Exclusivo: Por dentro da eleição do Papa Francisco

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Gerard O’Connell – 22/03/2019 – Tradução: Orlando Almeida – Foto: TVI24 – IOL

Os trechos seguintes são extraídos do livro The Election of Pope Francis: An Inside Account of the Conclave That Changed History (Orbis Books, 2019), de Gerard O’Connell, correspondente da revista America no Vaticano.

Nós resumimos o relato de O’Connell sobre 13 de março, após a renúncia do papa Bento XVI em 28 de fevereiro de 2013, e a convocação de um conclave para eleger seu sucessor.

 

 

Os 115 cardeais qualificados para votar num conclave papal reuniram-se em Roma e foram enclausurados sob forte segurança na Capela Sistina, dentro do Vaticano, onde realizariam votações secretas em intervalos regulares até que um novo papa fosse eleito com dois terços dos votos.

O que aconteceu em seguida dentro da Capela Sistina foi escondido do mundo exterior. O cardeal Giovanni Battista Re primeiro explicou o processo de votação e perguntou aos cardeais se eles estavam prontos para votar. Eles estavam! Todos estavam ansiosos para fazê-lo, pois isso revelaria para onde o Espírito Santo os estava guiando. A primeira fase do processo começou com a distribuição das cédulas de votação aos eleitores.

Antes do início da votação, e de acordo com a constituição apostólica “Universi Dominici Gregis”, o cardeal eleitor mais jovem sorteou aleatoriamente os nomes de três “escrutinadores”, de três “infirmarii” e três “revisores” para supervisionar a primeira sessão de votação.

A segunda fase era a votação secreta. Cada cardeal tinha diante de si uma cédula de voto, de forma retangular, na qual estavam impressas em latim as palavras “Eligo in Summum Pontificem” (“Eu elejo como Sumo Pontífice”), e abaixo havia um espaço para o nome da pessoa a que ele queria dar o seu voto. Esperava-se que os eleitores escrevessem de maneira tal que não pudessem ser facilmente reconhecidos pela sua caligrafia. Depois de o cardeal ter preenchido o seu formulário de votação, ele tinha que dobrá-lo longitudinalmente, de modo que o nome da pessoa em quem tinha votado não pudesse ser visto.

Depois que todos os eleitores tinham escrito o nome do candidato escolhido e dobrado as folhas de votação, cada cardeal pegou a sua cédula entre o polegar e o indicador e, segurando a cédula no alto para que pudesse ser vista, levou-a ao altar junto ao qual estavam os escrutinadores e onde havia uma urna, feita de prata e bronze dourado pelo escultor italiano Cecco Bonanotte, com uma imagem do Bom Pastor sobre ela. A urna estava coberta por uma bandeja dourada para receber as cédulas de votação.

Ao chegar ao altar, o cardeal eleitor ficou sob a impressionante pintura do “Juízo Final” de Michelangelo e pronunciou o seguinte juramento com uma voz clara e audível:

“Eu chamo como minha testemunha Cristo o Senhor, que será meu juiz, de que o meu voto é dado a quem, diante de Deus, eu acho que deveria ser eleito”.

Ele então colocou a sua cédula de votação na bandeja e inclinou a bandeja de tal maneira que o folha caiu na urna. Por fim, inclinou-se em reverência à cruz e voltou para o seu lugar, e o próximo eleitor então dirigiu-se ao altar.

Depois de todos os 115 eleitores terem depositado seus votos, os três escrutinadores se adiantaram para contá-los. Foi um momento de alta tensão. Todos assistiram ao ritual com redobrada atenção. O primeiro escrutinador sacudiu as cédulas dentro da urna, que foi usada pela primeira vez no último conclave, para misturá-las. Então outro escrutinador começou a contá-las, pegando cada formulário de votação separadamente da primeira urna e transferindo-a para uma segunda urna, exatamente igual à primeira, que estava vazia. A constituição decreta que, se o número de cédulas de votação não corresponder exatamente ao número de eleitores presentes, então a rodada de votação é declarada nula e inválida.

Quando o número de cédulas de voto corresponde exatamente ao número de eleitores, o processo continua com a abertura das cédulas. Os três escrutinadores sentam-se à mesa diante do altar. O primeiro abre a cédula de votação, lê o nome silenciosamente e passa-a para o segundo escrutinador. O segundo faz o mesmo, e depois passa-a para o terceiro, que lê o nome escrito na cédula e depois, em voz alta, anuncia-o a toda a assembleia e depois registra-o numa folha preparada para este fim.

As janelas da Capela Sistina tinham sido escurecidas.

