Os teólogos precisam dedicar-se mais ao estudo da crise dos abusos

A separação entre a administração da Igreja (a hierarquia) e o seu departamento de pesquisa e desenvolvimento (teólogos) é um dos mais sérios problemas enfrentados pela Igreja Católica. Thomas Reese, o ex-editor-chefe (1998-2005) da revista Jesuíta America, identificou este problema já em 1996, no seu livro Inside the Vatican1.

E embora o livro tenha sido publicado dois pontificados atrás, a premissa de Reese continua verdadeira. Na verdade, a situação está ainda pior agora do que há quase 25 anos atrás.

Um dos efeitos da última fase da crise dos abusos Católicos, iniciada em 2018, é que ela nos ofereceu alguma perspectiva histórica sobre a dicotomia da Igreja entre administração e pesquisa.

A crise dos abusos sexuais levou muito tempo a manifestar-se. Tornou-se pública em meados da década de 1980 e o seu ponto de virada foi em 2001-2002 nos Estados Unidos. Isso abriu os olhos de muitos para o que havia acontecido naquele país Norte-americano e o que estava prestes a acontecer em outros países também.

Padres abusadores, bispos negligentes

A história moderna da crise dos abusos sexuais na Igreja Católica também consolidou uma certa narrativa eclesiológica: ou seja, estamos lidando com uma crise sistêmica causada por padres abusadores e catastroficamente mal gerida pela hierarquia episcopal.

Esta narrativa é verdadeira e agora impossível de desfazer. Mas é apenas parte da verdade.

Por mais impopular que seja dizer isto, a Igreja fracassou de outro modo em lidar com o fenômeno. Isto tem a ver com os seus setores intelectuais e acadêmicos; isto é, as pessoas da pesquisa e desenvolvimento, os teólogos.

Se olharmos a história de grandes catástrofes em organizações complexas, tais como crises de saúde pública ou colapsos industriais, a análise do fracasso demonstra a responsabilidade dos formuladores da política e dos gestores.

Mas também aponta para os departamentos de pesquisa. Resolver uma crise exige avanços políticos, mas também mudanças na pesquisa. A Igreja Católica está passando por uma crise que em poucos meses produziu a queda espetacular de quatro cardeais em quatro países diferentes: George Pell, na Austrália, Philippe Barbarin, na França, Donald Wuerl, nos Estados Unidos, e Ricardo Ezzati, no Chile.

O papel da intelligentsia teológica

Fixámos o nosso olhar na hierarquia, e com razão. Mas ninguém está olhando para o papel do departamento de pesquisa na resolução desta crise – ou seja, a intelligentsia teológica encontrada nas nossas universidades e academias Católicas (e pontifícias) em todo o mundo, incluindo aquelas dos departamentos de teologia e estudos religiosos destas instituições. No entanto, as coisas começaram a mover-se neste setor. Várias faculdades e universidades Católicas nos Estados Unidos, por exemplo, começaram a patrocinar iniciativas para dar sentido à crise dos abusos. A maioria destas tem sido na forma de debates públicos ou de palestras de alto perfil.

Mas estes painéis públicos não poderão mudar os termos da conversa ou fazer uma contribuição intelectual, algo que as universidades devem poder oferecer. Uma exceção parece ser a recente decisão da Universidade de Notre Dame (Indiana) de lançar uma série de projetos de pesquisa de longo prazo sobre a crise. Ainda assim, nenhum grande centro ou instituto católico procurou investigar sistematicamente os diferentes aspectos da crise dos abusos e como isso afeta todas as disciplinas teológicas: Escritura e tradição, história, liturgia, eclesiologia, sacramentos e soteriologia.

O único que chega perto é o Centro de Proteção Infantil da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, dirigido pelo Pe. Hans Zollner, SJ. Por outro lado, é difícil identificar no mapa do mundo um grupo de especialistas, totalmente engajados no estudo da crise.

Falta de análise teológica coletiva

Isso não quer dizer que os teólogos não deram nenhuma contribuição. Individualmente, alguns produziram importantes escritos sobre o assunto. Mas, até agora, não houve nenhum esforço sistemático e organizado dos teólogos Católicos para pensar sobre a crise dos abusos sexuais. Quando a magnitude da crise começou a se tornar pública, ela poderia e deveria ter provocado um vasto repensamento teológico, de maneira semelhante a quando novas fontes se tornaram disponíveis para tratar de questões-chave intelectuais para a vida da Igreja.

Foi o que aconteceu em 1998, quando o Vaticano abriu os arquivos do Santo Ofício e a Congregação do Índice de Livros Proibidos.

Universidades importantes realizaram importantes estudos sobre o novo material disponível que, por sua vez, produziu coleções de monografias e dicionários, que fornecem respostas autorizadas e acadêmicas a questões históricas que vinham de longa data.

Mas isso não aconteceu depois da erupção da crise dos abusos sexuais na Igreja. Embora teólogos Católicos continuem a dizer que a crise representa um desafio existencial na vida da Igreja, não foi feito muito para mudar a abordagem institucional própria da sua profissão, pelo menos como teólogos acadêmicos.

