal, planetária, mas o Sínodo tem um objetivo que deve ser buscado com persistência para não permanecer no genérico. O Papa Francisco foi muito claro sobre este ponto: não percam de vista o objetivo. Que  é a Amazônia. “Novos caminhos para a Igreja” significa novos caminhos para a Igreja na Amazônia e novos caminhos para uma ecologia integral na Amazônia. Este tema delimita o escopo do Sínodo.

Francisco fala frequentemente de processos novos, de caminhar, de não deter-se na repetição do passado, mas de aderir a essa tradição que cresce e faz crescer sem ter que repetir sempre as mesmas coisas. Vocês conseguirão?  É possível?

Certamente não iremos ao Sínodo para repetir o que já foi dito, por mais importante, belo e teologicamente significativo que seja! Não há necessidade de um Sínodo para dizer o que já foi dito. O Sínodo serve para identificar novos caminhos quando se sente a sua necessidade.  Temos uma grande necessidade de novos caminhos, de não temer a novidade, de não lhe criar obstáculos, não fazer resistência. Devemos evitar carregar conosco o que é velho, como se fosse mais importante do que o que é novo. Velho e novo devem unir-se, a novidade deve fortalecer e encorajar a caminhada. A afirmação do Pontífice é muito forte: devemos caminhar e ir adiante, sem opor resistência.

O Papa Francisco disse-nos que devemos ter confiança no Espírito, o que nos faz avançar. Ele, desde o início de seu pontificado, exortou e encorajou a Igreja a se levantar e não permanecer estática e segura da sua teologia, da sua visão das coisas, numa atitude de defesa. O passado não está petrificado, deve sempre fazer parte da história, de uma tradição que se move para o futuro. Cada geração deve continuar a avançar para contribuir para a riqueza desta grande tradição. Conseguiremos fazer isso? Confiaremos no trabalho do Espírito.

O passado também é marcado por uma herança colonial…


Certamente. E a atitude colonial também foi também uma das recriminações mais significativas dos povos indígenas em relação a certas comunidades protestantes pentecostais que entraram, e ainda estão entrando, no território.

O Papa denuncia todas as formas de neocolonialismo e exorta a Igreja a não viver o espírito e a prática dele na sua missão evangelizadora. O apelo do Papa é de não fazer da Igreja na Amazônia uma Igreja colonizadora, a não nos propormos a colonizar os povos indígenas em relação à sua fé, à sua espiritualidade e à sua experiência de Deus.

Então, como se coloca a Igreja diante dos povos indígenas? Como entender a evangelização destes povos?

A inculturação da fé e também o diálogo inter-religioso são necessários a partir do fato indubitável de que Deus também sempre esteve presente nos povos indígenas, nas suas formas e expressões específicas e na sua história. Eles já têm uma sua própria experiência de Deus, assim como outros povos antigos do mundo, em particular os do Antigo Testamento. Todos tiveram uma história em que havia Deus, uma bela experiência da divindade, da transcendência e de uma espiritualidade consequente.

Nós cristãos acreditamos que Jesus Cristo é a verdadeira salvação e a revelação definitiva que deve iluminar todos os homens. A evangelização dos povos  indígenas deve ter como objetivo fazer surgir uma igreja indígena para as comunidades indígenas: na medida em que acolhem Jesus Cristo, elas devem poder exprimir a sua fé  por meio da sua cultura , identidade, história e espiritualidade.

Que resistências  está gerando esta visão da Igreja indígena nos vários espaços e no percurso para o Sínodo?

Está gerando resistências e mal-entendidos. Alguns sentem-se  de alguma forma ameaçados por ela, porque acham que os seus projetos e as suas ideologias não serão respeitados. Sobretudo, eu diria, aqueles projetos de colonização da Amazônia animados ainda hoje  por um espírito de dominação e de rapina: vir para explorar, e depois sair com as malas cheias, deixando para trás a degradação e a pobreza da população local, que se reencontra empobrecida e com o seu território devastado e contaminado.

A indústria, a agricultura e muitas outras formas de produção afirmam cada vez com mais frequência que a sua atividade é “sustentável”. Mas o que significa realmente “ser sustentável”? Significa que tudo o que extraímos do solo ou restituímos ao solo como resíduo não deve impedir que a terra se regenere  e permaneça fértil e saudável.

É muito importante reconhecer essas resistências tanto na Igreja quanto fora dela, por exemplo, nos governos, nas empresas e em toda a parte. Devemos discernir como nos devemos comportar diante dessas oposições, saber o que deve ser feito.

