As periferias na Igreja O lugar dos recasados ou uniões de fato na Igreja

Pe. José Luís Rodrigues – 26/04/2019.

Foto: João Tavares

A mensagem central do Papa Francisco vai sempre, na direção de uma Igreja «em saída», porque é a «única possível, segundo o Evangelho». Francisco convida a «nunca perder o contato com a realidade», por considerar que isso faz parte do testemunho cristão: «Na presença de uma cultura dominante que coloca em primeiro lugar a aparência, aquilo que é superficial e provisório, o desafio é escolher e amar a realidade». O Papa ressalva insistentemente a importância de manter o olhar «fixo no essencial», porque «os problemas mais graves» para a Igreja «surgem quando a mensagem cristã é identificada com aspetos secundários que não refletem o coração do anúncio». «Num mundo em tão rápida transformação, os cristãos têm de estar disponíveis para procurar formas e modos de comunicar, com uma linguagem compreensível, a perene novidade do Cristianismo» (Papa Francisco em várias das suas mensagens). É este o enquadramento geral, como apelo a todos os grupos e movimentos religiosos, comunidades, dioceses e outros. Vamos nesta linha de desafio desbravar algumas periferias:

1. Os muros e a sacralização do mercado (Harvey Cox).

A «muralização» do mundo, cada vez mais nos revela a armadura que encegueira tantos neste mundo, particularmente governantes, contra a tolerância, a liberdade e o desejo dos povos se refugiarem da guerra, da fome ou da insegurança provocada pelo terrorismo que os obsessivamente «muralhados» semeiam por todo o mundo. No domingo, 9 de Novembro de 2014, dia que recordou a queda do Muro de Berlim, há 25 anos, o Papa Francisco lançou um apelo no Angelus na Praça São Pedro, a fim de que caiam “todos os muros que ainda dividem o mundo”.

Francisco aproveitou a ocasião para pedir o fim de todos os muros que ainda hoje dividem os povos com o cimento de outras formas de discriminação: «Rezemos a fim de que, com a ajuda do Senhor e a colaboração de todos os homens de boa vontade, se difunda sempre mais uma cultura do encontro, capaz de derrubar todos os muros que ainda dividem o mundo, e não mais aconteça
que pessoas inocentes sejam perseguida e até mesmo mortas por causa de seu credo e de sua religião. Onde há um muro, há fechamento de coração! Precisamos de pontes, não de muros!»

2. O endeusamento do dinheiro é o principal terrorismo: ao regressar, no dia 01 de agosto, da Jornada Mundial da Juventude em Cracóvia, marcada pelo assassinato do padre francês Jacques Hamel na sua igreja de SaintEtienne-du-Rouvray, o Papa Francisco declarou no avião:

«No centro da economia mundial está o «deus dinheiro», e não a pessoa, o homem e a mulher; este é o primeiro terrorismo».

3. As sociedades multirreligiosas, particularmente, as ocidentais (os métodos utilizados por algumas seitas são autênticos atentados contra a liberdade, vontade pessoal e manipulação de consciências – Autênticos crimes). É enorme a multidão de alienados, usurpados na sua liberdade, vontade própria e nos seus bens patrimoniais. Um verdadeiro crime legalizado, porque o Estado aferiu pela mesma bitola, religiões, confissões religiosas e movimentos religosos (vulgo seitas). Ora, à luz do pensamento do Papa Francisco, deduzimos que toda a religião que não liberta, mas oprime não serve para nada.

4. O desafio da unidade e da comunhão (questão essencial para a sobrevivência da Igreja, e em seguida para que seja exemplar para o mundo). Estamos todos massacrados pela metralhadora da comunhão e da unidade. Mas nada de concreto se viu neste domínio. Grassa a inveja, a intriga, as divisões e tantas outras banalidades e futilidades que requerem atenção. As tais propaladas unidades e comunhões parece, que seriam apenas e só para grandes acontecimentos, liturgias medievais e celebrações sem passado e sem futuro. Costumo dizer, nós os padres servimos para enfeitar cerimónias, onde o centro não é Cristo, mas os bispos.

Tudo tem servido para falar, falar e falar sem que medidas concretas surgissem e que provocassem as badaladas plavras da unidade e da comunhão, como deviam ser iluminadas pelo Evangelho. Há uns que são mais clero dos que os outros. Podem saber da vida interna da igreja, mas outros não. O dever da transparência é só para alguns. O dever de ser corpo presente apenas e só para muitos. Os excluídos neste campo são imensos. Daí que o testemunho da Igreja para o mundo neste campo deixa muito a desejar.

5. A pobreza, porque «a verdadeira riqueza da igreja são os pobres», como afirmam os «santos padres da Igreja». Sempre se alimentou a ideia entre nós que os principais responsáveis por ela são as próprias vítimas dela. Por isso, fazer apenas e só umas caridades para que se mate a fome por alguns momentos serve pouco ou mesmo nada. Mas, reclamar políticas e uma
governação que acabasse de uma vez por todas com a pobreza, isso não… Neste domínio prevalece a maior multidão da nossa terra, do nosso país e do mundo, votada ao esquecimento, mas para que não reclame ou não acorde este povo, está a ser sorrateiramente contentado com as centenas ou milhares de festas que se realizam ano fora nesta neste nosso país. Porém, coisa a sério que se veja para que se implemente ação concreta que liberte da pobreza e confira dignidade humana, pouco ou nada temos visto.