  • Mas isso foi considerado totalmente inadequado
  • dado o avançado estágio da moderna tecnologia de comunicações e o risco de interceptação eletrônica,
  • de modo que em 2005 os organizadores do conclave tomaram medidas de alta segurança para evitar a possibilidade de transmissão por smartphone de dentro e de interceptação eletrônica por agências externas ou indivíduos.

Eles instalaram sistemas de interferência de última geração, incluindo uma gaiola de Faraday. O piso da capela foi erguido cerca de um metro e coberto com tábuas de madeira para instalação do sistema.

Desta vez, no entanto, os organizadores foram ainda mais longe do que no último conclave para evitar a possibilidade de interceptação;

  • eles tomaram a decisão extraordinária de não usar o sistema de amplificação de som dentro da Capela Sistina.
  • A razão para isso, ao que parece, remonta ao conclave de 2005, quando o Guarda Suíço que ficava de plantão do lado de fora das portas da capela podia às vezes ouvir o que estava sendo dito dentro, especialmente quando as contagens de votos eram anunciadas pelo sistema P.A.

Consequentemente, antes da primeira votação, o cardeal Re pediu ao cardeal Juan Sandoval Íñiguez, o arcebispo emérito de Guadalajara, de 79 anos, que era conhecido por ter uma voz poderosa, para ficar em pé no meio da capela e proclamar em voz alta os nomes lidos pelo terceiro escrutinador.

Quando o terceiro escrutinador lia um nome na folha de votação, o cardeal Sandoval repetia-o para que todos pudessem ouvir. Havia um ar de grande suspense dentro da Capela Sistina quando os resultados eram anunciados. Pela primeira vez, os eleitores estavam revelando as suas escolhas; estavam colocando as suas cartas na mesa.

Depois de ler o nome constante de cada cédula individual, o terceiro escrutinador perfurava a folha através da palavra “Eligo” com uma agulha e linha; isso foi feito para combinar e preservar as cédulas. Quando os nomes em todas as cédulas foram lidos, foi dado um nó em cada extremidade da linha e as cédulas unidas foram postas de lado.

Seguiu-se a isto a terceira e última fase do processo de votação, que começou com a soma dos votos recebidos por cada um individualmente. Os resultados trouxeram várias grandes surpresas.

Antes do conclave, vários cardeais haviam previsto que haveria uma ampla dispersão dos votos na primeira votação, mas poucos tinham imaginado quão ampla ela seria: 23 prelados receberam pelo menos um voto. Isso significou que um em cada cinco cardeais presentes recebeu pelo menos um voto, com quatro cardeais recebendo 10 ou mais votos. Os cinco primeiros colocados na primeira rodada foram os seguintes:

Scola 30

Bergoglio 26

Ouellet 22

O’Malley 10

Scherer 4

Angelo Scola ficou em primeiro com 30 votos, mas não recebeu tantos votos quanto tinham sido previstos por alguns cardeais e pela mídia italiana.

A grande surpresa foi Jorge Bergoglio, que ficou em segundo lugar, logo atrás de Scola, com 26 votos. Seu total, na verdade, teria sido de 27 se um eleitor não tivesse escrito erradamente o seu nome, escrevendo “Broglio” em vez de Bergoglio na cédula de votação. Foi um começo muito promissor para o arcebispo de Buenos Aires.

Marc Ouellet também apareceu bem, melhor que o esperado, e chegou em terceiro lugar, obtendo 22 votos. Ele parecia um forte candidato.

Seán O’Malley também foi uma surpresa; com 10 votos, ele se tornou o primeiro americano na história a pontuar tão alto em qualquer eleição papal.

Por outro lado, Odilo Pedro Scherer, o muito elogiado brasileiro, teve uma pontuação surpreendentemente baixa; ele teve apenas quatro votos.

Além destes favoritos, cinco cardeais receberam dois votos cada um na primeira votação: Christoph Schönborn, Peter Turkson, George Pell, Laurent Monswengo Pasinya e Timothy Dolan.

Outros 13 cardeais receberam um voto cada um: Audrys Backis, Óscar Rodríguez Maradiaga, Ennio Antonelli, Carlo Caffarra, André Vingt-Trois, Gracias, Thomas Collins, Luis Antonio Tagle, Leonardo Sandri, Robert Sarah, Mauro Piacenza, Gianfranco Ravasi e “Broglio” (o que parecia um óbvio erro de ortografia de Bergoglio).

O processo de votação terminou com a queima das cédulas. Depois de uma checagem final das folhas do relatório nas quais os escrutinadores haviam registrado os votos, as cédulas e os relatórios foram levados para um dos dois fogões especialmente instalados no lado esquerdo da parte de trás da Capela Sistina, para quem está de frente para o altar.

