Quinta-feira santa

Tomai e comei: isto é o meu corpo. Tomai e bebei: Isto é o meu sangue, o sangue da Aliança, derramado em favor de muitos.

 Textos da liturgia da eucaristia, Ex 12,1-8.11-14:

Naqueles dias, o Senhor disse a Moisés e a Aarão na terra do Egipto: “Este mês será para vós o princípio dos meses; fareis dele o primeiro mês do ano. Falai a toda a comunidade de Israel e dizei-lhe: No dia dez deste mês, procure cada qual um cordeiro por família, uma rês por cada casa.

Se a família for pequena demais para comer um cordeiro, junte-se ao vizinho mais próximo, se­gundo o número de pessoas, tendo em conta o que cada um pode comer. Tomareis um animal sem defeito, macho e de um ano de idade. Podeis escolher um cordeiro ou um cabrito. Deveis conservá-lo até ao dia catorze desse mês. Então, toda a assembleia da comunidade de Israel o imolará ao cair da tarde. Recolherão depois o seu sangue, que será espalhado nos dois umbrais e na padieira da porta das casas em que o comerem. E comerão a carne nessa mesma noite; comê-la-ão assada ao fogo, com pães ázimos e ervas amargas. Quando o comerdes, tereis os rins cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão. Comereis a toda a pressa: é a Páscoa do Senhor. Nessa mesma noite, passarei pela terra do Egipto e hei-de ferir de morte, na terra do Egipto, todos os primogénitos, desde os homens até aos animais. Assim exercerei a minha justiça contra os deuses do Egipto, Eu, o Senhor. O sangue será para vós um sinal, nas casas em que es­tiverdes: ao ver o sangue, passarei adiante e não sereis atingidos pelo flagelo exterminador, quando Eu ferir a terra do Egipto. Esse dia será para vós uma data memorável, que haveis de celebrar com uma festa em honra dó Senhor. Festejá-lo-eis de geração em geração, como instituição perpétua”.

Irmãos: Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e, dando graças, par­tiu-o e disse: “Isto é o meu Corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim”. Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse: “Este cálice é a nova aliança no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim”. Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha. 

Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim. No decorrer da ceia, tendo já o Demónio metido no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, a ideia de O entregar, Jesus, sabendo que o Pai Lhe tinha dado toda a autoridade, sabendo que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-Se da mesa, tirou o manto e tomou uma toalha, que pôs à cintura. De­pois, deitou água numa bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxuga­dos com a toalha que pusera à cintura. Quando chegou a Simão Pedro, este disse–Lhe: “Senhor, Tu vais lavar-me os pés?”. Jesus respondeu: “O que estou a fazer, não o podes entender agora, mas compreendê-lo-ás mais tarde”. Pedro insistiu: “Nunca consentirei que me laves os pés”. Jesus respondeu-lhe: “Se não tos lavar, não terás parte comigo”. Simão Pedro replicou: “Senhor, então não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça”. Jesus respondeu-lhe: “Aquele que já tomou banho está limpo e não precisa de lavar senão os pés. Vós estais limpos, mas não todos”. Jesus bem sabia quem O havia de entregar. Foi por isso que acrescentou: “Nem todos estais limpos”. Depois de lhes lavar os pés, Jesus tomou o manto e pôs-Se de novo à mesa. Então disse-lhes: “Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei–vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também”.

A “Última Ceia” é um dos eventos mais importantes que, segundo a tradição, aconteceu no andar superior do edifício onde está localizado o túmulo de David.

O papa Francisco vai celebrar a missa de Quinta-feira Santa numa prisão para menores, anunciou esta quinta-feira o Vaticano.

Informações avançadas na quarta-feira, não confirmadas hoje, referiam que o papa determinou que fossem convidadas para a celebração pessoas assistidas pela Cáritas de Roma e outras organizações de apoio social.

A missa que inclui o gesto do lava-pés, como sinal de serviço, era celebrada habitualmente na basílica de S. João de Latrão, em Roma.

A decisão do papa surge na continuidade do que realizava quando era arcebispo de Buenos Aires, ao celebrar a eucaristia em prisões, hospitais e centros de acolhimento para pessoas pobres.

No encontro com os jornalistas que ocorreu no sábado, o papa Francisco expressou o desejo de contribuir para a edificação de uma Igreja pobre e para os pobres.

Durante a audiência que teve esta quarta-feira no Vaticano com representantes de Igrejas cristãs, comunidades eclesiais e tradições religiosas, Francisco sublinhou que, em conjunto, «é possível fazer muito pelo bem de quem é mais pobre, de quem é fraco e de quem sofre, para favorecer a justiça, para promover a reconciliação, para construir a paz».

«Mas sobretudo devemos manter viva no mundo a sede do absoluto, não permitindo que prevaleça uma visão da pessoa humana a uma só dimensão, segundo a qual o homem se reduz ao que produz e ao que consome», naquela que é «uma das insídias mais perigosas» da atualidade.

Esta quinta-feira o papa recebeu o argentino Adolfo Pèrez Esquivel (n. 1931), arquitecto, escultor e activista dos direitos humanos que em 1980 foi distinguido com o Prémio Nobel da Paz.

Esquivel repudiou firmemente após o conclave as acusações dirigidas ao papa, quando era arcebispo de Buenos Aires, relativamente à alegada colaboração com o regime ditatorial argentino.

Na Quinta-feira Santa chegamos à última noite da vida terrena de Cristo. Naquela sala do piso superior de uma casa de Jerusalém, mais tarde denominada “Cenáculo”, Cristo realizou, de surpresa, um gesto que era proibido até aos servos judeus no relacionamento com os seus patrões, por ser considerado demasiado humilhante e por isso reservado aos escravos estrangeiros: a lavagem dos pés.

Compreende-se, assim, a oposição indignada de Pedro: «Tu nunca me lavarás os pés!». Jesus replica: «Se Eu não te lavar, não tereis parte comigo». E então o apóstolo, com uma reacção impulsiva, como não era raro acontecer-lhe, declara: «Senhor, então não só os pés, mas também as mãos e a cabeça!» (João 13, 8-9). Neste momento o Mestre diz a frase enigmática que queremos iluminar, distinguindo um banho total do corpo e uma lavagem parcial dos pés.

A que alude Cristo através desta distinção, que tem um evidente valor simbólico? Muitos Padres da Igreja , [escritores desde as origens do cristianismo até ao século VIII, com o período áureo nos séculos IV e V] distinguiram entre o “banho” do Baptismo e a “lavagem” dos pecados sucessivamente cometidos durante a existência cristã, através da penitência-reconciliação-confissão das culpas (cf. Mateus 16, 19; 18, 18; João 20, 23).

Na verdade, é preciso recordar antes de tudo que Jesus, com o lava-pés, quis representar simbolicamente a sua doação sacrificial pela redenção-salvação da humanidade na humilhação da morte na cruz.

Não é por acaso que diz a Pedro que se recusasse esse dom, não teria parte com Ele no reino futuro. O apóstolo, no entanto, equivoca-se e pensa que Jesus quer introduzir um novo ritual de purificação. É por isso que Jesus replica, propondo o sentido profundo desse gesto: a lavagem batismal completa precisa sempre da doação extrema de Cristo na sua morte redentora, representada precisamente no gesto de humilhação da lavagem dos pés.

Esta humildade não é um fim em si mesmo, mas tem uma meta de amor. O gesto torna-se exemplar, como recorda o próprio Jesus depois de se ter levantado e retomado o seu lugar à mesa: «Se Eu, o Senhor e o Mestre, lavei os vossos pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros».

O rito do Lava-Pés, na Quinta-Feira Santa, contém um duplo significado, à luz do Evangelho de João:

– uma imitação do gesto realizado por Cristo ao lavar os pés dos Apóstolos no Cenáculo;

– a expressão do doar-se a si mesmo, exemplificada com aquele ato.

Não por acaso, o gesto é chamado de “mandatum” (“mandamento”) na antífona recitada na na cerimônia: “Mandatum novum do vobis, ut diligatis invicem, sicut dilexi vos, dicit Dominus” (“Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei, diz o Senhor“; João 13,34).

De facto, o mandamento do amor fraternal compromete todos os discípulos de Jesus, sem qualquer distinção ou excepção.

O amor de Cristo, abrangendo toda a humanidade, faz de todas as pessoas irmãos e irmãs pela força do Seu exemplo. O “mandatum” deixado por Ele nos convida a transcender o acto físico de lavar os pés do outro para vivenciar o pleno sentido desse gesto: servir, com amor palpável, ao próximo.

