Está na hora de a Igreja Católica parar de canonizar papas

 

 

De Massimo Faggioli – 15 de março de 2109

Foto: Uma estátua do Papa João Paulo II no Santuário da Mãe de Deus, na aldeia de Wardegowo, naPolônia, em 17 de fevereiro. (Kacper Pempel / Reuters)

Agora, o papado está canonizando a si mesmo sem um amplo discernimento de toda a igreja sobre a sabedoria de canonizar o papa. 

Isso pode ser visto como uma maneira de proteger o papado de um julgamento moral e histórico, algo como reforçar as alegações feitas pelo Vaticano I sobre o papado.

Se a Igreja Católica quer ver o crescimento no discernimento que o Papa Francisco pediu em resposta à crise dos abusos sexuais, a instituição deve parar de canonizar papas.

 

 

A proclamação da santidade dos homens que são eleitos bispos de Roma pelo conclave dos cardeais é, ao mesmo tempo, antiga e recente. Dos primeiros 48 papas que morreram antes do ano 500, 47 são santos; metade deles eram mártires.

A canonização dos papas que reinaram nos 15 séculos seguintes é rara.

A verdadeira mudança começou no século XIX

  • com a “Romanização” ou “Papalização” do catolicismo
  • e especialmente com o I ConcílioVaticano (1869-1870)
  • e com a sua proclamação da primazia e infalibilidade papal.

Isso produziu uma maneira de governar a igreja mais centralizada no papa mas também uma devoção à pessoa do papa.

A crescente inclinação para canonizar os papas acelerou-se sob João Paulo II, que canonizou um número enorme de santos (incluindo muitos membros leigos, mulheres e pessoas casadas). Ele também encurtou o período de espera, de 50 anos após a morte do candidato antes que o processo de canonização fosse aberto, para cinco anos.

  • Ele abriu mão do período de espera para a Madre Teresa de Calcutá.
  • Quando João Paulo II morreu em abril de 2005,
  • Bento XVI também abriu mão desse período de espera para ele.

De 2000 a 2019, ocorreram as beatificações e canonizações dos três papas pós-Vaticano II (João XXIII, Paulo VI e João Paulo II). O processo de canonização de João Paulo I, que foi papa por apenas 33 dias, já está em andamento.

Durante o último século, começando com Pio X e sem contar Bento XVI e Francisco, houve oito papas. Metade deles já são santos. Os últimos três papas foram feitos santos quase em sequência.

A tendência inaugurada no século 20 tem que parar.

Uma razão é que canonização dos papas significa a canonização do papado por papas no Vaticano. 

O processo de canonização (tecnicamente, é um julgamento) costumava ser menos controlado pelo Vaticano, mas durante a Contra Reforma no século XVII a Cúria Romana tornou-se a principal responsável. Era uma época em que a canonização de papas era uma exceção.

Agora, o papado está canonizando a si mesmo sem um amplo discernimento de toda a igreja sobre a sabedoria de canonizar o papa. Isso pode ser visto como uma maneira de proteger o papado de um julgamento moral e histórico, algo como reforçar as alegações feitas pelo Vaticano I sobre o papado.

A segunda razão é o papel que a política da igreja desempenha na decisão de canonizar um papa.

A história do período pós-Vaticano II é instrutiva. A proposta do Vaticano II de canonizar João XXIII, – que morreu durante o Vaticano II em 3 de junho de 1963, –  no concílio e por meio do concílio (uma maneira antiga de proclamar as canonizações), desencadeou uma série de contramedidas por parte dos católicos conservadores. Foi produzida uma série de contrapesos – como alguém para fazer dupla com o “progressista” João XXIII, tanto na sua beatificação (ele foi beatificado junto com Pio IX em 2000) como na sua canonização (ele foi canonizado junto com João Paulo II em 2014).

No século XIX, a elevação de papas com primazia e infalibilidade foi um ato político contra a modernidade secular. Agora, a canonização de papas pelos papas tornou-se parte da política católica interna e não está ajudando a unidade da igreja.

A terceira razão tem a ver com a crise dos abusos sexuais do clero.

Como o papado lidou com abusos sexuais do clero é uma questão controversa na igreja hoje e o será no futuro.

Recentemente houve apelos para descanonizar João Paulo II por causa da maneira como lidou com os abusos cometidos pelo clero e por causa da sua teologia sobre mulheres e sexualidade. Embora eu nunca me tenha convencido da sabedoria de canonizar João Paulo II, ainda sou contra descanonizá-lo.

Tal como para os papas apressadamente canonizados durante as últimas décadas, a decisão de descanonizar João Paulo II soaria tão política quanto decisão de canonizá-lo imediatamente após sua morte.

Há quase quatro séculos, entre 1628 e 1634, o papa Urbano VIII decidiu que um período de 50 anos deveria decorrer após a morte do candidato antes da sua canonização. Foi a reação de Urbano contra uma época em que muitas novas devoções a novos santos nasciam continuamente.

É necessário redescobrir a sabedoria dessa norma antiga, especialmente em relação à beatificação e canonização de papas. É também necessário para reduzir a mística do papado no catolicismo contemporâneo. Mas tem a ver também com o fato de que a igreja precisa de um longo processo de descobrimento dos fatos em torno do papel do papado e da Cúria Romana na crise dos abusos sexuais, o maior escândalo da história da igreja moderna.

 

 

Massimo Faggioli

é professor da Universidade Villanova, na Filadélfia.

Fonte: https://www.washingtonpost.com/pb/religion/2019/03/15/its-time-catholic-church-stop-canonization-popes/?nid=menu_nav_accessibilityforscreenreader&outputType=accessibility&utm_term=.2c3881259195

2 comments to Está na hora de a Igreja Católica parar de canonizar papas

  • Irene Cacais

    Ao meu ver está na hora de a Igreja Católica parar de canonizar seja quem for. Sobre a santidade ou não santidade de uma pessoa somente Deus sabe.

  • José William Barbosa Costa

    Nota explicativa:
    A decisão de diminuir o tempo de espera de 50 para 5 anos foi decisão do Papa Paulo VI, com o argumento “que era preciso que pessoas vivas pudessem testemunhar que conviveram com uma Pessoa Santa. Pois o período de 50 anos após a morte poderia dificultar esse testemunho vivo”.
    A generosa proclamação de Santos no Pontificado de São João Paulo II deveu-se mais a sua história pessoal e a história de sua Nação, sempre atacada por regimes não cristãos.
    Ainda assim, ele usou poucas vezes da prerrogativa de “canonizar na canetada”, como tem feito o Papa Francisco. Só pra citar os exemplos mais conhecidos: José de Anchieta e João XXIII foram feitos Santos nesse molde: na canetada. Isso sim parece vulgarizar a canonização e fazê-la depender de uma única vontade: a do Papa.

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