A reforma da cúria está ficando mais clara

Em comentários divulgados pelo semanário católico espanhol Vida Nueva, os cardeais Oscar Maradiaga e Oswald Gracias, membros do Conselho de Cardeais responsável ​​pela reforma da Cúria, confirmam, entre outras coisas, a próxima criação de um grande dicastério para a evangelização, que teria precedência sobre a Congregação para a Doutrina da Fé.Após cinco anos de trabalho do Conselho dos Cardeais encarregado de ajudar o Papa no governo da Igreja universal e da reforma da Cúria – ‘C9’ que se tornou ‘C6’ –, a nova Constituição, intitulada Praedicate Evangelium, poderia ser promulgada em breve. Um ano após o projeto ter sido submetido ao papa, uma versão final foi validada pelo conselho durante a sua última reunião, de 8 a 10 de abril.

É isto que confirmam pelo menos dois membros do conselho, considerado o círculo mais próximo do papa, ao semanário católico espanhol Vida Nueva num artigo publicado na sexta-feira, 26 de abril, que os cita profusamente.

Alguns dias antes, esta publicação já havia revelado que a principal novidade do novo documento consistiria na criação de novo e importante dicastério da evangelização, que teria precedência sobre a Congregação para a Doutrina da Fé, considerada atualmente como o órgão com maior peso dentro da cúria.

Uma cúria à imagem da Igreja ‘missionária’

“Francisco enfatiza sempre que a Igreja é missionária. É por isso que é lógico que nós tenhamos colocado o dicastério para a evangelização em primeiro lugar, e não o da doutrina da fé”,  salienta ao semanário o cardeal Oscar Maradiaga, arcebispo de Tegucigalpa e membro do conselho.

O novo dicastério seria o resultado de uma fusão entre a Congregação para a evangelização dos povos (também conhecida como Propaganda Fide) e o Conselho pontifício para a promoção da nova evangelização.

Outra mudança eclesiológica maiúscula introduzida nas propostas do ‘C6’: os dicastérios do Vaticano serão colocados a serviço do colégio episcopal. “Como sucessores dos apóstolos, os bispos não estão numa posição eclesiológica inferior à dos que trabalham na cúria romana”, explica o cardeal Maradiaga. Consequentemente, o bispo de uma diocese, mesmo pequena, teria agora reconhecido o mesmo peso hierárquico que um prefeito de dicastério romano.

Leigos “à frente dos dicastérios”

“O papa gostaria que prevaleça uma atitude de serviço e que a cúria esteja à disposição dos bispos. Nós discutimos muito  sobre este ponto durante as nossas reuniões”, explica o cardeal Oswald Gracias, arcebispo de Bombaim e também membro do conselho. Assim, de acordo com o novo documento, os dicastérios não seriam um “instrumento” do papa para “supervisionar” os bispos, mas o seu “papel principal seria o de ajudá-los”.

“A nossa reforma não pretende limitar-se a respeitar o critério da redução por meio de fusôes dos Conselhos pontifícios anteriores. O objetivo principal é enfatizar a importância dos leigos na Igreja e para a Igreja”, explica o cardeal Maradiaga. O texto, explica ele no mesmo sentido, consagra também a possibilidade de que leigos sejam colocados à frente dos dicastérios.

Por último, o documento pretende incluir entre as “instituições ligadas à Santa Sé,” a Comissão pontifícia para a tutela dos menores, criada pelo Papa em 2014. “Nós gostaríamos que ela permanecesse independente, a fim de respeitar a sua credibilidade e para que não se torne a voz da cúria, mas por outro lado, se não fazes parte da cúria, não tens poder sobre ela. Devemos buscar um equilíbrio entre credibilidade e eficácia”, sintetiza o cardeal Gracias acerca das discussões que levaram a repensar o estatuto deste órgão.

“Após a promulgação da Praedicate Evangelium e a manifestação das conferências episcopais após estudo (da mesma), poderíamos pensar em dedicar uma assembleia sinodal a estas novas linhas de eclesiologia prática”, prossegue o Cardeal Maradiaga.

Últimas verificações

A última versão redigida pelos cardeais do círculo próximo ao papa deve agora ser enviada para verificações finais aos dicastérios da cúria, às conferências episcopais e a algumas universidades católicas de renome no mundo. De acordo com Vida Nueva, as avaliações desta última versão deveriam chegar ao Vaticano até o final de maio, para que possam ser tratadas no decorrer de junho e examinadas pelo ‘C6’ durante a sua reunião prevista para os dias 25 a 27 de junho. Esta será a trigésima reunião desde a criação deste conselho, nomeado pelo papa Francisco pouco depois da sua eleição especificamente para reformar a cúria. A nova constituição deve substituir a Pastor Bonus, o texto em vigor, promulgado em 1988 por João Paulo II.

No entanto, como admitido pelos próprios redatores do texto, deverá ser difícil ficar dentro desses prazos. Além disso, segundo informações de La Croix, o documento ainda não chegou à Conferência dos Bispos da França.

 https://www.la-croix.com/Religion/Catholicisme/Pape/reforme-curie-precise-2019-04-27-1201018243

Autora: Marie Malzac,

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