 Os 3 verbos do lava-pés, segundo o Papa Francisco

 SERVIR

Ser “servos” uns dos outros nada tem a ver com “servilismo” ou “escravidão”: trata-se do “mandamento novo” do amor real ao próximo através do “serviço concreto”, e não apenas “de palavra”. O amor é um “serviço humilde”, concretizado “no silêncio”: “Não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita”, pede Ele, em Mt 6,3.

 PERDOAR

O lava-pés representa o chamado de Jesus a “confessarmos os nossos pecados e a rezarmos uns pelos outros, para saber-nos perdoar de coração”. O papa Francisco evocou neste sentido um texto de Santo Agostinho: “Não desdenhe o cristão fazer aquilo que Cristo fez. Porque quando o corpo se inclina até o pé do irmão, acende-se no coração o sentimento de humildade, ou, já se existisse, é alimentado (…) Perdoemo-nos os nossos erros e rezemos uns pelo perdão dos pecados dos outros. Assim, de algum modo, lavaremos nossos pés mutuamente”.

 AJUDAR

O papa recordou as pessoas que vivem a vida inteira “no serviço dos outros” e, como exemplo, contou que recebeu uma carta de uma pessoa agradecida por este ano da misericórdia: a pessoa em questão “me pediu rezar por ela, para que ela esteja mais perto de nosso Senhor. A vida dessa pessoa era cuidar da mãe e do irmão; a mãe está de cama, idosa, lúcida, mas sem poder se mexer; e o irmão é deficiente, numa cadeira de rodas”. Francisco resumiu duas vezes este caso declarando: “Isto é amor!”.

Simbolicamente, Origines e São Jerónimo [epist. ad Damasus, de prima visione Isaiæ] consideram que Cristo lavou os pés dos Apóstolos, a fim de que Ele pudesse prepará-los para pregar o Evangelho, de acordo com o que é dito: ‘Quão formosos são sobre os montes os pés do que anuncia e prega a paz; do que anuncia o bem’ [Is 52,7; Rm 10,15].

 Santo Agostinho e São Bernardo [de Cœna Domini] dizem: ‘Pelos pés pisamos sobre a terra, significando o amor ao mundo, a sujeira e os defeitos que, enquanto neste século, isto é, enquanto vivemos nos afazeres terrenos, a poeira e a lama em nossos pés convém-nos lavá-las por lágrimas e penitência, especialmente antes da sagrada comunhão’.

São Cipriano [de Cœna Domini] e São Gregório [lib. epist ix. 39]: ‘Dos pés, que são a parte mais baixa e a última do homem, a purificação significa não apenas que nós devemos examinar nossas obras exteriores, mas que devemos descer até mesmo para os mais profundos e íntimos recantos de nossa consciência e purgá-la de toda mancha secreta e intenção perversa mediante a contrição, lágrimas e gemidos’.

Santo Agostinho, Beda e especialmente São Bernardo [serm. In Cœna Domini] dizem: ‘Aquele que é lavado, não precisa de nada, a não ser lavar os pés. É lavado aquele que não tem pecados graves, cujas cabeça (a intenção) e mãos (as obras e a boa conduta) estão limpas; mas os pés, que são os afetos da alma, enquanto caminha na poeira do mundo, não pode ser inteiramente do mundo, mas em algum momento pisa na vaidade, luxúria ou curiosidade, isto deve dizer tão mais respeito à alma que a faz sucumbir mesmo hoje. Nós todos ofendemos em muitas coisas. Mas nenhum homem debocha ou despreza. Porque é impossível ser salvo por aqueles, é impossível que eu lave, excepto por meio de Cristo Jesus, e por Cristo”.

O rito do lava-pés, na liturgia, é conhecido desde a mais remota antiguidade e foi pratica por Papas, bispos e sacerdotes de todas as épocas. Também imperadores e reis praticaram o lava-pés como sinal de serviço aos seus súbditos. Os monges, que recebiam peregrinos em seus mosteiros, acolhiam-lhes com ósculo da paz e lavando-lhes os pés, para demonstrar que estavam a serviço do hóspede. Desde o século IV conhece-se o rito do lava-pés no Ocidente, com excepção de Roma.

 O 17.º Concílio de Toledo, na Espanha, no ano de 694, prescreveu que o lava-pés deveria ser realizado em todas as igrejas do mundo inteiro, na quinta-feira santa para imitar o gesto de Jesus. Para aqueles padres que se recusavam realizar o rito havia severas penas eclesiásticas. Contudo, o rito estava reservado para as catedrais e basílicas e, mais tarde é que foi permitido ser realizado em todas as igrejas.

O bispo ou padre que lava os pés de algumas pessoas da comunidade está imitando Jesus no gesto, mas não como teatro; ao contrário, como compromisso de estar ao serviço da comunidade, para que todos tenham a salvação, como fez Jesus. Não há necessidade, pois, que as pessoas venham vestidos de apóstolos, mesmo porque, o missal não determina quantas pessoas deverão ter os pés lavados ao dizer: “viri selecti deducuntur…” (“os homens escolhidos são levados…”).

 A terceira e última opinião é de S. João Crisóstomo, o qual tem para si que a maior fineza do amor de Cristo hoje foi o lavar os pés a seus discípulos. E parece que o mesmo evangelista o entendeu, e quis que o entendêssemos assim, pois, acabando de dizer: In tinem dilexit eos[20] – entra logo a descrever a acção do lavatório dos pés, ponderando uma por uma todas as suas circunstâncias, como se foram ela e elas a maior prova do que dizia. O mesmo confirmam os assombros e pasmas de S. Pedro, nunca semelhantes em outra alguma acção de Cristo: Domine; tu mihi lavas pedes (Jo. 13, 6)? E bem, Senhor, vós a mim lavar-me os pés? Tu mihi? Vós a mim? A distância que há entre estas duas tão breves palavras é infinita; e, posto que Pedro a cria por fé, nem ele nem outro entendimento humano o pôde compreender nesta vida. Por isso lhe disse o mesmo Cristo: Quod ego facio tu nescis modo (ibid. 7): O que eu faço, tu agora não o sabes – mas sabê-lo-ás depois, isto é, quando no céu conheceres a grandeza da glória e majestade, que agora vês prostrada a teus pés. Assim entendem o postea S. Agostinho, Beda e Ruperto. Finalmente, o mesmo evangelista, ponderando a diferença dos pés, que haviam de ser lavados, e das mãos, que os haviam de lavar, acrescenta aquela notável prefacção: Sciens qui omnia dedit ei Pater in manus (ibid. 3): Isto fez o soberano Senhor sabendo que seu Eterno Padre lhe tinha posto tudo nas mãos. – Como se duvidara, e dissera consigo o seu mesmo amor, antes de se arrojar aos pés dos discípulos: Eu tenho tudo nestas mãos, e que posso fazer nesta despedida, para que os meus amados conheçam quanto os amo? Pois tenho nas mãos tudo, dar-lhes-ei tudo. Mas é pouco, que também eles deixaram tudo por amor de mim: Ecce nos reliquimus omnia[21]). – Pois, se é pouco tudo o que tenho nas mãos, quero com essas mãos, em que tenho tudo, lavar-lhes os pés: Coepit lavare pedes discipulorum (Jo. 13, 5).

 Sendo tão fundada como isto a opinião de S. Crisóstomo, e dos outros doutores antigos e modernos, que a encarecem e seguem, eu contudo não posso consentir que seja esta a maior fineza do amor de Cristo, porque dentro do mesmo lavatório dos pés darei outra maior. E qual é? Não excluir dele Cristo a Judas. Muito foi, e mais que muito lavar Cristo os pés aos discípulos; mas lavá-los também a Judas, essa foi a fineza. Não é consideração minha, senão advertência e ponderação do mesmo evangelista. Notai a ordem e consequência do texto. Depois de ter dito: Cum dilexisset suos, in tinem dilexit eos[22]. – continua logo, em prova do que dizia: Et coena facta, cum diabolus jam misisset in cor, ut traderet eum Judas, surgit a coena, et coepit lavare pedes discipulorum (Ibid. 2, 4, 5): E feita a ceia, tendo já o demónio persuadido o coração de Judas a que entregasse a seu Mestre, então se levantou da mesa a lavar os pés dos discípulos. – E porque advertiu e interpôs o evangelista aquela notável cláusula de que, antes de lavar os pés a todos os discípulos, já um deles tinha consentido com o demónio, e determinado a traição, e nomeadamente que este era Judas? Porque nesta circunstância consistia o mais profundo da humildade, o mais subido da acção, e o mais fino do amor de Cristo.

