A Paixão de Cristo, Um estudo da psicologia das massas

Ao ler o texto da paixão de Cristo nos quatro evangelhos, a seqüência dos acontecimentos nos deixa intrigados e perplexos. Se não soubéssemos desde muito tempo o final da história, certamente não deduziríamos, até quase o final do relato, que ela acabaria como acabou. Como num filme de Hitchcock, nada nela poderia sugerir um final tão inesperado e tão incoerente com os acontecimentos que o precederam.

O relato, linear, da passagem de Cristo pela Palestina, nos conduz para a dedução de que estaria acorrendo uma aceitação cada vez maior de Jesus, como um profeta enviado por Deus. As multidões o seguiam, viajavam longas distâncias para ouvi-lo, se esforçavam para tocar a barra de seus vestidos. E por fim, após três anos de pregação, num domingo, ele entrou triunfante em Jerusalém, onde foi aclamado pelo povo que pretendia transformá-lo em rei. Nesse ponto o relato muda de tom. Cinco dias depois ele foi condenado à morte, escarnecido e crucificado por esse mesmo povo.

Simplesmente impressionante. Seria o equivalente a Lula ser eleito num domingo, após uma campanha maravilhosa, e ser linchado cinco dias depois. O que aconteceu nesses cinco dias? Porque o povo mudou de idéia, assim, tão rápido? E como executou seus novos propósitos com tanta presteza e eficiência! Se por algum motivo já não o queriam mais como rei, porque simplesmente não o desprezaram e abandonaram ao invés de matá-lo?

Este trabalho é um convite para nos debruçarmos com um novo olhar sobre essa história cheia de amores, ódios e emoções humanas. Que apesar de ser tão antiga, tem o ranço, muito atual, de história mal contada.

Para chegar a entender os motivos e as emoções desse drama, que levaram ao trágico resultado final, tentamos reconstituir a personalidade dos grupos humanos envolvidos, a saber: as multidões, os discípulos, o clero local e as autoridades romanas. Tentamos saber o que pensavam, quais os seus valores e seus  ideais, além do aspecto político e social da Palestina do século I.

Os fatos históricos foram tirados das obras de historiadores bíblicos (2, 7, 8 e 9) que estudaram a literatura da época, passando pelo crivo da pesquisa historiográfica todos os fatos citados nos textos sagrados. A interpretação dos fatos históricos foi feita à luz dos textos de Freud.

Em “O homem Moisés e a religião monoteísta” (4) Freud levanta a audaciosa teoria, que a raça humana não herda dos pais apenas a parte biológica de sua constituição, mas também traços de memória das experiências das gerações anteriores, que ele chama de herança arcaica. Essa herança seria o equivalente ao instinto dos animais. Essa teoria seria revista por outros autores, que mostraram que o recurso freudiano ao filogenético, responde à necessidade de explicar que alguma coisa de natureza simbólica passa e é preservada de geração em geração (10). Na medida que os filhos se identificam com os pais absorvem seus valores e a transmissão ocorre. Neste trabalho utilizaremos o conceito dessa transmissão entre gerações, assim como Freud a utilizou no seu trabalho sobre Moisés, para explicar os fenômenos de massa envolvidos na morte de Cristo.

Situação política da Palestina no século I 

No século I a Palestina estava sob o poder de Roma e Herodes era o rei judeu sob autorização romana. Os saduceus e os fariseus disputavam o poder e o exerciam conforme executavam funções públicas. A administração política se confundia com a administração religiosa, de tal maneira que os membros desses partidos também ocupavam a posição de clero local. Pertencer ao clero significava desfrutar de uma posição social e financeira bastante privilegiada.

Na Palestina do século anterior houve uma tentativa abortada de helenizar o judaísmo. A idéia de uma minoria radical de desalojar o judaísmo tradicional, submergindo-o num culto siro-helenístico sincretista, fracassou inteiramente. Depois disso, todos os segmentos da população apoiaram firmemente a manutenção da religião judaica, fundamentada na Lei. Havia, entretanto, ampla compreensão no tocante de como a Lei deveria ser praticada (7).

As multidões

 Ao estudar Jesus e os fenômenos que o cercaram temos que estudar seus relacionamentos sociais, pois um líder religioso carismático tem seu status determinado pelo impacto de seus relacionamentos sociais.

