Advogado diz que papa leu, gostou de novo livro sobre gays no Vaticano

ROMA – Um advogado proeminente no combate ao abuso clerical declarou que durante uma recente audiência privada no Vaticano, o Papa Francisco lhe disse que tinha lido Inside the Closet at the Vatican [No armário do Vaticano], um livro sobre a homossexualidade na Igreja Católica, e disse que já conhecia  muitos dos padres mencionados nele que são gays.

“Ele disse que leu o livro. Ele disse que era bom e que sabia de muitos deles. Nós falámos dos gays bons e dos gays que são maus, mas por causa do poder”, disse o advogado numa mensagem de texto obtida por Crux .

A mensagem dessa pessoa foi enviada a Frèdèric Martel, jornalista francês e autor de Inside the Closet at the Vatican: Power, Homosexuality, Hypocrisy, um livro publicado em 21 de fevereiro que detalha a presença da homossexualidade na Igreja Católica e que é o produto de quatro anos de pesquisa e de entrevistas com mais de 1.500 pessoas de 30 países, incluindo 41 cardeais, 52 bispos e 45 núncios apostólicos.

Crux verificou a mensagem de texto com o remetente, que prefere permanecer anônimo.

No passado, Francisco usou frequentemente uma linguagem conciliatória acerca da homossexualidade, começando com a sua agora famosa frase “Quem sou eu para julgar?” e mais recentemente ele afirmou que as tendências homossexuais “não são um pecado”,  durante uma entrevista em março com o canal de notícias espanhol La Sexta.

Embora Martel tenha deixado claro que o seu livro não é sobre os escândalos de abuso que abalaram a Igreja Católica na última década, ele disse que “o livro dá a você a chave para o abuso sexual na Igreja” numa entrevista em 9 de maio com Crux, em Roma.

“A homossexualidade não tem ligação com o abuso sexual”, sublinhou, acrescentando que estatisticamente, a maioria dos casos de abuso envolve homens heterossexuais com jovens e mulheres como principais vítimas.

“Mas quando você olha para a Igreja, há uma singularidade em que 80% a 85% das vítimas dos padres são meninos ou homens”, disse Martel. “Na Igreja, o elo é claro”.

Segundo o autor, a maior parte do clero homossexual que ele entrevistou “tem uma sexualidade que é sublimada e reprimida”, o que, a seu ver, leva não apenas a viver uma vida dupla e até mesmo ao crime, mas também cria problemas em termos de  accountability (~ responsabilização).

“Todas as histórias de encobrimento estão intrinsecamente ligadas à homossexualidade”, disse Martel. “Em 90% dos casos, o bispo que encobre é ele mesmo homossexual. Quando algo acontece, ele tem medo do escândalo, tem medo da “midiatização”, tem medo do julgamento por temer que sua própria homossexualidade possa ser revelada”.

O mundo que o jornalista francês tentou desvelar no seu livro é um mundo de mentiras e falsidade, o que abre as portas para  uma cultura de segredo onde “há muita chantagem”, disse ele.

O ponto de vista de Martel sobre os escândalos de abuso na Igreja coloca-o em desacordo com a perspectiva do papa emérito Bento XVI que, num extenso ensaio escrito para a revista bávara Klerusblatt, em 11 de abril, defendeu que os escândalos de abuso sexual clerical se devem à revolução sexual da década de 1960 e a um ‘colapso’ pós-Vaticano II na teologia moral católica.

“Isto é um disparate”, disse Martel sobre o ensaio. “A confusão é que o problema do abuso sexual é a liberação sexual, quando todos os padres que abusaram nunca viveram a liberação sexual.”

“Os abusadores são padres, não são os homossexuais que participam da parada gay ou mulheres que fazem sexo antes do casamento”, disse ele.

O livro de Martel atraiu críticas consideráveis, inicialmente, quando foi publicado.

“As pessoas disseram que eu não tenho provas, mas tenho provas”, disse ele, “quando falo de apartamentos, perfumes ou roupas, tenho a prova. Não posso compartilhar a prova porque não é possível e há questões legais”.

O autor disse que até agora, seu livro já vendeu mais de 300.000 cópias em todo o mundo e foi publicado em oito idiomas e há mais por vir – inclusive uma nova tradução em inglês. Somente na França, o livro vendeu 100.000 cópias, tornando-se uma das publicações mais vendidas sobre religião em décadas.

“A recepção do livro depende do estado do catolicismo em cada país”, disse Martel.  “Alguns países estão prontos para ouvir este tipo de coisas, a França por exemplo. A Itália não”.

Na Itália, o livro vendeu apenas 10 mil exemplares e o autor culpou uma mídia local complacente que ele acredita não estar disposta a ouriçar as penas do Vaticano.

Outra fonte de crítica ao livro foi a data do seu lançamento, que coincidiu com o início da cúpula dos bispos sobre a proteção de menores no Vaticano, convocada por Francisco para tratar da crise do abuso sexual clerical.

Martel desqualificou estas acusações, afirmando que o livro começou a ser escrito anos antes do estouro da notícia da cúpula e o seu lançamento foi originalmente programado para outubro, mas teve que ser adiado para permitir a sua tradução em vários idiomas.

Quando ficou claro que o lançamento iria ocorrer em fevereiro, que viu não apenas o início da cúpula, mas também a estreia do filme “Grace de Dieu”, que descreve em detalhe o caso do cardeal francês Philippe Barbarin que foi condenado por abuso sexual em março, “nós nos adaptamos a essa agenda”, disse Martel.

“Em qualquer data que eu decidisse publicar este livro, seria sempre no meio da crise dos abusos sexuais”, disse ele, citando a explosão da crise no Chile, as acusações de pedofilia contra o ex-cardeal Theodore McCarrick e as cartas do arcebispo Carlo Maria Viganò sobre homossexualidade e encobrimento no Vaticano.

“Um dia, o meu livro será visto como um livro que ajudou a Igreja”, disse Martel, “e as pessoas que agora mentem o tempo todo sobre abuso sexual estão de fato contribuindo para destruir a Igreja”.

https://cruxnow.com/church-in-europe/2019/05/10/advocate-says-pope-read-liked-new-

Claire Giangravè

CORRESPONDENTE DE FÉ E CULTURA

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