 Notai mais. Cum dilexisset suos, qui erant in mundo: Como amasse os seus que deixava neste mundo. – E quem eram estes seus? Eram os doze da sua escola, da sua família e da sua mesa, donde se levantava. Todos estes eram os seus, mas com grande diferença seus: os onze seus, porque eram os seus amigos, e o duodécimo também seu, porque era o seu traidor; mas, sem embargo desta diferença, todos amados neste fim: Cum dilexisset suos, in tinem dilexit eos. – Mais ainda. Quando Cristo disse a S. Pedro que os que estavam limpos de pecado, ou maldade grave, bastava que lavassem os pés: Non indiget nisi ut pedes lavet[23]  acrescentou: Et vos mundi estis, sed non omnes: E vós, discípulos meus, estais limpos, mas não todos. – E porque fez o Senhor esta excepção: e não todos? O mesmo evangelista o declarou: Sciebat enfim quisnam esset qui traderet eum; propterea dixit: Non estis mundi omnes: Disse que não estavam limpos todos, porque ele sabia que um estava infeccionado com o pecado da traição, e quem era. – Pois, se Cristo fez esta excepção entre todos: sed non omnes – porque não exceptuou também ao mesmo traidor? Porque o não excluiu do regalo e favor amoroso do lavatório? E porque, não sendo ele como todos, antes tão indigno, o admitiu com todos? Porque hoje não era o seu dia do juízo, senão o do seu amor.

A fineza do amor mostra-se em igualar nos favores os que são desiguais nos merecimentos: não em fazer dos indignos dignos, mas em os tratar como se o fossem. Há-de ter o amor alguns ressábios de injusto para ser fino. Amai a quem vos tem ódio, e fazei bem a quem vos quer mal, diz Cristo: Ut sitis filii Patris vestri, qui in caelis est (Mt. 5, 45): Para que sejais filhos de vosso Pai, que está no céu. – E que faz o Pai do céu no céu? Solem suum oriri facit super bonos et malos, et pluit super justos et injustos (ibid.): No céu nasce o sol, e faz que nasça sobre bons e maus; do céu desce a chuva, e faz que desça sobre justos e injustos. – Verdadeiramente não pode haver maior igualdade com todos, mas igualdade que parece injustiça. Não é coisa injusta medir os bons e maus, os justos e os injustos com a mesma regra? Os bons e justos servem a Deus, os maus e injustos ofendem-no, e, sendo tanto maior a diferença de servir ou ofender, a servir mais ou a servir menos, os operários da vinha, que tinham servido mais, queixavam-se muito do pai de famílias os igualar aos que serviram menos: Hi novissimi una hora fecerunt, et pares illos nobis fecisti[24]. – Mas ponhamos o exemplo no mesmo sol e na mesma chuva. Quando Deus castigou a dureza do coração de Faraó, que não era mais duro que o de Judas, o sol alumiava os hebreus, e os egípcios estavam em trevas; nos campos dos hebreus as nuvens choviam água, e nos dos egípcios choviam raios. Pois, se a mesma diferença entre bons e maus podia agora fazer Deus com o seu sol e a sua chuva, porque trata com a mesma igualdade a todos? Porque então obrava no Egipto como juiz severo, agora comunica-se ao mundo como pai amoroso. E o amor fino – qual é sobre todos o amor de pai – quando é igual na benignidade para os que a merecem e desmerecem, nessas mesmas aparências de menos justiça realça mais os quilates da sua fineza. E se isto é o que ensina Cristo aos que quiserem ser filhos de Deus por imitação, que faria ele, que o é por natureza? Assim como os raios do sol e os da chuva, que também são raios, descem do céu, assim ele desceu neste dia, não super bonos et malos, et super justos et injustos, mas até os pés de uns e outros. Os outros discípulos eram justos e bons, Judas era injusto e péssimo, e, contudo – antes por isso – com reflexão que era Filho de Deus, tratou igualmente a todos. Para todos lançou água na bacia: Mittit aquam in peluim – a todos lavou os pés: Coepit lavare pedes discipulorum – a todos os enxugou com a toalha de que estava cingido: Et extergere linteo, quo erat praecinctus (Jo. 13, 5). – Também aqui tem lugar o sol e a chuva, porque a chuva a todos molha, e o sol a todos enxuga. E porque os outros discípulos, na grande diferença de Judas, se podiam queixar desta igualdade, e dizer, como os operários: Parem illum nobis fecisti[25] – não desistiu por isso o amor de Cristo, antes se gloriou da mesma desigualdade, porque as queixas, quando as houvesse, da sua justiça, eram os maiores panegíricos da sua fineza.

 Cristo, Senhor nosso, antes de lavar os pés aos discípulos, tinha-lhes já revelado que um deles era traidor e o havia de entregar a seus inimigos, mas não lhes descobriu quem era. Com esta notícia da traição e ignorância da pessoa, quando o Senhor começou e continuou o lavatório, estavam todos suspensos, esperando que o traidor fosse excluído daquele favor; mas quando viram que todos eram tratados com a mesma igualdade, sem nenhuma exceção, os onze, a quem segurava a própria consciência, como cada um só sabia de si, estavam atônitos e pasmados. A todos dava a água da bacia pelos artelhos, mas na profundidade do mistério e do amor nenhum tomava pé. Só S. João entre todos sabia que o traidor era Judas, porque o Senhor só a ele tinha descoberto este segredo, e por isso só o mesmo S. João parece que se podia queixar desta igualdade, em nome de todos, e muito mais no de seu amor.

 Em nome de todos podia dizer S. João, com a confiança e familiaridade de valido: – Basta, Senhor, que com a mesma igualdade haveis de tratar a um discípulo tão indigno e os que tanto vos servem e vos merecem? Com a mesma igualdade os fiéis e ao traidor? Aos maiores amigos e ao mais cruel inimigo? Aos que vos entregaram a sua liberdade, e ao que há-de vender a vossa? Sempre este nome de Judas foi fatal para vós. Na figura deste mesmo caso em que estamos, Judas se chamava o que aconselhou e tratou a venda de José; mas quanto vai de Judas a Judas! Estava José condenado à morte: Venite, occidamus eum[26] – e aquele Judas traçou-lhe a venda para lhe salvar a vida; mas o vosso Judas – que bem lhe posso chamar vosso, pois tão amorosamente o tratais – não só vos vende à liberdade, mas a aqueles, que vós sabeis, e ele sabe, que não só vos hão-de dar a morte, mas morte de cruz. Que dirão agora as cruzes de Pedro, e de André, e as dos outros? Tanto merece o que vos tem fabricado a cruz e a morte, como os que hão-de morrer todos, e dar a vida por vós? Não quero ir buscar as desigualdades mais longe, e ao futuro: baste a presente.

 A maior fineza que fizestes pelos homens na vossa Encarnação, não foi fazer-vos homens como nós, mas tomar a natureza humana no mais baixo grau da sua fortuna, que é a de escravo: Cum informa Dei esset, formam servi accipiens[27].  Trinta e três anos, Senhor, vos contentastes com exercitar só a condição de homem, conforme a sentença do primeiro, comendo o vosso pão com o suor do vosso rosto, e reservando sempre o exercício de escravo para este último ato da tragédia de vosso amor, lavando como escravo os pés dos homens. Mas reparai, amoroso Mestre, na diferença com que aceitaram este extremo de humildade vossos discípulos. Chegastes aos pés de Pedro, e que fez ele, pasmado de horror e assombro? A sua resolução foi igual à sua fé e aos vossos atributos: Non lavabis mihi pedes in aeternum (Jo. 13, 8): Eternamente disse que não consentiria tal coisa, porque a um acto de humildade infinita era devido outro de resistência eterna. Assim reconheceu e reverenciou Pedro vossa Majestade, posto que deposta a púrpura, e assim a reconhecemos nele todos vossos servos fiéis, como na cabeça de todos. Chegastes, enfim, o mesmo, e não outro, aos pés de Judas, assombradas e tremendo aquelas paredes de que a água da bacia se não sumisse, e o metal se não derretesse; e como se portou a dureza daquela pedra, a fereza daquele bruto, e a vilania, que só assim se pode encarecer, sua? O manus tornatiles aureae[28]Quando dessas soberanas mãos se haviam de formar grilhões de ouro aos pés do cobiçoso traidor, para que se esquecesse da pouca e falsa prata que esperava na venda, tão fora esteve de se enternecer com tal vista, e se lhe abrandar o coração com tais abraços, que no mesmo tempo estava dizendo dentro de si: – Já que agora, como escravo, me estais lavando os pés, eu nesta mesma noite te venderei como escravo. – Oh! insolência! Oh! descomedimento! Oh! maldade mais que infernal, digna de que no mesmo momento se abrisse a terra, e não depois se rebentasse tal coração, mas logo o tragassem os abismos. E a este Judas, e àquele Pedro será justo, Senhor, que vós trateis com a mesma igualdade?

