Deus não está morto

A secularização já não está crescendo diz um estudo do Pew Research Center. Mas as dúvidas são muitas.

Roma. A religião retornou após décadas de marchas fúnebres e necrológios que anunciavam a sua morte definitiva. Pelo menos é o que certificou  o conceituado Pew Research Center nas quarenta e quatro páginas que compõem o dossiê intitulado A Changing World: Global Views on Diversity, Gender Equality, Family Life and the Importance of Religion [Um mundo em mudança: Visões Globais sobre Diversidade, Igualdade de Gênero, Vida Familiar e Importância da Religião]. Tabelas, dados e sobretudo entrevistas (trinta mil) realizadas em vinte e sete países do mundo para demonstrar que – Europa à parte, embora nela também haja algumas exceções notáveis – em todo o mudo a religião é considerada uma parte decisiva da própria existência que mereceria um maior espaço também na sociedade.

O grande sociólogo Rodney Stark já havia analisado o fenômeno anos atrás, desmentindo algumas historinhas falsas repassadas de geração em geração – não é verdade, por exemplo, que nos séculos passados se ia à igreja mais do que agora – e profetizando que o crescimento exponencial do cristianismo na África Subsaariana irá parar, mas continuará na Ásia, especialmente nos países mais avançados. E de qualquer maneira, enfatizava Stark, o crescimento de uma religião não é um fenômeno linear e contínuo: ela vive de fases, uma vez cresce, outra vez diminui.

Massimo Introvigne, sociólogo e diretor do Cesnur (Centro de Estudos sobre Novas Religiões), está perplexo: “Eu tendo a aceitar, menos do que outros, como válido tudo o que é produzido pelo Pew Research Center, que estuda a religião com pesquisas por amostragem, um método que certamente não dá respostas definitivas neste campo”, diz ele ao diário Il Foglio. “Os sociólogos conhecem muito bem a grande diferença de dados que se tem, por exemplo, quando a um grupo representativo de italianos se pergunta se eles vão regularmente à missa (estamos acima de 30%) ou quando se contam aqueles que realmente entram nas igrejas nos fins de semana em áreas representativas do território (estamos abaixo de 20%). Os dados são semelhantes em outros países. Feita esta premissa, os dados do Pew Research Center podem, por sua vez, induzir ao erro. A que está crescendo é a opinião de que a religião é hoje mais importante na vida social do que vinte anos atrás. Os dados são óbvios: a mídia fala mais sobre isso e, em geral, por motivos negativos, como a pedofilia dos padres católicos ou o terrorismo islâmico. Mas esta opinião não significa que o entrevistado pense que isso seja uma coisa boa. De acordo com a pesquisa, nos Estados Unidos, 57% têm uma opinião negativa sobre esse retorno da religião, assim como na Itália onde 40% têm uma opinião negativa frente aos 28% que têm uma opinião positiva (isto pode ser lido na página 37 do relatório)”, observa Introvigne.

Dados enganosos

“Muito diferente – acrescenta – e,  na minha opinião, mais significativa, é a pergunta feita ao entrevistado se, na  sua experiência pessoal e concreta, a religião é importante (pp. 40-44). Na realidade, o número de pessoas que consideram a religião “muito importante” na sua vida diminuiu quase em toda a parte no ocidente se se olha o dado de 2002 (o próprio Pew diz que considerar o dado de 2017 é enganoso, a diferença é muitas vezes mínima e a oscilação está dentro do normal): nos Estados Unidos –  um país de qualquer maneira muito mais religioso que a Europa – o número

caiu de 59 para 47 por cento, na Itália de 27 para 19 por cento, e na Polônia de 38 para 26 por cento. Permanece substancialmente estável em níveis baixos em outros países Europa Ocidental e estável ​​em níveis altos na América Latina. Cresce na África e na Ásia, com exceção do Japão, onde escândalos relacionados a grupos religiosos e o julgamento e execução dos responsáveis ​​pelo atentado terrorista no metrô de Tóquio, perpetrado pelo novo movimento religioso Aum Shinri-kyo em 1995, infligiram golpes decisivos à religião.

Basicamente, os entrevistados do Pew Research Center notam que os  meios de comunicação mídia falam muito mais sobre religião do que há vinte anos, mas não estão contentes com o fato de que a religião tenha um papel maior no mundo e percebem isso mais como uma ameaça e um perigo –  exceto na África e em alguns países asiáticos”. No entanto, olhando os dados relativos à Europa, surge a pergunta: estamos realmente certos de que aqui domina a secularização e que sob a espessa camada de laicismo (declinado de acordo com as formas próprias de cada país) não resista uma espécie de alma religiosa?  Não será talvez que a laïcité sirva como explicação mais simples e mais banal para uma realidade muito mais complexa?