Em seu ministério de pregação e curas Jesus atraiu grandes multidões, que o acompanhavam sequiosas por milagres. Mas quem compunha a multidão? A maioria da população da Palestina era composta por judeus observantes da lei mosaica, que se contentavam em praticar os fundamentos de sua religião fundada na Lei: monoteísmo, circuncisão, observância do sábado e das leis alimentares. Considerava o sumo sacerdote em exercício em Jerusalém como o líder e representante do povo, por nomeação divina, e o templo era o centro físico de sua religião. As multidões não só permaneceram sem rosto e anônimas, mas também não contadas. Mas sem dúvida a ampla maioria da multidão sem rosto era de pobres. Jesus de fato se concentrava nos pobres (9).

Embora as multidões que seguiam Jesus devam ter sido entusiásticas às vezes, o entusiasmo nem sempre se traduzia em compromisso profundo e duradouro. Queixas do próprio Jesus sobre “esta geração” e as cidades impenitentes da Galiléia, observações críticas dos evangelistas e, após sua morte, o relativo fracasso dos seus seguidores em converter a maioria dos judeus da Palestina ao seu novo movimento, demonstram que a maioria das pessoas nas multidões jamais chegou a cruzar a linha invisível que separa ouvintes curiosos ou simpáticos, dos adeptos profundamente comprometidos (9).

 A habilidade de Jesus em atrair grandes multidões entusiastas, foi um dos motivos para que as autoridades o considerassem um perigo. Várias fontes dos Evangelhos mencionam que as autoridades religiosas da época se mostravam apreensivas com o poder de Jesus sobre o povo. Porém Jesus não teve o monopólio da perigosa atividade de atrair multidões, antes deles outros também o fizeram, como João Batista, Teutas e o “falso profeta egípcio”. Todos tiveram em comum a habilidade de atrair multidões e a ira de Roma sobre suas cabeças. Essa capacidade de atrair multidões parece ter perdurado até seus últimos dias; paradoxalmente, é provável que seu sucesso tenha contribuído para sua prisão e execução pelas autoridades apreensivas.

Os discípulos

 A condição indispensável para considerar uma pessoa como discípulo de Jesus ou membro do grupo de discípulos é que ela tenha sido “chamada pessoalmente por Jesus” para seguí-lo. Os discípulos eram chamados para experimentar e proclamar o reino de Deus, atividades que aparentemente os prendiam a ele e à sua mensagem por um tempo indeterminado. Uma vez que um discípulo atendesse ao chamado, aos olhos de Jesus não era mais livre para “cair fora”. Abandonar Jesus – mesmo ou sobretudo em face do perigo – era equivalente a desertar.

Ser discípulo consistia em abandonar a casa, a família, o trabalho e seguir Jesus no seu ministério itinerante. Os discípulos dos rabinos, assim como os de Jesus, estavam sempre com seu mestre; costumavam viver, comer, dormir e viajar com ele. Juntar-se a um círculo de discípulos era como entrar em uma nova família.

No caso dos discípulos de Jesus o preço a ser pago era mais caro do que ser discípulo de outros rabinos. Jesus os advertia que hostilidade e perigos poderiam estar reservados a eles no futuro, assim como a ele próprio. Além disso, ser discípulo de Jesus era negar-se a si mesmo, repudiar totalmente os próprios interesses, em outras palavras, dizer não a si mesmo e ao próprio ego como norma e objetivos definitivos da vida. Ser discípulo significava dar adeus a toda uma vida (incluindo bens e meios de sustento), a todo um passado (com todos os vínculos familiares) e a todo um futuro (com todos os planos e projetos). O discipulado não era um caminho fácil.

Sua ordem imperiosa para que o seguissem representava um grave desafio a uma sociedade tradicional, onde a reverência aos pais era uma obrigação sagrada, santificada nos Dez Mandamentos. Em suma, Jesus fez uma exigência radical a seus discípulos: eles deveriam estar absolutamente comprometidos com ele e sua missão (9).

A espera do messias

As profecias judaicas prometiam a vinda de um messias. Mas o que era um messias para esse povo?

Para responder a essa pergunta, temos que levar em conta, que no mundo mediterrâneo antigo, o acesso ao trono era uma questão tanto religiosa quanto política. Tanto os imperadores romanos quanto os déspotas gregos, que os precederam, eram saudados em termos deificantes. Nas sagradas tradições de Israel os reis ungidos eram vistos como filhos de Deus “Eu serei seu pai e você será meu filho” (2 Sam 7:14). Existia também em Israel a força da tradição do rei Davi, que foi o grande rei dos judeus. Davi unificou os reinos do norte e do sul e empreendeu grandes ofensivas militares, que estenderam o domínio israelita sobre os estados da Transjordânia e da Síria. Davi era o arquétipo do messias (2).