Há muitas razões para isto. Mas não é devido à preguiça ou à falta de consciência de estudiosos individuais. Pelo contrário, faz parte de um desenvolvimento institucional típico do período pós-Vaticano II.

Impacto da crise de abusos na pesquisa teológica

As tensões entre o magistério e os teólogos, começando pela dissensão em torno da encíclica Humanae Vitae de 1968, produziram uma alienação mútua. Elas também deixaram os teólogos com temores razoáveis ​​quanto à sua liberdade acadêmica. E é dentro desse paradigma que a teologia acadêmica continua a operar. Isto significa que a crise dos abusos sexuais ainda não foi um choque tão grande neste setor particular da Igreja, que agora está passando por outro tipo de crise existencial.

Isto tem a ver com a tendência das universidades filiadas à Igreja a continuarem a chamar-se Católicas, mesmo elas tendo reduzido ao mínimo o número de cursos obrigatórios em teologia.

Há também razões que têm a ver com as origens históricas da teologia acadêmica. Hoje a grande maioria dos teólogos católicos é formada por leigos, homens e mulheres, mas até recentemente era uma profissão dominada por homens – e clérigos.

Velhos hábitos são difíceis de morrer e o clericalismo é encontrado não só entre o clero. Historicamente, no mundo ocidental, os privilégios dos acadêmicos e do clero Católico tinham muito em comum e imitavam uns aos outros.

Por exemplo, o estabelecimento da idade de aposentadoria para os bispos aos 75 anos foi proposto pela primeira vez durante o Concílio Vaticano II (1962-65) e implementado alguns anos depois por Paulo VI. Ele foi tirado do sistema universitário europeu.

Há outros paralelos.

O modelo das carreiras episcopais pulando de uma pequena diocese para uma maior e mais rica não é totalmente diferente das carreiras dos teólogos acadêmicos.

Nos tempos antigos, o bispo era descrito como casado com a sua diocese. Teólogos acadêmicos (como eu) são agora profissionais no mercado de ensino superior. Nós não somos mais cristãos com um carisma particular que está comprometido com uma comunidade eclesial, que é o que uma universidade católica é.

Pressões enfrentadas pela teologia acadêmica

A teologia acadêmica enfrenta uma série de pressões que vêm da Igreja, das faculdades e universidades Católicas e, principalmente, das forças de mercado no ensino superior.

Dada a forma como o sistema de avaliação do corpo docente funciona (pelo menos nos Estados Unidos), é compreensível que jovens teólogos relutem em se engajar num campo de pesquisa como a crise dos abusos, que é realmente um campo minado por razões que se estendem do metodológico ao político (política da Igreja e política secular).

É menos compreensível que teólogos e administradores estabelecidos das instituições católicas de ensino superior ainda não tenham feito da crise dos abusos uma prioridade institucional e acadêmica.

A crise revelou um vácuo trágico, na Igreja, quanto à compreensão do fenômeno do abuso, das suas causas e consequências. A natureza abomina o vácuo, e este vácuo está sendo preenchido agora pelos outros.

Por exemplo, há um trabalho historiográfico que não pode ser terceirizado para o sistema de justiça criminal, para a mídia ou para jornalistas.

A Igreja necessita de mais do que “o rascunho da história” que o jornalismo de notícias fornece. A diferença entre o jornalismo e a tradição da Igreja é mais ampla do que a lacuna entre a tradição da Igreja e a sua história.

Não é possível oferecer uma avaliação teológica de uma crise na tradição da Igreja sem fazer o trabalho historiográfico do seu contexto. Há trabalho sendo feito sobre abuso na história da Igreja e em outros campos. Mas se os estudiosos Católicos continuarem a abordar esta crise individualmente, no contexto da superespecialização acadêmica que impede pesquisadores e estudantes de enxergar o quadro mais amplo dos problemas científicos, eles terão pouco impacto na compreensão da crise no Catolicismo global.

Teólogos católicos devem intensificar o trabalho

Esta é claramente a maior crise da Igreja no curso da nossa vida. A teologia acadêmica Católica deve desencadear uma onda de projetos de pesquisa de longo prazo, coordenados e sistemáticos, que possam ajudar a Igreja a enfrentar a crise dos abusos sexuais. Deve preparar ferramentas para o pensamento da Igreja: não apenas por razões de prevenção, mas também para encontrar a coragem para corrigir os erros teológicos que contribuíram para o abuso sexual.

Dada a história global e a geografia da crise, as universidades católicas nos países de língua inglesa têm um papel especial a desempenhar.

Se eles não o fizerem, então talvez os tecnocratas estejam certos quando dizem que a teologia católica na academia é uma relíquia do passado. Ela está meramente protegendo antigos privilégios e merece morrer – ou pelo menos ser marginalizada pelo ensino superior dos tempos modernos.

https://international.la-croix.com/news/catholic-universities-not-doing-enough-to-address-sex-abuse-crisis/9860#

1 Versão em português: NO INTERIOR DO VATICANO

Publicações Europa-América, 1998.

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