Afinal, ainda está fresca na memória a imagem dos milhares de jovens que, perante o incêndio da catedral de Notre-Dame, se ajoelharam nas calçadas de Paris, entoando a Ave Maria e elevando orações a Sainte-Geneviève, a padroeira da capital, para que proteja a igreja. “As teorias clássicas da secularização (mais modernidade significa automaticamente menos religião) foram abandonadas pela grande maioria dos sociólogos já desde cerca de vinte anos atrás, embora haja bolsões de resistência e ‘últimas rajadas’ na Europa e também na Itália”, explica Massimo Introvigne. “Na verdade, o que está diminuindo na Europa é a influência social e política da religião, e são também menos as pessoas que participam dos ritos religiosos (é a chamada macro-secularização). Mas não há, ou há muito menos, a micro-secularização, no sentido de que uma sólida maioria dos europeus continua a cultivar uma vasta constelação de crenças religiosas – na maioria derivadas do cristianismo, mas às vezes com contribuições estranhas, como a teoria da reencarnação – que não os leva a ir à missa ou a um culto protestante, e talvez nem sequer a se declararem religiosos quando o Pew Research Center os entrevista, mas que certamente

influencia a sua vida cotidiana de maneiras até muito importantes”.

 A questão asiática

Entre os que mostram um mais acentuado ‘retorno ao religioso’, há vários países asiáticos. Considerando a complexidade deste continente, com muita diversidade no seu interior, será exagerado dizer que este ‘retorno’ poderia exacerbar os problemas de convivência no mesmo território entre fés diferentes? Voltemos o olhar para o Sri Lanka e para os seus 359 mortos –

um balanço ainda provisório mas suficiente para tornar este massacre da manhã de Páscoa o mais grave, em termos de número de vítimas, desde os ataques de 11 de setembro de 2001. Lá faz-se sentir a presença budista, certamente não amistosa em relação  à minoria cristã.

Também é útil pensar na situação delicada que se vive em Mianmar e no Paquistão. “Já mencionei a exceção japonesa”, começa a dizer Introvigne, que continua: “Se olharmos o dado – para mim o mais relevante – do papel da religião na vida pessoal do entrevistado (não da sua opinião sobre a presença da religião na sociedade, que na verdade é a sua opinião sobre a presença da religião na mídia), o nível é mantido constante na Índia, nas Filipinas e na Indonésia, em níveis altíssimos pelos padrões ocidentais.

Sabemos como o hinduísmo na Ìndia, o catolicismo – e em algumas regiões o islamismo – nas Filipinas e o islamismo na Indonésia têm um papel invasivo e central até na vida política. Os dados mostram um crescimento da religião na Coreia do Sul, que é bem conhecido dos estudiosos e se deve principalmente ao avanço do cristianismo e ao florescimento de novos movimentos religiosos. Certamente, onde quer que os números sejam muito altos, sinal daquela que os antigos sociólogos chamavam ‘efervescência religiosa’, as possibilidades de conflito entre as religiões crescem. O conflito pode ser simplesmente na mídia, como acontece na Coreia, onde os cristãos tradicionais atacam, com uma virulência que seria impensável no Ocidente, os novos movimentos religiosos; ou violentos como no Sri Lanka ou no Paquistão, ou em certas áreas da Índia”. Há uma ausência e não de pequena importância, observa o diretor do Cesnur: “Chama a atenção o fato de que falta a China, onde as pesquisas estatísticas estão sujeitas a pesadas restrições do governo. Eu dirijo um quotidiano sobre a religião na China, publicado em oito línguas, Bitter Winter. Registro diariamente como, sob a presidência do sorridente Xi Jinping, a repressão contra as religiões é a pior desde a morte de Mao. Mas eu documento também como, apesar da repressão, as religiões continuam a crescer”.

Matteo Matzuzzi

Nasceu em Udine em 1986. Licenciou-se em diplomacia por convicção e tornou-se jornalista por acaso. E experimentou a loucura de ser árbitro de futebol, recolhendo uma chuva e insultos a cada  fim de semana. Torcedor  crítico e agora pouco sentimental do  Milan, gosta de ler Roth (Joseph, não Philip) e McCarthy (Cormac). Ele tem uma paixão comum por séries de TV americanas que ele analisa com um reconhecido espírito polêmico. No jornal Il Foglio cuida de livros, igreja, religiões.

https://www.ilfoglio.it/chiesa/2019/04/25/news/dio-non-e-morto-251357/

por Matteo Matzuzzi

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