Com base nessas tradições seria difícil para o povo de Israel distinguir um reivindicador político do trono de Israel, de um reivindicador religioso. O pressuposto era que qualquer reivindicação ao trono de Israel fosse também uma reivindicação messiânica.

O Messias deveria corresponder às esperanças proféticas desse povo. Os judeus esperavam um rei que fosse uma repetição de Davi, que os libertassem do domínio romano.

Jesus se coloca como o Messias

Durante seu ministério Jesus proclamou o “Reino de Deus”. Essa proclamação foi feita através de parábolas, orações, promessas, milagres e política.

Muitas parábolas sobre o “Reino de Deus” são amplamente conhecidas, como a parábola do grão de mostarda e o fermento (Lc 13: 18-21), a parábola do tesouro escondido, a pérola e a rede (Mt 13:44-58). Muitas vezes Jesus orou e prometeu o Reino de Deus a seus discípulos. Bem conhecido é o sermão das Bem-aventuranças (Lc 6:20-23) onde ele diz “Bem aventurados vós os pobres, porque vosso é o Reino de Deus”. Essa frase teve muita conotação política, tanto pela palavra “pobre” como pelo “Reino de Deus”, como veremos mais adiante. Na oração “Pai Nosso” ele invoca claramente o Reino de Deus “Venha a nós o vosso Reino”. O Reino não é invocado como um evento apocalíptico num futuro iminente, mas como um modo de vida no presente imediato. Jesus atribuía seu poder ao Reino de Deus.

Durante seu ministério Jesus em várias ocasiões fez em paralelo entre a sua atuação e a de Davi. “Aqui está quem é mais do que Salomão” (Mt 12, 42), nessa conexão com o rei Salomão Jesus se colocou como “filho de Davi”. Num milagre de cura Jesus foi colocado por um cidadão como “filho de Davi” (Mc 10, 46-52). Numa outra passagem Jesus se comparou claramente a Davi Mc (12:35-37). Essas falas implicam que ele trabalhou para que houvesse uma identificação sua com Davi. Claro está que se Jesus fosse marcado como “Filho de Davi” a conotação messiânica seria muito provável e, de fato, ele se colocava como o esperado messias. Ele atuou como o esperado messias filho de Davi.

O desamparo e a procura do Pai

Para todos os indivíduos a vida é dura de ser suportada. Todos têm que se haver com as agruras da natureza e com os sofrimentos gerados pela vida na sociedade humana. Esses sofrimentos nos colocam constantemente frente à nossa fragilidade. Essa pavorosa impressão de impotência e de desamparo se instala em nós na ocasião do nascimento e cria a necessidade de proteção, que na infância é realizada pelo pai. Foi o reconhecimento da continuação desse desamparo, por toda a vida, que originou no homem o anseio de apegar-se a um pai, porém a um pai que fosse mais poderoso que o nosso frágil pai humano e, assim, os homens criaram os deuses, e deram a esses deuses os poderes e as características paternas (3).

Aquela multidão pobre, sofrida, sob o domínio dos romanos, ouviu com avidez a boa nova sobre o “Reino de Deus”, esse lugar maravilhoso onde não haveria necessidade e todos os seus sofrimentos acabariam, onde os últimos seriam os primeiros e seriam acolhidos como filhos de Deus. Jesus ofereceu o que todos queriam. O fim do desamparo. A volta ao paraíso perdido, àquele lugar mítico onde todos eram plenos. Neste mundo totalmente sem garantias para o desamparo humano, o “Reino de Deus” era a garantia mais ardentemente almejada. Jesus ofereceu o objeto do desejo e ele mesmo se colocou como objeto do desejo, na hora que atuou para se identificar com o esperado messias, o grande Pai que resolveria todos os problemas.

Nas relações sociais dos homens observamos os mesmos movimentos observados no desenvolvimento da libido individual. A escolha do objeto de amor é sempre narcísica. A libido apóia-se na satisfação das grandes necessidades individuais e escolhe como objetos de amor as pessoas que nela intervem. A grande necessidade humana é a necessidade do Pai.