 Sim, discípulo amado, e sim outra vez como amado e como amante. Bem vejo que esta igualdade, que tanto admirais e encareceis entre extremos tão desiguais, não é para arguir injustiça no amor de Cristo, mas para mais apurar a sua fineza. Concedo-vos que o desmerecimento de Judas é igual, e ainda maior, se quiserdes, ao merecimento de Pedro. Quanto é o amor de Pedro, tanto e maior ainda é o ódio de Judas a Cristo; mas daí, que se segue na igualdade dos mesmos favores? Segue-se que Cristo paga a Pedro amor com amor, que é o que se chama correspondência; porém a Judas paga-lhe ódio com amor, em que propriamente consiste a fineza. Pergunto – e a vós com maior razão, como ao maior teólogo do apostolado: – Cristo morreu por todos? Sim: Pro omnibus mortuus est Christus[29]. – E morreu também por Judas? – Também. – Pergunto mais: E Cristo lavou a todos no seu sangue? – Vós mesmo o dissestes: Qui dilexit nos, et lavit nos a peccatis nostris in sanguine suo[30]. – E lavou também em seu sangue a Judas? – Também. – Pois, se Cristo não excluiu a Judas do lavatório do seu sangue, porque o havia de excluir do seu lavatório de água? A mesma razão que depois teve no Calvário teve agora no Cenáculo. E qual foi? A fineza do seu amor. S. Paulo: Quid enim Christus pro impiis mortas est (Rom. 5. 6)? Porque morreu Cristo pelos injustos e ímpios? – Porque pelo justo apenas há quem dê a vida: Vix enim pro justo quis moritur (ibid. 7). – E quando apenas há quem morra pelo justo, Cristo, para mostrar a fineza do seu amor, morreu por justos e por injustos. Qual é mais: morrer por quem há-de morrer por mim, ou morrer por quem me mata?. O primeiro fez o amor de Cristo por Pedro, o segundo por Judas. Olhava Cristo na cruz para seus inimigos, diz S. Agostinho, mas não como para aqueles que lhe tiravam a vida, senão como para aqueles por quem ele a dava: Non a quibus, sed pro quibus moriebatur. – Disse bem Agostinho, mas disse pouco: para todos olhava seu amor, e para tudo: para uns como mais efectivo, e para outros como mais fino.

 Parece que não quer o discípulo amado que seja fino para outrem o amor de seu amante; mas ouça-me agora, que folgo de falar com quem me entende – e lhe direi o maior louvor do seu amor, e a maior fineza do de Cristo. O amor de Cristo para com João não podia ser fino, porque era tão alta a correspondência do amado que, se lhe não engrossava as finezas, impedia que o fossem. E, suposto que ele só foi o sabedor da traição, saiba e ouça agora que não achou Cristo menos amabilidade em Judas que no mesmo S. João. Provo. Chorava David a morte de Saul e Jónatas, e que diz de ambos? Saul et Jonathas amabiles (2 Rs. 1, 23): Saul e Jónatas, ambos se pareciam como pai e filho, ambos eram amáveis. – Não reparo na amabilidade do segundo, mas muito na do primeiro, e mais em boca de David. Assim como Jónatas era o maior, não só amigo, mas amante de David, assim Saul era o seu maior e mais cruel inimigo. Pois, se um era tão amigo, e outro tão inimigo do mesmo David, como ambos para com ele podiam ser igualmente amáveis? E, se o eram, em que consistia a amabilidade de um e do outro?

A amabilidade de Jónatas consistia no amor, nos afectos, nas saudades, nas lágrimas que levavam após si o coração e a correspondência do amor de David; e a amabilidade de Saul consistia no ódio, na ingratidão, na inveja, nas perseguições tantas e tão obstinadas, com que por si mesmo e pelos seus lhe desejava beber o sangue e tirar a vida; e estas lhe provocavam as finezas do amor forte e heróico, com que tantas vezes, tendo-o debaixo da lança, lhe perdoou a morte. Façamos distinção de amor a amor, como de raio a raio. O raio do sol derrete favos de cera, o raio da nuvem não se contenta com menos que com escalar montanhas de diamante. – Uma coisa é o amor afectuoso e brando, outra o forte e fino. Era a fortaleza do amor no coração de David, como nos seus braços a da sua valentia. Na montaria da campanha não competia com os servos e gamos: desafiava os ursos e os leões. Para o amor afectuoso e brando eram as carícias de Jónatas, que ele agradecia e pagava com outras; mas para o amor forte e fino eram os ódios, as ingratidões, os agravos, as invejas, as vinganças, as traições e perseguições mortais de Saul, as quais ele vencia com armas iguais, amando heroicamente a quem tanto lhe desmerecia. Tal era a amabilidade de Saul, tal a amabilidade de Jónatas para com David, e as mesmas foram para com Cristo a de João, que era o seu Jónatas, e a de Judas, que era o seu Saul. Por isso lhe pagou o beijo de paz com o nome de amigo, derivado da mesma amabilidade: Amice, ad quid venisti[31]?

 Acabemos com o mais fino de todas as finezas deste acto, compreendendo desde o princípio até o fim dele todos os discípulos e todo o lavatório: Coepit lavare pedes discipulorum. – A fineza tanto maior quanto mais sentida de Cristo, nesta última cena do seu amor, foi que começou lavando, e acabou sem lavar. Os pés de outros discípulos ficaram lavados, os de Judas molhados sim, mas lavados não. Nos outros logrou o intento, em Judas perdeu a obra. Desgraça grande, se o Senhor não soubera o que havia de ser; mas, sabendo-o, como advertiu o evangelista, por isso a maior fineza! Definindo S. Bernardo o amor fino, diz: Amor non quaerit causam nec fructum: amo quia ama, amo ut amem: O amor fino é aquele que não busca causa nem fruto: ama porque ama, e ama por amar. – Nos outros discípulos teve o amor de Cristo causa, e tão grande causa como amar os que o amavam e haviam de amar até a morte.

 Em Judas, não só não teve causa para o amar, mas muitas para o aborrecer e abominar, quais eram a sua ingratidão, o seu ódio, a sua traição e desatinada cobiça, e a vontade por tantos modos obstinada de um coração entregue ao demónio. Dos apóstolos, entrando também neste número Judas, esperou Cristo fruto na sua eleição: Non vos me elegistis, sed ego elegi vos, ut eatis, et fructum afferatis[32] . – Para este fruto regou hoje tão copiosamente aquelas plantas, e só Judas foi a estéril e maldita, que deu espinhos em lugar de fruto: Expectata est ut faceret uvam, fecit autem spinas[33].  E como o Senhor sabia o mau grado que havia de colher deste seu cuidado e diligência, que quando a devera mandar cortar, e lançar no fogo, a regasse tão amorosamente como as demais, e perdesse o trabalho de suas mãos, e também o regadio mais alto das suas lágrimas, esta foi a fineza sobre fineza do lavatório dos pés.

Referidas e refutadas as principais opiniões dos doutores, segue-se por fim dizer eu a minha. Muito se empenhou, mas creio que se há-de desempenhar. Digo que a maior fineza de Cristo hoje foi querer que o amor com que nos amou fosse dívida de nos amarmos: Et vos debetis alter alterius lavare pedes[34]: Amei-vos eu, cheguei a servir-vos eu – diz Cristo – pois quero que me pagueis essa fineza e essa dívida em vos amardes e em vos servirdes uns aos outros. – Abramos bem os olhos, e vejamos a diferença desse amor a todo o que se usa e tem visto no mundo. O amor dos homens diz: Amei-vos? Pois amai-me. – O amor de Cristo diz: Amei-vos? Pois amai-vos. – Amei-vos, amai-me, é voz do interesse; amei-vos, amai-vos é voz, posto que nunca ouvida, do verdadeiro e só amor. Isto é amar, e o demais amar-se. O amor dos homens, e muito racional, diz: O que me deveis a mim, pagai-mo a mim; o amor de Cristo, superior a toda a razão, e só igual a si mesmo, que diz? Não diz: O que me deveis a mim, pagai-mo a mim – senão: O que me deveis a mim, pagai-o a vós. E quem são estes vós? Somos todos e cada um de nós. Vós me haveis de pagar a mim o amor de Cristo, e eu vos hei-de pagar a vós o amor de Cristo, e todos hão-de pagar a cada um o mesmo amor, e cada um o há-de pagar a todos. E que razão ou consequência é está? A que só se podia achar nos arcanos do racional divino. Assim a tirou de lá o secretário do mesmo amor, S. João: Si sic Deus dilexit nos, et nos debemus alterutrum diligere[35].

