A Igreja em tempos de desolação e purificação do descrédito

Iglesia

Pedro Miguel Lamet – 19 Março 2019

Foto: ACI Digital

“Nunca, nos tempos modernos, a Igreja havia passado por um purgatório como o presente, em que a notícia escandalosa predomina de forma onipresente nos meios de comunicação e se abriu a caça aos padres e religiosos, sobretudo por abusos de pedofilia”,
escreve o jornalista Pedro Miguel Lamet, jesuíta espanhol, em artigo publicado por Religión Digital, em 16-03-2019.
A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

Não me recordo em toda a minha vida, que já é longa, passar por um período de desolação na Igreja tão forte quanto o que estamos vivendo. Senti a vocação em uma época nacional-católica, onde a Igreja era intocável.

Além disso,

  • era bem-visto ser sacerdote e religioso
  • e a sociedade protegia com excesso,
  • a partir do status quo, tudo o que significava Igreja.

Tiveram que vir a revolução de renovação do Vaticano II e a crise posterior,

  • onde a “creche adulta” explodiu
  • e se estreou a liberdade e o retorno à autenticidade do Evangelho.

Mas, mesmo naquela época de dispersão e deserções, o interesse pela religião se tornou espetacular.

Recordo quando

  • os jornais dedicavam páginas inteiras ao florescimento da teologia,
  • os editores polemizavam para publicar livros sobre essa temática
  • e os novos líderes da fé ocupavam capas e programas de televisão.

Depois veio um período anódino, quando com

  • o advento da democracia,
  • a secularização caminhava encurralando e purificando a fé,
  • especialmente na Espanha, onde a Igreja perdeu um grande protagonismo.

As notícias religiosas passaram para a segunda e terceira páginas e os bispos se tornaram um Guadiana informativo ao ritmo dos casos mais escandalosos ou dos conflitantes entre a Igreja e o Estado.

Na minha opinião, esse não foi um tempo negativo, se levarmos em conta

  • que em nosso país o protagonismo da Igreja havia sido excessivo
  • e que era necessário restabelecê-lo nas pastorais das paróquias e na evangelização.

Como toda a hibernação, ajudou a outro tipo de florescimento para o interior.

Agora, estamos em uma terceira e trágica etapa que poderíamos chamar de desolação e desprestígio.

  • Nunca, nos tempos modernos, a Igreja havia passado por um purgatório como o presente,
  • em que a notícia escandalosa predomina de forma onipresente nos meios de comunicação
  • e se abriu a caça aos padres e religiosos, sobretudo por abusos de pedofilia.

Como uma bomba escondida que as forças ocultas da Igreja tentaram evitar que explodisse, esse peso explodiu de repente, de maneira espetacular.

Com ele,

  • levanta-se uma onda de imagem sombria, desde então,
  • mas também obscurece o que de bom, serviço, entrega desinteressada e amor autêntico continua se desenvolvendo na Igreja.

Felizmente, Deus nunca deixa de se preocupar com o seu rebanho e, ao mesmo tempo, suscitou na Igreja uma figura destacável, pela sua simplicidade, credibilidade e força, que é o Papa Francisco, cujo sexto ano de pontificado acabamos de celebrar. Ele não está apenas lutando, às vezes, contra forças adversas, para purificar a Igreja, como também ele próprio é um ícone midiático que oferece esperança, inclusive àqueles que não têm fé.

É claro que

  • o caminho da desolação será longo,
  • porque resta muito a se descobrir, limpar, converter, ressuscitar.

Porém, já se apontam alguns frutos:

  • Primeiro, humildade, especialmente para uma hierarquia e um clero em que “se acreditou” e que abusou de seu poder e falso prestígio.
  • Mas, também a confiança.

Recordo de uma consoladora frase do padre Pedro Arrupe:

“Nunca estivemos tão perto de Deus, porque nunca estivemos tão inseguros”. Uma frase que se casa muito bem com outra de Santo Ignácio de Loyola, mestre de discernimento e que é especialmente válida para os tempos que correm: “Em tempos de desolação, não fazer mudança”.

Nunca esqueçamos que o Evangelho nasce e cresce nos pequenos, no grão de trigo e mostarda e Deus prepara algo para o seu povo.

 

 

 

Pedro Miguel Lamet  (à direita)

 

 

 

 

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