Jesus, esse homem fálico, após três anos de ministério, foi colocado no lugar do Pai. Porém, ao ser colocado nesse lugar, ele herdou não só o amor, que todo pai almeja, mas também toda hostilidade inerente a esse cargo. Porque o pai é sempre uma figura ambivalente, amado e desejado e ao mesmo tempo odiado e temido, aquele que o filho tenta eliminar e aquele com quem o filho se identifica.

As massas aclamam seu líder

A multidão o seguia, as pessoas passavam dias fora de casa para ouvi-lo, faziam longos percursos carregando doentes para serem curados e se admiravam de sua sabedoria e de sua capacidade de cura. Ao longo de seu ministério, Jesus alimentou a multidão com palavras e milagres.

Após três anos de pregação Jesus entrou em Jerusalém, no feriado da páscoa dos judeus, e foi aclamado pelo povo (Jo 12, 12-18, Mc 11: 1-10). Essa entrada triunfal deve ser entendida num sentido real. Ela lembra Salomão entrando em Gion montado numa mula para ser ungido rei de Israel (3°Reis 1:32-40), lembra também o episódio em que Jeú é ungido rei de Israel, onde os que o acompanhavam tiraram suas capas e forraram o chão para que ele pisasse (4°Reis 9:12-13) e Simão entrando em Jerusalém (1 Mac 13:51) com a multidão gritando e colocando ramos de oliveira no chão à sua passagem. A dimensão real estava aberta com as palavras que a multidão gritava: “Bendito o reino que vem do nosso pai Davi, bendito o rei de Israel que vem em nome do Senhor”. Naquele momento a multidão totalmente identificada com Jesus o aclamava como seu líder e queria entronizá-lo como rei.

A identificação não é só o desejo de ser “como alguém”, para a psicologia é também a manifestação mais primitiva de uma ligação afetiva a outra pessoa. O que mantinha a massa unida em torno daquele homem era libido. Naquele momento existia um forte laço afetivo, ligando todos os membros daquela multidão entre si e, principalmente, entre cada um e Jesus.

No processo de formação das massas, assim como no enamoramento, o amante se identifica e se apropria do amado. O líder das massas passa a ser tratado por cada um dos indivíduos que a compõe como seu próprio eu e recebe de cada um uma parte da sua libido narcisista. O eu de cada indivíduo vai se esvaziando e passando para o objeto do amor, todo o amor que sentia por si mesmo. O líder substitui um ideal próprio e não atingido pelo eu de cada um e passa a ser amado por causa das perfeições que todos aspiraram para o seu próprio eu e que desejariam agora obter desta maneira, para satisfação de seu narcisismo. A massa, portanto, é formada por indivíduos que substituíram seu ideal de eu por um objeto comum a todos, o líder, em conseqüência do que se estabeleceu entre eles uma identificação do eu, geral e recíproca (5).

Em decorrência da restrição ao narcisismo individual que se impõe, durante o período de existência dessa massa, seus membros abandonam seus interesses pessoais em função dos interesses coletivos. É fácil visualizar essa característica na pequena massa formada por seus discípulos. Eles largavam toda sua vida para trás, para seguir Jesus. Na multidão esse fato também é observado. O milagre da multiplicação dos pães, por exemplo, ocorreu porque Jesus se apiedou do povo que estava há três dias junto dele, sem ter o que comer (Mt 15,32-39). Todos os afazeres cotidianos eram postos de lado para ouvi-lo.

O líder não corresponde aos anseios da massa

Jesus provocou uma oposição total da classe dominante por causa do seu carismático ministério. É consenso entre os estudiosos de Jesus, que ele foi crucificado pelas autoridades romanas em colaboração com as autoridades judaicas. Existe uma lógica que vincula a execução de Jesus como “Rei dos Judeus” à sua pregação do “Reino de Deus”. Ele antecipou grandes mudanças sociais e políticas que viriam junto com seu Reino. “Bem aventurados os pobres” (Lc 6:20). “Ai de vós, ó ricos” (Lc 6:24, Mc 10:23-27). “Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos” (Mt 20:16). Frases como estas revelam a crítica de Jesus à opulência de alguns e opressão de outros que vigorava naquele período. Muitos autores admitem que os princípios de igualdade disseminados por Jesus e sua habilidade de inspirar grandes multidões com essas proclamações, foi o que provavelmente despertou a ira do poder local e romano e o levou à prisão e execução. A prova disso é a inscrição colocada em cima da sua cruz “Rei dos judeus”. Naquela época essa inscrição se referia ao crime cometido pela vítima e que provocou o seu castigo (2).