(A título de exemplo, reparemos no património da nossa Igreja, a degradação do património é confrangedor e requer uma atenção redobrada para o fazer render e reverter para a promoção das pessoas, particularmente, os mais necessitados). Também aqui vejo um enorme desleixo, que se tem revelado um contra testemunho pouco edificante para o mundo… Daí que a autoridade da Igreja em geral para falar de pobreza, resulte tantas vezes, no gozo da ridicularização e isso é grave.

6. Os separados da vida matrimonial e os recasados. Tanto debate sobre este assunto nos últimos anos, mas ficou à volta do Papa Francisco e nas trincheiras do Vaticano, como arma de aremesso na guerra que os grupos conservadores movem contra o Papa. Entre nós, continua tudo na mesma. Nunca ouve uma posição clara quanto a este aspeto. Tem se mantido uma «sacrossanta» confusão, a maioria abeira-se da comunhão por sua livre ineciativa ou por ignorância ou por conselho de alguns sacerdotes (poucos). Mas há de restar os poucos obedientes e escrupulosos que ainda se mantêm de fora e cumprem não se aproximar dos sacramentos. Reina uma ambiguidade manhosa que prefere a confusão em favor de uma posição clara e determinada pelo desafio integrador que a linguagem do Papa tem feito lembrar a toda a Igreja. Neste campo, os excluídos estão aí à vista de todos nós. Uma periferia que requer atenção.

7. Enfim, As periferias ecoam nos montes e vales do mundo inteiro, por isso, de forma mais clara vamos dizer, nada nos deve travar a ousadia do desafio, nem os conservadorismos, nem os populismos devocionais e nem a mania de que sempre foi assim e que os excluídos são os principais responsáveis pela sua desgraça. Diz o Papa: «não nos podem parar nem as nossas debilidades, nem os nossos pecados, nem tantos obstáculos colocados ao testemunho e anúncio do Evangelho», quando urge ganhar e manter a coragem de «chegar a todas as periferias que precisam da luz do Evangelho».

Basta que nesta hora prevaleça uma linguagem nova, clara e objetiva, sem medo de nada, por todos contra ninguém, para que na nossa terra envelhecida, cansada de egoísmos e narcisismos, ecoe pelas nossas cidades e pelos nossos campos uma Igreja renovada e de acordo com a força do Evangelho de Jesus Cristo. Porque a Igreja é «o povo das bemaventuranças e a casa dos pobres, dos aflitos, dos excluídos e perseguidos,
daqueles que têm fome e sede de justiça». E, como é «missionária por natureza, tem como prerrogativa fundamental o serviço da caridade a todos» – a começar «dos últimos, dos pobres, dos que têm as costas dobradas pelo peso do cansaço e da vida» – e são inerentes à sua vida e missão no mundo e para o mundo «a fraternidade e a solidariedade universal». Finalmente, digo eu, este é o meu desejo, um sonho idealista, dirão alguns, mas é o que me inspira esta hora.

Conclusão: O papa Francisco viu que a Igreja vive encerrada em si mesma, paralisada pelos medos e demasiadamente afastada dos problemas e sofrimentos. Desafia-a com os seus gestos ousados e discurso vibrante a dar sabor à vida moderna e a oferecer a luz genuína do Evangelho. A sua convocação foi imediata, destemida e clara: «Temos de sair para as periferias existenciais». O Papa insiste uma e outra vez:

«Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e manchada por sair à rua que uma Igreja doente por estar encerrada e pela comodidade de agarrar-se às suas próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada por ser o centro e que termina enclausurada num emaranhado de obsessões e procedimentos». A convocação de Francisco está dirigida a todos os cristãos:

«Não podemos ficar tranquilos numa espera passiva nos nossos templos. O Evangelho convida-nos sempre a correr o risco do encontro com o rosto do outro». O Papa quer introduzir na Igreja o que ele chama de «cultura do encontro». Está convencido de que «o que necessita hoje a Igreja é capacidade de curar feridas e dar calor aos corações». O estilo cristão é o das Bem-aventuranças: mansidão, humildade, paciência no sofrimento, amor à justiça, capacidade de suportar perseguições, não julgar os outros… E esse é o espírito cristão, o estilo cristão. Se queres saber como é o estilo cristão, para não caires neste estilo acusatório, no estilo mundano e no estilo egoísta, lê as Bem-aventuranças. E este é o nosso estilo, as Bem-aventuranças são os odres novos, são o caminho para chegar. Para ser um bom cristão devemos ter a capacidade de recitar o credo com o coração, mas também de recitar com o coração o Pai Nosso». O papa Francisco, falando aos superiores-gerais das congregações religiosas, proferiu uma importante afirmação:

«Estou convencido de uma coisa: as grandes mudanças da história realizaram-se quando a realidade foi vista não do centro, mas da periferia. É uma questão hermenêutica [de interpretação]: só se compreende a realidade se ela é olhada da periferia, e não se o nosso olhar é colocado num centro equidistante de tudo».

Como remate final para que não nos acuse e nos faça remoer a consciência, temos que escutar: «É preciso ajudá-los a afastarem-se da hipocrisia. Esta é uma peste: a hipocrisia na Igreja!», completou o Papa.

José Luís Rodrigues, padre.

Jornadas de reflexão da Fraternitas/Movimento, associação dos Padres casados de Portugal, no Santuário de Fátima Dias 26, 27 e 28 de Abril de 2019

Enviado por João Tavares  – Brasil

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