 Amou-nos Cristo, ou enquanto Deus, ou enquanto homem, ou como Deus e homem juntamente? Logo devemo-lo amar a ele, bem se segue; mas, que a obrigação desse amor seja dívida de nos amarmos uns aos outros: Et nos debemus alterutrum diligere? – Sim, porque o seu mesmo amor o quis assim. Cristo trespassou em nós todo o direito do seu amor, e pelas escrituras desse trespasso: et vos debetis, et nos debemus – todas as obrigações de o amarmos a ele são dívidas de nos amarmos a nós. Fez-nos herdeiros das dívidas do seu amor, e assim, quando ele é o amante, nós havemos de ser os correspondidos. O amor e a correspondência são dois actos recíprocos, que sempre olham um para o outro, donde se segue que, sendo o seu amor nosso, a nossa correspondência havia de ser sua; mas o amante divino trocou esta ordem natural de tal maneira, que o amor e a correspondência, tudo quis que fosse nosso: nós os amados e nós os correspondidos: nós os amados, porque ele foi o que nos amou, e nós os correspondidos, porque nós somos os que nos havemos e devemos amar: Et vos debetis.

 Diga-me agora a terra e o céu, digam-me os homens e os anjos, se houve, ou pode haver, nem amor maior que este amor, nem fineza que iguale esta fineza? Por isso eu me empenhei a dizer que, dando a todas as outras finezas de Cristo hoje outra maior, como fiz, a última que eu sinalasse ninguém me havia de dar outra igual. Para as outras finezas, tão celebradas por seus autores, e tão encarecidas por seus extremos, tivemos Madalenas, Absalões e Davides, que nos dessem exemplos; para esta, nem dentro nem fora da Escritura se achará algum que se pareça com ela, quanto mais que a iguale. Se Raquel dissesse a Jacob, que o amor que lhe devia o pagasse a Lia, se Jónatas dissesse a David que o amor que lhe devia o pagasse a Saul, se o mesmo S. João dissesse a Cristo que o amor com que o amava o pagasse a Pedro, então teriam aqueles afectos humanos alguma aparência com que pudessem arremedar esta fineza de Cristo; mas nem o amor dos irmãos, nem o dos pais, nem o dos filhos, nem o dos esposos, nem o dos amigos, que se não funda em carne e sangue, ainda fingidos e imaginados se poderão nunca medir, quanto mais igualar o que tem as raízes no imenso e o tronco no infinito. Mas demos três passos atrás, e ponhamos esta fineza à vista das outras três, que tanto adelgaçamos. Todas foram por nós e para nós: a primeira, dar vida por amor dos homens; a segunda, deixar-se no Sacramento com os homens; a terceira, lavar os pés aos homens. E todas estas finezas tão grandes, quem as deve, e a quem se há-de pagar? Quem as deve somos nós: et vós debetis – e a quem se hão-de pagar, não a mim, que vos amei – diz Cristo – senão a vós, amando-vos uns a outros: alter aiterius.

Agora, depois de declarado o que prometi, vos quero mostrar o fundamento sólido de quanto disse, e prová-lo, não com outras palavras, senão do mesmo Cristo, e não pronunciadas em outro dia e lugar, senão neste mesmo em que estamos. É texto notável, e que pede toda a atenção. Mandatum novum do vobis: Ut diligatis invicem (Jo. 13, 34): Discípulos meus – diz o divino e amoroso Mestre – que vos darei nesta hora em prendas do meu amor? Dou-vos por despedida um mandamento novo, e é que vos ameis uns aos outros. – Reparam aqui todos os doutores, e a razão do reparo é chamar o Senhor a este mandamento mandamento novo. Amarem-se os homens uns aos outros absolutamente era preceito da lei velha: Diliges proximum tuum sicut te ipsum[36] – amarem-se os homens uns aos outros, ainda que fossem inimigos, era preceito da lei nova, que Cristo já tinha dado: – Diligite inimicos vestros[37]. – Pois, se este mandamento de os homens se amarem uns aos outros era mandamento velho e antigo, como lhe chamou Cristo mandamento novo: Mandatum novum do vobis?

Para responder a esta dificuldade se dividem os doutores em catorze opiniões diferentes, tão pouco se satisfazem uns dos outros, e cada um da sua. Mas, com licença de todos, eu cuido que hei-de dar o verdadeiro entendimento ao texto, e com o mesmo texto. Não só diz Cristo: Mandatum novum do vobis, ut diligatis invicem – mas acrescenta: Sicut dilexi vos, ut et vos diligatis invicem. – Dou-vos um mandamento novo, o qual é que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei a vós, para que vós vos ameis a vós. – De sorte que a novidade do mandamento e do amor não está em os homens se amarem uns aos outros; está em que o amor com que se amarem seja paga do amor com que Cristo os amou: Sicut dilexi vos, ut et vos diligatis invicem. – Amarem-se os homens uns aos outros, em satisfação do amor com que eles amam, e ainda sem essa satisfação – como sucede no amor dos inimigos – é mandamento velho, com maior ou menor antiguidade; mas amarem-se porque Cristo os amou, e querer Cristo que o amor com que amou aos homens lho paguem os homens com se amarem a si, e que sendo o amor com que ele nos amou dívida, seja o amor com que nos amarmos paga, este é o amor novo e mandamento novo: Mandatum novum do vobis – porque nem Deus deu nunca tal preceito, nem Cristo ensinou nunca tal doutrina, nem os homens imaginaram nunca tal amor.

 Tal amor como este inventou a ingratidão para o maior dos tormentos, que é quando o amor que se devia a um se aplica a outro. E este amor que a ingratidão inventou para o maior torcedor do coração humano, foi tal a fineza do amor de Cristo, que no-lo deixou em preceito. Os homens, quando menos, querem que o seu amor seja dívida de os amarem a eles, e obrigação de não amarem a outrem. E Cristo quer que o seu amor seja dívida de nos amarmos a todos, e obrigação de todos nos amarem a nós. Mais. No amor dos homens, em que o ciúme se reputa por fineza, um amor leva sempre por condição dois aborrecimentos, porque quando amam é com condição que nem vós haveis, de amar a outrem, nem outrem vos há-de amar a vós. Pelo contrário, o amor de Cristo leva por obrigação dois amores, porque nos ama com preceito de que cada um de nós ame a todos, e de que todos amem a cada um de nós. E porque tal fineza de amor se não viu nunca no mundo, por isso o preceito deste amor se chama mandamento novo: Mandatum novum do vobis.

 Daqui infiro eu que só hoje acertei a pregar o Mandato, não no discurso, que não sou tão desvanecido, mas no intento. O assunto dos pregadores neste dia é encarecermos o amor de Cristo para com os homens, e isto não é pregar o Mandato. Diga-o o mesmo Cristo: Hoc est mandatum meum, ut diligatis invicem (Jo. 15, 12): O meu mandato, ou o meu mandamento, é que vos ameis uns aos outros. – De maneira que o amor de Cristo não é mandato porque ele nos amou, é mandato para que nós nos amemos. E, falando propriamente, o mandato compõe-se de dois amores: o amor de Cristo para connosco, e o amor dos homens entre si; o amor com que Cristo nos amou entra no mandato como meio, e o amor com que nós nos devemos amar, como fim. Isso quer dizer, em sentido de Ruperto, fdilexit eos: que nos amou a fim. E a que fim? A fim de nós nos amarmos. Os homens amam a fim de que os amem; Cristo amou-nos a fim de que nos amemos: Et vos debetis alter alterius lavare pedes.

Este é, cristãos, o mandato do amor, este é o mandamento de Cristo, esta é a obrigação nossa, e a dívida em que hoje nos pôs o amoroso Jesus: Et vos debetis. – Notemos muito neste debetis, que não disse que pagássemos, senão que devíamos. Pois, por que razão nos aponta Cristo a dívida, e não nos persuade a paga? Com duas palavras de S. Paulo entenderemos estas: Nemini quidquam debeatis, nisi ut invicem diligatis (Rom. 13, 8): Cristãos – diz S. Paulo – não devais nada a ninguém, senão o amor de uns aos outros. – Dificultosa doutrina! Antes parece que havia, de dizer: Se não tiverdes com que pagar as outras dívidas, ao menos não devais o amor de uns aos outros, porque o não pagar as outras dívidas pode ter escusa na impossibilidade, mas não pagar o amor nenhuma escusa pode ter, porque basta a vontade para pagar. Pois, porque diz S. Paulo que havemos de dever sempre o amor de uns a outros? Porque o amor, em que se funda esta divida, não é amor dos homens, senão amor de Cristo. Se nós houvéramos de pagar aos homens o amor que lhes devemos, muito fácil era a paga, porque eles nunca se empenham muito. Mas como havemos de pagar aos homens o amor que devemos a Cristo, por tantos modos infinito, por mais e mais que paguemos, sempre é força a ficar devendo: Nisi ut invicem diligatis.