A prisão e execução foram precipitadas pela entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e por sua ação no templo (Mt 21-25). Grandes multidões entusiásticas em Jerusalém durante um feriado eram motivo especial de preocupação para as autoridades, que num certo momento decidiram que seria imprudente esperar até a crise se manifestar. Um golpe preventivo resolveria o problema, ou assim parecia (2).

Jesus foi preso em Getsêmani e levado para o clero, onde foi interrogado, insultado e sofreu violências físicas. A seguir foi levado à presença de Pilatos, o representante de Roma, para ser interrogado publicamente. Durante todo interrogatório ele permaneceu em silêncio, não tendo Pilatos encontrado qualquer culpa nele. Como era costume libertar um preso naquela época do ano, Pilatos ofereceu ao povo a escolha de libertar Jesus ou Barrabás, um homicida. O clero persuadiu o povo a escolher Barrabás e condenar Jesus a morte, e o povo, aos gritos, pediu a crucificação de Jesus e a libertação do assassino. Jesus foi condenado, torturado e crucificado. Durante todo o processo da sua agonia foi escarnecido pelo clero e pelo povo, que diziam “Se és rei de Israel desça agora da cruz”, “Ele salvou os outros e a si mesmo não pode salvar”, “Se Deus o ama, que o livre agora” (Mt 26-27).

Nesse episódio verificamos a queda do líder. No imaginário daquele povo, a figura de um líder religioso, o messias, estava totalmente vinculada à figura de um líder político. Para eles não existia a possibilidade de alguém ser um, sem ser o outro. A multidão desejava um Pai, que os libertaria do desamparo. Ao ser preso e aparentemente se tornar, ele também, vulnerável ao desamparo, aquele homem perdeu sua posição privilegiadíssima de objeto do desejo. A libido da multidão que o imantava, foi retirada. As frases com que a multidão o insultava, revelam que a decepção foi o estopim da queda, que ocorreu porque os princípios básicos que mantém um líder na sua posição, não foram observados. Segundo Freud, o que a multidão exige de seus heróis é a força. A multidão quer ser dominada, subjugada, e temer seu amo. Para manter a liderança, o líder deverá estar empolgado por uma fé intensa nos seus propósitos, para poder empolgar a massa. Deverá possuir uma vontade potente e imperiosa, suscetível de animar a multidão, carente, por si mesma, de vontade (5). Essas condições estiveram presentes até o momento de sua prisão, depois desapareceram.

Porém o homem é um animal de horda e a horda precisa de um chefe. Quando a horda encontra um chefe torna-se incapaz de viver sem ele (5). Ao se decepcionar com Jesus, automaticamente a multidão voltou a aceitar, sem questionamento, as ordens de seus antigos líderes, o clero. Pedir coerência e raciocínio para a massa, naquela ocasião, seria pedir demais. Naquele momento as pessoas que estavam ali já não respondiam por seus atos, estavam formando uma massa e as massas são inconscientes e irresponsáveis.

Freud cita como principais características da massa a inibição coletiva da função intelectual e a intensificação da afetividade. O indivíduo integrado à multidão não possui mais consciência de seus atos, pois ocorre o desaparecimento da personalidade consciente de cada um dos indivíduos, dando lugar à personalidade coletiva, inconsciente. A multidão é muito mais susceptível à sugestão do que os indivíduos isoladamente, pois age como que hipnotizada. É extremamente influenciável e crédula. Carece de sentido crítico. Seus sentimentos são simples e exaltados, não tem dúvidas nem incertezas. Chega rapidamente a extremos. A suspeita anunciada transforma-se no ato em evidência indiscutível. Um começo de antipatia passa em poucos segundos a constituir um ódio feroz. Para influenciar a multidão exaltada é inútil apresentar argumentos lógicos. Ela é autoritária e intolerante. Respeita a força e não vê na bondade mais do que uma espécie de debilidade que a impressiona muito pouco. Além disso, as multidões abrigam instintos conservadores irredutíveis, um respeito fetichista às tradições e um horror inconsciente às novidades susceptíveis de modificar suas condições de existência (5).

Naquele contexto o clero funcionou como instigador da condenação de Jesus, inflamando a multidão e usando toda a energia da multidão exaltada, para atingir seus objetivos. A essa parcela da população judaica não interessava um novo líder com uma nova doutrina, tanto por acreditar na Lei, que até então os tinha mantido unidos, como para manter seus privilégios de classe dominante.   Mas provavelmente existia muito mais por trás disso.