Por que estas resistências?  Por que coisa  são produzidas?

Os interesses econômicos e o paradigma tecnocrático opõem-se a qualquer tentativa de mudança e estão dispostos a impor-se pela força, violando os direitos fundamentais das populações do território e as normas para a sustentabilidade e a proteção da Amazônia. Mas não devemos render-nos. Será necessário indignar-se. Não de maneira violenta, mas certamente de maneira decidida e profética.

Será possível um diálogo, um encontro?

Não podemos cair no pensamento ingênuo de que todos estão dispostos a falar: não é verdade! Há muitas pessoas que não estão minimamente dispostas a fazê-lo. Primeiro devemos indignar-nos, profetizar, mas depois certamente devemos negociar, tratar, buscar acordo, e talvez assim consigamos que a outra parte se prepare para dialogar. O próprio Jesus nos convidou a negociar em situações deste tipo, dizendo: “Qual de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro para  calcular a despesa e ver se tem os meios pra concluí-la?” ( Lc14,28). A Igreja na Amazônia sabe muito bem que deve ser profética, não acomodante, porque a situação é clamorosa e mostra uma constante e persistente violação dos direitos humanos e uma degradação da casa comum. E pior ainda, estes crimes ficam impunes.

A Igreja deve ser profética. Nós, na América Latina, experimentámos isso amplamente após o Concílio Vaticano II, Medellín e as outras grandes Conferências do episcopado latino-americano. Este profetismo cresceu, mas também se tornou progressivamente mais claro.

O que significa ser proféticos?

Não é apenas gritar, denunciar e apontar. O profetismo é muito mais. Talvez pudéssemos enriquecer esse espírito de denúncia e de diálogo com um pouco mais de ternura. Como conseguir isso? O profetismo deve continuar, mas deve também visar novos caminhos, capazes de iluminar, de ajudar o outro a aceitar um diálogo. Acredito que no encontro dialógico seremos capazes de escutar, de nos entendermos, de nos dispormos a receber a luz do Evangelho de Jesus Cristo.

Alguns contrapõem a inculturação, ou seja, a imersão na cultura, e a interculturalidade, o diálogo entre as culturas: temas muito presentes nas expressões de uma Igreja que busca o contato com os indígenas da Pan-Amazônia. O que pensa disso o senhor e como se pode inserir  este argumento no processo sinodal de uma forma criativa e construtiva?

Inculturação e interculturalidade não se contrapõem. Nós não devemos pensá-las assim. As duas coisas devem ser combinadas. A inculturação é absolutamente necessária, e é-o igualmente a interculturalidade, sobretudo porque na Amazônia há muitas culturas. A inculturação e a interculturalidade são muito importantes, se considerarmos a quantidade de povos indígenas que há no mundo e na Amazônia.

E a questão de como se deve posicionar a Igreja em relação aos indígenas?

Devemos distinguir entre Igreja “indigenista” e Igreja “indígena”. Nós, especialmente na sequência das grandes Conferências do episcopado latino-americano, hoje procuramos ser uma Igreja indigenista, que considera os indígenas como objeto de cuidados pastorais, mas ainda não protagonistas da própria experiência de fé. Mas isso não é suficiente: é preciso ter como objetivo  uma Igreja indígena.

Pelo que me parece ter entendido, o “Conselho Indigenista Missionário(Cimi) brasileiro está fazendo um bom trabalho.

Certamente o Cimi é um exemplo luminoso e realiza um trabalho extraordinário: fornece-nos dados, propõe-nos fatos, dá notícia de eventos de violência que ocorreram, com números, com estatísticas. Os dados são inegáveis: podem ser interpretados mal ou bem, mas não podem ser negados. São postos em evidência os dados sobre a injustiça, sobre a violação dos direitos humanos, sobre os assassinatos, sobre a criminalização dos defensores dos direitos. E o Cimi realiza esta tarefa com vigilância constante. Isso causa embaraço a alguns governos e a todos aqueles que têm outros interesses.

Nesse caso, a Igreja indigenista encontra expressão de uma maneira que pode ser desconfortável. Mas confirma que ainda mais para nós, como Igreja, é importante ter dados para apresentar, para podermos mostrar por que estamos indignados. O Cimi no Brasil ajudou-nos muito a ser uma Igreja indigenista, que defende os direitos dos indígenas; e não apenas dos indígenas, mas de todas as pessoas, especialmente nos lugares de missão.