 Sendo, pois, as dívidas deste amor tão imensas, e o nosso cabedal tão estreito, que faremos, depois de publicada a maior de todas? Primeiramente, ponhamos os olhos no que deixamos visto na cruz, no Sacramento, no Cenáculo: na cruz, a Cristo morto por nós; no Sacramento, a Cristo sacrificado por nós; no Cenáculo a Cristo prostrado aos pés dos homens por nós, e logo o mesmo Cristo com a terceira tábua do seu mandamento novo nas mãos, em que está escrito: Haec mando vobis: ut diligatis invicem, sicut dilexi vos (Jo. 15, 17, 12). – Vimos já? Ouçamos agora o que nos diz o mesmo Senhor, com voz tão amorosa como tremenda: diz uma só palavra: Et vos debetis: Isto é o que deveis. – E haverá homem cristão que neste passo deixe de amar a qualquer outro homem, por mais que lhe desmereça? Para se deixar de amar aos homens, pelo que se lhes deve a eles, muitas razões pode haver: os ódios, as ingratidões, os agravos; mas, para deixar de amar aos homens pelo que devemos a Cristo, que razão pode haver senão a de não sermos cristãos? Será cristão quem no dia de hoje se não conforme com o mandamento de Cristo? Será cristão quem no dia de hoje conserve ainda no coração algum ódio, e não ame ao maior inimigo?

 Verdadeiramente – só isto peço que nos fique – verdadeiramente que em um dia como o de hoje, o homem que se não faz amigo do maior inimigo quase pode desesperar de sua salvação, e resolver-se que não é predestinado. Pilatos e Herodes eram inimigos, e diz deles o evangelista: Facti sunt amici Herodes et Pilatus in ipsa die: nam antea inimici erant (Lc. 23, 12): Que naquele dia – em que ainda não eram passadas doze horas deste em que estamos – naquele dia Pilatos e Herodes, que dantes eram inimigos, se fizeram amigos. – E quem era Pilatos e Herodes? Herodes era um homem que teve a Cristo por louco, e Pilatos foi um homem que pôs a Cristo em uma cruz; pois, se homens que desprezam a Cristo, se homens que crucificam a Cristo se fazem amigos neste dia, que homens serão os que em tal dia como hoje ficarem inimigos? Maior desesperação ainda. Pilatos e Herodes eram dois homens precitos, ambos estão ardendo hoje, e arderão eternamente no inferno; pois, se em um dia como o de hoje até os precitos se fazem amigos, quem neste dia se não reconciliar com seus inimigos, que esperança pode ter de ser predestinado?

 Ah! Deus! não permitais tão grande maldade entre cristãos. Pelo excessivo amor com que nos amastes, que nos comuniqueis vossa graça, Senhor, para que todos nos amemos. Pela humildade com que vos abatestes a lavar os pés aos homens, que nos deis um conhecimento do que somos, para que se humilhem nossas soberbas. Por aquele assombro de rendimento, com que estivestes prostrado aos pés de Judas, que nos deis um auxílio eficaz, com que todos os que aqui estão em ódio vão logo pedir perdão a seus inimigos. Enfim, pelo preço infinito desse sangue, pela ternura infinita dessas lágrimas por nós derramadas, que nos abrandeis estes duríssimos corações, para que só a vós amem, e ao próximo por amor de vós, começando nesta vida com um tão fino e tão firme amor, que se continue na outra por toda a eternidade, vendo-vos, amando-vos, adorando-vos, não já com os olhos cobertos, como nesse diviníssimo Sacramento, mas face a face, e não nas dúvidas de vossa graça, mas nas seguranças eternas da glória, que foi o fim para que nos amastes: In finem dilexit eos.

Leonardo da Vinci levou sete anos para completar sua famosa obra intitulada “A Última Ceia”. As figuras que representam os doze apóstolos e Jesus foram tomadas de personagens reais. A pessoa que seria o modelo para Jesus Cristo foi a primeira a ser seleccionada. Quando se soube que Da Vinci pintaria esta obra, centenas de jovens se apresentaram ao artista, para serem seleccionados. Da Vinci buscava um rosto livre das cicatrizes e das duras marcas que ficam da vida intranquila do pecado.
Finalmente, depois de alguns meses de busca, seleccionou um jovem de dezanove anos como modelo para pintar a figura de Jesus. Por seis meses, Da Vinci trabalhou para concluir a pintura do personagem principal dessa magnânima obra.

Durante os seis anos seguintes, Da Vinci continuou a sua obra buscando as pessoas que representariam os doze apóstolos, deixando para o final aquele que representaria Judas, o apóstolo que traiu Cristo por trinta moedas de prata. Durante semanas, Da Vinci buscou um homem com a expressão dura e fria. Um rosto marcado por marcas de avareza, decepção, traição, hipocrisia e crime. Um rosto que identificaria uma pessoa que, sem dúvida alguma, trairia o seu melhor amigo. Depois de muitos intentos malogrados na busca pelo modelo, chegou aos ouvidos de Da Vinci que existia um homem com estas características num calabouço de Roma.
O homem foi levado a Da Vinci à luz do sol. Este viu diante de si um homem sem vida, cujo maltratado cabelo longo caía-lhe pelo rosto, escondendo os olhos cheios de rancor, ódio e ruína. Enfim, Leonardo Da Vinci havia encontrado quem seria o modelo de Judas na sua obra. Com a permissão do rei, o prisioneiro foi levado a Milão, ao estúdio de Da Vinci. Por vários meses este homem se sentou silenciosamente frente ao artista, enquanto este continuava a árdua tarefa de representar na sua obra o personagem que havia traído Jesus.

Quando Da Vinci deu o último traço na sua obra, deu ordem aos guardas para que levassem o prisioneiro. Enquanto saíam do estúdio, o prisioneiro solto-se e correu para o artista, gritando:
Da Vinci, observa-me! Não reconheces quem sou?

Leonardo Da Vinci estudou-o cuidadosamente e respondeu:

  Nunca te havia visto na minha vida, antes daquela tarde próximo ao calabouço, em Roma.
O prisioneiro levantou os seus olhos aos céus, caiu de joelhos e gritou, desesperadamente:
Oh! Deus, como pude cair tão baixo?!?!?!?!

Depois, voltou o seu rosto ao artista e gritou:

Leonardo Da Vinci, olha-me de novo! Sou aquele jovem, cujo rosto escolheste para representar Jesus, há sete anos…

 A Última Ceia, foi pintada em 1828 e é da autoria de Manuel da Costa Ataíde (1762-1930), mais conhecido como Mestre Ataíde, que foi um importante pintor do barroco mineiro, além de dourador, entalhador e professor. Esta tela foi a sua única obra de cavalete e encontra-se no Colégio Caraça. É a visão do pintor sobre como terá sido a última refeição de Jesus com os seus Apóstolos, a quem num gesto de humildade lavou os pés quando se sentaram à mesa, o que é indicado pela bacia de barro com um pano branco semi-torcido mesmo à boca do quadro.

 O melhor conhecimento dos dados bíblicos e patrísticos, assim como os esforços dos teólogos de nossa geração, permitiram apro­fundar algumas pistas de nossa compreensão da Eucaristia. A teologia consiste, precisamente, em aprofundar a fé. Conhecer melhor o misté­rio ajuda a celebrá-lo melhor. Ao mesmo tempo que uma melhor cele­bração nos dá a chave para uma compreensão mais lúcida.

 É o Senhor glorioso, Cristo ressuscitado, que se torna presente a nós

 A primeira pergunta que convém fazer é esta: quem se nos torna presente e para quê?

A resposta da teologia atual, voltando às intuições mais profundas dos primeiros séculos, e sobretudo do NT, é esta: quem se nos torna presente é o Cristo pascal, o Ressuscitado, aquele que transcende o ser

humano porque ressuscitou para uma nova vida, o primogénito da nova criação, o segundo e definitivo Adão, totalmente novo e original, aquele que experimentou na força do Espírito Santo a glorificação es-catológica e está cheio da divindade. Aquele que se faz presente e quer “ser comido” em nossa Eucaristia, oferecendo-nos a comunhão com sua vida divina, é o Senhor, o Kyrios.

 Não é uma “coisa” que se torna presente a nós, mas uma pessoa viva que se faz doação e alimento para pessoas vivas. E é uma pessoa já gloriosa e escatológica que, por isso mesmo, é corpo plenamente pre­parado para a doação e a comunhão plena.

 Não conseguiremos entender a Eucaristia partindo de nós, ou dos elementos, ou da comunidade reunida, mas de Cristo mesmo, da pes­soa que se dá a nós. É Cristo, e Cristo ressuscitado, que nos faz enten­der a Eucaristia.