Os dois fogões se unem a um único tubo que é conectado à chaminé erguida do lado de fora da capela, uma chaminé que agora era o centro das atenções da mídia mundial. A origem do fogão remonta ao século 18, quando o mestre de cerimônias veio com a brilhante ideia de comunicar ao mundo se um novo papa tinha sido eleito ou não, emitindo fumaça branca ou preta pela chaminé da capela quando cédulas e registros são queimados.

Seguindo as normas para o processo eleitoral, as cédulas da primeira votação deste conclave foram queimadas no fogão mais antigo, que tem sido usado em todos os conclaves desde 1939. Isto foi feito por um dos escrutinadores, com a assistência do secretário do conclave, o arcebispo Lorenzo Baldisseri, que havia sido readmitido depois que os votos foram contados.

Quando começaram a queima, eles ativaram um dispositivo eletrônico de produção de fumaça no fogão mais novo, usado pela primeira vez no conclave de 2005, que continha um cartucho com cinco tipos de misturas químicas que podem produzir fumaça preta ou branca, conforme necessário. De acordo com o livro de regras, a queima e o sinal de fumaça tinham que ser completados antes de os cardeais deixarem a Capela Sistina.

Dado que nenhum candidato tinha obtido a maioria de dois terços na primeira votação, as folhas de voto foram queimadas, o dispositivo eletrônico de produção de fumaça foi ativado, e às 19h41 (horário de Roma), a fumaça negra saiu da fina chaminé cor de ferrugem da Capela Sistina, anunciando ao mundo que nenhum papa tinha sido eleito.

A visão da fumaça negra provocou um sonoro Nooooo dos milhares de fiéis e turistas apinhados na Praça de São Pedro, no frio, sob guarda-chuvas multicoloridos e usando capas de chuva, ponchos de plástico ou outros agasalhos à prova de água para se protegerem da chuva incessante. Eles ficaram ali, mudando constantemente o olhar da pequena chaminé para as grandes telas na Praça de São Pedro, iluminadas por um ‘spotlight,’que mostravam a cena ao vivo enquanto as unidades de televisão e as redes de rádio de muitos países localizados fora da praça anunciavam a notícia para o público global ….

Para um estranho, aquele primeiro voto disperso poderia ter dado a impressão de grande incerteza, mas os eleitores viram isso de uma forma muito diferente. O cardeal Oswald Gracias, por exemplo, me disse que ele o lia assim:

“O Espírito Santo já estava indicando, o Espírito Santo estava nos conduzindo em uma direção particular. Deus estava logo ali”.

Vários outros cardeais me disseram que haviam interpretado o primeiro voto de maneira semelhante à de Gracias.

A votação revelou várias coisas.

  • Mostrou que Scola era o único candidato europeu forte na linha de sucessão de Bento,
  • e embora este pastor e eminente teólogo tivesse apoio,
  • estava num limite mais baixo do que se esperava na véspera do conclave,
  • quando cardeais e grande parte da imprensa italiana tinha antecipado que ele estaria na frente com cerca de 40 votos.

Naturalmente, isso foi uma decepção para os seus apoiadores.

Mais importante, a votação confirmou o que muitos já sabiam ou suspeitavam:

  • os 28 eleitores italianos estavam profundamente divididos sobre Scola.
  • De fato, como a história dos dois últimos conclaves (outubro de 1978 e abril de 2005) mostrou, quando os italianos estão divididos, não será eleito um italiano.

A história estava prestes a se repetir?

  • Aquela primeira votação pareceu indicar a muitos eleitores que o próximo papa não seria Europeu; ele viria das Américas.
  • Também deixou poucas dúvidas de que Scherer estava fora do páreo; ele era visto como o candidato do status quo num conclave que buscava mudanças radicais.
  • Além de Scola, o resultado deixou três outros candidatos de pé: Bergoglio, Ouellet e O’Malley, nessa ordem.

O arcebispo de Boston tinha muito a seu favor:

  • ele é um pastor, benquisto, com um estilo de vida simples;
  • ele fala espanhol fluentemente
  • e tem um excelente histórico no trato com casos de abuso sexual de menores por parte do clero.

No entanto, embora antes do conclave muitos cardeais tenham afirmado publicamente que a nacionalidade não era um problema, a verdade era que poucos queriam um papa vindo da principal superpotência mundial. Eleger um americano, mesmo se acontecesse ser um frade franciscano, não teria caído bem no Hemisfério Sul ou nas igrejas do mundo em desenvolvimento. O’Malley, amigo e admirador de Bergoglio, compartilhava essa visão.