Sentimo-nos chamados a ser uma Igreja que defende os direitos humanos, que defende os direitos indígenas, os direitos dos ribeirinhos, as populações ribeirinhas, e de outros. Uma igreja indigenista é assim.

E qual é, ao invés, o passo a ser dado para uma Igreja “indígena”?

Agora sabemos que há outro passo a ser dado: devemos promover uma Igreja indígena para os povos indígenas, ajudar a nascer e a desenvolver-se uma Igreja indígena. As comunidades indígenas que ouvem o anúncio do Evangelho de uma maneira ou de outra e que o acolhem, isto é, que acolhem Jesus Cristo, devem  estar em condições de fazer com que, através de um processo adequado, a sua fé possa encarnar-se e inculturar-se na sua realidade tradicional. Então, no contexto da sua cultura, da sua identidade, da sua história e da sua espiritualidade, pode nascer uma Igreja indígena com os seus próprios pastores e ministros ordenados, sempre unida, em total comunhão com a Igreja Católica universal, mas inculturada nas culturas indígenas.

De fato, na história dos povos indígenas já existem muitas marcas de Deus. Deus, como eu dizia antes, esteve sempre presente na história deles. Da sua identidade, da sua história, da sua cultura, eles podem extrair esses sinais claros da presença de Deus.  Esses povos milenares vêm de uma raiz diferente da europeia, de outro tronco histórico, assim como os africanos, os povos da Índia, os chineses. Portanto, dentro da própria história, da própria identidade, da própria espiritualidade, a partir da própria relação com a transcendência, devemos gerar uma Igreja com um rosto indígena.

O tema de uma igreja indígena é muito importante para a Pan-Amazônia, mas que tipo de ministério é necessário para esta realidade? Que perfis de sacerdotes, missionários e assim por diante são necessários nesta situação, nestas culturas de características tão particulares que o senhor descreveu?

Muitas vezes preocupamo-nos com a possibilidade de transplantar os modelos dos sacerdotes europeus para os sacerdotes indígenas. Mas já houve quem, com razão, fez notar que se atribui demasiada importância e prioridade ao perfil do ministro ordenado, colocando-o antes da comunidade que deve recebê-lo. Deve ser o contrário: a comunidade não é para o seu ministro, mas o ministro para a sua comunidade. Ele deve ser adequado às necessidades da comunidade.

Esta necessidade da comunidade poderá, talvez, levar-nos a pensar em ministérios diferenciados a partir do fato de que uma determinada comunidade, num lugar específico, precisa de uma presença adequada. Não nos metamos a defender uma espécie de figura histórica à qual um ministro deve ater-se sem variações possíveis, de modo que as comunidades precisem aceitá-lo e mantê-lo porque é assim que o enviamos a elas.

Sim, os ministros são enviados, mas devemos saber enviar, de modo a respeitar essa comunidade concreta que tem necessidades próprias e específicas. Também os ministérios devem ser pensados ​​a partir da comunidade: da sua cultura, da sua história e das suas necessidades. A abertura significa isto.

A igreja indígena não se faz por decreto. O Sínodo deve abrir o caminho para que seja possível provocar um processo que tenha a liberdade suficiente e que reconheça a dignidade própria de cada cristão e de cada filho de Deus. Eis a grandeza deste Sínodo. O Papa sabe como ele pode revelar-se histórico para toda a Igreja. Mas o caminho a seguir exorta-nos a ter cuidado para que não se reproduza e não se repita o existente.

Na encíclica “Laudato si’”, o papa afirma claramente que a atual situação de crise planetária é inegável. E insere este tema no futuro Sínodo com uma referência a uma “ecologia integral”. Como caminhar, como Igreja, nesta situação de grave crise ecológica?

A ecologia integral é uma realidade maravilhosamente nova que o Papa colocou diante de nós. Ela interpela seriamente os modelos atuais de desenvolvimento e de produção que, por sua vez, apelam para as luzes racionais, científicas e tecnológicas da era moderna, nas quais o paradigma tecnocrático se baseia e que não estão dispostas a aceitar as consequências de uma ecologia integral. O paradigma tecnocrático e de dominação vence, impõe-se e faz o que bem entende.

Este esquema, ou este paradigma tecnocrático, na verdade vem da modernidade. É o resultado da chamada “revolução copernicana” da filosofia moderna: o objeto não é mais o que é pensado e analisado, como na filosofia clássica, mas sim o sujeito pensante, a subjetividade. Foi um notável passo adiante: de fato, a grande riqueza da modernidade.

