A igreja, a pedofilia e o tabu do celibato

(Alexander Stille) A Igreja Católica ao mesmo tempo em que tenta de enfrentar o escândalo dos padres pedófilos – discutindo as medidas a serem tomadas em casos de abuso sexual e  as responsabilidades dos bispos – recusa-se a resolver o problema de fundo: o fato de que a instituição do celibato está falida. Segundo algumas pesquisas, muitos padres são sexualmente ativos, alguns com mulheres, outros com outros homens, outros com menores. Um clero que tem tantos esqueletos nos armários não está em posição favorável para disciplinar os casos de predação sexual.Tomemos o caso do arcebispo norte-americano Rembert Weakland: ele mandou pagar às escondidas cerca de 450 mil dólares ao seu amante (um homem adulto) para mantê-lo calado; ao mesmo tempo, minimizou o problema dos padres pedófilos, transferindo-os para outras dioceses (como todos faziam naquela época) sem expulsá-los do clero ou denunciá-los às autoridades. É difícil dizer se o seu segredo pessoal influenciou o seu comportamento em relação aos padres predadores, mas certamente tornou-o literalmente passível de chantagem.

O papa Emérito Bento XVI acaba de publicar um ensaio denunciando o permissivismo dos anos sessenta devido “colapso de valores” na igreja. A proporção de padres gays é certamente alta: segundo várias estimativas (que não são científicas e variam de um país para outro), ela está entre 20 e 50%. “Ser padre é ou está se tornando uma profissão gay”, escreveu o reverendo Donald B. Cozzens, reitor de um seminário católico em Ohio, num seu livro de 2000.

Mas na realidade as políticas repressivas do papa Ratzinger e dos seus predecessores (Paulo VI e João Paulo II) contribuíram muito para a crise atual. Durante muitos séculos a igreja praticou uma política de “hipocrisia sábia”, fechando um olho sobre o fato de que uma alta porcentagem de padres era incapaz de respeitar o voto do celibato. A figura do padre ou da freira libidinosa no Decameron de Boccaccio não era apenas uma criação literária, mas uma realidade social. Muitos padres viviam em concubinato com uma “empregada”; alguns padres usavam a intimidade da confissão para seduzir as devotas em muitos casos de filhos ilegítimos. Mas tudo isso foi geralmente reduzido a boato de aldeia e deixado no silêncio geral do “faz-se mas não se diz”.

 A homossexualidade não era desconhecida: segundo a regra disciplinar da ordem beneditina, os monges que dividiam um quarto tinham que dormir vestidos e com as luzes acesas. Ambientes “homossociais” – seminários, colégios unissex, prisões – tendem a favorecer a homossexualidade. “O homem é um animal que ama”, disse Richard Sipe, um ex-padre psicólogo que deixou a igreja para se casar.

Na época do Concílio Vaticano II (1962-65), muitos bispos, especialmente os da América do Sul e da África, esperavam que o concílio, na sua tentativa de “atualizar” a Igreja, iria permitir que os padres se casassem, normalizando a situação de “concubinato” que se alastrava nos seus territórios. Mas Paulo VI, que herdou o Concílio do papa João XXIII, ficou assustado com a rapidez das mudanças na igreja e bloqueou o debate, ignorando o parecer de uma comissão papal que sustentava que não havia impedimento teológico à figura do padre casado. Paulo VI, ao contrário, impediu que a questão fosse discutida e promulgou  a sua famosa encíclica contra a contracepção artificial  Humanae Vitae.

A decepção foi grande. Começou um êxodo do clero. Segundo Sipe, cerca de 125 mil padres deixaram a igreja para se casar. Por outro lado, a porcentagem de padres gays aumentou: é muito mais fácil esconder-se numa comunidade exclusivamente masculina, com uma cultura de sigilo e uma aversão ao escândalo. Muitos jovens católicos sinceramente devotos entraram no seminário esperando escapar aos seus impulsos sexuais fazendo o voto de celibato. Mas vivendo com tantos outros homens com a mesma orientação encontraram-se em ambientes frequentemente cheios de atividade sexual e até de abusos. Cerca de 10% dos jovens seminaristas são abusados ​​ou seduzidos por padres, por administradores ou por outros seminaristas, segundo Thomas Doyle, um padre católico que, como especialista em direito canônico, ajudou a gerenciar o problema dos padres pedófilos na Igreja americana.

Segundo tradicionalistas como Bento XVI, tudo é culpa do abandono de valores claros e do laxismo geral da cultura. Mas, segundo Sipe, “a ênfase sobre os padres gays é uma camuflagem para o fracasso do celibato. Os padres gays violam o celibato nas mesmas proporções que os heterossexuais”. A igreja pede aos padres algo que poucas pessoas conseguem fazer. Até mesmo São Paulo, quando os primeiros devotos lhe perguntavam se era preciso renunciar às mulheres, respondia: “Eu sou celibatário, mas isso não é para todos. É melhor casar-se do que abrasar-se”. Um estudo de 1985 estimou que, se o celibato não fosse obrigatório, os pedidos para entrar no clero aumentariam 400%.

Embora o celibato seja uma tradição e não um princípio que tenha fundamentos no Evangelho, os conservadores não estão errados quando dizem que abandonar as tradições é um sinal de fraqueza típica de uma igreja em declínio. A sociologia da religião ensina que as igrejas “severas” tendem a ser mais fortes. As igrejas protestantes moderadas – onde os pastores são casados ​​e às vezes gays – estão em declínio também. As igrejas evangélicas – que têm uma ideologia rígida, mas permitem que seus padres se casem – vão muito melhor.

A Igreja Católica, segundo Laurence Iannaccone, economista e sociólogo da religião, com o Concílio Vaticano II criou “o pior dos dois mundos”. Eliminou elementos que distinguiam o catolicismo de outras religiões – o rito latino, a obrigação de comer peixe às sextas-feiras, as roupas elaboradas das freiras – mas manteve as diferenças que representavam verdadeiros obstáculos: (a proibição) do casamento para os padres e da ordenação para as mulheres.

 As alternativas do papa Francisco, nesta altura, são tentar uma reforma ousada enfrentando uma revolta, ou então adotar pequenas meias-medidas favorecendo o lento declínio. Uma das poucas coisas que Francisco pode fazer é revitalizar o diaconato, onde não há vetos nem para os homens casados nem para as mulheres.

https://rep.repubblica.it/pwa/commento/2019/04/27/news/la_chiesa_la_pedofilia_e_quel_tabu_del_celibato-224996027/

Enviado por Orlando Almeida – Goiânia GO

 

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>