Na história do povo judeu, duas passagens tiveram que ser dolorosamente recalcadas. Uma, comum a toda espécie humana, foi o assassinato do pai da horda, e a outra, pertencente só a eles, foi o assassinato do líder Moisés (4). Um indivíduo que passa a fazer parte de uma multidão, se coloca em condições que lhe permitem suprimir os recalques de suas tendências inconscientes, ou seja, na multidão exaltada o recalque, imposto a duras penas, cai. Os caracteres novos que aparecem na multidão são precisamente exteriorizações do inconsciente individual, sistema onde se acha contido em germe tudo de mal que possa existir na alma humana (5).

O recalcado, no seu esforço constante para abrir caminho até a consciência, consegue seu objetivo em algumas ocasiões. Uma delas é quando a repressão que o mantém no inconsciente é relaxada, e outra é quando as situações vividas, no momento atual, são estreitamente relacionadas com o acontecimento recalcado. No momento do julgamento de Jesus, essas duas condições estavam colocadas. O que estava no inconsciente daquele povo eram marcas de situações extremamente parecidas com as vivenciadas naquele momento. Um novo líder, falando de uma terra prometida (o Reino de Deus), pedindo que houvesse modificação nos costumes, tentando implantar uma religião mais altruísta. Era ele de novo, como se fosse a reencarnação de Moisés.

A atuação de Jesus rememorou para aquele povo, a figura de seu líder anterior; assim como Moisés havia rememorado o pai da horda. O assassinato de Moisés constituiu um trauma com uma carga psíquica tão intensa, que quando um novo líder, parecido com ele, se apresentou e a situação entrou num impasse, pode ter havido uma compulsão à repetição, na tentativa de elaborar, através dessa repetição, aquela carga psíquica que havia sido tão perturbadora e que ainda estava presente. A repetição busca dar uma forma tangível aos restos inquietantes de um terrível evento, que ainda continuam a habitar (e a excitar) a vida psíquica de um indivíduo (10). É o efeito positivo de um trauma. A morte de Jesus foi um caso de “atuação” (acting out) ao invés de recordação.

O desamparo e o pânico

Após a prisão de Jesus o medo tomou conta dos discípulos e todos fugiram. Pedro, o mais ousado, ainda o seguiu, mas o negou três vezes com medo de ter o mesmo destino. (Mt 26, 56-75). Encontramos também o medo na multidão apavorada diante dos fenômenos físicos, inexplicáveis pelos presentes, que ocorreram após a morte de Jesus (Mt 27, 50-54).

Na massa os indivíduos se acham ligados por laços afetivos a dois centros diferentes: os outros membros da massa e o líder, sendo que o vínculo ao líder é o mais sólido. A perda do chefe, por qualquer motivo, provoca pânico. Quando os laços afetivos que ligam os membros da massa ao chefe desaparecem, são desfeitos também os laços que ligam os indivíduos entre si. Destruídos os laços recíprocos, a massa pulveriza-se e surge um medo imenso e insensato. A partir desse momento cada indivíduo passa a cuidar de si, sem se interessar mais pelos outros (5). Isso é o que vemos nos discípulos fugindo e em Pedro negando Jesus.

Em (Mc 10,28-30) Pedro mostra a Jesus, de forma pouco sutil, o preço que ele e os outros discípulos haviam pago “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos”. Ao perder o líder eles sentiram como se tivessem jogado toda sua vida numa cartada errada. Sentiram, mais do que nunca, o desamparo. E a multidão volúvel, que o havia seguido por três anos, na hora de sua morte se deu conta do desamparo em que foi jogada com aquela morte. Daí o pânico e as palavras pronunciadas: “Verdadeiramente este homem era o filho de Deus” (Mc 16, 39).

 No texto “O homem Moisés e a religião monoteísta” Freud sugere que Jesus ocupou o lugar simbólico do cabeça da reunião de irmãos, que havia derrotado o pai da horda (4,6). Da mesma forma que ocorreu com esse irmão, e com todos os irmãos que o sucederam, assim como Moisés e Jesus, todos que tentaram ocupar o lugar do Pai foram sucessivamente assassinados. O lugar do Pai deve permanecer vago, e, como conseqüência, o desamparo deve persistir.

Fonte: www.acpsicanalise.org.br/docs/ea

Autor: Ivani Haro Martins

 

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