Mas os muitos interesses em jogo transformaram esta conquista em algo diferente. Transformaram-na em subjetivismo, em individualismo e depois em liberalismo, que, além da revolução copernicana da filosofia, pôde aproveitar-se do nascimento da ciência exata moderna e da sua aplicação à técnica. Daí resultou um enorme progresso tecnológico, cada vez mais sofisticado, que pôs nas mãos do homem um extraordinário poder de intervenção sobre a natureza. Tornou-o capaz de produzir sempre mais bens, a qualquer preço, em detrimento da própria natureza e das pessoas ou comunidades humanas. Esta tecnologia cada vez mais sofisticada é usada para explorar o Planeta; é aplicada como se viéssemos de outro lugar, de fora, e o Planeta fosse algo que encontramos na rua e podemos explorar,  degradar e depredar sem escrúpulos. A tecnologia dá ao homem de hoje esta possibilidade de acumular sempre mais bens materiais. Os povos indígenas, ao contrário, não acumulam bens, mas relações sociais, com as pessoas e com o universo; eles não acumulam bens materiais. Ensinam-nos que as relações humanas, as relações comunitárias são muito mais importantes.

Este paradigma tecnocrático de que fala paira como uma séria ameaça sobre o nosso Planeta...

Assim é porque não aceita uma ecologia integral, não aceita que somos filhos desta terra. É encarado como se o homem tivesse chegado aqui e tivesse encontrado um tesouro a ser explorado de todas as formas possíveis. Mas, pelo contrário, nós somos filhos desta terra e, se danificamos a terra, acabamos por fazer mal a nós mesmos.

A Bíblia diz que Deus formou o homem da lama da terra…

E isso nos faz saber que nascemos da terra, por isso ela é a “mãe” terra, e nós somos filhos da terra;  nascemos aqui, não viemos de fora. O nosso corpo é feito das coisas da terra. Deus soprou o espírito, o espírito da vida, neste corpo que vem da terra. Por virmos da terra, somos irmãos de todas as criaturas. E o Papa diz também que nós homens, por sermos dotados de inteligência e de livre arbítrio, temos um dever muito especial de cuidar da terra, porque Deus nos deu a inteligência e a capacidade de amar, de cuidar, de administrar bem a terra, a terra que nos dá sustento. Mas não podemos buscar este sustento à custa de outros seres criados e dos outros irmãos e irmãs. Está tudo ligado.

A ecologia integral tem um fundamento teológico? Existe uma visão teológica que o senhor amadureceu?

O Papa Francisco falou disso. A dimensão mais importante da ecologia integral, disse ele, é que até o próprio Deus se pôs em relação definitiva com essa terra em Jesus Cristo. Uma vez que Deus está em relação, tudo está interligado. O próprio Deus se ligou através da encarnação de Jesus Cristo, e Jesus é o ponto culminante para o qual todos nós nos encaminhamos. Há textos esplêndidos em que se diz que essa é a meta para a qual avançam todas as criaturas porque não foram feitas para nós. O seu fim último não somos nós: o fim último é transcendente, é Deus. Certamente, por nossa vez, precisamos das criaturas para nos sustentar, mas a vocação delas é transcendente, e nós devemos, em nome delas, louvar o Senhor e conduzi-las para Deus. De fato, todas elas, um dia, de uma maneira misteriosa, na lógica da ressurreição, participarão do Reino definitivo. Deus não destruirá a sua criação, mas a transformará em sentido pascal.

Portanto, Jesus Cristo ressuscitado é o cume para o qual tudo caminha, e é o modelo que dá uma primeira revelação sobre como será esse caminho que estamos percorrendo. A humanidade não se move em círculos, sem orientação, sem sentido. Nós temos que caminhar. Existe um futuro real.  Jesus Cristo ressuscitado é o grande ponto transcendente para o qual caminhamos. Portanto, a ecologia integral é a união de tudo isso.

Por isso, muitas vezes eu digo que seria preciso reescrever a cristologia:  já São Paulo fala deste ponto culminante num caminho que segue em frente. Teilhard de Chardin, por sua vez, falou sobre isso nos seus estudos sobre a evolução. Toda a teologia e a cristologia, bem como a teologia dos sacramentos, devem ser relidas a partir desta grande luz segundo a qual “tudo está interligado”, inter-relacionado.

Há uma canção brasileira que diz: “Tudo está interligado, como se fôssemos um, tudo está interligado nesta casa comum“. O próprio Deus está em relação, definitivamente, com a nossa casa comum. Creio que o conceito de ecologia integral ilumina todo o trabalho que temos de fazer na Amazônia para estarmos unidos no caminho do Sínodo.

