Prisão de Temer pode motivar reação política contra Lava Jato, diz filósofo

Antoninho Perri/Ascom/Unicamp

Flávio Costa –  Do UOL, em São Paulo – 21/03/2019

O filósofo Roberto Romano – Imagem: Antoninho Perri/Ascom/Unicamp

Muita gente vai comemorar a prisão de Temer, principalmente no setor da esquerda. Mas eu acho que este é um momento de reflexão sobre a atuação de vários setores da política brasileira e de suas instituições.

Nós estamos à beira de uma crise de geral do Estado e de sociedade.

O filósofo afirma que pessoas que trabalham com instituições deveriam se pautar pela prudência e agir em momentos adequados para evitar o acirramento dos ânimos da sociedade.

 

 

Na ânsia de responder às recentes derrotas no STF (Supremo Tribunal Federal), Operação Lava Jato pode ter dado um passo em falso e acelerado uma reação da classe política ao prender o ex-presidente Michel Temer (MDB). Essa é a opinião do filósofo Roberto Romano, professor de ética da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

“Em toda ação pública há um tempo certo para agir. Se você age um minuto antes ou um minuto depois, você pode errar o alvo. Essa é a grande lição de Maquiavel. Neste caso específico, eles foram apressados para dar uma resposta ao STF e ao Congresso. E com isso eles podem acelerar uma reação da classe política, a exemplo, da efetivação da CPI da Lava Toga”, analisa Romano.

 

Depois de acirrada polêmica, o ministro do STF Alexandre de Moraes suspendeu na última sexta-feira (15) o acordo da Lava Jato de Curitiba que previa a criação de uma fundação com R$ 2,5 bilhões recuperados da Petrobras. Um dia antes, a corte havia decidido que processos de corrupção onde há evidências de caixa 2 de campanha devem ser julgados pela Justiça Eleitoral.“Esta é uma jogada arriscada da Lava Jato dentro do tabuleiro político devido às recentes derrotas que eles sofreram. Quanto mais avança e radicaliza, mais ela atrai um reação. Os projetos que tramitam no Congresso a respeito do abuso de autoridade podem voltar à tona. Até surgir a questão da fundação, a Lava Jato tinha o acolhimento da opinião pública. A partir de momento que eles começaram a se tornar vidraça, deveriam ter um cuidado muito maior em suas ações.”

 

Temer foi preso preventivamente (sem prazo) na manhã de hoje em São Paulo pela força-tarefa da Lava Jato no Rio.

O mandado de prisão foi expedido pelo juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio.

Ele foi preso sob suspeita de ter recebido propina de R$ 1,1 milhão por meio de um contrato da Eletronuclear, estatal responsável pela construção da usina Angra 3.

Além de ex-presidente, também foram presos o ex-ministro Moreira Franco e o ex-coronel da Polícia Militar João Baptista Lima Filho, amigo do ex-presidente e conhecido como coronel Lima.

Ao todo, Bretas determinou a prisão de dez pessoas. Todos os presos devem ser transferidos para o Rio, por determinação do juiz.

“Propaganda não casa com atividades de procuradores nem de juizes”

Para Romano, os procuradores da República que atuam nos processos da Lava Jato estão jogando mais “gasolina” em um ambiente político marcado pela radicalização.

Muita gente vai comemorar a prisão de Temer, principalmente no setor da esquerda. Mas eu acho que este é um momento de reflexão sobre a atuação de vários setores da política brasileira e de suas instituições. Nós estamos à beira de uma crise de geral do Estado e de sociedade.

O filósofo afirma que pessoas que trabalham com instituições deveriam se pautar pela prudência e agir em momentos adequados para evitar o acirramento dos ânimos da sociedade.

“Em 60% dos casos, eu diria, a Lava Jato age para tentar influenciar a opinião pública. Isso é uma coisa muito grave, pois não cabe este papel aos membros do Ministério Público. A propaganda não casa com a essência da atividade de procuradores nem de juízes”.

Flávio Costa

 

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