“A hierarquia do Vaticano quer mulheres submissas e obedientes”

A jornalista e historiadora deixou na semana passada a direção de “Donne Chiesa Mondo”, o suplemento feminino do jornal oficial da Santa Sé, batendo estrepitosamente a porta.

Depois de comandar durante sete anos uma redação formada exclusivamente por mulheres no coração do Vaticano, Lucetta Scaraffia (Turim, 1948) deixou na semana passada a direção de Donne Chiesa Mondo (Mulheres Igreja Mundo), o suplemento feminino do jornal oficial da Santa Sé, batendo estrepitosamente a porta. Na carta que escreveu ao Papa Francisco anunciando a demissão em bloco de toda a equipe da revista, a jornalista denunciou ter recebido pressões por parte dos novos responsáveis pelo L’Osservatore Romano para silenciar o último porta-voz das mulheres da Igreja.

Um diretor tem mil maneiras de fazer com que sintas que o teu trabalho não é bem-vindo sem fazer nada específico contra ti“, explica a jornalista e historiadora italiana a El Mundo. “Isso foi feito continuamente e decidimos, unanimemente, que era melhor ir embora do que aceitar um processo de desgaste”. Lucetta Scaraffia teve o apoio do Papa Francisco e seu antecessor, Bento XVI, que em 2012 sugeriu ao então diretor do jornal da Santa Sé que incluísse mais vozes femininas entre os seus articulistas. E ninguém melhor do que ela para refletir sobre as preocupações reais, longe dos estereótipos, das mulheres da Igreja.

Docente de História Contemporânea na Universidade romana La Sapienza e colaboradora de meios de comunicação, a jornalista recebeu uma rígida educação católica na sua adolescência, mas depois afastou-se da Igreja. Casou-se e divorciou-se antes dos 25 anos, anulou o seu matrimônio canónico, teve uma filha fora do casamento com um homem divorciado e conviveu com o seu atual parceiro antes de se casar numa cerimônia civil e redescobrir a fé.

A jornalista está ciente de que sua presença dentro dos muros do Vaticano nunca foi bem recebida, mas desde há alguns meses já não se sentia “invisível” apenas diante de cardeais e bispos. “O clima de desconfiança e deslegitimação chegou a um ponto que tornou impossível continuar”.

A gota que encheu o copo foi a denúncia, numa matéria publicada em fevereiro, de uma coisa que até então era um segredo de polichinelo no Vaticano: os abusos sexuais sofridos por algumas freiras por parte dos padres e cardeais. Um ano antes, a revista tinha envergonhado os clérigos que se aproveitam do trabalho desinteressado das religiosas e leigas consagradas que eles utilizam como empregadas domésticas.

A publicação desses artigos precipitou a sua saída. “Ninguém mo disse, mas acho que essas matérias incomodaram muito no Vaticano, conhecendo a tendência que têm de silenciar tudo”. Scaraffia aponta diretamente o interesse do novo responsável do L’Osservatore Romano – Andrea Monda, nomeado diretor em dezembro em substituição a Gian Maria Vian – de impor seus critérios na escolha dos temas e dos articulistas dentro do suplemento. Pouco depois de publicar a última matéria, o jornal oficial da Santa Sé publicou um artigo de opinião escrito por uma mulher em que se minimizava o alcance dos abusos das freiras. “Dizia que não era um pensamento cristão denunciar esses abusos. A hierarquia do Vaticano quer mulheres submissas e obedientes”, conclui.

A jornalista sustenta que se trata de um problema “muito sério” que afeta não só religiosas em países da África ou da América Latina, mas também na Europa. “O Vaticano sabe disso perfeitamente. As denúncias chegam, têm toneladas delas, mas a voz das freiras é muito fraca e não são ouvidas. Em muitos casos não têm autonomia econômica para se defenderem. Muitas vêem-se obrigadas a abortar”, assegura ela a este jornal. Mas não são apenas as religiosas que são ignoradas. “A voz das mulheres nunca é ouvida. Para a Igreja é como se não existissem, são invisíveis”.

O último exemplo é a exortação pós-Sinodal Cristo Vive, inspirada nas reflexões dos jovens que participaram no Sínodo celebrado no Vaticano em outubro do ano passado, no qual apenas 10% dos participantes eram mulheres. No documento publicado ontem, o papa Francisco insta a Igreja a ouvir “as legítimas reivindicações das mulheres”, embora reconheça que não compartilha todas as propostas feministas. “É inútil dizer que é necessária uma maior presença de mulheres, se depois elas não são convidadas a falar nem têm  direito de votar”, lamenta. A jornalista, que se considera “orgulhosa de ser feminista”, reconhece que, com Francisco, houve mudanças “simbólicas” nas formas, mas não no fundo. “Quero ver mudanças concretas e não as vejo”.

https://www.elmundo.es/internacional/2019/04/04/5ca3a66efdddffffa58b460a.html

Lucetta Scaraffia:

SORAYA MELGUIZO

Roma

 

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