A “Rede Eclesial Pan-Amazônica” faz parte do processo de preparação do Sínodo. De onde veio ela?

A Rede nasceu da ideia da 5ª Conferência Episcopal Latino-Americana em Aparecida, da qual participou o nosso querido Papa Bento XVI.

Naquela época, aquele Pontífice deu uma notável contribuição desde o início, com uma abertura que surpreendeu a todos nós: a grande abertura de Bento XVI diante de um mundo que não era o seu. Ele pertencia a um mundo europeu, mas se abria ao diálogo junto conosco, com o povo, com o território, com a América Latina.

O que aconteceu em Aparecida? O card. Bergoglio, como bem sabemos, estava lá …

Sim, o card. Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires [3] também participava. Nesse contexto, falou-se da necessidade de criar um plano pastoral conjunto para a Amazônia, e o Papa Francisco recorda que foi lá que ele se sensibilizou com o desafio pela Amazônia. Antes, como arcebispo e cidadão de Buenos Aires, a Amazônia era para ele uma realidade muito distante. Como um mundo fantástico. Mas ele diz que foi por causa da insistência dos bispos brasileiros em Aparecida sobre as questões da Amazônia que esse interesse foi despertado nele. Foi lá que ele percebeu que essa era uma questão importante. Ele afirma que foi a partir daquele momento que ele começou, de fato, a se interessar por toda a realidade da Amazônia.

E foi então, como eu disse, que se falou da necessidade de um plano pastoral conjunto de toda a América Latina para a Amazônia. Era um a coisa  um pouco fora do comum, porque as Conferências episcopais são nacionais e,  ao contrário, a Amazônia não é ua nação, é uma região transnacional que integra nove países.

Como é que o senhor criou um relacionamento eficaz?

Antes, as Conferências Episcopais Nacionais com jurisdição sobre o território amazônico incluíam a sua respectiva parcela da Amazônia no plano pastoral nacional. Agora, depois de Aparecida e sobretudo depois do anúncio do Sínodo para a Amazônia, precisamos pensar num plano pastoral específico para toda a Pan-Amazônia.

No entanto, isso não tira das respectivas Conferências nacionais a sua responsabilidade pelo seu território na Amazônia. Cria-se portanto uma nova situação, uma espécie de novo sujeito eclesial, e é necessário que se consiga compreendê-lo e aceitá-lo pouco a pouco. O Papa fala de uma descentralização, e toda descentralização é um pouco dolorosa, porque afeta um pouco o poder e o prestígio do centro; devemos ser capazes de compreendê-la, caminhando juntos nesta direção.

A Repam pretende exatamente prestar um serviço que começa por criar uma rede entre todas as realidades dos nove países amazônicos. Uma rede que não deve ser entendida como mais uma unidade com projetos próprios, mas sim um serviço para articular todas as entidades, comunidades, missionários, agentes eclesiais do território, pessoas e iniciativas de defesa e proteção da Amazônia, para que todos entrem nesta rede e não se sintam isolados, perdidos na floresta. É um serviço que dependerá sempre dos bispos e dos missionários locais, que precisam se sentir envolvidos nesta rede.

E o Papa? Quando lhe falou sobre o Sínodo?

Já em 2015 o Papa começou a dizer-me: “Estou pensando em fazer uma reunião com todos os bispos da Amazônia.  Ainda não sei que tipo de reunião ou assembleia, mas acho que poderia até ser um Sínodo”. E disse-me: “Rezemos juntos por isso”, e começou a falar com os bispos, com as Conferências Episcopais dos países amazônicos, sobre como realizar tal assembleia, e assim foi amadurecendo nele a ideia do Sínodo, até que finalmente foi convocado em 2017. Trabalhámos muito pelo Sínodo, e continuaremos a fazê-lo neste serviço tão importante para o futuro da Igreja. O Sínodo serve para encontrar e traçar novos caminhos para a Igreja.

[1] O texto do Documento Preparatório, juntamente com outros materiais, está no site www.sinodoamazonico.va 
[2] Sobre o Sínodo Amazônico, cfr A. Peraza, “Amazzonia e diritti umani “ , em Civ. Catt. 2019 I 45-58.
[3] Cfr. D. Fares, “A 10 anni da Aparecida. Alle fonti del pontificato di Francesco “ , em Civ. Catt. 2017 II 338-352.

https://www.laciviltacattolica.it/articolo/verso-il-sinodo-sullamazzonia/

Por: Antonio Spadaro

 

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