O cardeal Ouellet teve uma pontuação muito melhor que a esperada na primeira votação, e estava numa posição forte. Quando os cardeais discutiam a sua candidatura em pequenos grupos e em conversas individuais na noite de terça-feira, 12 de março,

  • eles reconheciam vários fatores positivos em favor desse poliglota Canadense.
  • Ele tinha experiência pastoral como padre na Colômbia e como arcebispo em Quebec.
  • Importante também era o fato de que ele conhecia o Vaticano por dentro, tendo trabalhado primeiro no Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos e desde 2010 na poderosa Congregação para os Bispos.

Não obstante este lado muito positivo,

  • vários cardeais disseram que eles o achavam “sem inspiração” e “comum”
  • e sentiam que o seu histórico na Cúria Romana tinha dado lugar a sérios questionamentos sobre a sua capacidade de governar sob pressão. Estes questionamentos,

agora transformados em sérias reservas, ressurgiram em conversas naquela primeira noite na casa de hóspedes Santa Marta e levaram muitos eleitores indecisos a concluírem que, se ele não tinha podido governar bem na Cúria Romana, ele poderia não ser capaz de governar a Igreja Católica.

Ao mesmo tempo, entretanto, Ouellet tinha alguns defensores altamente influentes além dos americanos. Entre eles estava o cardeal Joachim Meissner, arcebispo de Colônia, na Alemanha, desde 1989, e nove anos antes disso, arcebispo de Berlim. Considerado amplamente como

  • líder “conservador” na igreja Alemã,
  • ele era conhecido por ser muito próximo de João Paulo II
  • e um amigo de longa data de Joseph Ratzinger.

Ele queria garantir que o próximo papa seguisse fielmente a linha e a visão dos seus dois predecessores. E assim, na noite daquela terça-feira em Santa Marta, ele foi visto do lado de fora do seu quarto pedindo aos colegas eleitores: “Vote em Ouellet! Bergoglio é muito velho!”.

Quanto a Bergoglio,

  • a primeira votação revelou que ele era de fato um candidato forte, mais forte do que muitos imaginavam.
  • Havia muitos fatores a favor de Bergoglio. Ele era conhecido por ser um homem muito santo, um pastor humilde, inteligente e inspirador, desprovido de ambição, que evitava os holofotes, vivia uma vida simples e tinha um amor apaixonado pelos pobres.
  • Ele nunca tinha vivido ou estudado em Roma e não tinha uma perspectiva romana.

Ele tinha governado a Arquidiocese de Buenos Aires por 15 anos,

  • de uma maneira verdadeiramente pastoral,
  • com determinação, prudência e criatividade;
  • ele tinha um talento para o governo.

Desde o sínodo de 2001,

  • a sua estatura tinha crescido internacionalmente
  • e na reunião da CELAM  em Aparecida, Brasil, em maio de 2007, ele emergiu como o líder incontestado da igreja nesta região, onde vivem quase 50% dos católicos do mundo.

Acima de tudo, ele era

  • um homem de coragem com uma visão,
  • uma visão missionária, capaz de abrir novos horizontes para a igreja,
  • um homem comprometido com o diálogo – com Judeus, com Muçulmanos, com outros Cristãos e com aqueles que não professam nenhuma fé.
  • Ele era acima de tudo um pastor.
  • A sua breve intervenção na Congregação Geral, bem como a sua interação com muitos cardeais durante aqueles dias revelaram isso claramente.

Quando os eleitores indecisos consideravam em quem votar na manhã seguinte, três fatores se inclinavam fortemente a favor de Bergoglio:

  • primeiro, a grande maioria dos cardeais latino-americanos o apoiava, sem que nenhum deles falasse mal dele;
  • segundo, ele havia revelado a sua capacidade de comunicar e inspirar quando tinha feito a sua breve mas refrescante intervenção na Congregação Geral;
  • e terceiro, ele teve apoio de Asiáticos e Africanos, bem como de Europeus.

Além disso,

  • 68 eleitores que tinham participado do conclave de 2005 conheciam-no como o segundo mais votado então
  • e vários – como Maradiaga, Monswengo, Walter Kasper, Jean-Louis Tauran, Turkson, Gracias e outros também –
  • não escondiam o seu apoio ativo para ele.

Os indecisos tinham essa noite para tomarem uma decisão; no dia seguinte de manhã, eles teriam de votar novamente …

 

Este artigo também está publicado, com o titulo “Inside the election of Pope Francis”, na edição da revista em 1º de abril de 2019 .

 

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