Cristo, em sua morte, passou para uma nova vida, escatológica, inaugurando assim um mundo totalmente original, que tam­bém dá nova luz a toda vida cristã e em particular aos sacramen­tos. Ele é o Kyrios, exaltado junto a Deus. Já está no “eschaton”. Para ele não existe a limitação do tempo e do espaço, porque em sua passagem pascal à nova vida inaugurou a vida última e defi­nitiva, na qual vive para sempre o “hoje”, e está livre de todo condicionamento temporal e espacial. A ascensão não foi para ele afastamento ou ausência, nem um movimento contrário à encarnação: agora possui uma nova maneira, mais aberta e pro­funda, de presença. A partir dessa vida no Espírito, o Ressuscita­do se aproxima, “aparece” à comunidade que celebra a Eucaris­tia, dando-se a si mesmo corno alimento de vida eterna. Agora está mais presente, é mais “enviado” à sua Igreja e ao mundo do que em sua vida terrena. Éaqui que melhor se cumpre sua pro­messa: “eu estarei convosco todos os dias até o fim do mundo”.

 Não podemos compreender a presença eucarística de Cristo a partir das chaves de uma presença corporal e local: ele, cheio do Espírito, torna-se presente a nós a partir de seu ser escatológico. Sua presença na Eucaristia não é “local”, embora seja mais real que qualquer outra. E uma presença sacramental e universal que tem sua raiz em sua vida gloriosa atual, a partir de seu “hoje” defi­nitivo. Jo 6,62-63 já nos oferecia esta chave, a “subida” ao Pai e a força vivificante do Espírito, para que entendêssemos como podia acontecer o que nos anunciava. É a partir da realidade pascal última, já cumprida de todo, que podemos chegar a uma compreen­são da Eucaristia, como em geral de todo o mistério de Cristo.

 Na Eucaristia Jesus está presente enquanto ressuscitado. Seu cor­po glorioso, sem os condicionamentos limitadores do corpo mor­tal, é verdadeiro corpo, mas corpo glorioso. E presença verdadei­ra: verdadeiramente Cristo se dá a nós. Não é uma figura ou uma imagem ou um sinal recordatório. E presença real, independente de nossa subjetividade. E presença objetiva: um dom dele, não imaginação ou fé nossa. O que prometeu, ele o cumpre; nossa acolhida de fé é importante, mas não é ela que torna Cristo pre­sente: ela o recebe. E presença substancial: com uma realidade to­tal. O pão e o vinho já não são alimento e bebida comuns, mas nos dão a realidade última, o corpo do Kyrios ressuscitado.

 “O corpo dado pelo Senhor aos que vêm à sua mesa é, para os Pa­dres, o corpo espiritual da ressurreição, cujo mistério São Paulo nos esboçou (lCor 15,44-50). O esquecimento, no Ocidente, durante as polémicas eucarísticas, da importância deste ‘corpo es­piritual’, pesou decisivamente sobre a doutrina da fé. Para afirmar de modo plenamente justificado que o Cristo da Eucaristia é o mesmo que nasceu de Maria e morreu na cruz, é preciso repetir sempre que entre estes dois momentos de um único mistério de Cristo, que são a concepção virginal e o mistério eucarístico, a res­surreição de Cristo é o momento insubstituível e como que o elo supremo da cadeia […] porque, se Cristo é dado no memorial de sua morte, o Cristo que se dá é o da ressurreição”.

 A Eucaristia é antes de tudo a presença do Ressuscitado no meio da comunidade, como em Emaús. Pode-se afirmar que durante séculos, ao falar da Eucaristia, tinha-se em vista muito mais a paixão e morte de Cristo, o modo como se tornava presente seu sacrifício em nossa cele­bração. Às vezes nem se falava da ressurreição. Agora, a perspectiva prioritária é a do Senhor ressuscitado. Do Cristo que não “está” no “es­chaton”, mas que “é o eschaton”, brota toda a energia que a Igreja pode dispensar em seus sacramentos. Não é o Menino Jesus que se dá a nós, nem só o Cristo da cruz, mas o Kyrios ressuscitado que contém em si mesmo, naturalmente, o mistério da encarnação e da redenção, mas que se torna presente a nós e se nos dá a partir de sua vida glorificada.

“Sentado à direita do Pai e derramando o Espírito Santo no seu Corpo que é a Igreja, Cristo age agora pelos sacramentos, insti­tuídos por ele para comunicar a sua graça” (CCE 1084).

 Espírito Santo realiza esta admirável presença de Cristo na Eucaristia

 Jo 6,63 já apontava, numa linguagem um pouco críptica, que o Espírito é que dá vida “à carne”, é ele que tornará possível o encontro sal-idor entre o Senhor que se dá a comer e os fiéis que o acolhem.~

 O Espírito faz com que o Kyrios tenha seu corpo “espiritualizado”, um “corpo pneumático” (cf. ICor 15,44).

O Espírito é que nos abre a porta da fé para que nós também possamos acolher essa presença. E para que este encontro possa suceder numa dimensão muito mais real profunda que a meramente local ou espacial.

 Por isso, invocamos na Eucaristia o Espírito, para que ele transforme os dons materiais e as pessoas. A formulação da epiclese nas novas orações do Missal Romano é uma expressão clara de nossa fé no que é o Espírito, a força vivificadora de Deus, que torna possível este mistério da presença e doação de Cristo à sua comunidade no pão. E o mesmo Espírito da criação no Génesis, da encarnação no seio da Virgem Maria, da ressurreição de Cristo e do acontecimento de Pentecostes para a primeira comunidade, o Espírito “doador de vida” que torna real esta presença de Cristo no meio dos seus e é ele que dá a nova vida escatológica ao pão e ao vinho, convertendo-os no corpo e sangue do Senhor.

 O mesmo podemos dizer de sua presença na palavra. O OLM repete que a eficácia da proclamação da palavra bíblica, na cele­bração e fora dela, deve-se à obra do Espírito: ele actua interior­mente em cada fiel (OLM 3), por seu poder se torna viva e eficaz a palavra (OLM 4), ele dá eficácia à resposta dos fiéis (OLM 6), ele congrega a Igreja (OLM 7), por ele se torna eficaz a palavra nos corações (OLM 28), por ele a palavra se torna sacramento (OLM 41). Podemos dizer que há uma dimensão “epiclética” na celebração da palavra, antes que na própria oração eucarística so­bre o pão e o vinho.

 A presença eucarística e as outras presenças de Cristo

 A presença de Cristo no pão e no vinho da Eucaristia não é a única. E certamente a mais densa e privilegiada, porque nela Cristo se faz nossa comida, para comunicar-nos sua própria vida.

Mas, na própria celebração, Cristo se torna presente na Palavra pro­clamada. Ele é a Palavra definitiva do Pai à humanidade, a Palavra (“da-bar”) no sentido bíblico mais denso, a encarnação pessoal da palavra viva e eficaz de Deus. Cristo se dá a nós primeiro como palavra salva­dora, antes de se dar a nós como alimento eucarístico. E a “dupla mesa” à qual o Senhor ressuscitado nos convida.

O concílio já havia “recuperado” esta convicção: “Na liturgia Deus fala a seu povo e Cristo continua anunciando o evange­lho” (SC 33).

O Missal repete a ideia: “o próprio Cristo, por sua palavra, se acha presente no meio dos fiéis” (IGMR 33). E também uma das perspectivas mais repetidas do novo Ordo das Leituras da Missa, em sua segunda edição de 1981: “Cristo sempre está presente em sua palavra” (OLM 4), “os fiéis hão de ter a convicção de que há uma só presença de Cristo, presença na palavra de Deus, pois quando se lê na Igreja a Sagrada Escritura é ele quem fala, e pre­sença sobretudo sob as espécies eucarísticas” (OLM 46). A “du­pla mesa” à qual somos convidados ao celebrar a Eucaristia – a mesa da palavra e a mesa do pão e do vinho eucarísticos – (cf. IGMR 8; OLM 10.32) parece um eco da dupla perspectiva que João nos oferecia no sermão do pão da vida: o pão no qual cre­mos e o pão que comemos. Nas duas vezes, Cristo é o Pão.

 E ainda antes, Cristo se acha presente na comunidade reunida e em seu presidente, que faz as vezes de Cristo, e o visibiliza como cabeça des­sa mesma comunidade. O próprio Jesus que disse “isto é o meu cor­po”, disse também: “quando dois ou três de vós vos reunis em meu nome, eu estou ali no meio de vós” (Mt 18,20). A comunidade reunida é o primeiro sacramento – sinal eficaz -, o primeiro “lugar” da presença operante do Senhor. E o presidente tem o ministério de visibilizar Cristo Jesus, que é o autêntico presidente, mestre e sacerdote da co­munidade. Atua “in persona Christi”, e o faz sacramentalmente, como “ícone sacramental” de Cristo, tanto na tarefa da evangelização como na animação fraterna da comunidade, e de um modo especial na presi­dência de seus sacramentos.

