Francisco e a sombra de Ratzinger, a coexistência que pesa sobre o Vaticano

Há seis anos, a renúncia do pontífice alemão ao Trono de Pedro levou à eleição de Bergoglio: um caso único na Igreja. As “notas” de Bento XVI sobre a pedofilia abrem a questão “constitucional” e provocam acusações contra o seu entourage

Pela primeira vez em seis anos, o Vaticano fica apertado para “dois papas”. Ou melhor, para o papa e para o emérito. As “notas” de Bento XVI sobre a pedofilia correm o risco de criar uma fratura nessa situação única: a coexistência de dois sucessores de São Pedro dentro do “recinto de Pedro”. Até agora, o equilíbrio foi mantido graças à relação afetuosa entre os dois papas, além da prudência do emérito, mas agora a Santa Sé sofre com o peso desta co-presença. Põe-se portanto uma questão “constitucional” sobre o papel do emérito. Partindo do pressuposto de que o papa é bispo de Roma, quem a destaca faz referência às indicações “para o ministério dos bispos”, onde se lê: “O emérito desenvolverá a sua atividade sempre em pleno acordo e em dependência do Bispo de modo que todos entendam claramente que apenas este último é o chefe do governo”. As notas de Bento XVI sobre a pedofilia abrem a questão “constitucional” e provocam acusações contra o seu entourage. Além do conteúdo do texto de Ratzinger – no qual ele critica a teologia progressista e escreve que o colapso espiritual, que é causa da pela pedofilia, começou em 1968 – nunca como neste caso a forma se torna substância. ‘Oltretevere’1, o clima é tenso. Porque muitos acreditam que, com esta saída irritual, Ratzinger não tenha ficado “escondido do mundo” como tinha anunciado após a renúncia ao papado. E o que vem agravar a situação é o tema, decisivo para o pontificado de Bergoglio e para toda a Igreja.

A acusação é explícita: o Papa emérito intervém com um texto que pode representar “uma linha pastoral e teológica paralela à do Papa” e, portanto, que se presta assim a ser usada como arma pelos adversários de Francisco.

E entre as “estranhezas” observadas está, por exemplo, o ‘esquecimento’ no documento de casos emblemáticos como o de Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, que começou a praticar os primeiros abusos sexuais nos anos 1940, bem antes de 1968; e ele era tudo menos da corrente progressista. Ao mesmo tempo, as afirmações ratzingerianas são consideradas pela galáxia conservadora e tradicionalista como palavras de verdade necessárias e urgentes para salvar o “barco de Pedro” que estaria afundando. Um pouco como diz no twitter o cardeal Robert Sarah: “Devemos agradecer ao papa emérito por ter tido a coragem de falar. Sua análise da crise da Igreja é de fundamental importância”.

Os olhos estão postos sobretudo sobre o entourage  de Ratzinger, acusado de querer insistir em dar prosseguimento  de algum modo ao pontificado ratzingeriano, corroborando a tese de que o verdadeiro e grande Papa é o alemão, não o argentino. O indício número um seria a modalidade da operação midiática, com o envolvimento de meios de comunicação católicos e não-católicos que nos EUA fazem parte do aparato de propaganda contínua contra o Papa Francisco.

Além disso, é posta em dúvida a autenticidade do longo artigo. Como sustenta Luis Badilla, diretor do Sismografo, site próximo ao Vaticano: “O círculo de ferro ao redor de Ratzinger não raras vezes tem-se colocado no lugar do papa emérito”. E como declara Gian Franco Svidercoschi, ex-vice-diretor do Osservatore Romano, autor do panfleto, publicado pela editora Rubbettino, “Chiesa, liberati dal male. Lo scandalo di un credente di fronte alla pedofilia2“:  a incerteza “brota   obrigatória, ligada às precárias condições de saúde, não só física, de Ratzinger”. E além disso aflora “uma acrimônia que não é própria dele”. E se “alguém responder que não é assim – continua ele – então por que não se limitou a transmitir essas “notas” a Francisco?” Para Svidercoschi “o fato de que Parolin e Francisco tenham sido informados sobre isso não atenua a gravidade de um gesto inevitavelmente interpretado como um ataque a Bergoglio”. Até porque “como se poderia responder “não” a um pedido do Papa emérito?” Além disso, o staff de Bento XVI, com esta “coordenação internacional anti-Francisco, também coloca Ratzinger em dificuldades, forçado a ter um papel que ele não quer. Desse modo ele sofre outra imposição”. Svidercoschi explica: depois da sua renúncia “ele queria ser chamado padre Bento e não assumir o título de emérito, nem vestir-se de branco e morar no Vaticano. Mas depois alguém o forçou”.

1 Oltretevere –  locução adverbial – Do outro lado do rio Tibre, usada especialmente com referência a Roma e à Cidade do Vaticano.

2 “Chiesa, liberati dal male. Lo scandalo di un credente di fronte alla pedofilia” – Igreja, liberta-te do mal. O escândalo de um crente diante da pedofilia.

https://www.lastampa.it/2019/04/14/vaticaninsider/francesco-e-lombra-di-ratzinger-la-coesistenza-che-pesa-sul-vaticano-yKrwJV2LgE0DeDxfxo9JJI/pagina.html

DOMENICO AGASSO JR

CIDADE DO VATICANO

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