 Estas presenças do Senhor em nossa celebração eucarística – ou es­tes “modos diversos de manifestar sua presença real e pessoal – estão intimamente relacionadas entre si: ele está presente a nós, ele se dá a nós como palavra salvadora e se dá como alimento de vida eterna. A presença chega à sua plenitude na doação eucarística, mas já é real e activa antes, na assembleia e na palavra proclamada.

 Aqui podemos ver de novo os três sinais visíveis, nos quais nós cris­tãos das gerações seguintes podemos de algum modo experimentar a pro­ximidade do Senhor, segundo Lc 24, no episódio de Emaús: eles o reco­nheceram na fração do pão, mas antes já havia ardido seu coração quando lhes explicava as Escrituras e tiveram a comprovação da nova presença do Senhor no testemunho da comunidade e na aparição a Simão.

 São constantes as expressões desta convicção na literatura magisterial e litúrgica:

 “Cristo está sempre presente em sua Igreja, sobretudo nas ações litúrgicas. Presente está no sacrifício da missa, tanto na pessoa do ministro […], quanto sobretudo sob as espécies eucarísticas. Presente está pela sua força (virtute sua) nos sacramentos, de tal forma que quando alguém batiza é Cristo mesmo que batiza. Presente está pela sua palavra, pois é ele mesmo que fala quando se lêem as Sagradas Escrituras na igreja. Está presente finalmente quando a Igreja ora e salmodia, ele que prometeu: ‘Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, aí estarei no meio deles’ (Mt 18,20)” (SC 7).

Paulo VI, em sua encíclica Mysteriumfidei, de 1965, enumera as diversas presenças de Cristo ressuscitado em nossa vida: a co­munidade orante, a comunidade que exerce as obras de miseri­córdia, a Igreja peregrina, que prega, rege e governa, e sobretudo a comunidade que oferece em seu nome a Eucaristia e celebra os outros sacramentos. A presença estritamente eucarística “se cha­ma real, não por exclusão, como se as outras não fossem reais, mas por antonomásia”. Cf. El sacramento de nuestrafe (= Cuader-nos Phase 84). Barcelona: GPL, 1977, 5-26.

“Cristo está realmente presente tanto na assembleia reunida em seu nome, como na pessoa do ministro, na sua palavra, e tam­bém, de modo substancial e permanente, sob as espécies euca­rísticas” (IGMR 7).

“O sacerdote, pela saudação, expressa à comunidade reunida a presença do Senhor. Esta saudação e a resposta do povo expri­mem o mistério da Igreja reunida” (IGMR 28).

 João Paulo II, em 1988, quando se completaram vinte e cinco anos da Constituição do Vaticano II sobre a liturgia, numa carta precisamente intitulada Vicesimus quintus annus, comentava bre­vemente estas presenças do Senhor ressuscitado na Eucaristia, extraindo delas não só considerações teológicas, mas também aplicações espirituais e pastorais:

 “Para tornar atual o seu mistério pascal, Cristo está sempre pre­sente na sua Igreja, sobretudo nas ações litúrgicas. A liturgia, de fato, é o ‘lugar’ privilegiado do encontro dos cristãos com Deus e com Aquele que ele enviou, Jesus Cristo.

Cristo está presente na Igreja reunida em oração no seu nome. É este fato, precisamente, que constitui o fundamento da grandeza da assembleia cristã e a razão das exigências consequentes, de aco­lhimento fraterno – levado até ao perdão – e de decoro nas atitu­des, nos gestos e nos cânticos.

O próprio Cristo está presente e age pela pessoa do ministro orde­nado que celebra. Este não está simplesmente investido numa função, mas, em virtude da ordenação recebida, foi consagrado para agir ‘in persona Christi’. A isto deve corresponder a sua ati­tude interior e exterior, também pelo que se refere às vestes li­túrgicas, ao lugar que ocupa e às palavras que profere.

Cristo está presente pela sua palavra proclamada na assembleia e que é comentada na homilia; tal palavra deve ser ouvida com fé e assimilada na oração. Tudo isto há de resultar da dignidade do li­vro e do lugar escolhido para a proclamação da mesma palavra de Deus, da apresentação do leitor e da consciência que ele de­monstra de se sentir porta-voz de Deus diante de seus irmãos.

Cristo está presente e age pela virtude do Espírito Santo nos sacra­mentos e, de modo singular e eminente (sublimiorí modo), no sacri­fício da missa, sob as espécies eucarísticas, mesmo quando elas es­tão conservadas no sacrário, fora da celebração, para a comunhão, sobretudo dos doentes, e para a adoração dos fiéis [,..]”.

 Esta visão global da multiforme presença pessoal do Senhor em nossa vida e em nossa celebração sacramental não diminui o valor e a admirável profundidade de sua presença no pão e no vinho eucarísti­cos. Ao contrário: vemos assim a progressiva densidade de sua presen­ça, que culmina em sua doação no pão e no vinho como alimento escatológico à sua comunidade. Toda presença de Cristo é “real”, pessoal, ativa, salvadora. E é dentro de todo esse conjunto de manifestações que brilha com luz própria a presença eucarística.

E uma perspectiva repetida atualmente pelos documentos magisteriais, litúrgicos e ecuménicos, e que, a partir da presença mais universal do Senhor glorioso, situa a presença eucarística em seu marco mais justo. Cristo, o Senhor, está presente em todo momento à sua Igreja e à humanidade, mas sua presença se torna mais sacramental, visível em sinais eficazes, numa assembleia cristã reunida, sobretudo quando ela proclama a palavra de Deus ou celebra os sinais sacramentais, e em par­ticular a Eucaristia. Nela, Cristo chega a uma identificação misteriosa com o pão e o vinho, para neles dar-se a nós.

 É uma presença “dinâmica”, “para nós”

 Não se pode entender a Eucaristia se esta presença de Cristo é en­focada de uma maneira muito “coisificada”. Ele está presente, identifica-se, assume o pão e o vinho, mas essa não é a finalidade última do sa­cramento. A finalidade é a comunidade, somos nós. A presença de Cristo é real, corporal, mas a partir de sua vida de glorificado, que é o que pode chegar à comunhão total.

 Nosso corpo físico une e divide ao mesmo tempo, torna possível e torna superficial toda comunicação interpessoal. A comunhão à qual o Senhor ressuscitado nos faz chegar, dando-nos seu cor­po e sangue gloriosos, é a mais profunda: a “koinonia” da “inter-permanência”, a participação em sua própria vida escatológica no Espírito.

 E, principalmente, é “presença para”, com uma intenção que ter­mina na incorporação das pessoas à sua vida escatológica. A teologia es­colástica o expressou afirmando que a rés da Eucaristia, seu efeito fun­damental, é a comunhão de todos com Cristo e entre si.

Às vezes demos mais importância à “presença” do que à doação ou à refeição: é na comunhão que se realiza, de forma privilegiada, o encon­tro do Kyrios com seus fiéis. Paulo não fala tanto de “presença”, mas já di-rectamente de união, de comunhão, de “koinonia”, que supõe a presença e a supera em sua intenção dinâmica interpessoal (lCor 10,16). João descreve os efeitos da Eucaristia na mesma direção: “quem come a mi­nha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele”, “quem me come viverá por mim como eu vivo pelo Pai” (}o 6,56-57).

 Por um lado, Cristo se identifica de modo misterioso com o pão e o vinho que, pelo Espírito, se convertem em seu corpo e sangue. É, pois, uma presença que podemos chamar objetiva, ontológica. O “isto é o meu corpo” se toma realidade pela força do Ressuscitado e de seu Espírito.

Mas, por outro lado, esta presença de Cristo não termina nos ele­mentos materiais, por nobres que sejam, e por muito que sublinhemos seu papel de representantes simbólicos de toda a criação. A presença tem uma intenção interpessoal. Cristo se faz presente a nós, para fa­zer-nos entrar em comunhão com ele: “ut fiant nobis”, “que sejam para nós”. A presença no pão e no vinho é o meio que ele pensou para tornar possível nossa incorporação sacramental à sua vida de Ressusci­tado e a participação em sua nova aliança. O símbolo escolhido, o da comida, é o melhor para expressar a profundidade deste encontro in­terpessoal entre Cristo e sua comunidade. A ceia do Kyrios nos faz en­trar na dinâmica de sua páscoa e de sua vida definitiva, alimentan­do-nos assim em nossa caminhada na história.

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1 comment to Quinta-feira santa

  • osvaldo costa

    Nesta quinta-feira de 2o19, estou lavando e beijando os pés dos companheiros e companheiras de unção batismal e sacerdotal.Abraços em Cristo Mestre.

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